segunda-feira, 17 de maio de 2010

O bem amado:: Ricardo Noblat

DEU EM O GLOBO

Escapa à nossa vã filosofia o tanto de coisas que aproximam o prefeito Odorico Paraguaçu, personagem da novela de Dias Gomes O Bem Amado, de Manoel Santana (PT), prefeito de Juazeiro do Norte, Ceará, onde José Serra (PSDB), hoje, rezará aos pés da estátua do Padre Cícero, a figura messiânica mais poderosa no imaginário dos nordestinos.

Odorico era um espertalhão simpático e bom de lábia? Então o que dizer de Santana ou melhor: Dr. Santana, 49 anos, médico sanitarista, o primeiro vereador do PT na história de Juazeiro? Para se eleger prefeito do terceiro maior colégio eleitoral do Estado, ele apenasmente derrotou dois ex-prefeitos e um deputado federal. Obteve 58% dos votos válidos quase o dobro do que alcançou o segundo colocado.

Regada por doses de licor de jenipapo, Odorico mantinha uma relação pouco casta com três mulheres ao mesmo tempo as irmãs Cajazeiras. Há pelo menos três mulheres na vida do Dr. Santana, e as três empregadas por ele na prefeitura. A subsecretária de Governo, de nome Tânia Paiva, é mãe dos três primeiros filhos do prefeito. Atende aos pedidos dos vereadores. Não se deixa intimidar por eles.

Oficialmente, a primeira-dama do município é Cristiane Pereira, presidente da Fundação da Criança e Adolescência. Ela foi casada com o vereador Tarso Magno (PSL), o melhor amigo de Dr. Santana. A amizade entre os dois foi pelo ralo quando Magno descobriu que estava sendo traído. Para lavar sua honra, ofereceu ao Tribunal de Contas dos Municípios 42 denúncias de corrupção contra o prefeito.

A terceira mulher é a ouvidora da prefeitura, Luciana Matos. Licenciou-se do cargo. Saiu para dar à luz a Júlia, filha do prefeito e alvo de mensagem carinhosa postada por ele em seu Twitter. Corre em Juazeiro que Dr. Santana teve mais um filho com outra funcionária graduada da prefeitura. Mas isso talvez não passe de maledicência capaz de afogar o coração do prefeito em desgosto e deceptude.

Não é por falta de companhia, pois, que Dr. Santana mora sozinho. Prefere assim. O exercício do cargo tem-lhe sido penoso. Eleito com o apoio do ex-prefeito Raimundo Macedo (PSDB), também médico e conhecido como Raimundinho Gente Fina, Dr. Santana logo rompeu com ele. Acusou-o de ter quebrado a prefeitura. O troco foi rápido e pesado para quem se dizia um homem de poucas posses.

Raimundinho Gente Fina mostrou a amigos comuns recibos no valor de R$ 7 milhões assinados por Dr. Santana enquanto era candidato a prefeito. Dr. Santana nunca mais falou da herança maldita legada por seu antecessor. Proibiu-o, contudo, de trabalhar no hospital do município. Raimundinho Gente Fina atende seus pacientes debaixo de uma frondosa árvore do Hospital e Maternidade São Lucas.

Como quem faz aqui paga aqui... A prefeitura também quebrou nas mãos de Dr. Santana. O balanço do ano passado revela um rombo de R$ 37,4 milhões de restos a pagar. O prefeito esqueceu o que disse em comícios e privatizou oito mercados, um frigorífico e o Hotel Municipal. Em breve será a vez do estádio Romeirão. Só tem um probleminha: tudo está sendo vendido a um único comprador.

O felizardo é o empresário Sílvio Rui, vinculado ao PSDB local, dono de uma empresa de ônibus. É a melhor privatização do mundo, escarnece o vereador Magno sim, aquele que perdeu a mulher para Dr. Santana. Se dependesse de Magno, o prefeito já teria sido cassado. Magno conseguiu a assinatura de sete colegas e abriu uma CPI contra ele. Dr. Santana tomou os providenciamentos devidos e sustou a CPI.

O Ministério Público quer reabri-la. Quer apurar também o desvio de R$ 3 milhões enviados pelo Ministério da Educação para reformar 18 escolas. Foi para não ser vista ao lado do prefeito que Dilma Rousseff cancelou em abril último a visita à estátua de Padre Cícero. A primazia caberá a Serra. Dr. Santana entrou na sucessão de Lula pelas portas do fundo.

Khrystal canta João do Vale

Serra propõe levar Virada Cultural a todo o país

DEU EM O GLOBO

Pré-candidato foi ao evento em São Paulo

Adauri Antunes Barbosa

SÃO PAULO. O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, participou no início da madrugada de ontem da Virada Cultural, em São Paulo, e disse que pretende, se for eleito, levar a todo o país a experiência do evento artístico-cultural. Um dos bons exemplos, segundo o tucano, é a Virada Cultural do Rio - criada, segundo ele, com base na experiência paulistana.

- Espero um dia levar para o Brasil inteiro. O Rio já fez a Virada, baseado na de São Paulo. E deu muito certo. Minha expectativa é a de que a gente possa disseminar no Brasil inteiro a tecnologia de como se faz uma Virada, e dar apoio, inclusive material, do governo federal e dos governos estaduais - disse Serra.

A Virada Cultural reuniu cerca de quatro milhões de pessoas das 18h de sábado até as 21h de ontem. O evento é promovido pela Prefeitura de São Paulo há seis anos.

Acompanhado pelos aliados políticos Gilberto Kassab (DEM), prefeito de São Paulo, e Roberto Freire, presidente do PPS, Serra chegou pouco antes da meia-noite do sábado ao palco em frente à Estação da Luz. Ele não conseguiu chegar a tempo de assistir à ópera "Carmina Burana", do alemão Carl Orff, uma de suas favoritas. Kassab e Serra participaram de um jantar para convidados na Sala São Paulo.

De acordo com reportagem publicada pelo jornal "Folha de S. Paulo" ontem, 40 dias depois de deixar oficialmente o governo de São Paulo Serra tem usado a estrutura de segurança pessoal mantida pelo estado em seus deslocamentos de pré-campanha. O ex-governador, que deixou o cargo em 6 de abril, utiliza policiais militares na sua segurança pessoal. Em São Paulo, ele e seu staff têm ido a eventos em carros oficiais, cujo combustível também é pago pelo estado. Além disso, o governo arca com as contas dos telefones celulares usados pela equipe de segurança.

O governo do estado explicou, em nota oficial, que não há ilegalidade nas ações de Serra, já que a infraestrutura para os ex-governadores está prevista em decreto estadual de março de 2004. A resolução prevê "a prestação de serviços de atendimento funcional e, complementarmente, de segurança" a ex-governadores durante todo o mandato do sucessor.

Gabeira expõe divergência no PV do Rio

DEU EM O GLOBO
Chico Otavio e Ludmilla de Lima

"As pessoas estão delirando", disse ele sobre a pré-candidatura de Aspásia ao Senado

O clima de guerra dentro do PV do Rio ficou claro durante o evento de lançamento da pré-candidatura de Marina Silva, ontem, em Nova Iguaçu. A insistência do presidente regional do partido, Alfredo Sirkis, em ter a vereadora Aspásia Camargo como candidata ao Senado parece ter esgotado a paciência de Fernando Gabeira, pré-candidato ao governo pelo PV. Gabeira, que vinha evitando críticas ao grupo de Sirkis - responsável por sucessivos impasses na coligação PV, PSDB, PPS e DEM -, mudou ontem o tom do discurso.

O pré-candidato disse que "as pessoas estão delirando" ao se referir às tentativas de retirar da chapa a pré-candidatura a senador de Marcelo Cerqueira, do PPS, em favor de Aspásia. Gabeira também chamou de contrassenso a reação de setores do PV com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de não permitir mais de dois nomes ao Senado em uma mesma coligação.

- Conclamo todos a respeitar essa decisão unânime (do TSE). Acho um contrassenso o PV se insurgir contra uma decisão unânime do tribunal no princípio de uma campanha eleitoral - disse Gabeira, que prosseguiu na estratégia de tentar preservar a coligação da polêmica. - Para mim, não existe impasse. Existem situações imaginárias de pessoas que estão fora da realidade. A coligação está formada, tem dois candidatos (ao Senado), e não tem outro caminho.

Segundo Gabeira, a maioria no PV quer que a coligação seja mantida como prevê o acordo - com as candidaturas a senador do PPS e de Cesar Maia, pelo DEM.

- Nós temos a maioria absoluta do partido. As pessoas estão delirando - criticou ele.

Fotos de Gabeira, Aspásia e Sirkis, estampadas em banners gigantes, decoravam o salão do RioSampa. Tanto Aspásia quanto Sirkis continuaram ontem a defender a pré-candidatura ao Senado. A vereadora chegou a comentar com um assessor que vive "uma guerra de guerrilha".

- Nós temos um candidato que tem dois candidatos a presidente. E como fica o Senado? A Marina fica manca, sem apoio nenhum? Como vai ser a candidatura dela no Rio sem um senador candidato e com os senadores do Gabeira trabalhando paro o Serra? - questionou Aspásia.

- Cabe uma última consulta para clarificar essa situação definitivamente junto ao TSE - afirmou Sirkis, que não quis comentar as declarações de Gabeira.

'Era o escolhido para matar o embaixador'

DEU EM O GLOBO

Marta defende Dilma e lembra que Gabeira sequestrou na ditadura

SÃO PAULO. Para defender a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, citada como "terrorista" em ataques pela internet, a ex-prefeita Marta Suplicy, candidata ao Senado em São Paulo, questionou ontem a atuação Fernando Gabeira (PV), pré-candidato ao governo do Rio, durante o regime militar. Marta citou a participação de Gabeira no sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969:

- Todo mundo já ouviu falar do Gabeira? A maioria. Pois é. Vocês notaram que do Gabeira ninguém fala? Esse sim sequestrou. Ele era o escolhido para matar o embaixador (que foi libertado). Ninguém fala, porque Gabeira é candidato ao governo do Rio e aliado do PSDB.

No discurso para militantes do PT em São Paulo, Marta assumiu a defesa de Dilma:

- Dilma pertenceu a uma organização na ditadura. E isso, gente, não merece desqualificação. Merece respeito! Alguém, com 20 anos, que põe sua vida em risco para defender a liberdade do país, que é presa e torturada durante três anos, merece nosso respeito.

Gabeira respondeu pelo Twitter:

"Daqui a alguns anos a Marta vai me pedir desculpas e eu certamente vou aceitar".

Para defender Dilma, Marta ataca Gabeira e cita sequestro

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Para amenizar críticas à ação de Dilma Rousseff na luta armada, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) disse que o deputado Fernando Gabeira (PV) estava escalado para matar o embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado em 1969. "Ninguém fala porque o Gabeira é candidato ao governo do Rio e se aliou com o PSDB", disse. "Ela inventa coisas", reagiu Gabeira.

Gabeira sequestrou na ditadura, afirma Marta

Para amenizar ação de Dilma na luta armada, petista diz que deputado era escolhido para matar embaixador; "Ela está inventando coisas", reagiu ele

Malu Delgado / SÃO PAULO e Alfredo Junqueira / RIO

Em meio à estratégia do PT de abordar a participação da pré-candidata à Presidência, Dilma Rousseff, na luta à ditadura, a ex-prefeita Marta Suplicy introduziu ontem ao debate político a atuação do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) contra os militares e afirmou que "ele sim sequestrou".

Num discurso a militantes petistas da zona leste de São Paulo, acompanhada do pré-candidato ao governo, Aloizio Mercadante, Marta surpreendeu ao comparar a atuação de Gabeira com a de Dilma ao criticar ataques à petista feitos na internet: "Vocês notaram, Aloizio, que do Gabeira ninguém fala? Esse sim sequestrou. Eu não estou desrespeitando ele, ao contrário, mas ele sequestrou. Ele era o escolhido para matar o embaixador. Ninguém fala porque o Gabeira é candidato ao governo do Rio e se aliou com o PSDB".

O discurso da petista provocou reação imediata no comando do PT e entre coordenadores da pré-campanha de Dilma. Dirigentes do partido afirmaram na noite de ontem que a opinião de Marta não é avalizada pela legenda e nem se trata de uma estratégia eleitoral. "Não vamos adotar isso como estratégia de campanha. Todas as pessoas que atuaram contra a ditadura merecem nosso respeito. Foi uma declaração muito infeliz da Marta", afirmou o presidente do PT, José Eduardo Dutra.

Marta referiu-se à atuação de Gabeira no MR-8 e à participação dele no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick em 1969. O ministro Franklin Martins (Comunicação) também fez parte do grupo que sequestrou o embaixador.

No Rio, Gabeira reagiu com indignação: "Ela está equivocada, está inventando coisas, está mentindo". O deputado rechaçou a informação de que poderia ter se tornado o assassino do embaixador. "Não havia escala para isso (para um assassinato). Lamento que ela use esse tipo de coisa na campanha, até porque tem muita gente dentro do PT que sabe bem dessa história", disse. O pré-candidato, que fez coligação com PSDB, DEM e PPS, disse, contudo, que não pretende processar a petista: "Vou ignorá-la."

Marta "explicou" a militantes as razões pelas quais o presidente Lula comparou Dilma a Nelson Mandela em programa partidário dia 13: "O que Lula quis dizer com isso? Que pessoas que vão para uma cadeia por ideologia são pessoas de luta, dignas".


PARA ENTENDER

Sequestro durou 4 dias

Fernando Gabeira foi protagonista da luta armada contra o regime militar (1964-1985) no Brasil. Ele participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em setembro de 1969, juntamente com integrantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que tentava instaurar o comunismo no País. O objetivo do sequestro era pressionar a liberação de políticos esquerdistas presos pelo regime. O embaixador foi liberado quatro dias depois e alguns integrantes do grupo foram presos, inclusive Gabeira.

Marta afirma que Gabeira foi sequestrador

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

DA REPORTAGEM LOCAL

A pré-candidata ao Senado por São Paulo Marta Suplicy (PT) disse ontem em encontro com militantes petistas na zona leste paulistana que a mídia tem dois pesos e duas medidas ao tratar do passado guerrilheiro de Dilma Rousseff (PT).

Para a ex-prefeita, o pré-candidato ao governo do Rio Fernando Gabeira (PV) teve atuação mais efetiva contra a ditadura no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969, mas não é cobrado porque fechou aliança com o PSDB. O embaixador foi solto em troca de reféns.

"Vocês notaram, Aloizio [Mercadante], que do Gabeira ninguém fala? Esse sim sequestrou. Eu não estou desrespeitando ele, ao contrário, mas ele sequestrou. Ele era o escolhido para matar o embaixador. Ninguém fala porque o Gabeira é candidato ao governo do Rio e se aliou com o PSDB. Então, ninguém fala." A declaração foi divulgada pela Agência Estado.

No Rio, Gabeira disse: "Vou ignorar essa acusação porque já faz muitos anos que ignoro as coisas que a Marta diz". Afirmou que "não é verdade" que tenha sido escalado para matar Elbrick. "Tenho uma visão bastante clara do sequestro. Hoje o condeno como forma de luta."

À noite, a pré-candidata disse, via assessoria: "Foi um discurso político feito para a militância do PT para mostrar o tratamento diferenciado da mídia sobre dois jovens que lutaram contra a ditadura".

Serra vai ao CE de olho em votos de Ciro

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ao lado de Tasso Jereissati, pré-candidato do PSDB vai atrás do espólio do deputado do PSB

Angela Lacerda, ENVIADA ESPECIAL, JUAZEIRO DO NORTE

O pré-candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, desembarca hoje à tarde em Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, para uma visita de dois dias ao Estado, em busca do eleitorado deixado por Ciro Gomes (PSB). O deputado foi frustrado na sua intenção de disputar a Presidência e o PSB formalizou apoio à pré-candidata petista Dilma Rousseff.

Sem candidato tucano ao governo no Ceará, o palanque de Serra será o do senador Tasso Jereissati (PSDB), amigo pessoal de Ciro, que tenta a reeleição. A expectativa é a de que, diante da saída de Ciro da disputa presidencial, o PSB do governador Cid Gomes, irmão de Ciro, poderá liberar os insatisfeitos que quiserem apoiar Serra.

Em Juazeiro do Norte, terra do político e santo milagreiro padre Cícero Romão Batista, Serra cumpre um ritual que foi seguido pelo ex-presidente FHC nas campanhas eleitorais em que foi vitorioso: o de "pedir a bênção" do "padim Ciço", como é conhecido o religioso.

Depois de visitar a estátua e o túmulo de padre Cícero - que morreu em 1934 e é alvo da devoção de milhões de fiéis, especialmente no Nordeste - Serra deve visitar a irmã Edeltralt Lerch, ex-diretora e benfeitora do Hospital e Maternidade São Vicente de Paula, na vizinha cidade de Barbalha. No Crato, outra cidade da região, no sertão do Cariri, comanda pelo tucano Samuel Araripe, Serra tem um encontro político com lideranças regionais do PSDB e de partidos aliados.
À noite, o pré-candidato segue para Fortaleza, para participar do seminário Ceará em Debate, realizado pelo Instituto Teotônio Vilela. Serra é um dos palestrantes do evento.


Jarbas e José Serra vão adotar campanha casada

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Senador e pré-candidato da oposição ao governo do Estado afirma que terá o mesmo estrategista do presidenciável tucano, o publicitário Luiz Gonzáles. Objetivo, segundo Jarbas, é afinar as campanhas

Cecília Ramos

O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) terá o mesmo estrategista para sua campanha ao governo do Estado que o pré-candidato do PSDB a presidente da República, José Serra (PSDB). Jarbas disse ao JC, sábado, que uma pessoa do publicitário paulistano Luiz Gonzáles virá para Pernambuco comandar o marketing. O objetivo é reforçar a estratégia da campanha casada. O senador, cujo comitê eleitoral será conjunto com o de Serra, conversou com o presidenciável sobre marketing político, na semana passada, no Recife, e eles voltarão a tratar do tema nos próximos dias, juntamente com o senador Sérgio Guerra, coordenador nacional da campanha de Serra.

Continuarão no time de Jarbas, nesta eleição, dois produtores locais: o jornalista Ricardo Carvalho, da RTV, amigo pessoal do senador, e o publicitário, músico e compositor Lula Queiroga, da Luni. Os dois atuam em campanhas do peemedebista e da antiga aliança jarbista União por Pernambuco há mais de uma década. Um prévia do que acontecerá durante a eleição poderá ser visto no próximo dia 28, quando ocorrerá o lançamento da pré-candidatura de Jarbas ao governo, em um evento no Chevrolet Hall, a maior casa de shows do Recife. A previsão é que seja um ato diurno, com a presença de José Serra e de lideranças do DEM, PSDB, PPS e PMN.

A tendência é que, assim como Serra, Jarbas adote a linha paz e amor e deixe, no mínimo em banho maria, as críticas ao presidente Lula (PT). Em entrevistas, González tem defendido que criticar é legítimo, bater é discutível e mesmo perigoso. Ele acredita que é preciso distinguir entre crítica administrativa e ataque abaixo da linha de cintura. Gonzáles é o marqueteiro do PSDB há 16 anos, desde a campanha de Mário Covas ao governo de São Paulo, em 1994. No mesmo ano, trabalhou para Serra, que concorreu ao Senado. Em 98, o publicitário ajudou Covas a se reeleger. Em 2000, perdeu com Geraldo Alckmin na Prefeitura de São Paulo. Mas, dois anos depois, o ajudou a eleger-se governador. Em 2004, voltou a trabalhar para Serra na campanha para prefeito. Em 2006, comandou o marketing da campanha de Alckmin a presidente da República e ajudou a levar a disputa contra o presidente Lula ao segundo turno.

Esta será a primeira disputa de Jarbas sem a presença do marqueteiro Antônio Lavareda, 58 anos, que comandou todas as campanhas do peemedebista desde 1992 e da antiga União.

Lavareda já participou ativamente de 76 campanhas. A última em que esteve ao lado de Jarbas foi ao Senado, em 2006. No mesmo ano, ele cuidou da campanha de Mendonça Filho (DEM) ao governo. O estremecimento de Lavareda com o grupo de Jarbas ocorreu nessa última eleição, quando o então governador Mendonça perdeu para o atual governador Eduardo Campos (PSB). Jarbas diz que não houve rompimento, mas afastamento. A MCI de Lavareda comandou a estratégia de marketing nos oito anos da gestão Jarbas/Mendonça.

O marketing da campanha à reeleição de Eduardo Campos deverá ficar sob o comando do jornalista baiano Edson Barbosa, da Link, a mesma que assinou a campanha do socialista em 2006. A Link também cuida da propaganda institucional do governo.

Venezuela expropria duas metalúrgicas

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Agências internacionais

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, ordenou no fim de semana a expropriação da metalúrgica Matesi, com participação do grupo ítalo-argentino Techint, e da produtora de bauxita Norpro da Venezuela, com capital francês. Chávez também anunciou a nacionalização das empresas de transporte da matéria-prima que operam no Estado de Guayana, onde se estão a Matesi e a Norpro.

O presidente havia anunciado a nacionalização da Matesi e de outras quatro empresas metalúrgicas de capital japonês, mexicano, europeu e australiano que operam na região de Guayana, enquanto negociava o preço a pagar. "Como não pudemos chegar a um acordo amigável e razoável com seus proprietários, então vamos expropriar a Matesi, não houve forma de nos acertar com eles", declarou.

"Eles (os donos da Matesi) dizem que vão nos processar não sei onde, na corte celestial. Que vão, terão todo o direito, mas nós não podemos continuar aqui brincando de gato e rato. Vamos expropriar, eu espero o decreto para expropriar e tomar o controle da Matesi completamente", disse.

Chávez também ordenou e a nacionalização da Norpro da Venezuela, uma empresa produtora de bauxita. A Norpro da Venezuela é filial da empresa Norpro, com sede nos EUA e na qual tem participação o grupo francês Saint Gobain.

As lições da crise do euro:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

DEU NO VALOR ECONÔMICO

"O princípio da independência dos Bancos Centrais, o pilar da ortodoxia econômica por duas décadas, recebeu um duro golpe na última semana. Os investidores devem ficar atentos."

E ste desabafo de um articulista em função dos últimos acontecimentos na Europa mostra a gravidade da crise porque está passando o Velho Continente. O nome de seu artigo - Os Bancos Centrais devem ficar livre da influência política - recoloca o conflito entre a política e a gestão monetária de forma explícita e nos obriga a refletir sobre ele, mesmo estando o Brasil fora da confusão europeia.

O articulista citado demonstrava sua amargura ao ver o BCE - paradigma do Banco Central independente - obrigado a comprar títulos emitidos por vários governos e que estão sendo rejeitados pelos investidores. "Como pode o BCE, de forma equilibrada, garantir a estabilidade financeira e a de preços", pergunta ele em algum momento de suas reflexões.

Mais adiante abre sua alma para o leitor ao dizer que a decisão de comprar títulos dos chamados PIIGS "pode aumentar os riscos de moral hazard, diminuindo os estímulos dos governos endividados de ajustar suas contas fiscais." Esse é o discurso padrão dos que defendem a independência absoluta do Banco Central na busca de um único objetivo que é o de manter a estabilidade de preços.

Mas os acontecimentos recentes nos Estados Unidos e que levaram à quebra do banco Lehman Brothers mostram a limitação desta postura rígida em relação à independência do Banco Central, principalmente em momentos de descontinuidade. A decisão de deixar quebrar essa instituição para não criar o que se chama de moral hazard levou a maior economia do mundo à beira do precipício. Somente o fato de ter o FED um duplo mandato em seus estatutos - e de seu presidente ser um acadêmico com conhecimentos profundos da depressão dos anos 30 do século passado - permitiu ao governo Obama a coordenação de políticas fiscal e monetária para lutar contra o pânico e trazer de volta o que nosso articulista chama de estabilidade financeira.

Uma primeira observação que gostaria de fazer ao leitor do Valor é que a situação do BCE é especial. Ele é o Banco Central de um grupo heterogêneo de países que dividem uma mesma moeda. Apesar disto, a dinâmica fiscal de cada um é nacional e, por isto, segue objetivos que podem ser divergentes. Em função desse conflito que a falta de uma política fiscal comum pode criar precisamos ter cuidado em usá-lo como referência de nossas reflexões. O BCE enfrenta dificuldades extremas derivadas desse arranjo institucional único e que somente agora está sendo testado de fato.

Mas a questão de que o BCE deve manter-se limitado ao seu mandato único de estabilidade monetária é comum a outros Bancos Centrais. E o que está acontecendo agora com o BCE pode servir de referência para nós. Mesmo no Brasil do real já testamos esse conflito no caso do Proer. E a decisão do governo FHC foi a de autorizar o Banco Central do Brasil a agir no sentido de restabelecer a confiança em nosso sistema bancário.

Mas o teste mais importante para a tese do mandato único de um Banco Central ocorre hoje nos Estados Unidos. Tivesse o FED um mandato único de estabilidade de preços e fosse ele presidido por um burocrata linha dura, o que teria acontecido com todos nós?

Sempre entendi que a independência dos Bancos Centrais precisa ser qualificada, colocando em algum grau a questão da estabilidade financeira e do crescimento econômico. Esta qualificação é importante inclusive para defender sua autonomia no controle da inflação. Nas condições limites de crises financeiras e de crescimento o poder político de qualquer sociedade democrática vai prevalecer e criar mecanismos de intervenção na Autoridade Monetária com amplo apoio da opinião pública.

Os defensores do modelo puro de independência dos BCs, para justificar seu radicalismo, dizem que não é possível servir a mais de um senhor. Isto não é verdade e espero que o sucesso do presidente atual do FED em sua missão de reparar os danos causados pela tese do moral hazard no governo Bush e ao mesmo tempo recolocar a economia em uma trajetória de crescimento sem inflação mostre isso. Por isso sempre defendi a tese de que um mandato de Banco Central deve - como no caso do FED - permitir alguma flexibilidade na execução da política monetária.

A utilização ou não deste maior grau de liberdade deve ficar a critério dos diretores da autoridade monetária e do julgamento dos mercados financeiros. Em um arranjo institucional como existe hoje - mercados futuros de cambio e juros - é muito fácil ler o julgamento médio de profissionais da economia sobre a condução da política monetária. Por isso, a margem de erro da autoridade monetária é muito menor do que a que ocorria no passado ou nas economias que não tem mercados futuros eficientes.

A Europa hoje é uma prova de que vale a pena uma rigidez menor no mandato de um banco central para evitar uma intervenção política externa.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

Lei de Responsabilidade Fiscal para a Europa:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A crise mostra que também é preciso enfrentar o problema dos "países grandes demais para quebrar"

A CRISE Global de 2008 tornou claro que existem bancos "grandes demais para quebrar". Esse é o problema central que a nova regulamentação dos mercados financeiros terá que resolver. A Crise Europeia de 2010 tornou igualmente claro que os governos são grandes demais para quebrar.

Uma Lei de Responsabilidade Fiscal semelhante àquela existente no Brasil desde 2000 pode ser a solução para esse problema. O pacote de 750 bilhões anunciado pelos governos europeus na semana passada surpreendeu a todos pelo volume e deixou clara a determinação de defender sua moeda. Desde que os países mais ameaçados tomem as medidas fiscais duras, mas necessárias, para reequilibrar suas contas fiscais, é possível a partir de agora esperar a superação da crise no decorrer dos próximos anos (e desde que o problema do desequilíbrio das contas-correntes seja também solucionado).

A crise fiscal foi consequência da política fiscal expansionista que a Crise Global de 2008 impôs a todos os países. Mas uma política fiscal desse tipo não criaria maiores problemas se a relação entre a dívida pública e o PIB nesses países fosse saudável, se fosse um nível de dívida que não dependesse da disposição dos credores de rolá-la indefinidamente. Não era esse o caso. Em vários deles, estava em torno de 100% do PIB, quando a metade desse número já é demais. Esse alto índice de endividamento parecia "sob controle" porque a taxa de juros era muito baixa. No momento, porém, que surgiu a desconfiança em relação à Grécia e a taxa de juros começou a subir, o peso do serviço da dívida cresceu e o país de uma hora para a outra se tornou insolvente.

Essa crise demonstra a insustentabilidade de altas taxas de endividamento público e a frouxidão da União Europeia e dos mercados financeiros em relação ao problema. Enquanto se exige das empresas uma relação elevada entre sua geração de caixa e os vencimentos de suas dívidas, aceita-se uma relação substancialmente menor entre o superavit primário de cada país (sua geração de caixa) e seus compromissos com juros e amortizações.

As repetidas crises de balanço de pagamentos dos países em desenvolvimento mostraram que era falso o pressuposto em que se baseava o mercado financeiro -a crença de que "governos soberanos não quebram". Em relação aos países ricos ou quase ricos, porém, mercado financeiro e autoridades governamentais continuaram a acreditar na história e aceitaram taxas de endividamento público superiores a 100%.

Agora, a crise mostra que não basta resolver o problema dos "bancos grandes demais para quebrar"; é preciso também enfrentar o problema dos "países grandes demais para quebrar". No Tratado de Maastricht, a União Europeia limitou o deficit público a 3% do PIB; deveria ter também estabelecido limites claros para a relação dívida pública/PIB. Ao não fazê-lo, tornou o euro vulnerável. Isso, além de incentivar os ataques especulativos, levou os detratores do euro a decretar a moratória inevitável da Grécia e a falência do projeto euro.

É muito cedo para essa conclusão. Mas é também cedo para declarar a crise resolvida. Será preciso equacionar definitivamente o problema fiscal dos países-membros. E o caminho para isso é algo semelhante ao que fizemos no Brasil com a Lei de Responsabilidade Fiscal de 2000. Enquanto essa lei estabelecia limites claros para os deficit e o endividamento dos Estados e municípios, procedeu-se à reestruturação da sua dívida. Dessa forma todos tiveram condições, a partir desse ponto, de obedecer à nova lei.


Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Globalização e Competição".

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAL DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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Wilhelm Kempff plays Beethoven's Moonlight Sonata mvt. 1

EMBRIAGUEM-SE :: Charles Baudelaire


É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão.
Para não sentirem o fardo horrível
do Tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a
escolher. Mas embriaguem-se.


E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou
desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a
tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a
tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que
horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o
pássaro, o relógio responderão: "É hora de
embriagar-se! Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se
sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.




Poesia do livro "As flores do mal"

domingo, 16 de maio de 2010

Reflexão do dia – Alfredo Bosi

Segundo sua conclusão, o discurso ideológico seria sempre elaborado na chave retórica da persuasão. Como Mannheim, o senhor sugere que se desconfie da ideologia?

" O pensamento de Mannheim é rico e diferenciado, não podendo ser reduzido a fórmulas estreitas. Para Mannheim , ideologia não é, necessariamente, produção de ideias por uma determinada classe visando sempre a mistificar o próprio poder sob a máscara de verdades universais. Ao lado dessa concepção fortemente valorativa, que descende de A Ideologia Alemã, de Marx e Engels (e que Mannheim em boa parte acolhe), haveria estilos de pensar vigentes em certos grupos sociais e em certos momentos históricos que moldariam esse ou aquele tipo social, sem que se possa acusar neles um caráter intrinsecamente fraudulento e mistificador. Mannheim é um dos criadores da socciologia do conhecimento, mas estava consciente de que, se relativizamos todo o nosso saber condicionando-o à nossa classe, ninguém escapará desse determinismo, a começar pelo próprio sociólogo do conhecimento... Para sair do impasse, Mannheim propõe que o intelectual se dedique à percepção dos limites do seu grupo de origem e se coloque em um ângulo crítico que o livraria dos esteiótipos da sua classe. É uma esperança. "


(Alfredo Bosi, entrevista, ontem, ao suplemento Sabático/ O Estado de S. Paulo)

Olhos nos olhos:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula chega a Teerã para uma missão considerada impossível: tirar do governo teocrático de Mahmoud Ahmadinejad um compromisso formal de que o programa nuclear iraniano é para fins pacíficos, em termos que sejam aceitáveis para os países que querem aprovar no Conselho de Segurança da ONU sanções econômicas contra o Irã, sob a liderança dos Estados Unidos.

O problema é que esses países não acreditam na mera palavra do governo iraniano, e qualquer documento tem que ser seguido de fatos concretos, coisa que o Irã se recusa a fazer.

Classificado de ingênuo em diversas ocasiões por líderes internacionais como a secretária de Estado Hillary Clinton ou o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, o presidente Lula já teve uma primeira vitória diplomática: sua missão, por mais insólita que pareça, acabou recebendo o apoio dos governos dos Estados Unidos, da França, da Rússia.

Todos céticos com relação às chances de sucesso, mas obrigados a dar um voto de confiança ao carismático líder brasileiro, que procura ter o apoio da presença nas negociações do primeiroministro da Turquia.

O risco de fracasso, muito maior do que a chance de sucesso, faz com que Recep Erdogan relute em comparecer.

Tanto Lula quanto Erdogan fazem parte daquela lista da revista Time de líderes mais influentes do mundo, e os dois parecem mais empenhados em afirmar essa influência, em contraste com o governo dos Estados Unidos, do que realmente em chegar a uma solução, que a todos parece inviável.

Assim como previsivelmente não conseguiu nada no Oriente Médio, a busca de um protagonismo internacional leva o governo brasileiro a assumir uma negociação com o Irã que dificilmente se concretizará, ainda mais na tosca concepção de Lula de que a solução ainda não foi encontrada por que nenhum dirigente internacional sentou-se para negociar com Ahmadinejhad olho no olho.

Hillary Clinton classificou nos bastidores a recente passagem de Lula pelo Oriente Médio de risivelmente ingênua, e mostrou-se cética mais uma vez com relação ao êxito das conversações com o Irã, mas oficialmente o governo dos Estados Unidos se viu obrigado a considerar a visita de Lula como a última chance antes da decretação das sanções.

O ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, que revelara recentemente o receio de que o presidente brasileiro estivesse sendo embromado por Ahmadinejad, teve que recuar depois da péssima repercussão de seus comentários.

Até o momento, o governo brasileiro está conseguindo se manter dentro de uma zona de respeitabilidade, mas qualquer passo em falso pode se transformar em galhofa internacional.

A posição brasileira de postar-se ao lado do governo do Irã para evitar as sanções econômicas internacionais tem uma explicação oficial que não satisfaz aos observadores internacionais.

O governo brasileiro diz que está defendendo seus interesses, porque teme que uma sanção ao Irã possa transformar-se em arma contra nosso programa nuclear.

De fato, o governo trava uma guerra nos bastidores com a AIEA com relação à assinatura de um protocolo adicional ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Esse adendo ao TNP foi idealizado depois d o s atentados de 2001 nos Estados Unidos, e pretende ampliar as áreas de fiscalização da AIEA, o que o Brasil não aceita.

A principal razão é proteger o segredo das centrífugas utilizadas no programa nuclear para enriquecimento de urânio, que seriam uma invenção brasileira à frente das existentes no mundo.

A resistência à ampliação da fiscalização da AIEA e mais o apoio ao programa nuclear do Irã, no entanto, já está fazendo com que surjam aqui e ali desconfianças de que, na verdade, o que o governo brasileiro quer mesmo é criar condições para retomar o programa nuclear para fazer a bomba atômica, como alguns setores defendem abertamente.

Não há, no entanto, nenhuma razão objetiva que permita uma ilação nesse sentido, pois o país assinou o TNP e a fiscalização hoje existente é mais do que suficiente para garantir que o programa tem realmente fins pacíficos.

O que não acontece com o Irã, que também assinou o TNP mas não aceita a fiscalização dos órgãos internacionais, além de ter enriquecido o urânio a 20% sem autorização formal da AIEA.

O Brasil, para seu programa de submarino nuclear, já tem permissão para enriquecer urânio a 20%, mas nem pretende chegar a tanto.

A questão, no entanto, é política, e nesses termos o governo brasileiro terá que obter do governo de Mahmoud Ahmadinejad mais do que um documento afirmando que o programa nuclear tem fins pacíficos.

Isso, por sinal, o governo do Irã vive afirmando em público, mas a essas afirmações não se seguem atos concretos que as avalizem.

O que os países que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU temem é que o Irã esteja usando esse anseio de Brasil e Turquia de se impor no cenário internacional para ganhar tempo, dando continuidade ao programa nuclear sem fiscalização e evitando as sanções internacionais.

O sucesso não previsto pela maioria alavancará a imagem de líder emergente que Lula cultiva com tanta obsessão, abrindo caminho para uma atuação internacional após o fim de seu mandato presidencial.

Se, ao contrário, Lula não sair de sua visita a Teerã com algum acordo razoável que desmobilize a tendência do Ocidente de decretar sanções, estará correndo o risco de explicitar sua irrelevância, e a da diplomacia brasileira, nas negociações internacionais fora de sua área natural de influência, a América Latina.

Cuidado ao pisar:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ou o líder do governo no Senado, Romero Jucá, não entendeu o espírito da coisa ou não ouviu direito quando o presidente Luiz Inácio da Silva disse que a prioridade do governo é eleger Dilma Rousseff.

Sim, porque quando um líder de governo, porta-voz do Palácio do Planalto no Senado, se refere ao projeto Ficha Limpa de maneira desdenhosa porque "não é um projeto do governo, é da sociedade", é de se perguntar de onde Romero Jucá acha que sairão os votos com os quais Lula conta para eleger Dilma presidente da República.

Das profundezas das camadas do pré-sal, a cujos projetos ele confere total prioridade?

Pode até ser uma surpresa para Jucá e companhia, mas sairão da sociedade. Não aquela parcela ainda refém de favores que elege parlamentares sem olhar se dispõem de biografias ou de folhas corridas.

Mas uma outra que tem a felicidade e a vantagem do acesso a informação e conseguiu ser alcançada pelo movimento de mobilização que reuniu 4 milhões de assinaturas (até a última contagem), fez despertar na Câmara dos Deputados uma inexistente vontade - na maioria -, pressionou os políticos a exercitarem na negociação a arte do possível e os empurrou a aprovar o que parecia impossível.

É o ideal? Não é. Mas se não fosse um ganho significativo, sua excelência não estaria a reclamar, a dizer que é necessário zelar pelo futuro de todos os que eventualmente podem se ver enquadrados nas situações previstas no projeto de lei complementar que proíbe o registro que candidaturas de políticos condenados por crimes dolosos em colegiados judiciais com recursos julgados em tribunais superiores.

Muito provavelmente Romero Jucá não fala sem respaldo. Tanto que o governo não fez reparos à sua paquidérmica declaração de menosprezo a um projeto caro à sociedade.

A título de antes tarde, caberia conferida a trecho de poema do irlandês William Yeats: "Pisa com cuidado, é nos meus sonhos que estás a pisar".

Erro a calhar. Essa história do erro na votação da Câmara no índice do reajuste das aposentadorias acima de um salário mínimo tem cheiro, cor e jeito de artimanha para livrar o presidente Lula do ônus do veto ao aumento de 7,7%.

De fato, depois da votação, viu-se que havia um erro de redação. No texto aprovado constava o índice de 7%. O equívoco, no entanto, foi corrigido pela Mesa com base no resultado da votação em plenário.

Equivocado, demagógico, seja o que for, é soberano.

Só que ao chegar ao Senado, o líder do governo, Romero Jucá, argumentou que a correção feita na Câmara não vale. Ao juízo dele cabe ao Senado alterar a redação. Significa que volta à Câmara.

Ao mesmo tempo, o presidente do Senado, José Sarney, se recusa a inverter a pauta de votações para que o reajuste seja votado rapidamente.

Resumo da ópera da protelação: como a medida provisória vence em primeiro de junho, basta o reajuste não ser aprovado até lá para o presidente não precisar vetar.

Fica tudo resolvido na base da manobra e aquele discurso bonito sobre responsabilidade doa em quem doer devidamente arquivado até uma próxima oportunidade.

Horizonte. Assim como o PT teve seu programa partidário na última quinta-feira, partidos que apoiam a candidatura presidencial de oposição também terão direitos aos seus 10 minutos em rede de rádio e televisão neste semestre.

O PT se arriscou ao confrontar de maneira tão explícita a legislação e apresentar um programa de caráter obviamente eleitoral. Ainda que venha a ser condenado e penalizado financeiramente, com multa ou sem multa conseguiu o que queria de imediato: 10 minutos de propaganda para Dilma Rousseff.

E aí se põe a seguinte questão: os partidos de oposição farão o mesmo? Transformarão seus programas partidários em programas eleitorais? Se não fizeram ficarão em desvantagem em relação ao adversário. Se fizerem perderão a moral para reclamar do PT na Justiça, a lei eleitoral cai de imediato em desuso e a eleição de 2010 vai virar o mais completo vale-tudo.

Ciro Serra e Dilmandela:: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Enquanto José Serra brinca perigosamente de ser Ciro Gomes, reagindo com mau humor e até uma certa agressividade em entrevistas ora para a CBN, ora para a Radiobras, sua adversária Dilma Rousseff testa personalidades.

Numa hora, é chamada de Nelson Mandela brasileiro pelo padrinho Lula. Noutra, surge como Norma Bengell num comício das Diretas, ao qual jamais compareceu. Numa terceira, apresenta-se com diplomas que, na verdade, não tem.

Enquanto candidata, Dilma virou a mãe do Luz para Todos, programa que existe no papel do PT há uns 20 anos, quando ela nem era do partido, e foi implantado no governo FHC. De manhã, é católica. À noite, recebe bênção de mães de santo. E quer virar petista desde criancinha, contrariando sua biografia.

O "Serrinha paz e amor" quer o fim da independência do BC e não resiste à máxima de que "perguntar não ofende". Dilma precisa se reinventar e se pendurar em Lula para tudo. Logo, devem estar loucos para o horário gratuito de TV começar. Ali, não correm risco. Ali, só falam o que mandam falar, só riem como mandam sorrir, só acreditam no que mandam acreditar.

Até lá, porém, não tem jeito. Ajoelhou, tem de rezar. Têm de respirar fundo, recorrer aos florais de Bach e usar daquelas "pulseiras da Nasa" para ficar zen a módicos US$ 200. Porque jornalistas perguntam, candidatos respondem.

E, se não têm o que responder, que dancem tango, cantem ópera, façam como Hugo Chávez e encham linguiça. Só não podem estapear o entrevistador nem a própria história.Sabe por quê? Porque o jornalista é um só, mas os ouvintes, os telespectadores e os leitores são milhares, milhões. Ah. E eles costumam atender pelo nome de... eleitor.


Lula lá, no Irã, passa por um teste nuclear hoje. Ou volta vitorioso ou confirma a acusação de "ingenuidade" feita por Hillary Clinton.

Do enxoval à mortalha :: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Ao referir-se ao Brasil, que não lhe merece respeito, o presidente Lula tem sido mais cuidadoso quando fala para fora do que quando se dirige aos brasileiros como se falasse sozinho. Usa a arte de não falar para ninguém. Em princípio, trata com desenvoltura do Brasil que inventou para uso pessoal e consumo alheio. Mas geralmente não cuida do país que conhecia de raspão e não lhe deve retribuição pelo que conseguiu antes dele e pelo que colherá depois. Governos passam, e pouco fica. Lula não aguentou, entre duas derrotas eleitorais, valer-se do gabinete de ficção política para acompanhar o governo alheio e adiantar o aprendizado que a pressa interrompeu. É um governo em trânsito.

Desde que chegou ao poder, e depois de resolver o problema do mensalão, não teve mais do que se queixar. A oposição se resignou à balela da fatalidade histórica, e não sobrou ao presidente Lula sequer um companheiro da velha guarda em condições de fazer carreira à sua sombra. Trabalhou bem e se resguardou ainda melhor. Nem Stalin conseguiu tanto com tão poucas baixas. E em muito menos tempo.

Na sua faixa de onda predileta, o tom coloquial que sintoniza o presidente com maior número de brasileiros pela língua geral que costurou a unidade nacional (com a colaboração nunca assaz louvada do feijão, do futebol e peculiaridades exclusivas). Luiz Inácio Lula da Silva não perde oportunidade de ser mais Lula do que Silva. A curto ou a longo prazo, tanto faz, sempre está fazendo investimento político e colhendo resultados alheios. E acomoda novos admiradores, como acaba de suceder ao candidato social tucano José Serra, que o proclamou acima do bem e do mal, onde ele, Lula, monopoliza os benefícios sociais e deixa para a oposição a culpa pelos males passados e futuros. Os presentes estão sob controle oficial.

Por enquanto, seus cálculos não ultrapassam a barreira de 2014, como já está. Dilma sabe que está condenada a abrir mão do segundo mandato como quitação do primeiro (claro, se lhe cair ao colo). A exceção é o preço a pagar pela recaída eleitoral que veio para ficar, até a República se lembrar dos fundadores que exorcizaram a reeleição. Foram cem anos imunes.

Falta agora, mas não é prioridade, o presidente confirmar a cada dia que não precisa mais preocupar-se com a eleição presidencial. Já considera favas contadas para o PT a sucessão que ele reboca enquanto a oposição, sem sair do lugar, se esfalfa para gaguejar a mesma língua, travada pela falta de sotaque popular.

Do lado oficial, a cada curva fechada, os petistas insatisfeitos com as concessões de princípios no varejo político vivem o desconforto de divergências menores, que se multiplicam nas complicações estaduais atreladas à estratégia federal. Aí também Lula vende, simbolicamente, otimismo a perder de vista para inadimplentes e executados. Já ficaram pelo caminho muitos candidatos cuja vitória Lula anunciou em vão e ninguém lhe cobrou. Os que discordam vão caindo fora e abrindo espaço aos pragmáticos, que não se queixam e se arrumam a esse preço módico.

Para Lula, está tudo dominado, como se diz morro acima e abaixo, desde que desceu sobre o primeiro ato, ou primeiro mandato, a insubstituível cortina da aparência para tirar de cena o mensalão. De dois mandatos presidenciais, não sobrou nenhum companheiro com quem dividir os encargos do poder e as vantagens compensatórias.

Esta sucessão já está no papo, foi o que o presidente declarou em razoável português (ou, mais provável, em dialeto portunhol) ao jornal espanhol El País. Uma cortina de fumaça disfarça pormenores que tendem a crescer com o aprofundamento das diferenças e semelhanças que, ao invés de somar, incompatibilizaram o petismo e a social-democracia. Lula faz a sua parte, aqui dentro ou lá fora, com os dons e dotes que trouxe da vida sindical, enquanto espera a candidata Dilma Rousseff firmar-se nas próprias pernas e aprender a falar, sem sotaque burocrático, língua de gente que supre de votos urnas insaciáveis, que decidem eleição.

Dilma está demorando a se desfazer das pequenas gafes com as quais uma candidata, invertendo a ordem dos fatores, compromete o produto: pode fazer mais depressa a própria mortalha do que o enxoval para a solenidade de posse.

Chico Buarque e João do Vale - "Carcará" (1982)

''Plano B'' para vice de Serra agrada todas as alas do PP

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando os tucanos mais próximos do ex-governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), lançaram o nome do presidente nacional do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), para vice do provável candidato tucano à Presidência, José Serra, não imaginaram que, dois meses depois, até expoentes da ala dilmista do PP torcessem por esse desfecho.

A candidata petista a presidente, Dilma Rousseff, perdeu terreno no partido aliado que comanda o Ministério das Cidades e o nome de Dornelles ganhou força real para compor a chapa adversária.

O objetivo do anúncio do presidente do PP como perfil ideal para encarnar o "plano B" dos tucanos teve o objetivo imediato de reduzir a pressão sobre Aécio para compor a chapa puro-sangue com Serra. Passados 60 dias, no entanto, o PP está rachado em três e a presidenciável petista tem apenas uma parte do apoio da legenda.

Dirigentes do PP avaliam que, ao final, o que vai ditar a direção do partido será a expectativa de poder que cada candidatura presidencial representar no fim de junho. Mas, por hora, a ideia de ter Dornelles na vice da chapa tucana não desagrada ninguém. Ao contrário, anima os pepistas.

Nada trivial :: Sergio Fausto

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Peço desculpas pelo economês, mas ele é indispensável para chegar aonde quero com este artigo: o próximo governo não poderá ser um governo de simples continuidade, pois ela não nos levará muito longe, certamente não a tão longe quanto podemos chegar. E aqui falo de continuidade em relação aos governos de Lula e Fernando Henrique Cardoso, ambos. Temos, portanto, difíceis escolhas políticas a fazer depois de 2010.

Nos últimos dez anos consolidou-se um padrão de política macroeconômica com três pernas na área fiscal e duas na área monetário-cambial. As três pernas fiscais são: meta de superávit primário (receitas menos despesas, excluindo juros) alta o suficiente para impedir o descontrole da dívida pública (o governo federal controla a sua meta diretamente e a dos demais membros da Federação, indiretamente); gastos correntes crescendo mais que o PIB; e carga tributária elevada para cobrir o crescimento dos gastos correntes e, ao mesmo tempo, assegurar o cumprimento das metas de superávit primário e o controle da dinâmica da dívida pública. Na área monetária, as duas pernas são os regimes de metas de inflação e câmbio flutuante, pernas que seriam frouxas sem a companhia das pernas fiscais.

Filha do governo FHC, essa política recebeu duas contribuições do governo Lula. Uma, positiva, consistiu em aproveitar os instrumentos disponíveis e o ótimo ambiente externo de 2003 a 2007 para colocar a dívida pública, a inflação e os juros em trajetória declinante. A outra, negativa, consistiu em pisar no acelerador do gasto corrente, dirigindo para esse tipo de despesa 85% do ganho fiscal gerado pelo crescimento da arrecadação e pela diminuição da despesa com pagamento de juros. Além disso, Lula contratou despesas adicionais com pessoal cujo impacto pleno ainda virá.

Até aqui a continuidade dessa política macroeconômica rendeu bons frutos ao País: consolidação da estabilidade econômica com crescimento razoável e maior capacidade de atender às demandas sociais de uma sociedade com muita pobreza e enorme desigualdade. Os pobres, 30% da população no início dos anos 90, passaram a representar menos de 20% nos anos recentes.

Ninguém sensato deseja mudanças nos regimes monetário e cambial. Mas é preciso reconhecer que na área fiscal estamos com os pés trocados e corremos o risco de tropeçar mais à frente.

Os gastos correntes do governo federal têm crescido sistematicamente acima do PIB. Passaram de 14% em 1991 para 22% do PIB em 2009. No mesmo período, a carga tributária deu um salto de aproximadamente 25% para 36% do PIB, um aumento de 11 pontos de porcentagem em menos de 20 anos, fenômeno quase sem paralelo no mundo. Hoje o Brasil tem um nível de carga tributária anômalo para países de renda média, como ainda somos. Cresceu a fatia da União no bolo da arrecadação e aumentou o peso dos tributos em cascata, ruins para a economia e injustos socialmente. Já os investimentos do governo federal não superaram os 2% do PIB no mesmo período. Estados e municípios aumentaram seus investimentos nesses anos, mas não compensaram a queda drástica do investimento público federal em relação ao observado em períodos anteriores.

A atrofia do investimento e a expansão do gasto corrente do setor público se refletem no conjunto da economia. Nota recente da MB Associados mostra que o investimento agregado respondeu por apenas 13% do crescimento na presente década (2000-2010). Já o consumo do governo foi responsável por 20% do crescimento observado, cabendo 70% ao consumo das famílias, estimulado pelo aumento das transferências governamentais (benefícios previdenciários e assistenciais, grandes itens do gasto corrente) e pelo empurrão oficial ao crédito ao consumidor (crédito consignado, "proatividade" dos bancos públicos) no governo Lula. Não é preciso ser economista para saber que essas tendências não são sustentáveis: estamos consumindo demais, poupando e investindo de menos. Cedo ou tarde, isso termina em mais inflação e/ou em crise das contas externas.

Não será fácil mudar a trajetória dessas variáveis. O padrão a que me referi de início tem implícito um acordo social e político. Será necessário fazer escolhas e contrariar interesses. Embora as mudanças possam ser feitas gradualmente, elas têm de começar desde o início do próximo governo. A principal delas consiste em limitar o crescimento do gasto corrente.

Ao contrário do que fez o governo Lula, trata-se de pisar no breque, e não no acelerador, fazendo o gasto corrente crescer abaixo, e não acima do PIB e, nele, privilegiando o que há de mais importante: educação e saúde. Só assim será possível aumentar o investimento público e/ou reduzir a carga tributária, sem pôr em risco a "responsabilidade fiscal". Uma saída politicamente atraente é dizer: "Bastam cortes na máquina do governo." Atraente, mas insuficiente: os benefícios previdenciários respondem por quase metade do aumento do gasto corrente do governo federal desde 1991. Tal constatação nos força a repensar a política de aumentos reais do salário mínimo, que remonta a 1995, e recoloca sobre a mesa a reforma da Previdência, à luz do aumento da proporção de idosos nos anos vindouros. O Brasil já gasta com a Previdência mais que o dobro do que gasta com educação, um absurdo.

O ambiente político não é favorável a reformas e ajustes no nível e na composição do gasto público. Desde a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, lá se vão dez anos, não houve uma só medida aprovada no Congresso, com exceção parcial da reforma da Previdência do setor público, em 2003, que visasse a limitar o crescimento do gasto público corrente. A tentativa do ex-ministro Palocci de limitá-lo legalmente foi bombardeada ainda no Executivo, sob o fogo cerrado da ministra Dilma, então chefe da Casa Civil.

Nada trivial é a missão política que o próximo presidente da República, homem ou mulher, tem pela frente.


Diretor Executivo do IFHC, é membro do GACINT da USP

PSDB mineiro volta a cogitar união entre Serra e Aécio

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Aposta do partido na formação de chapa puro-sangue é retomada após retorno de ex-governador ao cenário político

Julia Duailibi e Malu Delgado

A volta de Aécio Neves ao cenário político, após férias de quase 30 dias no exterior, reacende no PSDB a perspectiva de formar uma chapa puro-sangue em torno da candidatura presidencial de José Serra. Embora os tucanos operem a aliança com o PP, de Francisco Dornelles (RJ), a ação em prol da união com o mineiro voltou a dominar a agenda.

Serra e Aécio mergulharão em uma agenda comum no final deste mês e início de junho em Minas, segundo maior colégio eleitoral brasileiro. Antes de deixar o País de férias, Aécio conduziu pessoalmente pacto com PSDB, DEM e PPS. Os três partidos comprometeram-se a não mencionar o nome dele para o cargo de vice-presidente até o dia 22, data de seu retorno.

Aécio chegou a pedir a interlocutores que segurassem agendas de Serra no Estado enquanto estivesse fora. Está prevista a ida dos dois a encontros sobre agronegócio no dia 31, em Uberaba. Organizado pela Confederação Nacional da Agricultura e pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, o evento terá como objetivo colar os tucanos na agenda dos produtores rurais.

Na semana seguinte, os dois cumprirão maratona em Montes Claros, quando discutirão políticas para o semiárido mineiro, uma das regiões mais carentes do País. A expectativa no PSDB é de que, nestes encontros, voltem a falar sobre a chapa.

Para os tucanos mineiros, a discussão sobre a vice passa pelo poder de "sedução" de Serra, ou seja, uma sinalização efetiva de que, se eleito, usará o seu capital político para promover reforma que acabe com a reeleição e estabeleça o mandato de cinco anos.

Serra já disse publicamente ser contra a reeleição. Segundo interlocutores de Aécio, o ex-governador pode se balançar com a tese se Serra estiver bem nas pesquisas de intenção de voto e se houver o compromisso do paulista de fazê-lo seu sucessor.

"Serra tem que convencer Aécio, insistir na questão dos cinco anos e dar garantias. Um convite bem conduzido pode ter êxito", disse um aliado do mineiro.

Aécio tem dito reiteradas vezes que pretende disputar o Senado. A declaração leva em consideração duas variáveis: a primeira, de que tem luz política própria e que uma vaga no Palácio do Jaburu seria pior que uma atuação no Senado. A outra de que, caso Dilma Rousseff vença a eleição, ele, no Senado, se tornaria a grande referência da oposição e o nome natural em 2014.

Segunda via. Enquanto a decisão sobre Aécio na vice é tocada discretamente, o PSDB joga paralelamente numa chapa com Dornelles. Além do minuto e meio na TV que a aliança com o PP adicionaria, o PSDB avalia que a entrada do senador na campanha deixará Aécio comprometido com Serra - Dornelles é tio dele. Os tucanos mineiros, no entanto, ainda não veem com entusiasmo a indicação do senador, o que enfatizaria a tese de que Aécio não descarta a puro-sangue.

O temor dos tucanos e aliados é de que a discussão sobre a vice explicite rixas e traga problemas a Serra. "O vice tem que ser alguém que possa ajudar a vitória. Os partidos não devem entrar em atrito sobre isso. Se depender da nossa torcida e desejo, o vice será Aécio", disse o deputado ACM Neto (DEM-BA).

Caso a puro-sangue e a aliança com o PP não vinguem, os tucanos citam os nomes do presidente da sigla, Sérgio Guerra (PE), da senadora Marisa Serrano (MS) e do ex-prefeito Beto Richa (PR). No DEM, os cotados são os senadores Katia Abreu (TO) e Demóstenes Torres (GO), e os deputados José Carlos Aleluia (BA) e Ronaldo Caiado (GO).

"Esse assunto está bem encaminhado, sem precipitação. Aécio não disse de forma sumária que não aceita. Não estamos mais tão ansiosos", disse o presidente do PPS, Roberto Freire.

Serra visita o Ceará de olho nos votos de Ciro

DEU EM O GLOBO

Palanque do tucano no estado será o de Tasso Jereissati, que disputará reeleição no Senado e deve apoiar Cid

Isabela Martin

FORTALEZA. O pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, desembarca amanhã no Ceará de olho no patrimônio eleitoral do deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), que liderava as intenções de votos no estado antes de ser alijado da disputa presidencial. Essa é a primeira visita de Serra como pré-candidato ao único estado do Nordeste onde o PSDB não deverá ter palanque de governador.

Os tucanos esperam atrair os votos dos simpatizantes de Ciro contando com a mágoa do deputado pela forma como foi rifado da disputa pelo PT e pelo próprio partido, o PSB, que deve formalizar apoio à petista Dilma Rousseff, adversária de Serra.

Antagônicos na disputa presidencial, no Ceará PSB e PSDB podem se aliar informalmente pela reeleição do governador Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro e que pedirá votos para Dilma. Mas o palanque de Serra será o de Tasso Jereissati (PSDB-CE), amigo de Ciro e que tentará a reeleição.

Serra visitará o Porto do Pecém, no município de São Gonçalo do Amarante, região metropolitana de Fortaleza. O pontapé inicial do porto que está sendo ampliado com a ajuda do governo federal foi dado quando Serra era ministro do Planejamento (1996-1996) na gestão de FHC. Ele remanejou verbas, possibilitando a abertura da licitação, em 1996. Na assinatura da ordem de serviço e na inauguração da obra, em 2001, Serra compareceu representando o presidente.
Nessa mesma linha, ele visitará, em Barbalha, município localizado na região do Cariri, um hospital contemplado com recursos federais quando ele era ministro da Saúde (1998-2002).

No Cariri e em Fortaleza, Serra terá encontro com líderes do PSDB e partidos aliados, numa espécie de movimento pró-Serra.

Vox Populi aponta Dilma à frente de Serra

DEU EM O GLOBO

Diferença de três pontos percentuais está dentro da margem de erro

SÃO PAULO. Pesquisa do Instituto Vox Populi divulgada ontem mostra a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, pela primeira vez à frente do tucano José Serra. Dilma obteve 38% das intenções de voto, contra 35% de Serra. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, o que, segundo o Vox Populi, indica empate técnico entre os candidatos.

Na terceira posição ficou a pré-candidata do PV Marina Silva, com 8% das intenções de voto. Os votos brancos e nulos somaram 8% e os indecisos, 11%.

Em relação à primeira rodada de pesquisas do Vox Populi, realizada em janeiro, Dilma avançou nove pontos, enquanto Serra recuou três: o tucano tinha então 38% contra 29% da petista. Todos esses números referem-se a um cenário sem o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), que até abril ainda se apresentava como pré-candidato.

O Vox Populi apontou que Dilma passou Serra também numa eventual disputa de segundo turno: ela recebeu 40% das intenções de voto, contra 38% do tucano. Encomendada pela Rede Bandeirantes, a pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 13 deste mês, período em que 2.000 pessoas foram entrevistadas.

A crise do euro e o Brasil:: José Roberto Mendonça de Barros

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Após duas semanas de muita emoção e volatilidade, estamos num bom momento para tentar responder como o Brasil será afetado pela crise do euro.

Acredito que a resposta envolva três passos: o futuro da situação na Europa; os impactos na economia americana e na Ásia; e, finalmente os impactos no Brasil, sempre lembrando que não temos nenhuma influência nos eventos externos, apenas respondemos a eles.

Europa: já é certo que a crise é grave; que o futuro do euro e do projeto da Europa está em jogo (não é crível que nenhum acabe, apesar dos boatos da sexta-feira, mas ambos serão diferentes no futuro) e que a liderança política da Europa está aquém do necessário para enfrentar uma situação limite como a atual e só se moveu frente ao abismo, elevando o custo do ajuste. A chanceler alemã demorou demais para perceber o tamanho do problema e tentou empurrar qualquer decisão para depois das eleições regionais, que acabaria por perder; o presidente francês sumiu no processo; Berlusconi é uma piada de gosto duvidoso; a Bélgica vive uma grande crise de governabilidade.

O ponto positivo é que o pacote afasta o risco de default (nossa hipótese básica exposta nos artigos de 5 e 18 de fevereiro) e de contaminação do sistema bancário, com as compras e trocas de papéis de dívida soberana, embora ainda não saibamos dos detalhes operacionais. É crítico conhecer qual será o spread que resultará das operações de troca/compra de títulos.

Entretanto, no caso específico da Grécia, todos os agentes acabaram convencidos, com boa razão, que algum tipo de reestruturação no futuro será inevitável. Como sempre, a questão é quem pagará a conta, além do cidadão grego que vai enfrentar uma situação deflacionária.

Aparentemente, será a Comunidade Europeia (entenda-se Alemanha) e o Banco Central Europeu, que acabou por agir de forma muito parecida com o FED e o Banco da Inglaterra, no sentido de aceitar em seu balanço papéis com qualidade inferior ao que sempre costumou exigir.

Desvalorização. Esperamos consequências importantes desta situação: forte desvalorização do euro (imaginamos que o mesmo irá flutuar entre 1,10 e 1,20 em relação ao dólar); crescimento muito baixo por um bom tempo para a região como um todo (com a Alemanha crescendo relativamente bem, empurrada por sua máquina exportadora); alguma redução de preço de commodities (parte como compensação para a valorização do dólar, parte pelo comedimento da demanda numa região cujo PIB global é semelhante ao dos Estados Unidos); aceleração da consolidação de empresas em muitos setores, como de matérias-primas industriais; e, finalmente, uma parada na tentativa de redução do protecionismo agrícola, fonte certa de tensões políticas entre países. A Europa já enfrenta na questão do ajuste fiscal e na defesa do euro uma enorme tensão; o sistema provavelmente não irá permitir dificuldades adicionais.

Países da Comunidade Europeia fora do euro, cujas moedas podem flutuar e se ajustar à nova situação, como Polônia e Suécia, podem se sair melhor, embora enfrentando uma redução no comércio. Isso não vale para a Inglaterra, ainda imersa numa enorme crise e com uma liderança que não tem experiência de poder há um bom tempo. Entre ativos, são ganhadores os papéis de empresas exportadoras globais e os títulos soberanos de países como Alemanha e Suécia.

Como fica o futuro? A rigor, ninguém sabe se o necessário ajuste fiscal será mesmo feito e qual a sustentabilidade das dívidas dos países da região que não a Grécia. A questão é saber se os países em questão acabarão por aceitar a redução do padrão de vida a que se acostumaram recentemente. Não se sabe, pois, qual será o custo do ajuste. Não se sabe também como encaminhar a questão da forte divergência de produtividade e competitividade entre os diversos países, pois é pouco provável que apenas uma forte recessão possa produzir os resultados necessários, como esperam os alemães. Em consequência teremos ainda muita volatilidade pela frente.

O impacto nos Estados Unidos deverá ser modesto, dado que os bancos americanos estão fora deste risco, e que o consumo interno está crescendo (junto com o emprego, especialmente quando se observam os dados do Household Survey). Exportações não agrícolas sentirão mais, afetando várias empresas. Estima-se que mais de 25% dos lucros das companhias do S&P venham de exportações, com a Europa formando o maior componente.

Na Ásia também imaginamos que o impacto provavelmente será modesto. O comércio intrarregional e as exportações para novos mercados, como América Latina, seguirão muito fortes. O problema da China é o superaquecimento.

Finalmente, cabe perguntar quais serão os impactos no Brasil: o mais imediato é uma pressão para desvalorizar o real, enquanto a saída de capital de curto prazo continuar como resultado de uma aversão ao risco. Esse movimento poderá se reverter mais adiante, dependendo da evolução da situação externa e pela atração de capital visando aproveitar o diferencial de juros domésticos. O comércio vai sentir um pouco, com a redução do crescimento europeu, pois o País destina para a região 22% das nossas vendas externas. Sofreremos também com a queda das cotações de commodities, embora estejamos imaginando um movimento modesto, o que ajuda a dar no curto prazo algum suporte a um real mais fraco no segundo semestre do ano.

Não acredito que esses efeitos vindos de fora alterem de maneira relevante a trajetória de crescimento muito acelerado que estamos vivendo (alteramos recentemente nossa previsão de crescimento do PIB para 6,6%). Como consequência, a inflação deverá seguir em aceleração e o Banco Central deverá continuar a apertar a política monetária.

A situação europeia mostra de forma clara a temeridade da rota de crescimento acelerado dos gastos públicos, acentuada nos últimos dois anos. Preocupa mais que tudo a deterioração do nosso regime fiscal, como a farta utilização de truques para melhorar os números (definição de depósitos judiciais como receita, securitização de dividendos via BNDES para melhorar a posição do Tesouro, emissão de dívida para capitalizar estatais, etc.) e a flexibilização da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Tudo isto faz com que eu veja com algum ceticismo o anunciado corte do Orçamento, especialmente quando lembro que o ministro do Planejamento anunciou no ano passado, com pompa e circunstância, que o governo iria suspender certos reajustes salariais do funcionalismo e rigorosamente nada aconteceu. Ao contrário, noticia-se que continua firme o processo de criação de novas vagas no serviço público

Para as empresas, sugiro incluir em seu planejamento de operações a ideia que teremos um cenário muito mais comedido em 2011, tendo em vista os efeitos da subida de juros de pelo menos 350 pontos neste ano e de um provável aperto fiscal de verdade no próximo governo.

Queria também mencionar que aumenta a importância das subsidiárias brasileiras de empresas europeias, dado o crescimento do mercado brasileiro. Por exemplo, em março (antes da piora da crise grega), um determinado produtor de caminhões vendeu no Brasil o dobro de veículos que sua matriz alemã.

As prateleiras vazias da aprovação de Chávez

DEU EM O GLOBO

Inflação em alta e escassez de alimentos podem prejudicar presidente da Venezuela nas eleições legislativas

Mariana Timóteo da Costa
Correspondente


CARACAS. Longas filas e prateleiras vazias nos supermercados, preços cada vez mais elevados e a inquietude de nem sempre encontrar o que se precisa para garantir uma boa refeição.

Esta é a atual realidade dos venezuelanos, não importando sua classe social. A inflação hoje a maior da América Latina, batendo 5,2% em abril e o desabastecimento (resultado, segundo especialistas, do mau gerenciamento do setor alimentício por parte do governo), viraram um problema político para o presidente Hugo Chávez a quatro meses das eleições legislativas de setembro.

Uma pesquisa feita em abril pelo instituto Datanálisis mostrou que, em pouco mais de um ano, a popularidade do presidente caiu de 61% para 44,4%. Além disso, quase 70% dos venezuelanos hoje avaliam mal a gestão de Chávez e quase todos citam a alta nos preços e, principalmente, a dificuldade de ter sua demanda por alimentos atendida entre os principais motivos do descontentamento.

Já votei em Chávez. Hoje, não voto mais. Como é possível eu demorar tanto para conseguir comprar farinha de milho para preparar as minhas arepas? reclama o aposentado Benjamin Cornejo Hugarte, de 75 anos, num supermercado no centro de Caracas.

Classes D e E são as mais atingidas A farinha de milho é a base deste que é o alimento mais popular da mesa venezuelana, uma espécie de panqueca recheada.

Além da falta de produtos, o aposentado critica os preços. Diz que há apenas um ano e com 500 bolívares (R$ 430), conseguia fazer um bom mercado para duas semanas.

Hoje, com este mesmo valor, ele dura apenas uma.

Aposentado da estatal de petróleo PDVSA, ele tem uma renda mensal de 4 mil bolívares (R$ 3.400) e acha um absurdo gastar metade de seu salário com comida.

Luis Vicente León, da Datanálisis, lembra que a Venezuela passava por uma situação semelhante em dezembro de 2007, quando Chávez sofreu sua primeira derrota eleitoral, no referendo pela reforma da Constituição.

O desabastecimento atual é menor do que o de 2007, quando 80% dos mercados não tinham leite, por exemplo. Hoje, o item mais em falta é o açúcar, ausente em 52% dos mercados.

Mas não importa, a irregularidade da oferta de comida é a mesma, assim como a insatisfação.

Aí, as pessoas começam a querer mudanças diz León, que lembra, no entanto, que 44% de popularidade é um índice alto, ainda mais para quem está no poder há tanto tempo. Chávez continua se beneficiando por seu carisma, por não ter adversários políticos com boas propostas de governo e pela mão de ferro com que controla a mídia e o aparato estatal.

Assim como o aposentado da PDVSA, o casal Gustavo e Cecília Sosa, de 28 anos, está entre os 18% de venezuelanos (numa população de 28 milhões) que integram a classe média. Ele, analista financeiro; ela, psicóloga.

Juntos, vivem com cerca de 5 mil bolívares (R$ 4.300) por mês, e confirmam que a inflação os vem deixando sem espaço para poupar.

Antes, sobrava mais dinheiro para, por exemplo, viajar.

Hoje, pensamos muito mais no que vamos comer. Sem falar no tempo que perdemos percorrendo mercados. Nunca conseguimos comprar tudo num lugar só, temos que ir a uma média de três. O fornecimento é muito irregular, as prateleiras constantemente estão vazias e, quando há mais produtos num determinado lugar, é batata: as filas são imensas reclama Gustavo.

Cecilia completa, dizendo que nem sempre consegue comprar o que ela quer: As frutas desapareceram.

Quando existem, a variedade é pouca e a qualidade, ruim.

Votar em Chávez? Nunca, a culpa disso tudo é de suas políticas malucas diz Gustavo.

O problema não atinge apenas a classe média, mas sobretudo quem integra as classes D (38% da população) e E (41%), obrigados a destinar uma parte maior de sua renda à comida. Já a classe alta, que abrange somente 3% dos venezuelanos, é a menos afetada pela crise de alimentos, porque, claro, tem muita margem de manobra, como explica o economista Nicolas Toledo, da Consultores XXI. Segundo ele, a crise aparece aliada a vários fatores: o aumento dos preços, claro, é um problema.

Mas o que mais descontenta a população é a irregularidade no abastecimento, resultado da falta de investimentos do governo na indústria alimentícia. Hoje, 70% dos produtos consumidos aqui são importados. Depois da desvalorização do bolívar em relação ao dólar, no início deste ano, a moeda local perdeu valor, obrigando governo e empresários a comprarem menos. Então, temos uma demanda que não está sendo atendida, num país que produz pouca comida explica o economista.

Há ainda, segundo Toledo, a insegurança internacional em vender para um país em que o governo ameaça ou expropria empresas nacionais e estrangeiras, que adota discursos combativos contra seus adversários políticos.

Depois de uma crise entre governo e produtores de carne, ocorrida na semana passada, o vice-presidente, Elías Jaua, deu declarações sobre o combate à especulação que, segundo analistas, apontariam uma intenção do governo de passar a controlar a quantidade de alimentos vendida nos mercados a exemplo de Cuba ou da antiga União Soviética.

Se o governo fizer isso, será seu suicídio político: 86% dos venezuelanos rejeitam que o país adote um modelo de consumo cubano.

Não acredito que Chávez adotará este tipo de medida. O que ele vai fazer é tentar controlar o problema, como fez depois que perdeu o referendo em 2007, até a crise ressurgir, no fim do ano passado. Se o preço do barril do petróleo continuar em US$ 80, ele pode conseguir.

Além disso, podemos esperar que ele continue fazendo o que faz: culpar a burguesia pela crise da comida diz León

Orgulho e cobiça:: Clóvis Rossi

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Na terça-feira, o rei da Espanha, dom Juan Carlos 1º, deixou o hospital universitário (e público) Clinic, de Barcelona, depois de extrair um nódulo (não canceroso) do pulmão.

Saiu dizendo que a Espanha deveria se orgulhar de seu sistema público de saúde.

No dia seguinte, o governo, no bojo de um pacotaço de ajuste fiscal, cortou 5% dos salários do funcionalismo, inclusive dos profissionais da saúde. Medida inédita nos 33 anos de democracia.

O que aconteceu de um dia para o outro? O rei morreu? Internou-se em uma clínica privada para curar-se de uma infecção hospitalar contraída no hospital público? Nada. O rei está bem.

O problema é que o rei reina, mas não governa. Até aí, um clássico das monarquias parlamentares. O problema é que o presidente do governo também não governa mais. Nem na Espanha nem em qualquer outro lugar da Europa, pelo menos.

Governam os mercados. A Espanha vinha sendo exemplo de bom comportamento fiscal: deficit minúsculos até 2004 e, daí até 2007, superavit. Vem a crise global, o governo se vê obrigado a estimular a economia, para evitar o colapso total, e inexoravelmente o deficit público dispara, como ocorreu em quase todo o mundo.

Vêm, então, os mercados e exigem sangue, como lobos que são, conforme os definiu o ministro sueco Anders Borg.

A Europa/FMI/Bancos Centrais dão carniça (pacote de US$ 1 trilhão). A Bolsa espanhola tem a maior alta em um dia de sua história. Dois dias depois, sai o pacote de ajuste fiscal, exigido pelos mercados, que impõem, no entanto, uma queda na Bolsa pior do que a do período agudo da crise em 2008.

Os lobos perceberam que vampirizar a economia pode impedir que o governo pague a dívida.

Tarde demais: a cobiça já venceu o orgulho.

Duas opressões e uma lápide:: Vinicius Torres Freire

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Terceira Via morre sem choro nem vela, nos dias em que as vergonhas do mercadismo sucedem o vexame estatista

A Terceira Via mal foi lembrada no falecimento do governo trabalhista de 13 anos no Reino Unido. Em meio a tantos colapsos, como o das finanças públicas europeias e o dos mercados financeiros eficientes e racionais, a ruína do trabalhismo e de seu verniz, a Terceira Via, parece desimportante.

Mas há algum interesse num epitáfio da dissolução da social democracia no mar de indiferença e pragmatismo que se tornou a política tradicional. Se é que restou outra.

A Terceira Via foi ao governo com a ascensão de Tony Blair, premiê britânico, em 1997. Pode-se dizer que vinha sendo teorizada desde o início dos 1990 pelo sociólogo Anthony Giddens. Era uma capitulação organizada da social democracia.

Nessa "Via", a redistribuição social de renda e riqueza deveria ser menos pautada pela ideia de solidariedade; deveria haver mais responsabilização individual (por exemplo, mais previdência privada). O Estado deveria se retirar ainda mais da economia. Enfim, a finança liberalizada, a competição dos "emergentes" e o custo crescente do Estado de bem-estar social europeu impunham, dizia-se, limites à universalização de direitos. Era preciso mais "produtividade" e "competitividade".

Mais cedo, houvera a rendição do Partido Democrata, sob Bill Clinton.

Mais tarde, a social democracia alemã foi pelo mesmo caminho. O socialista François Mitterrand, empossado em 1981 com pouco mais a propor do que estatização tola, recuara já em 1983. Claro, a França não seguiu a via britânica. Mas parou de produzir inovação social e intelectuais "humanistas".

As novidades políticas foram poucas desde então. O ambientalismo se expandiu, na versão egocêntrica-eurocêntrica ("vamos preservar nossos jardim e saúde") ou na primitivista (regressiva, anticapitalista ingênua), assim como as políticas identitárias (sexo, etnia, culturas, guetos etc.). Racismo e extremismo ressurgiram. O terrorismo justificou dentadas nas liberdades individuais.

Nunca houve tanta democracia no mundo? Verdade. Mas num momento em que eleitores e governos nacionais podem muito pouco.

A Europa "terceirizada", da Terceira Via, cresceu pouco como nunca desde a Segunda Guerra. Os EUA, desde Clinton, passaram a viver de bolhas e dívidas, montados na supremacia do dólar e na inventividade de sua finança. Mas a primeira década do século 21 foi a de menor crescimento desde a Segunda Guerra. Aumentou a desigualdade. Os salários reais ficaram estagnados.

A desmoralização do estatismo, de suas ineficiências e opressões, totalitária ou burocrática, foi sucedida pela laudação do mercadismo. Pela supremacia da finança, um oligopólio global capaz de produzir opressão, sob outra forma, ademais capturando o Estado para se sustentar. A Terceira Via foi um breve e medíocre rótulo para uma situação de fato, a transição para o esvaziamento da política. Ou seja, do pragmatismo eleitoreiro e economicista como forma quase única de política.

É irônico que esse fantasma da social democracia desapareça numa era em que ficaram mais que evidentes as falácias dos dois polos da política dos últimos cem anos, "Estado" e "mercado", dois meios de opressão. O que há adiante? Nada?

Uma Nova Lei Fiscal :: Yoshiaki Nakano

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O Congresso deveria olhar para a tragédia da Grécia e as medidas de austeridade que europeus tiveram de tomar

O governo federal anunciou um corte adicional de R$ 10 bilhões nas suas despesas.Somado ao anunciado em março, totalizam-se R$ 31,8 bilhões. Isso representa redução equivalente a 1% do PIB em relação ao Orçamento aprovado pelo Congresso. A medida vai na direção do que defendi há um mês nesta Folha.

Espera-se que, com essa medida, o Banco Central possa atenuar a trajetória de elevação da taxa de juros e minimizar o seu impacto negativo sobre a recuperação dos investimentos produtivos. Se tudo correr bem, será até possível que o PIB cresça 7% sem grandes pressões inflacionárias, o que será um feito notável.

Neste momento, o Congresso Nacional, que está aprovando medidas absurdas, como o aumento para os aposentados de 7,7% e o fim do fator previdenciário, deveria olhar para a tragédia que está acontecendo na Grécia e as medidas de austeridade que Portugal, Espanha e até mesmo o Reino Unido foram obrigados a tomar. A população desses países passará por um doloroso ajuste, reduzindo o seu consumo. Se tudo der certo, os países deverão ter crescimento negativo ao menos pelos próximos três anos. Essa será a imagem do nosso futuro se o país tomar a direção que os congressistas querem dar.

Dessa forma, a decisão tomada pelos ministros da Fazenda e do Planejamento de implementar uma política fiscal anticíclica merece aplausos. Entretanto, as medidas fiscais têm maior eficácia se tiverem credibilidade, e, quanto maior o horizonte temporal, maior será o seu impacto positivo sobre o crescimento. Assim, o que temos é que fortalecer as instituições fiscais, senão um corte de 1% do PIB será interpretado como medida discricionária e momentânea e seus efeitos serão de curto prazo e neutralizados pelas expectativas de longo prazo.

Essas últimas expectativas se formaram ao longo dos últimos anos, em que os gastos do governo vêm crescendo o dobro do PIB e que a carga tributária subiu mais do que dez pontos percentuais do PIB, sufocando o setor privado. É preciso inverter essa trajetória e ao longo da próxima década reduzir, na mesma magnitude, a carga tributária.Isso será possível se as despesas de consumo do governo crescerem cerca de metade do PIB, o que já será uma expansão real considerável. Exemplo: se o PIB crescer 7% ao ano, poderemos reduzir em dez pontos percentuais do PIB as despesas do governo em dez anos e ampliar a taxa de investimento privado e público, na mesma magnitude, o que será suficiente para sustentar um crescimento de 7% anuais nas próximas décadas.

O Congresso Nacional deveria estar discutindo, quando comemoramos dez anos da Lei de Responsabilidade Fiscal, uma Nova Lei Fiscal, que estabelecesse limites de aumento no consumo do governo para alcançar equilíbrio estrutural e abrir um novo horizonte de crescimento. Mas essa decisão caberá à sociedade brasileira, que elegerá o próximo presidente. O meu candidato ideal apresentaria no primeiro dia de mandato um projeto de lei fiscal.

Temos que optar entre surtos de crescimento e crise -que, com as condições mais favoráveis desde 2004, permitiu-nos crescer, em média, cerca de 4% ao ano- e voltar a explorar todas as nossas potencialidades e avançar 7% ao ano ou mais.

Yoshiaki Nakano, 65, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV, foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).