terça-feira, 30 de julho de 2013

PMN desiste de fusão com PPS e dificulta tática de Serra para 2014

Sigla que seria criada era opção para tucano disputar a Presidência

SÃO PAULO - Em convenção extraordinária realizada no domingo, o PMN formalizou a desistência da fusão com o PPS, processo que daria origem à MD (Mobilização Democrática).

A nova sigla era a principal alternativa estudada pelo ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) para concorrer à Presidência em 2014.

O PMN justificou a desistência afirmando que não poderia ficar "parado" aguardando a definição de políticos que cogitam ingressar no novo partido. "Não posso mexer na vida de tanta gente ao anunciar a fusão e ficar dependendo da posição de alguém", diz Telma Ribeiro dos Santos, secretária nacional.

Serra hoje enfrenta dificuldades para se viabilizar novamente candidato pelo PSDB, que deve laçar o senador mineiro Aécio Neves para disputar a sucessão de Dilma Rousseff no Planalto.

O processo de fusão com o PMN era articulado pelo presidente do PPS, o deputado Roberto Freire (SP), que é amigo de Serra e já tinha feito o convite para o ingresso do tucano na nova sigla.

Para o PPS, a fusão era considerada essencial para fortalecer a sigla. Isso porque, com a criação de uma nova legenda, parlamentares poderiam mudar de partido sem risco de perder o mandato. A expectativa era que tucanos aliados de Serra o seguissem na mudança de partido.

Freire diz que o convite para Serra se mantém, mesmo sem a fusão. Sem a união, no entanto, políticos que acompanhem Serra em eventual migração para o PPS correm o risco de perder o mandato, o que deve inibir mudanças.

A aproximação com Serra não é unanimidade no PPS. Nomes do partido como o vereador paulistano Ricardo Young defendem contato maior com a ex-senadora Marina Silva, que tenta formar seu partido, Rede, a tempo de disputar o Planalto em 2014.
"Com o descarte da fusão, há uma questão estratégica colocada. Ou o PPS vai se alinhar no campo da Rede ou vais retroceder na decisão anterior de não se alinhar mais com o PSDB", diz Young.

Fonte: Folha de S. Paulo

IDH: Rio muito longe dos melhores no país

No Rio, de 92 municípios, 63 tiveram índice de Desenvolvimento Humano (IDH) abaixo da média nacional. Apesar de ter o segundo PIB do país, o estado é o quarto em bem-estar. Já a capital está em 45º lugar no ranking das Nações Unidas. Com isso, fica de fora da "elite" dos municípios, de muito alto desenvolvimento. Nesse seleto grupo está apenas Niterói, em sétimo lugar. O governador Sérgio Cabral disse que, com os investimentos que o estado está recebendo, o IDH deve subir. No Brasil, a educação deu o maior salto, mas está abaixo de renda e saúde

Rio fora da elite do IDH

Capital está em 45º lugar, e estado tem 63 cidades com índice abaixo da média do país

Clarice Spitz, Nice de Paula, Cristiane Bonfanti e Demétrio Weber

RIO e BRASÍLIA - Os avanços na qualidade de vida dos brasileiros nos últimos 20 anos foram acompanhados a passos mais lentos pelo Estado do Rio, mostra o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, lançado ontem, em Brasília. A capital fluminense, que em 1991 aparecia como um dos dez maiores Índices de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do país, agora está no 45º lugar. A exemplo do IDH nacional, o IDHM mede a qualidade de vida da população a partir dos critérios de renda, saúde e educação. Apesar do Estado do Rio ter a segunda maior economia do Brasil, perdendo apenas para São Paulo, dos 92 municípios fluminenses, 63 tinham IDHM inferior à média nacional, de 0,727 (o índice varia entre zero e um e, quanto mais perto de um, melhor), em 2010.

Produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro, o atlas utiliza dados dos censos do IBGE de 1991, 2000 e 2010. Ao lançar a publicação, o presidente do Ipea e ministro interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Marcelo Neri, destacou que o quadro do Brasil é desafiador. Ele disse que a fotografia ainda é ruim, mas o filme aponta avanços. O ministro ressaltou que, nos últimos dois anos, os indicadores sociais e do trabalho seguem avançando. Segundo ele, programas de transferência de renda, como Bolsa Família, tiveram apenas um papel de coadjuvante na melhoria da renda e do IDHM como um todo.

- Eu daria um Oscar de ator coadjuvante para o Bolsa Família - disse Neri. - Estamos num momento crítico de mudanças. Acho que o Brasil, o chamado das ruas, nos pede respostas. E acho que esse trabalho identifica lugares. A resposta para o Brasil não é uma só.

No mapa do desenvolvimento humano brasileiro, o Rio aparece em quarto entre os estados brasileiros, atrás de Distrito Federal, São Paulo e Santa Catarina. A capital fluminense, que já teve o nono melhor IDHM do país, caiu para a posição 61 em 2000 e, agora, está em 45.
Para o economista Leonardo Muls, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFF), a posição do Rio no ranking surpreende negativamente, mas ajuda a entender os protestos que têm varrido as ruas da cidade.

- O IDH mede o bem-estar da população, que significa qualidade de transportes, educação, segurança. Esse indicador diz que a gente está muito aquém do que deveria e os protestos, também. A impressão é que existe um discurso oficial se vangloriando de ter atraído investimentos, de sediar grandes eventos, mas no dia a a dia da população as carências estão aí - diz.

Para o professor da UFF, o Rio sofre principalmente pela falta de planejamento de longo prazo, capaz de desenvolver a economia para não deixar o estado tão dependente dos recursos do petróleo. Mesmo cidades que recebem elevados royalties do petróleo, como Campos dos Goytacazes e Quissamã, têm IDHM inferior à média do Brasil.

Especialista em economia fluminense, Mauro Osório, acha que, no caso da capital, a desigualdade elevada dificulta o desenvolvimento humano.

- Enquanto 22% da população vivem em favelas, em São Paulo são 11,42% e Belo Horizonte, 12,96% - afirma.

Em nota, o governador do Rio, Sérgio Cabral, destacou os investimentos que o estado tem atraído: "O Rio nesses últimos sete anos vem fazendo um grande esforço em busca do tempo perdido. Foram décadas de ausência de investimentos na educação, na saúde, no saneamento, na infraestrutura. Tenho certeza de que com o Rio de Janeiro tendo hoje o maior volume de investimentos públicos e privados do Brasil, inclusive na infraestrutura e nos serviços públicos essenciais para a população, o nosso IDH nas próximas avaliações certamente estará em melhor posição", afirmou.

Procurado, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, não respondeu o pedido para comentar os resultados dos IDH.

No estado, somente Niterói tem índice de desenvolvimento considerado muito alto. No país, são 44 municípios nesta situação. A cidade de Niterói, no entanto, caiu duas posições no ranking nacional na última década. Em 2010, aparece em sétimo lugar geral e tem a segunda maior renda do país. Em 1991, era a terceira no ranking de todos os 5.565 municípios do país. O estado não tem municípios classificados como de desenvolvimento baixo ou muito baixo.

- Ficamos orgulhosos com a posição de Niterói. É uma população com escolaridade maior que a média do Rio e um capital humano extraordinário. Entretanto, nos anos recentes, a cidade observou ausência de ações do poder público municipal. Estamos melhorando o plano estratégico para recuperar as posições que a cidade perdeu - diz Rodrigo Neves, prefeito de Niterói.

Camila Alves da Silva mora em São Gonçalo. Aos 17 anos, cursa o segundo ano do ensino médio e já superou a mãe, que só conseguiu concluir o ensino fundamental. Decepcionada com a falta de estrutura e professores da escola pública, resolveu se matricular num colégio particular e ontem tirou sua primeira carteira de trabalho.

- Eu estou querendo ver esse negócio do Jovem Aprendiz e começar a trabalhar agora, para ter meu próprio dinheiro e futuramente poder pagar minha faculdade - planeja a jovem, que sonha em estudar Gastronomia.

Fonte: O Globo

Os brasileiros ainda esperam uma resposta - Gil Castello Branco

Há várias frases anedóticas que expressam a incompetência dos governos. O americano Milton Friedman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1976, afirmava: "Se o governo administrar o deserto do Saara, em cinco anos faltará areia." Já o economista Delfim Netto prognosticou: "Se o governo comprar um circo, o anão começará a crescer."

Nas recentes manifestações sociais as reivindicações foram difusas, mas tiveram como pano de fundo a péssima qualidade dos serviços públicos (saúde, educação, segurança e mobilidade urbana) frente à elevada carga tributária e à corrupção deslavada.

Decorridos quase dois meses do início das mobilizações, poucas foram as respostas efetivas. A presidente Dilma reuniu-se com uma dúzia de ONGs chapas-brancas e empurrou o pepino para o Legislativo, ao propor uma constituinte "inconstitucional" exclusiva sobre a reforma política e, posteriormente, ao sugerir temas óbvios para um plebiscito relâmpago e inviável. Além disso, propôs pactos que não se consumaram. Nesse contexto, o Mais Médicos gerou mesmo foi mais confusão. Mas, se a intenção for mesmo consultar a sociedade, são várias as perguntas em relação às quais a enorme maioria dos brasileiros gostaria de responder "Sim" ou "Não".

Apostaria no "Sim" em várias situações como: redução para menos da metade dos 39 ministérios. Corte de 2/3 das 22.417 funções comissionadas de Direção e Assessoramento Superior (DAS). Férias de somente 30 dias para os membros do Legislativo e do Judiciário, como ocorre com qualquer trabalhador. Redução da quantidade de deputados federais, estaduais e vereadores. Votação imediata dos 130 projetos de lei relativos ao combate à corrupção, engavetados há anos no Congresso Nacional. Redução para 1/3 dos gastos com publicidade na União, estados e municípios. Julgamento imediato dos mensalões (PT, PSDB e DEM) e dos processos que envolvem parlamentares, a começar pelo do presidente do Senado. Proibição do uso de recursos públicos ou de isenções fiscais para bancar aquelas propagandas partidárias, repetidas, irritantemente, nos horários nobres. Fim dos suplentes de senadores sem votos. Maioridade penal aos 16 anos, para exterminar o "sou di menor". Proibição para que parlamentares condenados pelo Supremo Tribunal Federal continuem legislando, a seu favor ou contra aqueles que os condenaram. Fim do voto secreto no Congresso. Ampliação da Ficha Limpa para todas as instâncias e Poderes. Fim do imposto sindical obrigatório que retira compulsoriamente do trabalhador o valor correspondente a um dia de trabalho por ano em prol de sindicatos (alguns fictícios), militantes e dirigentes com fortunas amealhadas sabe-se lá como. Esse plebiscito do bem daria um livro.

Por outro lado, creio que surgiria um "Não" sonoro às propostas que implicam em dar mais poder e dinheiro aos caciques políticos. Dessa forma, parecem mínimas as chances de os brasileiros concordarem em votar em uma "lista fechada" de candidatos definida pelos "proprietários" dos partidos, bem como de aprovarem o financiamento público exclusivo das caríssimas campanhas eleitorais, à custa dos impostos pagos. Neste ano, mesmo sem eleições, os partidos políticos irão receber do orçamento da União (via Fundo Partidário) R$ 294,2 milhões, além dos R$ 300 milhões das isenções fiscais concedidas aos veículos de comunicação pelas inserções políticas publicitárias.

Plebiscito à parte, prova da surdez dos parlamentares está no fato de terem saído de "recesso" sem votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, contrariando a própria Constituição. Justificam a "gazeta" argumentando que as Casas estão funcionando, apenas sem as votações. A "mentirinha" faz lembrar o historiador Capistrano de Abreu, que imaginava como artigo principal da Constituição Federal o dispositivo: "Todo brasileiro deve ter vergonha na cara." Ao contrário, alguns dos nossos deputados e senadores devem lustrar os rostos com óleo de peroba. Tomara que não o façam com a verba indenizatória...

Enfim, como as autoridades - por incompetência ou conveniência - continuam fazendo vista grossa às reais demandas da sociedade, os protestos tendem a continuar. A queda abrupta da popularidade da presidente Dilma e da maioria dos governadores é reflexo natural da insatisfação coletiva. O que os governantes e marqueteiros não percebem é que o anão do circo cresceu e que as manifestações não morrerão na praia ou no deserto de providências concretas que atendam, de fato, os anseios de milhões de brasileiros.

Gil Castelo Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas.

Fonte: O Globo

Acabou a "pax lulista" – Arnaldo Jabor

De repente, do momento imóvel fez-se o drama. Assim, com um verso de Vinicius, podemos descrever o que temos pela frente. Não mais a paralisia do país, tão do agrado da "aliança para o atraso" que rege o Brasil há dez anos. Parecia que tinham conseguido o milagre da exclusão da sociedade. De repente, não mais que de repente, a herança maldita do PT explodiu e abriram-se estradas divergentes. O que parecia um fracasso assimilado, deu lugar a manifestações entusiasmadas de desejos. A torpe "pax lulista" acabou. Que acontecerá com o país?

A história de minha vida política sempre oscilou entre dois sentimentos: esperança e desilusão. Cresci ouvindo duas teses: ou o Brasil era o país do futuro ou era uma zorra sem nome, um urubu caindo no abismo. Nessa encruzilhada, eu cresci. Além disso, dentro dessa dúvida, havia outra: UDN ou PTB?

Votei em Jânio, confesso. Eu tinha 18 anos e não me interessei por Lott, aquele general com cara de burro, pescoço duro. Jânio me fascinava com sua figura dramática, era uma caricatura vesga cheia de caspa e dava a impressão de que ele, sim, era de "esquerda", doidão, "off".

Meses depois, estava no estribo de um bonde quando ouvi: "Jânio tomou um porre e renunciou!". Foi minha primeira desilusão. Eleito esmagadoramente, largou o governo como se sai de um botequim.

Ali, no estribo do bonde, eu entendi que havia uma grossa loucura brasileira rolando por baixo da política, mais forte que programas racionais: a maldição do Mesmo. Percebi que existia uma "sub-história" que nos dirigia para além das viradas políticas. Uma anomalia secular que faz as coisas "des-acontecerem", que criou "um país sob anestesia, mas sem cirurgia".

Já na UNE, eu participei febrilmente da luta pela posse do vice João Goulart, que a "direita" queria impedir. O Exército do Sul, com Brizola à frente, garantiu a posse de Jango, e botei na cabeça que, com militares "legalistas" e heróis de esquerda, o Brasil ia ascender a seu grande futuro.

Vivi a esperança de um paraíso vermelho que ia tomar o país, numa réplica da rumba socialista de Cuba, a revolução alegre que acabaria com a miséria e instalaria a cultura, a grande arte, a beleza, com o presidente Jango e sua linda mulher fundando a "Roma tropical", como berrava Darcy Ribeiro em sua utopia.

Não haveria golpes, pois o "exército é de classe média e, portanto, a favor do país" – nos ensinava o PCB. Dá arrepios lembrar a assustadora ingenuidade política da hora.
No dia 31 de marco de 64, estava na UNE. Havia um show com Grande Otelo, celebrando a "vitória do socialismo". Um amigo me abraçou, gritando: "Vencemos o imperialismo norte-americano; agora, só falta a burguesia nacional!".

Horas depois, a UNE pegava fogo, e eu pulava pelos fundos sob os tiros das brigadas juvenis de "direita". Acho que virei adulto naquela manhã, com a UNE em fogo, com os tanques tomando as ruas. Eu acordara de um sonho para um pesadelo. No dia seguinte, diante de mim, materializou-se a "figura" de Castelo Branco, como um ET verde-oliva.

No entanto, os tristes dias militares de Castelo ainda tinham um gosto democrático mínimo, que até serviu para virilizar nossa luta política. Agora, o inimigo tinha rosto e contra ele se organizou uma resistência cultural refinada pelo trauma e que perdeu o esquematismo ingênuo pré-64. As ideias e as artes se engrandeceram na maldição.

Nossa impotência estimulou uma nova esperança. A partir daí, as passeatas foram enchendo as ruas, num movimento democrático que acreditava que os militares cederiam à pressão das multidões. Era ilusão.

Ventava muito em Ipanema, em 1968, enquanto o ministro Gama e Silva lia o texto do Ato Institucional 5 na TV, transformando o país num campo de concentração. Com uma canetada, o Costa e Silva, com sua cara de burro, instado pela louca "lady Macbrega Yolanda", fechou o país por mais 15 anos.

Vieram os batalhões suicidas das guerrilhas urbanas. Nos anos do milagre brasileiro, os jovens românticos ou foram massacrados à bala ou caíram na esperança da contracultura, enquanto os mais caretas enchiam o rabo de dinheiro nos "milagres" de São Paulo.

O bode durou 15 anos, e a democracia virou uma obsessão. "Quando vier a liberdade, tudo estará bem!", dizíamos. Só pensávamos na democracia, mas ninguém reparou que ela foi voltando menos pelos comícios e mais pelas duas crises do petróleo que criaram a recessão mundial.

Os milicos e a banca internacional nos devolveram a liberdade na hora de pagar a conta da dívida externa. Os militares queriam se livrar da batata quente da falência do Estado e entregaram-no aos paisanos eufóricos com a vitória de Tancredo. Nova esperança! Aí, veio um micróbio voando, entrou no intestino do Tancredo e mudou nossa história. E começou a grande desilusão. Com a volta da democracia, no período Sarney, tudo piorou. Nossos velhos vícios reapareceram. Apavorado, vi que a democracia só existia de boca, não estava entranhada nas instituições que passaram a ser pilhadas pelos famintos corruptos que tomaram o "pudê" – todos "nobres vítimas da ditadura". A ditadura virou um OMO, para lavar canalhas. Daí para frente, só desilusão e dor: inflação a 80% ao mês (lembram?), o messianismo de Collor, montado no cavalo louco da República.

Depois, nova esperança com o impeachment; depois, mais esperança com o Plano Real, vitória da razão reformista com FHC, com o Brasil no tetra, céu azul, esperança sem inflação. Nunca acreditei tanto na vida.

Mas, hoje, estou aqui, com medo e tristes pressentimentos.

Dilma poderia ter sido uma ponte entre a teimosia regressista e uma modernização mais liberal; mas se revelou teimosa e arrogante por um lado e fiel "tarefeira" pelo outro, dominada pela gangue que quer "mudar o Estado". O maior inimigo do Brasil é a aliança entre uma ideologia "de esquerda sindicalista" e a oligarquia "de direita" – como é hoje. Nem UDN nem PTB. Vêm grandes crises por aí, mas continua no horizonte a vitória do partido do Mesmo.

Fonte: Segundo Caderno / O Globo

Bom, mas tem de melhorar - Eliane Cantanhêde

O IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) confirma que o Brasil, mesmo que aos trancos e barrancos, vai no bom caminho. E que, apesar das críticas e da guerra cruenta entre PSDB e PT, foi sob o comando do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e do grande líder de massas Luiz Inácio Lula da Silva que o país efetivamente deu seu grande salto.

A pesquisa mostra que o IDH do Brasil melhorou 47,5% em duas décadas e saiu de "muito baixo" para "alto". Em 1991, 85,8% dos municípios brasileiros tinham um IDH "muito baixo". Em 2010, era apenas 0,6%.

O maior salto é no Norte/Nordeste, mas o Sul/Sudeste continua na dianteira. O DF fica em primeiro lugar, mas, como é "hors-concours" por ser muito peculiar, cede lugar a São Paulo, ou seja, à "locomotiva" do Brasil. De onde, aliás, o carioca Fernando Henrique e o pernambucano Lula saíram para o Planalto e para mudar a cara do país.

Um porque combateu a inflação, elevou o patamar internacional do país, botou a casa em ordem na economia e deu o "start" em programas sociais cruciais. O outro porque manteve uma política macroeconômica saudável e transformou o grande momento mundial em oportunidade para uma inclusão social histórica.

Caminhando ao lado dos dois regimes --um continuação do outro--, estávamos a população em geral, a academia, a indústria, o agronegócio e a imprensa independente cobrando, provocando, apontando erros e exigindo sempre mais. Assim se constrói um país melhor. Assim se consolida a cidadania. E daí 1 milhão de pessoas vão às ruas botando o dedo nas feridas e na cara dos governantes de todos os níveis.

Há muito ainda a fazer, principalmente na educação. O último lugar em desenvolvimento humano foi Melgaço (PA), onde metade da população não sabe ler nem escrever. Enquanto houver "Melgaços" no Brasil, gritemos. Oba-oba os governantes já fazem à exaustão.

Fonte: Folha de S. Paulo

Costela de Adão - Dora Kramer

A clareza na expressão de linguagem não é o forte da presidente Dilma Rousseff. Em suas declarações, verbos, substantivos, adjetivos e advérbios não primam pela harmonia. Nisso é parecida com o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, mas com sinal trocado.

Na dificuldade com o manejo das palavras, ele torna simplista o argumento, usa a "quase lógica" que dispensa a coerência, mas parece convincente aos ouvidos do senso comum. A precisa conceituação foi feita pela cientista política Luciana Veiga ainda nos primórdios do governo Lula sobre os espantosos discursos dele.

Já Dilma é tortuosa. Falta-lhe fluência mesmo nos pronunciamentos escritos. No improviso, não raro diz alguma coisa que parece significar outra. Esta, por sua vez, dá margem a uma terceira interpretação e o conjunto nem sempre forma um raciocínio claro.

É o caso da recente afirmação que mereceu destaque na entrevista à Folha de S. Paulo, edição de domingo último, sobre a hipótese de o antecessor disputar a eleição de 2014 no lugar dela.

Disse a presidente: "Eu e o Lula somos indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não cola. Agora, falar volta Lula e tal... Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu".

Não saiu do governo? Não foi aonde? Haveria na declaração da presidente uma confissão de tutela ou terá ela querido apenas sair pela tangente no assunto reeleição que, com seu beneplácito, foi posto à mesa por Lula no início do ano alegadamente para conter o crescimento da palavra de ordem "volta" no PT e adjacências?

Diante da quantidade de sombras de dúvidas que permeiam a resposta, a conclusão ficou ao gosto de cada freguês. Segundo a oposição, Dilma deu sinal de fraqueza, reconheceu que governa teleguiada pelo antecessor. De acordo com a situação, a presidente quis dizer que a nação petista é firme e indissolúvel como uma rocha.

Aqui também cabe uma terceira avaliação sobre o significado das palavras da presidente. Ao repudiar qualquer possibilidade de separação entre orientador e orientanda, Dilma praticamente anula a chance de armação de um plano B do PT para 2014 tendo como candidato o ex-presidente.

Se não foi essa a intenção da presidente ao dizer que os dois são "indissociáveis", deixou patente que Lula não poderá se apresentar em feitio de contraposição a ela, apresentada que foi ao País por ele como uma versão melhorada de sua imagem e semelhança.

Na mesma linha, o ex-presidente outro dia informou: "Dilma não é mais que uma extensão da gente lá". O eleitor haverá de concordar. Para o bem ou para o mal.

Sinuca. Quando mudou a regra de cálculo para o reajuste do salário mínimo a partir de 2012, o governo retirou do Congresso a prerrogativa de debater anualmente o assunto.

O argumento: a norma deveria ser permanente e, o aumento, estabelecido pela combinação do índice Nacional de Preços ao Consumidor com a taxa de crescimento da economia dos dois anos anteriores.

Na prática, agora, dois problemas: criou-se uma indexação, perigosa em tempos de inflação escapando da meta, e eliminou-se a possibilidade de divisão de responsabilidade com o Legislativo por reajuste reduzido em decorrência do PIB diminuto.

Emérito. Na celebração geral ao papa Francisco falta o reconhecimento ao antecessor Bento XVI por ter aberto espaço, com sua renúncia, para a pessoa certa no momento certo na condução da Igreja Católica.

Jorge Mario Bergoglio fala de humildade, simplicidade, reencontro da humanidade com valores da espiritualidade em contraposição aos excessos da materialidade. Joseph Ratzinger disse o mesmo com seu gesto de desprendimento.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Qual o sentido? - Merval Pereira

Minha primeira reação quando li a inacreditável declaração da presidente Dilma de que "não haverá "volta, Lula" porque Lula nunca saiu", na entrevista que concedeu a Mônica Bergamo da "Folha", pensei que ela caíra na própria armadilha. Ao tentar escapar de uma pergunta incômoda, fizera uma frase de efeito que acabou sendo uma admissão de submissão.

Não considerei nem mesmo que fora um ato falho, como sugeriu o Carlos Alberto Sardenberg na conversa comigo na CBN ontem, acreditando que fora, sim, uma infelicidade de quem não está acostumada com a política.

Mas, durante o dia, conversando com um e com outro, acabei abrindo uma janela na interpretação para aceitar a possibilidade de que o que considerava uma autêntica "barbeiragem" da presidente pudesse ser na verdade audaciosa manobra: e se em vez de uma frase infeliz a presidente tivesse dado, isso sim, uma "trucada" nos que querem vê-la substituída por Lula na campanha eleitoral de 2014?

Ao explicitar a simbiose com o ex-presidente, Dilma esvazia a principal razão de uma eventual substituição sua por Lula. Ao dizer que Lula sempre esteve no governo, Dilma deixa nas entrelinhas a mensagem de que seus acertos e erros têm que ser divididos com o ex-presidente, o responsável final pela sua candidatura e, sobretudo, o parceiro do que tem sido feito no governo, o avalista de sua candidatura à reeleição.

Os que nos bastidores tramam para que Lula venha a ser o candidato à Presidência em 2014 certamente consideram que a manobra vale a pena, mesmo com os riscos que ela traz. Lula, no entanto, parece estar ciente dos perigos da empreitada, e resiste aos apelos. Como bom político, ele sabe que é quase impossível assumir o posto de candidato deixando no Palácio do Planalto uma presidente em pleno exercício do mandato, mas abandonada pelos seus e pelos aliados.

Como justificar a presença de Lula na campanha sem atribuí-la ao fracasso de Dilma? Como pedir para os eleitores esquecerem que foi ele o responsável por colocá-la no Palácio do Planalto? Além do mais, no limite, para o PT, perder com Dilma é melhor do que perder com Lula.

Há quem compare a atual situação da presidente Dilma ao final dos governos Jânio Quadros e Collor, mas não creio que o momento político seja semelhante, nem vejo sinais de que a presidente Dilma esteja perdendo a capacidade de governar. Se bem ou mal, essa é outra questão.

Ela está enfraquecida, é verdade, e até o momento não tem dado sinais de se preparar para dar a volta por cima. Nenhuma das medidas anunciadas parece razoável para dar resposta aos anseios da população, e a insistência em manter inalterada a equipe ministerial, seja em tamanho ou em pessoas, mostra uma incapacidade de mudança de rumos preocupante.

A continuar nessa marcha, o mais provável é que chegue à eleição desidratada de poder político, com sua base aliada abandonando o navio em busca de novos rumos, talvez como o ex-presidente José Sarney no fim do mandato.

Antecipando-se a essa provável debandada, o grupo do governador gaúcho, Tarso Genro, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, sugere que a presidente abra mão de seus aliados "conservadores" para seguir adiante com uma aliança de esquerda, dando uma guinada em seu governo.

Essa seria talvez a maneira mais rápida de perder completamente o apoio da classe média, que já está nas ruas pedindo mudanças em setores-chave como Saúde, Educação, transportes, segurança pública. Por isso mesmo, atribui-se ao ex-presidente Lula sugestão oposta.

Para recuperar esse apoio, e manter sob suas asas os partidos que hoje já estão à procura de outro caminho eleitoral, a manobra do governo teria que ser diametralmente contrária, com uma guinada ao centro que abrisse perspectivas futuras de melhorias.

Talvez não haja tempo mais para ter resultados ainda em 2014, mas fazendo mudanças na direção correta, a presidente poderia pelo menos vender a possibilidade de um futuro melhor em seu segundo mandato. Para tal teria que aceitar mudar a política econômica, colocando no lugar de Guido Mantega um ministro com luz própria, que por si só levasse esperança ao mundo dos negócios.

Mas, embora ela negue que seja tão centralizadora quanto dizem, há quem não veja chance de mudanças dessa ordem por ser Dilma quem dizem que ela é.

Os pontos-chave

1. A frase de Dilma - "Não haverá "volta, Lula" porque Lula nunca saiu" - foi uma infeliz admissão de submissão ou uma manobra contra os que no PT trabalham pela volta do ex-presidente em 2014?

2. Como justificar a presença de Lula na campanha sem atribuí-la ao fracasso de Dilma? Como pedir para os eleitores esquecerem que foi ele o responsável por colocá-la no Planalto?

3. Para recuperar apoio, Dilma teria de aceitar mudar a política econômica. Mas nada indica que isso será feito

Fonte: O Globo

Crise está na base de apoio no Congresso - Raymundo Costa

Na entrevista que concedeu ao jornal "Folha de S. Paulo", publicada no domingo, a presidente Dilma Rousseff nomeou o interlocutor econômico do governo: é e continuará sendo o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Faltou dizer quem é o interlocutor político, outro fator de tensão na atual conjuntura. Como a presidente também afirmou que não pretende mexer na equipe de governo, o pressuposto é que Dilma decidiu enfrentar os duros embates com o Congresso, previstos para este semestre, com a mesma equipe e o mesmo modus operandi até agora empregados.

Mudanças no ministério devem ficar mais para o fim do ano ou início de 2014, quando a presidente terá de substituir de 10 a 12 ministros que serão candidatos às eleições de 2014, entre eles Ideli Salvatti (Relações Institucionais), que tanto pode ser candidata ao governo estadual como ao Senado por Santa Catarina. O Palácio do Planalto conhece o cardápio indigesto que o Congresso pretende lhe oferecer na volta do recesso, mas não tem muitas opções além das que atualmente dispõe para coordenar e tentar conduzir esse processo. As alternativas apresentadas pelo PT são piores.

Uma delas seria a nomeação do deputado Ricardo Berzoini (SP) para o lugar. Ex-ministro do governo Lula e ex-presidente do PT, a nomeação de Berzoini seria mais um problema que solução para o governo. Em 2006, então presidente da sigla, Ricardo Berzoini foi afastado do comando da campanha da reeleição do ex-presidente Lula da Silva por conta do envolvimento de meia dúzia no escândalo dos "aloprados", como Lula chamou auxiliares que teriam confeccionado um dossiê para incriminar o PSDB no desvio de recursos para a Saúde. O deputado também é investigado por envolvimento em suposto desvio de recursos da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop) para o caixa 2 do PT.

Reforma no fim do ano deve atingir pelo menos 12 ministros

O Congresso mudou as regras de convivência entre os dois poderes com o jogo em andamento, ao decidir votar vetos da presidente da República logo na reabertura do semestre legislativo, e com isso surpreendeu o Palácio do Planalto. Numa avaliação realista, o governo pode perder, entre outras, a votação do veto ao fim da multa de 10% sobre o FGTS e a do projeto que estabelece o Orçamento impositivo.

A disputa pela multa dos 10% será árdua, pois envolve interesses combinados de empresários e dos congressistas, independentemente de cor partidária. Pior para o programa Minha Casa Minha Vida, ao qual seriam destinados os recursos arrecadados. Votação difícil, o que não quer dizer que o governo jogou a toalha. O empenho maior, no momento, é em torno da negociação do orçamento impositivo. Caminham bem as conversas no sentido de restringir o alcance do projeto, talvez apenas às emendas parlamentares. Não deixará de ser uma derrota para este e os próximos governos. Os presidentes manobram com o Orçamento autorizativo - como é atualmente - para conquistar simpatias e votos no Congresso. O Executivo perde, o Legislativo ganha.

Chega a ser desconcertante a tranquilidade exibida pelo governo diante da ameaça de derrotas no Congresso, sobretudo na derrubada de vetos da presidente da República, sempre fator de risco para a decantada governabilidade. Os dois maiores partidos da aliança que elegeu a presidente Dilma esperavam e esperam mudança no comando da coordenação e articulação política. O PMDB espera que o vice-presidente Michel Temer seja mais acionado; o PT é um partido estraçalhado, o explica a desorganização e potencializa o risco de desintegração da base de apoio, se a presidente continuar a perder o apoio da opinião pública. Não é por acaso que Dilma insiste na associação de sua imagem com a de Lula, quando afirmou à Folha que "Lula não vai voltar porque nunca saiu".

O PMDB é sempre o problema apontado no Congresso, especialmente na Câmara. Pode ser. Mas certamente seria menor não fosse a divisão interna do PT. Em todo o processo do mensalão, desde a denúncia do esquema até hoje, passando por mais de 100 dias de julgamento ano passado, a corrente dominante do partido, antes denominada campo majoritário e que hoje atende pela designação de Construindo um Novo Brasil, perdeu espaços no governo e no Congresso. Na gestão passada, os dois líderes de bancada, Paulo Teixeira (SP), na Câmara, e Walter Pinheiro (BA), eram de outra tendência, a Democracia Socialista, ou simplesmente DS, como é chamada. O ex-presidente da Câmara, Marco Maia, é da CNB, mas, devido ao mensalão, passou o mandato constrangido e imobilizado para encaminhar as demandas de interesse do grupo.

A CNB recuperou agora os espaços congressuais: tem os vice-presidentes da Câmara (André Vargas, do Paraná) e do Senado (Jorge Viana, do Acre) e os líderes das duas bancadas, o deputado José Guimarães (CE) e o senador Wellington Dias (PI). Posicionada no Legislativo, quer agora recuperar espaços (muitos) perdidos no governo.

O campo majoritário queixa-se de não participar das decisões estratégicas do governo e não se considera representado por Ideli Salvatti (Relações Institucionais) ou pelo senador Aloizio Mercadante, ministro da Educação cada vez mais enfronhado nos arranjos de natureza política. Ao contrário, a CNB vê o governo com a "cara" da DS, tendência a que pertence, por exemplo, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, o dono das chaves do cofre e senhor das concessões de rodovias, ferrovias, aeroportos e do pré-sal a ser feitas neste semestre. Em associação com o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, essa é a principal fonte do boicote da base governista. Antes Cunha usava o PT; agora é usado por ele para fazer o que o partido não pode assumir publicamente.

A disputa no Congresso é por espaço no governo. Na falta de uma oposição maior e mais consistente, o conflito se desenvolve dentro da base de apoio do governo e dentro dos partidos que integram a coalizão governista.

Fonte: Valor Econômico

Luz de Francisco - Tereza Cruvinel

A passagem do papa Francisco pelo Brasil foi uma brisa fresca e reconfortante, para a Igreja, em sua hora de renovação, e para o Brasil e seu momento turbulento. Com simplicidade, a figura de "bispo alegre", como preconizou, o papa nos deu grandes lições nesses sete dias de uma convivência que não se limitou ao Rio nem à Jornada Mundial da Juventude. O mundo midiático levou a figura luminosa e a fala mansa a todas as casas.

Ele chegou dizendo que não trazia ouro nem prata, mas deixa-nos um legado valioso. Com o que disse e o que não disse, puxou-nos da mesquinharia cotidiana para um refrigério do espírito. Num tempo em que minorias radicais cometem depredações em série, a reunião pacífica de 3,5 milhões de pessoas na missa de domingo, em Copacabana, evidenciou seu poder de mobilização e a índole dominante no país. Francisco chegou cauteloso e foi seduzindo os brasileiros, inclusive os não católicos, como aquele garoto que participou da peregrinação com um cartaz: "Sou evangélico, mas gosto do papa". Em falas sucessivas, foi tocando nas feridas do Brasil e do mundo, mas sempre com a voz suave, jamais no tom severo ou sapiente dos bispos tristes. Falou de desigualdade, drogas, tragédias. "Candelária, nunca mais." Dos protestos atuais, ensinando que entre o vandalismo e a alienação pode existir o diálogo. De corrupção, pedindo aos jovens que não desistam de querer mudar o mundo. "O futuro exige hoje reabilitar a política, uma das formas mais altas de caridade." Na visita à favela , qual político conseguiria ser tão gentil, e ao mesmo tempo condenar o alcoolismo: "Queria bater em cada porta, dizer "bom dia", pedir um copo de água, beber um cafezinho, e não um copo de cachaça".

Um dos segredos de Francisco é a linguagem, plena de metáforas sutis, mas eficientes. Mais de uma vez condenou a cultura do consumo e do descartável, do ter acima de tudo. "Não há lugar para o idoso nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada." Olha aí, no meio de frase, a alfinetada nos que defendem o aborto, embora não tenha colocado o dogma no centro dos discursos.

Sua missão é reformar e resgatar a Igreja, tirando-a do conforto das sacristias. No Brasil, ele acordou os bispos e dirigentes para o desafio. "Eu quero agito nas dioceses, que vocês saiam às ruas. Eu quero que a Igreja vá para as ruas, eu quero que nós nos defendamos de toda acomodação, imobilidade, clericalismo. Se a Igreja não sai às ruas, se converte em uma ONG. A Igreja não pode ser uma ONG." E com que delicadeza ensinou-os que, assim como não existe mãe por correspondência, a Igreja não pode atuar através de bulas e homilias. Precisa tocar o próximo e buscá-lo. Na entrevista exclusiva ao repórter Gerson Camarotti, exibida pelo Fantástico, o tom coloquial realçou a personalidade sedutora e a vocação para a mudança. Explicou a opção pelo despojamento que tem despertado críticas, ainda contidas, dos setores mais conservadores do Vaticano, falando em populismo e demagogia. "Penso que temos que dar testemunho de uma certa simplicidade — eu diria, inclusive, de pobreza. O povo sente seu coração magoado quando nós, as pessoas consagradas, são apegadas a dinheiro."

A oratória clara e direta, mas sempre agradável, foi a chave da vitória na passagem pelo Brasil, com o mundo inteiro esperando sinais sobre os rumos do pontificado. Com enorme habilidade política, dizendo ou deixando de dizer, mostrou a quê veio. Evitou repisar os dogmas polêmicos, como os relacionados a celibato, aborto, homossexualidade e métodos contraceptivos. Seria inútil e pouco construtivo insistir nisso com os jovens, pois tais dogmas não vão cair, pelo menos tão cedo. Mas já voando, mostrou que, com ele, a Igreja será menos intransigente: "Se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?". Condenou as correntes ideológicas dentro da Igreja, tanto as de viés marxista (Teologia da Libertação), como as voltadas ao passado, o conservantismo ortodoxo. Mas sinalizou também que não haverá perseguições. Até porque, a opção pelos mais pobres dialoga muito com a corrente socialmente engajada.

Passada a brisa, a vida continua e teremos semanas difíceis na política. Que a luz de Francisco ajude os que decidem e dissipe as brumas da intolerância que nos rondam.

Agosto quente
No governo, espera-se um mês de agosto agitado. Na próxima semana, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, marcará o dia de apreciação dos recursos apresentados pelos réus da Ação Penal 470, vulgo mensalão. Se os recursos forem rejeitados, a coisa para. Mas se forem aceitos, terá início uma fase de julgamento, com transmissões ao vivo e todos os debates que já vimos na primeira fase. Será fermento puro no mau-humor nacional. As sessões atravessarão agosto. E, como é sabido, está na agenda das ruas uma grande mobilização anticorrupção no 7 de Setembro. Afora isso, a pauta no Congresso tem assuntos para lá de polêmicos.

Mais médicos: MP ameaçada
A medida provisória do programa Mais Médicos, resposta do governo aos protestos contra a má qualidade da saúde, será analisada por uma comissão especial mista do Congresso, que já teve os integrantes indicados. Apesar do recesso, eles têm trocado figurinhas e há sinais de que a proposta da presidente Dilma pode ser bastante desfigurada. Um deles, o deputado peemedebista Francisco Escórcio (MA), arrisca: "Obrigar os estudantes de medicina a cumprir serviço obrigatório de dois anos no SUS é comprar uma briga ruim na hora errada. E dispensar os estrangeiros de fazer o exame Revalida soa como privilégio".

Fonte: Correio Braziliense

‘O Papa quer uma Igreja mais próxima do pobre’

Padre João Batista Libânio, que defende a Teologia da Libertação, vê incentivo em Francisco

Tatiana Farah

SÃO PAULO - Aos 81 anos, o padre João Batista Libânio exibe fôlego jovem: é professor da Faculdade Jesuíta, de Belo Horizonte, escreve livros e artigos, e não deixa o ofício. Defende com animação a teologia da qual é um dos principais teóricos, a da Libertação. Antes da chegada do Papa Francisco, Libânio deixou Minas para pregar a mais de mil jovens de todo o mundo em Fortaleza, numa preparação para a Jornada Mundial da Juventude. O padre, que é primo de Frei Betto, outro defensor da Teologia da Libertação, vê no novo Papa um alento para os pregadores que, desde os anos 80, atuam junto às classes mais pobres e aos marginalizados na América Latina.

Como está a Teologia da Libertação hoje no Brasil?

Ela continua viva. Teve um congresso latino-americano no ano passado com uma presença muito forte de jovens, moças e rapazes. Com essa geração jovem, ela vai continuar.

O Papa Francisco tem um perfil mais próximo da Teologia da Libertação ou é mais parecido com o Papa Bento XVI?

O perfil dele é mais próximo do pobre, das pessoas marginalizadas e das pessoas perseguidas. Tanto que a primeira visita dele na Itália foi a Lampedusa, cidade onde estão muitos negros fugidos da África, buscando a Europa, vivendo em condições difíceis. Com a viagem, ele quis mostrar essa proximidade das pessoas mais marginalizadas no mundo de hoje.

João Paulo II também tinha uma atuação nesse sentido, mas não parecia ser favorável à Teologia da Libertação.

Quando ele era Papa, a Sagrada Congregação da Sé publicou dois textos (sobre a Teologia da Libertação), o segundo deles mais crítico. Mas depois ele escreveu uma carta aos bispos do Brasil dizendo que a Teologia da Libertação era necessária. Então ele também apoiou, à sua maneira. Talvez não estivesse próximo porque é muito difícil para um homem que viveu na Europa, nos países do Leste, entender a situação da América Latina, que é uma situação de opressão. O tipo de teologia que produzimos aqui é diferente da produzida naqueles países.

Pelo visto, então, não haverá essa dificuldade com o Papa Francisco porque é um homem da América do Sul. O senhor acredita que isso vá facilitar a compreensão da Igreja Católica acerca dos problemas da América Latina?

Sem dúvida. Sendo argentino, tendo sido arcebispo, cardeal na Argentina antes de ser Papa, ele mostra uma proximidade, uma compreensão melhor dos nossos problemas. Agora, o prefeito da Congregação da Doutrina da Fé escreveu um texto que correu o mundo inteiro, mostrando que a Teologia da Libertação é uma autêntica e verdadeira teologia. Portanto, há uma situação muito positiva de Roma em relação a ela.

Mas a Teologia da Libertação foi perseguida e chamada de marxista.

As dificuldades vieram de dois campos. Do político, porque era crítica ao capitalismo e aos governos da ditadura, e outra do interior da Igreja. Havia uma desconfiança de que a Teologia da Libertação poderia afetar algumas estruturas internas da Igreja com suas críticas. Considero a palavra perseguição muito forte. Mas houve uma certa reserva e um certo controle por se entender que essa teologia tinha um viés ideológico. Agora, isso está superado, principalmente com o Papa Francisco.

O senhor diz que a Teologia da Libertação continua viva, mas ela sofreu um enfraquecimento.

Eu distinguiria dois tipos de atualidades, a mais externa e midiática, e quanto a essa, sem dúvida houve uma diminuição. Mas a realidade do significado, da importância dela, do alcance dela, continua forte.

A vinda do Papa dá mais alento à Teologia da Libertação?

Ele tem feito gestos que mostram sua proximidade com o povo. Para nós, que somos comprometidos com as massas, as camadas populares, é um incentivo para que continuemos o trabalho de ajuda, de conscientização e de libertação dos marginalizados do nosso continente. O Papa quer formar uma Igreja mais próxima do pobre e isso é mais do que a Teologia da Libertação. É todo um processo da Igreja que se aproxima dos mais pobres. Isso, sem dúvida, nos dá alento. A teologia é só uma reflexão, o mais importante é a prática libertadora da Igreja.

Onde estão hoje os nichos dos católicos e do clero mais próximos da Teologia da Libertação?

Certamente são as pastorais sociais e, se você se lembrar bem, as campanhas da Fraternidade, praticamente todas elas têm um cunho social, o que mostra que a Igreja no Brasil está engajada com os problemas sociais.

Mas tem dois jeitos de a Igreja estar mais próxima do povo, pela libertação e pela caridade. Muitas dessas campanhas não vão mais no caminho da caridade?

Eu prefiro usar a palavra compromisso, porque a palavra caridade está mais desgastada. Compromisso com as camadas populares. E o compromisso é para ajudar o povo em seu processo de libertação.

O que o senhor considera mais importante no discurso do Papa para o Brasil e a América do Sul?

Ele tem dado muitos sinais de simplicidade de vida e de desejo de estar próximo das pessoas. Isso já é uma grande ajuda, porque é ruim para a Igreja ficar longe do povo.

Qual o diferencial de Francisco em relação a João Paulo II e Bento XVI?

Bento XVI era, primeiramente, o teórico, o acadêmico. Papa Francisco, pelo trabalho pastoral, tem mais proximidade com as pessoas. João Paulo II era um homem muito capaz de comunicar-se pela via midiática, de falar com as multidões.

Papa Francisco também poderá dar um novo fôlego aos católicos no Brasil, que hoje vê um forte processo de crescimento das igrejas evangélicas?

Sem dúvida dará um novo alento e vai conhecer essa situação, podendo nos ajudar a encontrar soluções para esse diálogo mais claro, mais lúcido e mais livre com os nossos irmãos evangélicos. Ele é mais ecumênico e poderá nos ajudar nessa questão

Fonte: O Globo

Panorama Politico -Ilimar Franco

Discutindo a relação
A conturbada relação do Planalto com o Legislativo vai reunir, na próxima semana, ministros e líderes do governo no Congresso. A nova sistemática de votação dos vetos é o drama da hora. Na volta do recesso, os vetos terão que ser votados obrigatoriamente. Por isso, o Executivo vai ter que negociar melhor seus projetos e MPs, além de fazer maiores concessões se quiser aprovar suas medidas.

Não vejo ninguém na minha frente
Na campanha de Aécio Neves (PSDB), não há temor com a competitividade de José Serra (pelo PPS) e de Marina Silva (Rede). Seus estrategistas dizem que as pesquisas mostram que "Serra tem um teto baixo, acumulou uma rejeição razoável, que o eleitor procura uma liderança nova e que Serra está ligado ao passado". No caso de Marina, avaliam: "É natural que ela se beneficie mais das manifestações, mas suas fragilidades tendem a aparecer". E citam "a falta de preparo para governar, a ausência de sustentação partidária e um discurso nebuloso sobre o que fazer com o país". Quanto a Aécio, registram que ele pulou de 10% para 17%, após o programa do PSDB na TV.

Para inglês ver
Os discursos inflamados de setores petistas contra os aliados conservadores, sobretudo do PMDB, não sensibilizam o Planalto. Os porta-vozes do governo Dilma minimizam. Eles dizem que são "discursos da boca para fora".

Mudar de canal
A maior batalha entre o PT e o PSDB é pelo PP. O governo aposta que o ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) é a garantia do apoio do partido presidido pelo senador Ciro Nogueira (PI), na foto. Os tucanos apostam nas contradições regionais para conseguir a neutralidade do PP, evitando que seu tempo de TV vá para a campanha da presidente Dilma.

Recordistas
As duas MPs mais polêmicas do Congresso, nos últimos anos, receberam um número recorde de emendas parlamentares. A dos Portos recebeu 646 propostas de reformulação e a dos Médicos recebeu 567 sugestões de mudanças no texto.

Procura-se
O chapéu que a presidente Dilma usou na missa do Papa Francisco, domingo, em Copacabana, foi fruto de uma ginástica. Com muito sol no rosto, Dilma pediu providências. Um assessor foi à beira da praia e convenceu uma senhora, que caminhava, a emprestá-lo. A generosa mulher foi à ala de autoridades e até tirou fotos com Dilma. No final da missa, o chapéu foi devolvido.

Ufa!
Um dos padres designados a ficar com o Papa Francisco desde sua chegada dava sinais de cansaço no domingo. E ele contou à presidente Dilma que, por baixo da batina, usava uma camiseta com a frase: "Eu amo segunda-feira."

A explicação
O fundo Postalis, dos funcionários dos Correios, diz que o déficit de R$ 985 milhões não se refere apenas à rentabilidade dos investimentos (MDX, de Eike Batista), mas também à mudança na taxa de juros e ao aumento da expectativa de vida.

O pré-candidato ao governo da Bahia Rui Costa, da tendência Reencantar, decidiu apoiar a reeleição de Rui Falcão para a presidência do PT.

"A eleição presidencial do ano que vem será uma eleição aberta. Qualquer um dos candidatos pode ganhar o pleito e chegar ao Planalto"
Arnaldo Jardim
Deputado federal (PPS-SP)

Fonte: O Globo

Brasília-DF - Luiz Carlos Azedo

Estratégia de risco
A presidente Dilma Rousseff resolveu aguentar o aguaceiro pelas ventas, como diria um velho marujo. Não quer ceder às pressões dos petistas e aliados para mexer na equipe de governo, também não pretende mudar a sua equipe econômica. Aposta no poder de sedução da proposta de plebiscito para a reforma política e numa agenda positiva para a economia no segundo semestre. A primeira é miragem; a segunda, uma travessia no deserto.

Para seus críticos, essa é uma estratégia de risco. Estaria como aquele príncipe lembrado por Nicolau Maquiavel que perdeu o reino por excesso de prudência, sem se aperceber que a fortuna era outra, exigia outras virtudes para conservar o poder. Dilma pensa de outra forma: avalia que o pior já passou, a estabilidade da economia foi mantida, a inflação está em queda, mesmo que o mundo cresça pouco. Acredita que os investimentos estarão de volta no segundo semestre com os leilões de petróleo e as concessões de rodovias, ferrovias e postos.

O maior problema da presidente Dilma, porém, é político. Nada mudou para o Congresso, onde a base está desarticulada, durante o recesso. A Câmara, sob comando de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pintou-se para a guerra. É certo que os partidos vive uma crise de representação, mas a popularidade da presidente da República também entrou em baixa. Mês aziago, agosto promete.

Mobilidade//
Convencida de que o transporte de massas passou a ser a principal demanda das cidade, a presidente Dilma Rousseff anuncia hoje a liberação de dinheiro para projetos de mobilidade urbana, em São Paulo. Dos R$ 50 bilhões prometidos para todo o país, o governo de São Paulo espera receber R$ 3,5 bilhões

Obstáculos
A ex-senadora Marina Silva corta um dobrado para conseguir fundar seu novo partido, a Rede Solidariedade. O deputado tucano Walter Feldmann, que articula a criação da Rede com Marina e deve aderir à nova legenda, anuncia que a prioridade agora é colher assinaturas. Sem o registro partidário na Justiça Eleitoral será impossível atrair parlamentares para a Rede Sustentabilidade. Cerca de 491 mil assinaturas estão sendo checadas nos cartórios eleitorais.

Ponto final
O líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), pôs um ponto final na polêmica sobre a indicação do deputado Cândido Vaccarezza para coordenador da comissão encarregada de elaborar a reforma política pelo presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). "O PT tem claro que ele coordenará o grupo e que quem representa o partido é o Ricardo Berzoini. Temos agora coisas mais importantes com que nos preocupar. Esse assunto está encerrado", garante. Ricardo Berzoini (PT-SP) substituiu o deputado Henrique Fontana (PT-RS), que renunciou à tarefa inconformado com a indicação de Vaccarezza.

Naufrágio
Foi a pique o projeto de fusão do PPS com o PMN, que daria origem a um novo par tido, o MD. Telma Ribeiro, secretária-geral do PMN, anunciou a decisão de voltar atrás depois de convenção nacional. Ela havia dado um ultimato ao presidente do PPS, Roberto Freire (SP), para que desse entrada no registro do novo partido, mas ele decidiu aguardar decisão da Justiça Eleitoral sobre a preservação dos mandatos dos parlamentares que aderissem à nova legenda.

Violência
O programa Pacto pela Vida, do governo da Bahia, começa a dar frutos: houve queda de 10,8% de crimes violentos em relação ao mesmo período de 2012. Na Região Metropolitana de Salvador, as cidades de Simões Filho, Camaçari e Lauro de Freitas, campeãs da criminalidade, a redução chegou a 20,5%.

Mais um
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu lançar seu livro, Pensadores que inventaram, o Brasil no dia 15 de agosto, no Cine Livraria Cultura, em São Paulo. Editado pela Companhia das Letras, é uma coletânea comentada de textos da chamada brasiliana, reunindo pensadores como Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.

Aeroportos/ O Tribunal de Contas da União deve receber na quinta-feira os estudos sobre as concessões dos aeroportos de Cofins (Belo Horizonte) e do Galeão (Rio), com a mesma remuneração garantida para os outros aeroportos: 6%. Empresas multinacionais que operam em aeroportos estão deixando o país por causa da baixa taxa de retorno nos aeroportos privatizados.

Garantia/ O Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) se reunirá amanhã para discutir o índice de reajuste do seguro-desemprego deste ano. O Ministério da Fazenda defende que o reajuste seja feito com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Já o Ministério do Trabalho quer a correção pelo reajuste do salário mínimo.

Azebudsman/ No sábado, perdi o rumo da Zona Oeste do Rio e confundi Guaratiba com Mangaratiba, município do litoral sul-fluminense.

Fonte: Correio Braziliense

Painel - Vera Magalhães

Na telinha
Dilma Rousseff deve fazer nas próximas semanas uma série de aparições ao vivo em programas de TV de grande audiência. A presidente tem sido aconselhada por ministros e aliados a se expor mais vezes sem a blindagem dos pronunciamentos, recurso que usou fartamente no primeiro semestre. A avaliação é que, quando fala de forma espontânea, Dilma se sai melhor. As atrações às quais ela comparecerá ainda não foram definidas, mas devem cobrir vários perfis de audiência.
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Fala, Dilma Aloizio Mercadante é um dos assessores que defendem maior exposição da presidente. Depois da entrevista exclusiva à Folha, ela deve conceder outras segmentadas, abordando programas como o Mais Médicos e o plano de concessões.

Numa boa Em resposta à crítica de empresários de que Dilma não teria bom diálogo com o setor, interlocutores dizem que a presidente saiu muito bem impressionada de reunião com Luiz Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, na semana passada.

Tô dentro Na conversa, Trabuco disse que o banco oferecerá crédito de longo prazo para os vencedores dos leilões de concessões de estradas, que o governo realiza a partir do mês que vem. O financiamento é uma das condições consideradas essenciais pelos investidores.

Arquivo Joaquim Barbosa mandou tirar cópia há alguns meses de todo o seu histórico pessoal no Itamaraty. Integrantes da pasta não gostaram de ele ter dito que a instituição é uma das "mais discriminatórias do Brasil''.

Mágoa O presidente do STF fez concurso para a carreira diplomática, mas não foi aprovado. Em entrevista recente, o ministro atribuiu o fato de não ter sido aprovado a questões raciais.

Tumulto Policiais federais e militares bateram cabeça na despedida do papa, anteontem. Segundo um membro do governo, houve cerco "desnecessário'' a Francisco pela PF na base aérea, estragando, inclusive, as imagens.

Onde pega O pano de fundo da sobreposição é a disputa entre PF e Ministério da Defesa para comandar a segurança de grandes eventos, como a Copa de 2014.

Currículo Fundadores da Rede, novo partido de Marina Silva, vão se reunir no dia 10 de agosto para elaborar uma lista de critérios para escolha dos quadros da legenda. Decidirão se vão exigir ficha limpa de todos os seus filiados, por exemplo.

Contagem... Dado o fracasso da fusão com o PMN, o PPS pediu a José Serra que considerasse sua filiação ao partido antes do prazo para troca de legendas para a eleição de 2014, em 5 de outubro.

...regressiva O objetivo era aproveitar a entrada do ex-governador na corrida presidencial para arregimentar outros políticos. Serra não se animou com a proposta.

Tabuleiro O PSDB paulista prepara um rearranjo de seus deputados nas eleições de 2014. Os federais Luiz Fernando Machado e Vaz de Lima podem concorrer a vagas na Assembleia Legislativa, e os estaduais Bruno Covas e Samuel Moreira devem disputar espaço na Câmara.

Foco Em conversa com um integrante da CPI dos Transportes, Fernando Haddad (PT) disse esperar que a comissão identifique gargalos do sistema de ônibus da capital e produza um relatório para reduzir os custos do sistema na próxima licitação.

Fiscais Haddad lança na quinta-feira o Conselho Participativo Municipal, com integrantes eleitos pela população, para monitorar investimentos e serviços públicos.

Tiroteio
"Dilma e Haddad estarão juntos de novo para fazer o que mais sabem fazer: promessas. Está na hora de entregar algum resultado."
DO VEREADOR MARIO COVAS NETO (PSDB-SP), sobre a visita da presidente a São Paulo para anunciar investimentos bilionários ao lado do prefeito petista.

Contraponto
Bons hábitos à mesa

O advogado Antonio Carlos de Almeida Castro jantava com um potencial cliente francês em Paris, há algumas semanas, quando recebeu um telefonema do publicitário Duda Mendonça, a quem defendeu no julgamento do mensalão. Kakay pediu licença para atender à ligação. Quando desligou, ouviu uma queixa:

--Aqui não atendemos o celular durante um jantar.

--Mas meu cliente tinha urgência. Espero que você nunca tenha uma situação similar -- desculpou-se.

Mais tarde, o francês lhe telefonou e disse que havia se inteirado do caso de Duda. E queria contratá-lo.

Com Andréia Sadi e Bruno Boghossian

Fonte: Folha de S. Paulo

Sanear o processo eleitoral - José Eli da Veiga

É preciso reconhecer que a evolução do sistema político brasileiro está emperrada por desfavorável combinação objetiva de interesses, à qual se soma a triste incompetência dos atuais deputados e senadores em optar por desobstruir pequenos vasos, em vez de se perderem em debates sobre temerárias propostas de transplante.

Como dificilmente pode haver algo mais nocivo ao futuro de qualquer sociedade que a incapacidade de adequar suas instituições a novas circunstâncias, talvez nada seja mais crucial hoje do que destravar essa evolução, de preferência de forma incremental. Daí a importância de perguntar se o saneamento do processo eleitoral não pode dispensar recurso às sempre traumáticas emendas constitucionais. E uma resposta positiva pode ser sintetizada em cinco tópicos.

Para começar, é perfeitamente possível cortar as asas das legendas de aluguel sem reduzir o grau de liberdade garantido pela Constituição à criação de partidos. Basta que as regras a serem respeitadas na formação de coligações acabem com a farra da acumulação dos respectivos tempos de rádio e televisão e dos quinhões recebidos do atual Fundo de Assistência Financeira aos Partidos Políticos (FAFPP). Os tempos e recursos públicos de cada coligação devem ser unicamente os que cabem ao partido que tiver maior número de deputados. Extinta a possibilidade de negociar esses dois trunfos, os partidos de araque tenderão a definhar por falta de oxigênio. O que pode ser obtido com ínfimas alterações em duas leis ordinárias: a dos Partidos (9096/95) e a das Eleições (9504/97).

Partidos devem ser induzidos a se financiar exclusivamente pela captação de doações junto a seus adeptos

Também é viável democratizar as regras de alocação do Horário Eleitoral Gratuito. A cada novo partido, que esteja disputando sua primeira eleição, deve ser garantido um mínimo de dois minutos de cada hora. Do tempo restante, um terço pode ser repartido igualitariamente entre os partidos (inclusive aos novatos) e dois terços proporcionalmente ao número de deputados eleitos no pleito anterior. Sem esquecer que em caso de coligação só será considerado o tempo destinado ao partido com maior número de deputados.

Em terceiro, é preciso enfatizar que também não há necessidade de se mexer na Constituição para começar a reduzir a abjeta influência eleitoral do poder econômico. Porém, sem passar mais dinheiro público aos políticos, como acha muita gente bem intencionada, mas que desconhece a experiência internacional.

Para que se tornem autênticas ferramentas representativas de correntes de opinião da sociedade civil, partidos políticos devem ser induzidos a se financiar exclusivamente pela captação de doações junto a seus adeptos, simpatizantes e apoiadores, mantendo a maior autonomia possível em relação ao Estado. Fórmula que tem mostrado altíssima eficácia quando prevê - além da proibição de doações por pessoas jurídicas - razoáveis incentivos fiscais para as doações de pessoas físicas, com teto realista e xilindró para quem burlar tais regras.

Essa é, infelizmente, uma das principais mazelas do anteprojeto de iniciativa popular "Eleições Limpas" (www.eleicoeslim pas.org.br), que - com apoio da OAB- pretende que seja criado um "Fundo Eleitoral de Campanhas" ao lado do já discutível FAFPP. Pior: pretende limitar as doações de pessoas físicas a irrisórios R$ 700. Seria possível pecar por mais estatismo?

A quarta mudança incremental necessária ao saneamento das eleições seria a paulatina criação de circunscrições nos Estados que mais concentram eleitores. São Paulo, por exemplo, deveria ter oito, duas delas na capital, como propõe o minucioso estudo que Octavio Amorim Neto, Bruno Freitas Cortez e Samuel Pessôa publicaram na revista Opinião Pública de junho de 2011.

Finalmente, mas tão importante quanto os quatro dispositivos anteriores, é a necessidade de estimular o eleitor a comparar os programas apresentados por partidos ou coligações, sem com isso restringir sua liberdade de escolher o representante de sua preferência. Também é muito canhestra a proposta da iniciativa "Eleições Limpas" para que isso ocorra em dois turnos, pois nesse caso a lista preordenada de candidatos seria uma camisa-de-força que só aumentaria as guerras intestinas dos partidos. Inevitável em primárias internas para a composição dessa lista, mas extremamente nociva em segundo turno, quando os principais adversários de qualquer candidato seriam forçosamente seus companheiros de partido.

Bem melhor opção pode ser algo na linha do que propõe o deputado carioca Alfredo Sirkis (www.http:www.sir kis.com.br). Em pleitos proporcionais o eleitor daria simultaneamente dois votos para o mesmo mandato. Um deles em legenda de partido ou coligação, obediente à sua lista preordenada, mas outro livre, que poderia ser dado até ao último nome de qualquer das listas.

Esses cinco tópicos demonstram que intenso saneamento do processo eleitoral é imediatamente realizável se nesta volta do recesso parlamentar nossos deputados e senadores lhe atribuírem a prioridade que merece. Seria o pontapé inicial da tão badalada "reforma política".

José Eli da Veiga, professor dos programas de pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI/USP) e do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ),

Fonte: Valor Econômico

Os nós a quatro mãos - Miriam Leitão

A economia brasileira está diante de vários obstáculos que impedem o crescimento mais forte. Para recuperar o ritmo, terá que superá-los e, para isso, o governo precisa reconhecer o que não está funcionando. A presidente propôs um "pacto da verdade" mas, em seguida, fugiu dele. O fato é que os nós se acumularam e isso está derrubando a confiança dos consumidores e dos empresários.

A inflação será baixa em julho e agosto, mas ela está alta demais há muito tempo e não há previsão de quando volta ao centro da meta. A balança comercial está com déficit. Algumas commodities caíram de preço, mas isso sozinho não explica o rombo. Ele é resultado de uma importação crescente de petróleo e derivados, causada pelo incentivo ao consumo da gasolina e pelo uso das térmicas, e insuficiência de produção. O déficit em conta corrente subiu e não é coberto por investimentos diretos.

O mercado de trabalho vive um drama duplo: os empresários acham que falta mão de obra qualificada mas jovens não encontram emprego. O consumo não crescerá no ritmo que cresceu porque o endividamento das famílias dobrou nos últimos 8 anos e hoje compromete quase um quarto do orçamento familiar. Continuar estimulando o consumo, via dívida, é mais difícil. O cenário é parecido com os gastos públicos. Apenas no primeiro semestre deste ano, o governo concedeu R$ 35 bilhões em desonerações que não deram o resultado esperado.

A arrecadação cresceu 0,5% no semestre, descontada a inflação, e não há espaço para novos estímulos. O superávit primário caiu, e a dívida bruta está aumentando. A dívida que todos olham é a bruta, e, segundo dados do Banco Central, ela saiu de 54,06% do PIB, em janeiro de 2011, para 59,58%, em maio de 2013. A dívida líquida perdeu credibilidade porque passou a incorporar ativos sem liquidez, como os empréstimos feitos ao BNDES.

O PIB será baixo pelo terceiro ano seguido. As projeções para o ano que vem também caíram para a casa de 2% e o período entre 2011 e 2014 deve ser o de mais baixo crescimento dos últimos 20 anos: média de apenas 2,12%, levando em conta as projeções feitas no Boletim Focus para 2013 e 2014.

O principal gargalo é a inflação. Ela está perto do teto da meta, em 6,5%, mesmo com um nível de atividade baixo. Se a economia voltar a acelerar, ela pode ficar mais alta. A menos que a taxa caia bastante agora. Mas, se errar na dose de juros, o BC derruba demais o nível de atividade.

A balança comercial encerrou o primeiro semestre com déficit de US$ 3 bi. No mesmo período de 2012, estava com superávit de US$ 7 bi. Olhando mais para trás, em 2005, foram US$ 20 bi, de janeiro a junho.

O setor de energia é um dos gargalos. Os níveis dos reservatórios subiram, felizmente, mas ainda estão no patamar mais baixo dos últimos 10 anos para o período, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico. O ONS tem os dados no site, para consulta pública. Para economizar água, as térmicas foram acionadas. Como o governo tinha anunciado, em clima de campanha, a redução da tarifa, agora não poderá pedir para o consumidor pagar a conta do custo das térmicas. Ontem, o "Estado de S. Paulo" informou que R$ 6,7 bi terão que ser repassados do Tesouro para cobrir o custo. Não pagarão os consumidores, mas os contribuintes.

A presidente Dilma Rousseff, em entrevista à Mônica Bergamo, da "Folha de S. Paulo", disse que, além dos cinco pactos que propôs, iria propor um sexto: o pacto da verdade. Em seguida, disse que a inflação está baixa, a dívida pública está caindo, os gastos estão sob controle, e o déficit da Previdência é pequeno.

A verdade que ela disse foi que o ex-presidente Lula não voltará porque nunca foi embora. Momento de louvável sinceridade. Confirma o que se sabia sobre a autonomia da atual governante em relação ao seu antecessor. E mostra que os nós atuais foram atados a quatro mãos.

Os pontos-chave

1. Muitos nós impedem o PIB mais forte. Sem reconhecer os problemas, será mais difícil superá-los

2. Pelas projeções do Focus, o período 2011-2014 será o de menor crescimento dos últimos 20 anos

3. A inflação está alta, a dívida bruta sobe, há déficit na balança comercial e nas transações correntes

Fonte: O Globo

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Música : Mily Balakirev Symphony Nº.1

Poesia: Uma canção - Mario Quintana

Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

OPINIÃO DO DIA – Roberto Freire: ‘Lula não vai voltar por que não saiu’ (Dilma).

Ela é uma marionete, o poder é exercido, nas sombras, por Lula. Isso é muito ruim, nenhum país consegue ser bem administrado por alguém que está nas sombras. E deu uma demonstração de que o governo dela é guiado pelo fisiologismo. Ela só consegue montar sua base em função de tantos ministérios para distribuir entre os petistas e aliados. É puro clientelismo, não tem nada de interesse público nisso. Tudo o que ela diz é uma demonstração de quão incompetente e inepto é o governo dela.

Roberto Freire, deputado federal (SP) e presidente nacional do PPS. In “Para oposição, Dilma admite governar à sombra de Lula”, O Globo, 29/7/2013