Foram muitas gerações até chegar a ele, médico, administrador revolucionário e, também, escritor e panfletário argentino-cubano. Percorreu a América Latina por um bom tempo, anotando suas impressões em um diário do qual li algumas passagens ainda na minha adolescência, no final da década de 60. Escreveu obras que revelavam uma concepção humanística da vida, a começar pelos seus próprios títulos: O socialismo e o homem em Cuba e O homem novo.
À frente do Ministério da Indústria e do Comércio de Cuba, ele teve oportunidade de afirmar uma concepção do fato econômico como algo voltado para atender as necessidades do ser humano. Ou a Economia era para o homem ou não era nada. Em defesa de seus pontos de vista, não hesitou sequer em questionar a aplicação pelo partido bolchevique liderado por Vladimir Lenin da chamada Nova Política Econômica, em 1921, na saída da Guerra Civil que sacudiu a Rússia soviética.
Para ele, era preciso no mínimo cautela no tocante à abertura para o capital privado. Era um leitor voraz, tanto de poesia - e aqui poderíamos citar seu apreço pela obra de Gabriela Mistral, Pablo Neruda, César Vallejo e Federico Garcia Lorca - quanto de ensaios - obras de Marx, Engels, Lenin, Sigmund Freud e Jean-Paul Sartre o fascinavam.
Ao ser capturado, na aldeia La Higuera, na selva boliviana, e assassinado a sangue-frio pelos esbirros da ditadura militar da Bolívia apoiados pelos norte-americanos, em 1967, trazia com ele, em um dos bolsos de sua vestimenta, um livro de autoria de Wolfgang von Goethe. Para alguns, Ernesto Che Guevara saiu diretamente das páginas do inigualável romance Dom Quixote de la Mancha para entrar no dia a dia dos povos da América Latina.
E é provável também que, tal qual na lenda guarani, ele estivesse eternamente à procura da Terra sem Males, a Yvymaraé'y, lugar mítico onde não existia nem fome nem guerra.
*Ivan Alves Filho, historiador

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