quinta-feira, 4 de abril de 2019

Ricardo Noblat: A solidão de Paulo Guedes

- Blog do Noblat / Veja

Reforma meia boca

Esqueceram de avisar a Paulo Guedes que a ida de um ministro à Câmara para debater matérias de interesse do governo é antes de tudo um espetáculo, e não necessariamente uma oportunidade de convencer os deputados sobre qualquer coisa.

Como tal, todo cuidado é pouco com as provocações dos mais enfezados e com as pegadinhas dos mais espertos. Cabe ao expositor defender suas ideias, mas sem estridência. Não cair na tentação de ser irônico. E ser afável até com os mais duros oponentes.

Essa seria tarefa para uma Madre Teresa de Calcutá? Nem tanto. De resto, na intimidade, Teresa de Calcutá era impaciente. Mas Antonio Palocci, quando ministro da Fazenda do governo Lula, saiu-se bem em quase todas as batalhas que travou na Câmara e no Senado.

Falta a Guedes experiência no trato com políticos. Sobra inteligência que o torna arrogante. De resto, deve estar se sentindo cada vez mais só na luta para que o Congresso aprove a reforma da Previdência. Daí o que ocorreu na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Dizer, por exemplo, que Lula fez por merecer governar duas vezes pode ter sido um ato de justiça, mas não angariou um único voto para o que Guedes deseja, e irritou não só o presidente Jair Bolsonaro como seus devotos mais desvairados.

Sugerir ou desafiar os deputados a rejeitar o modelo proposto de reforma da Previdência para os militares soou mal entre os que vestem ou que vestiram farda, esses em número que não para de crescer na ocupação de cargos em todos os escalões do governo.

Reconhecer que caberá aos deputados e senadores aprovar ou não a reforma, além de redundante, deixa a impressão de que para ele, Guedes, não fará grande diferença, porque hoje ele é ministro, mas amanhã poderá não ser, e só quem perderá de verdade será o país.

Um dos garotos do capitão, Flávio Bolsonaro, viajou com o pai a Israel. O outro, Carlos, é vereador no Rio, e por lá estava ontem. O deputado federal Eduardo Bolsonaro poderia ter comparecido à sessão da Comissão para dar uma força a Guedes. Não o fez.

De que adianta o PSL de Bolsonaro ser dono da segunda maior bancada da Câmara (a primeira é do PT) se não é capaz de dar cobertura ao principal ministro do governo na hora em que ele mais precisa? Mas não deu. Largou-o às feras.

De Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil e um dos articuladores políticos do governo, Guedes ganhou um abraço à chegada, e foi só. O outro articulador, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro da Secretaria do Governo, não é de frequentar o Congresso.

Se não mudar de ideia, se não preferir ir ao cinema com a mulher, ou à reza com amigos, Bolsonaro deverá a partir de hoje reunir-se com líderes de partidos para conversar sobre a reforma. Os líderes irão ao seu encontro para ouvir o que ele tem a dizer.

Não lhe darão a chance de se queixar mais tarde de que ouviu pedidos de empregos ou de outras sinecuras. Não lhe prometerão os votos dos seus partidos para aprovar a reforma. Não confiam nele, nem em sua eventual disposição para compartilhar o poder.

Se Bolsonaro, que carece de votos para aprovar a reforma, hoje procede tão mal com os partidos, por que procederá melhor mais tarde quando já não mais precisar deles? A reforma da Previdência possível de ser aprovada ficará muito aquém do que a imaginada.

Deverá ser suficiente para que o país atravesse sem maiores convulsões os próximos trepidantes anos do governo do capitão, e só. Tudo recomeçará depois da eleição de 2022.

Ladeira a baixo

Bolsonaro não liga
Os primeiros números de pesquisas que ainda não foram fechadas chegaram ao conhecimento de algumas cabeças coroadas da República, e eles não são nada bons para o capitão e o governo.

Bolsonaro já foi informado a respeito, mas não deu bola. Disse que não confia em pesquisas e, que se confiasse, não teria sido eleito. Confia no seu taco – e na resposta das redes sociais.

Merval Pereira: Votar ou não votar

- O Globo

STF teme que ganhe a posição contrária à prisão em segunda instância, o que levaria Lula a ser solto

Mais do que uma solenidade autoelogiativa, o que aconteceu ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) foi uma demonstração do estado de ânimo que domina seus membros, e também os políticos, diante da divisão do plenário que joga a opinião pública ora para um lado, ora para o outro, sempre com críticas agressivas, quando não criminosas.

Acontece também com os políticos, especialmente aqueles que têm cargo de liderança nas duas Casas do Congresso. O ambiente no Congresso é tão ebuliente que a promessa dos bolsonaristas de apresentar uma proposta de emenda constitucional (PEC) revogando a que aumentou para 75 anos a idade compulsória dos ministros pode provocar a reação de ampliá-la para 80 anos.

Isso porque a redução da idade permitiria ao presidente Bolsonaro nomear quatro ministros imediatamente. Como está, ele escolherá no final do próximo ano substitutos para os ministros Celso de Mello e Marco Aurélio Mello. Ao contrário, a ampliação da idade para 80 anos impediria que nomeasse ministros durante sua gestão.

A continuar esse ambiente de confrontação, é provável que as sabatinas dos futuros ministros no Senado sejam mais rigorosas do que o costume, e aumenta a chance de um indicado pelo Palácio do Planalto ser rejeitado. Tudo para evitar que o plenário do Supremo seja formado majoritariamente por ministros que criminalizem a política, como veem a ação do presidente Bolsonaro.

O caso acontecido na semana passada na Sala São Paulo, durante um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado (Osesp), é exemplar dessa radicalização. Um homem parou a música aos gritos, criticando o Supremo, nomeadamente os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Os relatos são de que o presidente do Supremo está abalado com os ataques.

Ascânio Seleme: A Terra é plana

- O Globo

Eles são milhares, alguns dizem que são centenas de milhares, eles afirmam ser milhões. Os terraplanistas estão em todos os lugares, mas nasceram e cresceram nos Estados Unidos. Eles acreditam franca e abertamente que a Terra é plana e que o mundo inteiro é enganado por interesses escusos de governos e instituições multinacionais que sustentam que o planeta é redondo, circula em torno do sol e gravita numa galáxia também em permanente movimento. Dizem que também satanistas, maçons, judeus e o Vaticano patrocinam a ideia errada de que a Terra é redonda.

Para os terraplanistas, o mundo é um disco, uma espécie de pizza coberta por uma cúpula de vidro, onde o sol e as estrelas são imagens criadas e exibidas numa espécie de display gigantesco acoplado à cúpula. E está parado. Onde? Não sabem dizer. Existe inclusive uma associação que congrega essas pessoas, a Flat Earth Society (Sociedade da Terra Plana), que organizou, em 2017, a Primeira Conferência Internacional da Terra Plana, realizada em Raleigh, na Carolina do Norte.

Há ainda centenas de sites e blogs de terraplanistas que espalham nas redes sociais a sua certeza. Eles dizem que as imagens feitas do espaço e que mostram a Terra como uma imensa bola de gude azul são falsas. Garantem que a Terra é plana sem oferecer qualquer evidência nesse sentido e reclamam quando são chamados de lunáticos. Por isso, talvez, existam até mesmo sites de encontros românticos de terraplanistas. Para agregar pessoas consideradas no mínimo esquisitas e que podem ser rejeitadas pelas demais.

Luis Fernando Verissimo: Golpes

- O Globo / O Estado de S. Paulo

A História do Brasil vai depender de qual definição de ‘golpe’ prevalecerá

Discute-se o real significado da palavra “golpe”. Quando é que um golpe deixa de ser um golpe e passa a ser outra coisa, com outro sentido — ou outro sentido com o nome errado? Não se trata apenas de uma especulação semântica. A História do Brasil, nos próximos anos, vai depender de qual definição de “golpe” prevalecerá. Os militares já escolheram a deles, a mais simples e prática. O que houve no país, em 1964, segundo eles, foi nada. O que veio depois de 64 não foi uma ditadura de 20 anos, foi nada.

Mas talvez os militares tenham razão em querer fingir que nada aconteceu, e vamos tocar pra frente. Neste caso, o mais caridoso seria lembra-los da diferença entre o real e o desejado, e saber distinguir o simples e o prático do truculento. Poderíamos começar descrevendo o golpe clássico: insurreição armada contra o governo constitucional. O golpe clássico tem variações. Lembro a vez em que uma tropa entrou no Parlamento em Madri ameaçando todos com sua arma e chegando a atirar para o teto. Em meio à confusão, com deputadas e deputados estirados no chão, o tenente limpou a garganta e disse com uma voz fina: —Buenas tardes.

O levante do “buenas tardes” não deu certo.

A não ser quando há sangue e tragédia, claro, ou quando o drama shakespeariano acaba com as três primeiras filas da plateia agonizantes, todos os golpes têm um certo tom de farsa. Inclusive os que vitimam civis e não envolvem petardos e bandeiras. Fiquemos, então, com o combinado. Não se glorifique o que é mais prático esquecer, mas não venham com essa de que 64 foi golpe e depois foi ditadura.

Carlos Alberto Sardenberg: Mito da presunção de inocência

- O Globo

Há uma clara campanha nos meios políticos e jurídicos — inclusive nos dois tribunais superiores, o STJ e o STF — para barrar a Lava-Jato

O Supremo Tribunal Federal está dividido entre os ministros que sustentam a constitucionalidade da prisão em segunda instância e os que a consideram inconstitucional. Como são todos juízes de alta sabedoria, se presume, ao menos, pode-se dizer que as duas teses, embora contrárias, são defensáveis.

Logo, essa questão, que está na pauta do STF para a próxima semana, não depende mais de uma estrita argumentação jurídica. Vai além, devendo levar em conta o momento por que passa o país. E neste caso, está claro que o STF deveria confirmar a prisão em segunda instância.

Está em curso no país um forte processo de combate à corrupção, desfechado pela Lava-Jato há apenas cinco anos. Está longe de ter terminado.

Mas há uma clara campanha nos meios políticos e jurídicos — inclusive nos dois tribunais superiores, o STJ e o STF —para barrar a Lava-Jato.

A campanha trata de livrar a cara de muita gente, mas há dois personagens principais. O primeiro, sem dúvida, é o ex-presidente Lula, preso há um ano em Curitiba, depois de ter sido condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. O segundo é outro ex-presidente, Temer, cujos processos estão no início. Mas o pessoal da campanha achou um absurdo a prisão temporária de Temer. E entendeu que era hora de atacar.

Míriam Leitão: Risco de enterrar mais uma reforma

- O Globo

Paulo Guedes enfrentou dois problemas: o temperamento e a fraqueza da base. A oposição repetiu as demagogias de sempre

Eram cinco da tarde quando o ministro Paulo Guedes recebeu perguntas de deputados do PSL. Até então ele havia enfrentado apenas os 50 tons —e decibéis —de crítica ao projeto da Previdência. Isso é apenas uma amostra da falta de organização da base. O centrão, que já defendeu outros governos, e outras reformas, não jogou a favor. Guedes cometeu erros ao falar ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O principal foi cair em tantas provocações, o que acabou levando ao encerramento antecipado da sessão após bate-boca com um deputado. Mas Guedes está absolutamente certo no seu diagnóstico: o sistema de repartição está falido, a Previdência precisa mudar por ser deficitária e criadora de desigualdades.

A oposição não tem uma ideia nova, uma proposta. Não consegue explicar as próprias contradições. O PT fez também uma reforma da Previdência e se o fez é porque havia déficit. Agora nega o rombo, apesar de tê-lo aprofundado com suas desonerações. Mas é um equívoco o ministro achar que se um deputado grita ele deve gritar de volta. Esse estilo faz parte do show deles, mas nunca de um ministro da economia. Quem garante a palavra ao convidado é o presidente da Comissão e não a sua repetição de “eu tenho o direito de falar, pessoal?” A sorte de Paulo Guedes é Jair Bolsonaro não ser mais deputado. Ele era bem mais histriônico e agressivo do que os deputados que enfrentou ontem.

William Waack: Vivendo no risco

- O Estado de S.Paulo

Parece que Bolsonaro não se importa com o risco, inclusive o do ridículo

Três meses depois de assumir, Jair Bolsonaro demonstra que gosta de viver na beiradinha do risco. O principal deles no momento é arriscar um capital político – aquele que conquistou nas eleições – numa perigosa aposta contra o tempo. A comparação com o que acontece em economia é elucidativa: até agora ele investiu esse capital em quê?

Alguns sinais de erosão desse capital são bem evidentes e só não enxerga quem não quer. Não são as pesquisas de opinião (na qual bolsonaristas, a risco próprio, não acreditam mesmo). Essa deterioração é perceptível em repetidas manifestações de impaciência com o ritmo (ou falta dele) que o governo imprimiu às reformas. Traduzidas em frases desse tipo, que se ouvem por toda parte: “Acredito e AINDA acho que vai”.

É interessante observar o que está acontecendo em setores nos quais se formou, muito antes da eleição, a onda que empurrou Bolsonaro até o Planalto. São pequenos empreendedores, profissionais liberais, nutridas camadas médias de cidades do interior. Que viram em Bolsonaro uma resposta a problemas imediatos como insegurança (real ou percebida, não importa), burocracia, impostos, regulação, insegurança jurídica (em especial questões fundiárias para o agronegócio) – além do clamor anticorrupção.

Zeina Latif*: Perda de foco ou desinteresse?

- O Estado de S.Paulo

Não seria exagero afirmar que, com a crise prolongada, temos uma geração perdida

O presidente Bolsonaro perde o foco com facilidade. Em vez de discutir políticas públicas para promover o crescimento e atacar o desemprego elevado, ele voltou a criticar o IBGE pela metodologia de apuração da taxa de desemprego. Ele afirma que seria feita para “enganar a população”, sugerindo que o quadro é melhor do que o indicado.

Qualquer que seja o patamar “verdadeiro” do desemprego, o fato é que a sociedade sente na pele as dores de uma economia que pouco cresce. O medo do desemprego é elevado e os consumidores se mantêm pessimistas neste início de ano.

A taxa de desemprego é apenas uma métrica, e que atende às recomendações e aos padrões internacionais. Não se trata de ser verdadeira ou falsa. Como qualquer métrica, tem suas limitações. De fato, ela não permite uma visão completa do que ocorre no mercado de trabalho. Por isso especialistas analisam o desemprego sob vários ângulos. O time econômico certamente o faz. E o retrato não é nada bom.

A taxa de desemprego é a razão entre pessoas sem trabalho e procurando emprego em relação à força de trabalho. Se a pessoa não está trabalhando, mas também não está procurando trabalho, ela não entra na estatística.

Maria Cristina Fernandes: 100 dias de inoperância

- Valor Econômico

Das 35 metas anunciadas, governo cumpriu sete

O governo Jair Bolsonaro completa 100 dias em 10 de abril. Com o jogo em curso, já no dia 23 de janeiro, divulgou um conjunto de medidas denominado "Metas Nacionais Prioritárias - Agenda de 100 dias de Governo". Neste documento, listou as 35 ações que a gestão reputa prioritárias. Antes de deixar Jerusalém, o presidente da República disse que cumprirá 90% das metas, ainda que, para isso, esteja envelhecendo precocemente.

Dois experientes consultores de Brasília, Luiz Alberto dos Santos e Antonio Augusto de Queiroz, debruçaram-se sobre as metas, acompanharam decretos, portarias e projetos de lei desde a posse, e têm uma má notícia para o presidente. Se Bolsonaro envelhece mais rapidamente do que gostaria é mais pelo que deixa de fazer do que pelo que cumpriu até aqui. Das 35 metas, apenas sete foram integralmente cumpridas, dez estão em curso, uma foi parcialmente atingida e 17 estão pendentes. O cumprimento, radiografado pela Diálogo Institucional e Análise de Políticas Públicas, empresa dos consultores, é de 20%.

Não é um balanço tirado da cartola. O escopo e a atribuição de cada medida foram analisados separadamente, bem como os meios oferecidos para seu cumprimento. Nem o padrão Chicago implantado na Economia se mostrou eficiente. Das cinco medidas anunciadas no escopo do superministério, apenas uma foi cumprida, aquela que torna mais rígidas as condições para a autorização de novos concursos. Paradoxalmente, o decreto que condiciona os concursos à caneta do Ministério da Economia, isenta Polícia Federal, Advocacia-Geral da União, Itamaraty e universidades federais do aval.

Ribamar Oliveira: A irrelevância da meta fiscal para 2020

- Valor Econômico

Trajetória depende da aprovação das reformas

Até o próximo dia 15 de abril, o ministro da Economia, Paulo Guedes, terá que encaminhar ao Congresso Nacional o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para o próximo ano, com a meta fiscal a ser perseguida pelo governo. Com as atuais incertezas, Guedes não tem como fixar uma meta de resultado primário para 2020 que seja minimamente crível ou que possa indicar o tamanho real do esforço fiscal a ser realizado pelo setor público.

As variáveis que ajudariam Guedes a determinar uma trajetória fiscal mais consistente para 2020 ainda dependem da aprovação pelo Congresso de medidas que ele mesmo já propôs, como a reforma da Previdência Social. Outras, como a revisão e redução dos subsídios e desonerações tributárias, também serão submetidas neste ano ao Congresso, de acordo com o ministro.

Todas as medidas, se aprovadas, tenderão a reduzir as despesas e a elevar as receitas da União, ou seja, terão impacto sobre o resultado primário. Mas o PLDO, a ser enviado pelo ministro da Economia em abril, não poderá levar em consideração o efeito fiscal das propostas, simplesmente porque elas ainda não foram aprovadas.

Qual será, por exemplo, a redução de despesas a ser obtida com a reforma dos sistemas previdenciário e assistencial em 2020, se ela for aprovada nos termos da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 6/2019, do Executivo? Guedes ainda não revelou a informação.

Bruno Boghossian: Sem rede de proteção

- Folha de Paulo

Caso 'tchutchuca' evidencia falta de uma coalizão comprometida com Bolsonaro

Em sua primeira visita ao Congresso, na semana passada, Paulo Guedes reclamou dos aliados do governo. Atacado até pelo PSL, o ministro parecia se sentir traído. “A gente anda dez metros e, de repente, vê que levou um balaço de gente que é nossa mesmo”, desabafou.

O chefe da equipe econômica voltou a encontrar o mundo políticonesta quarta (3) para discutir a reforma da Previdência. Na Câmara, o partido de Jair Bolsonaro não disparou, mas deixou Guedes sozinho por horas na linha de tiro.

A proposta do governo perambula como um filho feio sem pai. Parlamentares de centro e da oposição fazem críticas pesadas, enquanto poucos governistas se arriscam a apoiar uma medida impopular.

Matias Spektor: Itamaraty enfraquecido é estratégia de Bolsonaro

- Folha de S. Paulo

Presidente abriu mão de construir um consenso tecnocrático e dele se valer

Quando Lula e FHC chegaram ao poder, ambos correram para ajustar o Itamaraty às suas promessas de campanha.

Nos dois casos, houve ocupação da máquina com embaixadores simpatizantes, e o Planalto operou para garantir que as ideias do presidente criassem raiz institucional forte o suficiente para atravessar as vicissitudes de um mandato.

Petista e tucano apostaram no fortalecimento da burocracia, utilizando-a como instrumento para aumentar o prestígio do mandatário no país e no exterior. O Itamaraty empoderado era uma ferramenta formidável na mão de um presidente ambicioso e cheio de ideias.

Não é assim com Bolsonaro. O presidente abriu mão de construir um consenso tecnocrático e dele se valer. Em vez disso, o grupo que está no poder operou, desde o início, para impedir que a máquina impusesse limites às ideias revisionistas prometidas na campanha.

O governo ataca o Itamaraty porque, agora, um ministério forte poderia conter e barrar as propostas exóticas que circulam no Planalto.

Janio de Freitas: Tudo pela morte

- Folha de S. Paulo

Extinguir a vigilância eletrônica que reprime acidentes é agir contra a vida

As asnices oficiais, a um só tempo tristes e anedóticas, juntam-se ao blá-blá-blá sobre a Previdência e formam uma névoa que encobre certos atos de irresponsabilidade ou de má-fé no governo. Até mesmo com grande potencial de ameaça à vida.

Embora em Israel, Jair Bolsonaro propalou um exemplo desses atos, cuja alucinação é comprovável em números captados por meio eletrônico. Pela internet, interrompeu a participação na campanha eleitoral da direita radical israelense e comunicou o fim, à medida que acabem os contratos, da vigilância eletrônica das velocidades em rodovias federais —as lombadas eletrônicas ou radares fixos.

Não teve cerimônia em expor seu raciocínio: "É quase impossível você viajar sem receber uma multa". Culpa dos radares. Não lhe ocorreu que multas respondem ao abuso de quem dirige, e não do radar. Do próprio Bolsonaro, pois, nas idas dos fins de semana em Angra dos Reis. Onde, por sinal, o ímpeto desordeiro submeteu-o a outro tipo de multa, por invadir estação ecológica vedada à presença humana, por uso de motor de popa e pesca proibida na área. O fiscal do Ibama que o multou foi demitido há dias.

Vinicius Torres Freire: Falta dinheiro, vai faltar paciência

- Folha de S. Paulo

Sem recursos, sem PIB, sem coordenação política, governo ainda incentiva raiva

O sururu entre os deputados e Paulo Guedes não vai dar em nada: é sintoma, não motivo. A fibrilação dos preços no mercado, que o pessoal da finança atribuiu ao arranca-rabo na audiência do ministro, também foi nada.

O ministro da Economia foi nesta quarta-feira (3) à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara falar sobre Previdência, na CCJ em que a reforma vai começar a tramitar. Guedes e deputados bateram boca e daí para baixo.

Juros e dólar subiram, a Bolsa caiu, “business as usual”.

Teria sido um desastre se a turumbamba fosse imprevista, se não fosse apenas um sintoma óbvio.

O circo estava armado para Guedes apanhar pelo motivo sabido: desgoverno, um governo sem tropas no Congresso e ânimos nacionais acirrados.

De resto, o ministro não é um mestre na arte de fazer amigos e influenciar pessoas, por assim dizer. Enfim, é conversa mole dizer que a audiência “evidenciou” as dificuldades que o governo terá para aprovar a reforma.

Clóvis Rossi: Eleições israelenses viram plebiscito sobre Netanyahu

- Folha de S. Paulo

Pela primeira vez em 70 anos que a questão palestina não estará no topo da agenda eleitoral

A eleição do dia 9 será a primeira, nos 70 anos do Estado de Israel, em que a questão palestina não estará no topo da agenda.

Até agora, em todas as campanhas, discutia-se quem seria o candidato mais conveniente para chegar a um acordo com os palestinos ou, inversamente, qual o que mais endureceria com os vizinhos.

Agora, não. Constata, por exemplo, The Times of Israel, excelente diário digital: “Em uma campanha eleitoral tensa, que tem sido farta de insultos e curta em substância, o conflito de Israel com os palestinos está notavelmente ausente dos discursos”.

Na prática, a eleição da próxima terça-feira virou uma espécie de plebiscito sobre o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, há 10 anos no cargo. Se vencer, tornar-se-á o governante que ficará mais tempo no poder.

Superará até Ben Gurion, o estadista que conduziu o país durante a Guerra da Independência e,
como tal, é tido como uma espécie de patriarca de Israel. (Atenção, Bolsonaros e bolsonaristas fanáticos, Ben Gurion era socialista.)

Paulo Paiva*: A reforma entre o espaço e o tempo

- O Estado de S.Paulo

O governo, que já perdeu o ótimo, precisa garantir, ao menos, o bom

O desempenho da economia brasileira no horizonte do mandato de Bolsonaro está diretamente ligado ao destino da PEC da Previdência, que, por sua vez, depende de decisões políticas.

O mercado reagiu à transição do governo com duas tendências. Por meio do aumento da volatilidade na Bovespa e nas taxas de câmbio, que têm alta propensão à especulação, e com cautela nas expectativas de crescimento, conforme se pode deduzir da estabilidade na evolução das estimativas das taxas de crescimento do PIB no Relatório Focus, do Banco Central.

Do final de junho até o resultado da eleição no ano passado, a mediana para o PIB em 2019 ficou congelada em 2,50%, sem reagir aos eventos políticos do segundo semestre. Elevou-se no final de novembro, encerrando o ano em 2,55%, provavelmente com a certeza da derrota do PT e com o início de um ciclo liberal.

No começo do ano o ambiente favorável à reforma da Previdência estimulou o governo a colocar seu capital político numa proposta robusta, mas com maior risco do que se, ao contrário, optasse por apoiar a PEC que já estava em fase final para votação, cuja tramitação seria mais célere e o resultado positivo, seguro, embora modesto. Escolheu encaminhar uma proposta sua mais ampla, em vez de ganhar tempo na aprovação de outra mais simples.

O governo subestimou as dificuldades e incertezas em tempos de mudanças que surgiram, não das visões sobre a economia – se mais liberal ou mais intervencionista –, mas das tensões institucionais em curso.

Luiz Carlos Azedo: Guedes e seu trilhão

Nas entrelinhas / Correio Braziliense

“Enquanto Guedes tenta aprovar a reforma ideal, o presidente da República fala em reforma possível, sinalizando para a própria base do governo que lava as mãos em relação às mudanças que forem feitas no Congresso”

A atribulada audiência do ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, ontem, revelou que ele está só na busca de economizar R$ 1 trilhão em 10 anos com as mudanças. Guedes foi muito atacado pelos petistas, mas deu seu recado de que não é possível o país continuar gastando R$ 700 bilhões com a Previdência e apenas R$ 70 bilhões com a Educação. Entretanto, deixou no ar falta de apoio na base do governo ao projeto integral, e também revelou certo desconforto com o fato de a própria base querer modificar a proposta. O presidente Jair Bolsonaro tem emitido sinais de que o problema da aprovação da reforma é do Congresso, e não do governo.

Guedes insistiu muito na tese de que uma reforma meia boca custará mais caro no futuro. No entrevero com os petistas, rechaçou cobranças ao atual governo, acusando a oposição de desperdiçar a oportunidade de ajustar a Previdência à realidade atuarial por um custo muito menor nos 18 anos que esteve no poder. Para o ministro, “faltou coragem”. Segundo ele, o aspecto fiscal da reforma é imperativo: “A principal componente de alta dos gastos foi com pessoal e, dentro disso, o elemento do deficit galopante tem sido a Previdência”, disse.

O ministro da Economia afirmou que o Brasil tem despesas previdenciárias muito elevadas, mesmo tendo uma população bastante jovem. Comparou a situação do Brasil com a de outros países: “Existem sistemas que quebraram, a Grécia, e estamos vendo o exemplo de Portugal. Imaginamos como não deve estar o problema previdenciário na Venezuela hoje”. Na sua avaliação, a economia de R$ 1 trilhão que pleiteia é essencial para que se possa fazer uma transição do sistema de repartição para o de capitalização, que, na sua opinião, é a solução definitiva para o problema previdenciário.

Governo passa a dialogar com o Congresso e reforma anda: Editorial /Valor Econômico

Depois das escaramuças gratuitas do presidente Jair Bolsonaro com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia - e antes das próximas - a reforma da previdência começou a andar. Algumas definições dos deputados começaram a se decantar, ratificando os principais comentários informais dos partidos a respeito das propostas do governo. As mudanças nos benefícios de prestação continuada e na aposentadoria rural, como estão, não deverão ser aprovadas, segundo Maia - mas elas podem mudar. A capitalização, que vem ganhando ênfase maior e prematura nos discursos do ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda que seus detalhes não sejam conhecidos, também parece em princípio que pode não passar no funil do que os partidos consideram aceitável. Mas tudo está por ser negociado.

Para a negociação agora avançar contribui a disposição do presidente de se reunir com os líderes dos partidos no Congresso, a começar pelas legendas do centrão, como PRB, PP, PR e PSD. Bolsonaro já deu antecipadamente, e mais do que o necessárias, indicações do que pode ser negociado. Suas declarações de que reforma da previdência boa é a que é aprovada é ambígua e pode ser entendida como a aceitação de qualquer resultado. Falta uma defesa enfática de que, ainda que caiba ao Congresso "aperfeiçoar" a proposta do governo, ela é a melhor que sua administração pode oferecer e deveria ser ratificada, com correções secundárias.

Um pacote útil, mas limitado: Editorial / O Estado de S. Paulo

Fazer negócios no Brasil poderá ficar mais fácil e mais barato com o pacote de simplificação prometido pelo governo, mas serão necessárias medidas de outro tipo para desemperrar a economia no curto prazo e criar empregos. Para evitar enganos, decepções e perda de tempo, é bom distinguir os problemas e separá-los em pelo menos dois grupos. O mais urgente é movimentar a economia e tentar fazê-la crescer pelo menos na faixa de 2% a 2,5% neste ano. Isso poderá ocorrer mesmo sem grandes mudanças de caráter institucional. O outro grupo inclui os vários entraves associados à organização dos mercados, à operação do governo e à estrutura legal. Burocracia demais, impostos complicados e insegurança jurídica são exemplos desses entraves. Prejudicam a economia em qualquer fase, com crescimento de 5% ou 1,1% ao ano, taxa verificada em 2017 e 2018. Remover esse entulho tornará a atividade empresarial mais ágil e mais competitiva no médio e no longo prazos, mas o desafio imediato é de outra ordem.

Mesmo com todos aqueles problemas institucionais, a economia brasileira já foi muito mais dinâmica, avançou mais velozmente e foi mais ágil na criação de empregos. Consumidores e empresários tinham alguma segurança para suas decisões e a produção respondia à demanda – interna e externa. A ação do governo contribuía para a elevação da capacidade produtiva e ajudava a movimentar os negócios com os investimentos públicos. A má administração, a irresponsabilidade fiscal e a corrupção forçaram a interrupção desse papel e o início de uma fase de ajuste complexo, penoso e ainda incompleto.

Teoria do vácuo: Editorial / Folha de S. Paulo

Sinais de desgaste episódico de Bolsonaro estimulam a concorrência política

A espécie de corredor polonês em que se meteu, por seus próprios atos, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) nas últimas semanas redespertou um truísmo da sabedoria política: não existe vácuo no poder.

Quem não o exerce com a mínima eficácia logo atrai outros atores sequiosos por praticá-lo em seu lugar. Nesse sentido, a percepção de enfraquecimento episódico do presidente ensejou demonstrações de força do Congresso.

Elas ocorreram seja na votação surpreendente da proposta que engessa mais o Orçamento, seja em conversas menos explícitas sobre manejo autônomo da pauta de votações pelos parlamentares ou sobre reformas profundas para subtrair prerrogativas do Executivo.

O líder que vacila também estimula a concorrência direta. Figuras que cogitam disputar a Presidência da República em 2022 buscam contrastar-se com o incumbente.

Partidos de esquerda esboçam uma união, embora nada tenham dito de novo ou alvissareiro em suas manifestações. Quem esteve mais próximo da corrente que atropelou lideranças tradicionais em 2018 também percebe a oportunidade de dar seus vagidos emancipatórios em relação a Bolsonaro.

Este parece ser o caso do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que correu a declarar apoio entusiasmado ao postulante do PSL tão logo se definiu o segundo turno presidencial. Agora, em entrevista à Folha, dá a impressão de que começa a tomar certa distância do bolsonarismo governista.

Doria criticou a decisão de determinar a comemoração do golpe de 1964, bem como as tentativas de reescrever a história baseadas no infantilismo ideológico de um núcleo que influencia o Planalto. Também mitigou mensagens belicosas sobre emprego da força policial que difundiu na campanha.

Conjunto da obra é que ameaça Crivella: Editorial / O Globo

Processo de impeachment tem força nas ruas, devido ao abandono em que está a cidade

A aprovação da abertura do processo de impeachment contra o prefeito Marcelo Crivella, algo inédito no Rio desde o fim da ditadura militar, há 34 anos, é mais um fato que reforça a ideia de degradação exposta pela política praticada na cidade e no estado.

Inquéritos, julgamentos e prisões têm sido frequentes, como nunca no passado na democracia. Algo salutar, porque significa que as instituições reagem, mas não deixa de ser reflexo do baixo padrão ético da administração pública.

O processo foi instaurado por 35 votos a 14, quórum de cassação, com base em denúncias de que o prefeito prorrogou indevidamente um contrato de exploração do mobiliário urbano por empresa privada. A incorreção está capitulada na legislação e pode ser punida com a perda de mandato.

Fernando Pessoa: Análogo começo

Análogo começo.
Uníssono me peço.
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo.

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

E interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino.
Ali, carícia, o hino O
utonou entre preces,
Antes que, água, comeces.

Coral Edgard Moraes - Alegre Bando

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Opinião do dia: Hannah Arendt*

Só conseguimos perceber a existência de um direito a ter direitos (e isto significa viver numa estrutura onde se é julgado pelas ações e opiniões) e de um direito de pertencer a algum tipo de comunidade organizada, quando surgiram milhões de pessoas que haviam perdido esses direitos e não podiam recuperá-los devido à nova situação política global. O problema é que essa calamidade surgiu não de alguma falta de civilização, atraso ou simples tirania, mas, pelo contrário, que é irreparável porque já não há qualquer lugar “incivilizado” na Terra, pois, queiramos ou não, já começamos realmente a viver num Mundo Único. Só com a humanidade completamente organizada, a perda do lar e da condição política de um homem pode equivaler à sua expulsão da humanidade.

*Hannah Arendt “O sistema totalitário”. Tradução de Roberto Raposo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978, p. 381-382.

Vera Magalhães: Ver para crer

- O Estado de S.Paulo

O sentimento dominante entre os presidentes e líderes de partidos antes da conversa marcada para amanhã com Jair Bolsonaro é de ceticismo. Ao marcar uma série de audiências em sequência, no mesmo dia, com representantes de siglas que integram, grosso modo, o chamado Centrão, o presidente pretende dar uma demonstração de que aceitou os apelos pela necessidade de iniciar uma articulação política mais consistente com o Parlamento.

Mas a ausência de pontes nos três primeiros meses de governo, somada ao discurso voltado a estigmatizá-los nas redes sociais, deixou os políticos ressabiados. Alguns me dizem que não irão sozinhos ao encontro de Bolsonaro, e chamaram deputados e senadores como “testemunhas”. “Sei lá se o presidente vai sair de lá dizendo que pedimos isso e aquilo”, diz um dos convidados.

Outros duvidam da real disposição de Bolsonaro de tornar o diálogo com os políticos constante e efetivo. “Enfileirar seis conversas num dia mostra que não se quer conversar, mas sim posar para fotos”, me diz um presidente de legenda.

Mas o que seria, para a classe política, o tal diálogo profícuo? O consenso reinante nos partidos é de que ele pressupõe gestos de “carinho”, recursos na base e divisão de espaços de poder. A execução orçamentária, afirmam, está parada. Os gestos são apenas de ataques. E os postos nos Estados seguem fechados ao compartilhamento. Daí porque, até amanhã, o clima geral seja de não botar muita fé de que algo vá mudar na relação entre Executivo e Legislativo.

Monica De Bolle: Redescobrindo o centro

- O Estado de S.Paulo

Não chegaríamos ao Estado mínimo, ideia ultrapassada, mas a um Estado mais enxuto e moderno

Já sabemos que o centro político implodiu não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. Mesmo nos sistemas majoritariamente ou completamente bipartidários, como o Reino Unido e os EUA, partidos estão fragmentados pois as rupturas internas têm levado pedaços aos extremos. O caso mais eloquente é o do Reino Unido, onde não há consenso sobre o que quer que seja, enquanto todos observam atônitos a incansável novela do Brexit. A falta de centro no espectro político resulta, em parte, da destruição das regras de transitividade que sustentam qualquer reflexão racional: se eu prefiro a opção A à opção B e a opção B à opção C, então deveria preferir a opção A à opção C. Contudo, hoje, a transitividade já não vale. Quem prefere A à B e B à C prefere C à A. Quando isso acontece, não há possibilidade de encontrar formas de resgatar a racionalidade sobre qual se apoia o centro político.

Algo semelhante está acontecendo na economia: se a preferência é pelo Estado mínimo em vez do Estado que regula os mercados e se circunscreve a ser forte na área social e pelo Estado que regula os mercados e se circunscreve a ser forte na área social ao Estado desenvolvimentista, então dever-se-ia preferir o Estado mínimo ao desenvolvimentista. Mas, não é isso o que querem os brasileiros, como revelam as discussões sobre as reformas necessárias para o País. Paulo Guedes pode gostar de Estado mínimo mais do que qualquer outra coisa, mas o eleitorado que elegeu Bolsonaro está se lixando para essa discussão. O eleitorado que elegeu Bolsonaro quer ver redução dos 13,1 milhões de desempregados, quer pagar menos impostos, quer ter acesso a serviços públicos de alta qualidade, quer segurança, para não falar de vastidão de outros desejos que necessitam da participação ativa do Estado. Qual é, portanto, o centro de gravidade econômico que tem sido ignorado em prol da discussão sobre a reforma da Previdência – necessária, porém longe de ser bala de prata para quem é minimamente honesto sobre os problemas do Brasil?

Fábio Alves: Soluço na confiança?

- O Estado de S.Paulo

É crucial saber se a confiança de empresários e consumidores seguirá caindo, ou se o recuo desses índices em março foi apenas um soluço

Os índices de confiança apresentaram recuo significativo em março, refletindo uma frustração com os indicadores de atividade econômica ao longo do primeiro trimestre e também uma preocupação com a recente turbulência no cenário político, o que afetou o andamento da proposta de reforma da Previdência no Congresso.

A questão crucial é saber se a confiança de empresários e consumidores seguirá caindo, o que pode prejudicar mais o desempenho da economia nos próximos meses, ou se o recuo desses índices em março foi apenas um soluço.

Com a melhora no clima político em Brasília nos últimos dias, com acenos de paz entre o presidente Jair Bolsonaro e as principais lideranças políticas, em particular Rodrigo Maia, que comanda a Câmara dos Deputados, cresceu a esperança de que a tramitação da reforma da Previdência ganhe novo ímpeto e comece a avançar.

Segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV), a confiança empresarial caiu para 94,0 pontos em março, menor nível desde outubro de 2018. Já o índice da confiança dos consumidores, divulgado na semana passada, registrou queda de 5,1 pontos, para 91 pontos, também o menor patamar desde outubro de 2018. O componente que mede a avaliação dos consumidores sobre a situação atual recuou 1,5 ponto, mas o que reflete as expectativas para os próximos meses tombou 7,6 pontos.

Também apresentaram queda em março os índices de confiança da indústria (-1,8 ponto), da construção (-2,5 pontos), do comércio (-3,2 pontos) e de serviços (3,5 pontos). Ou seja, houve uma queda generalizada da confiança dos agentes econômicos nos quase 100 primeiros dias do governo Jair Bolsonaro.

Rosângela Bittar: Os formuladores

- Valor Econômico

República de Salamanca ou "Amigos do Brasil"

Todos são integrantes da elite do funcionalismo público; todos ocuparam cargos no circuito de ligação entre a Controladoria-Geral da União (CGU), a Advocacia-Geral da União (AGU), o Ministério da Justiça, a Secretaria Jurídica da Casa Civil da Presidência e a assessoria legislativa do Congresso. São da mesma geração, com idades entre 41 e 46 anos, e filhos também da mesma idade, frequentando a mesma escola. O grupo de cinco autoridades do governo Jair Bolsonaro, denominado "Amigos do Brasil" no WhatsApp, combina um encontro por semana, geralmente um almoço, e usa a rede para trocar informações em assuntos comuns às áreas pelas quais ficaram responsáveis.

Tarcísio Gomes de Freitas, 43 anos, ministro da Infraestrutura, é um prodígio em todos os lugares por onde passou. No Instituto Militar de Engenharia (IME) obteve a maior nota média da instituição para o curso de engenharia civil até hoje, proeza que é citada por todo o grupo com admiração. Capitão do Exército, atuou como engenheiro no Haiti. Já fora dos quartéis, trabalhou na CGU e no Dnit. Em 2014, passou em primeiro lugar no concurso para consultor legislativo da Câmara, onde o governo Michel Temer foi buscá-lo, emprestado, para tocar o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e conduzir o diálogo com investidores.

Wagner de Campos Rosário, mineiro de Juiz de Fora, 42 anos, foi capitão do Exército com formação na Academia Militar de Agulhas Negras (RJ). Tendia a ingressar na carreira de educação física, como professor, quando mudou de rota e ingressou na carreira de auditor federal de finanças e controle. Na CGU, começou a aprofundar-se no assunto. Fez mestrado em Corrupção e Estado de Direito na Universidade de Salamanca. Pouco depois de voltar ao Brasil, tornou-se secretário-executivo da Controladoria, depois ministro interino da CGU com a saída de Torquato Jardim para o Ministério da Justiça e mais tarde ministro efetivado. Foi o único ministro de Temer convidado por Bolsonaro a permanecer no cargo.

O advogado André Luiz de Almeida Mendonça, 46 anos, nascido em Santos, era do corpo técnico da AGU, onde ingressou como advogado em 2000. Desde 2016, atuava como assessor especial do ministro Wagner Rosário na CGU, e já esteve também na equipe do ex-ministro Torquato Jardim no Ministério da Justiça.

Cristiano Romero: As mágoas do presidente

- Valor Econômico

Paulo Guedes teve que admoestar Bolsonaro antes de acalmá-lo

O clima tenso das últimas duas semanas amainou em Brasília, mas os curiosos continuam interessados em saber por que o presidente da República decidiu comprar briga com o presidente da Câmara dos Deputados, um aliado do governo, no momento em que a proposta da mais difícil das reformas - a da Previdência - chegou ao Congresso Nacional. A explicação pode ser mais simples e muito menos sofisticada do que se imagina, mas o alarido, dada a gravidade da crise econômica vivida pelo país há meia década, será sempre grande.

Ao tentar desmoralizar publicamente o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), Jair Bolsonaro seguiu o caminho de Dilma Rousseff, afastada com menos de 15 meses do exercício do segundo mandato. A diferença é que, nada realista, a ex-presidente achou que impediria a eleição de Eduardo Cunha a presidente da Câmara, enquanto Bolsonaro, em nenhum momento, manifestou oposição à ascensão de Maia.

Bolsonaro é um presidente que assumiu o cargo com raiva. Não é, porém, o primeiro a tomar posse da Presidência da República magoado. Luiz Inácio Lula da Silva perdeu a disputa três vezes (1989, 1994 e 1998) antes de chegar lá, em 2002. Foi reeleito quatro anos depois e, contrariando a "maldição do segundo mandato", era tão popular no 8º ano de poder que escolheu e elegeu a sucessora, uma estreante em eleição.

O sucesso, porém, jamais aplacou profundas mágoas de Lula com jornalistas, que considerava preconceituosos, antigos aliados (o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dos tempos da luta pela redemocratização, era um deles), empresários e banqueiros, a quem atribuiu o interesse em apeá-lo do poder durante o escândalo do mensalão (em 2005). "Fiz tudo o que esses 'caras' pediram e agora eles querem me derrubar", desabafou o então presidente.

Em seus diários, FHC não poupa a imprensa. Em seus dois mandatos (1995-1998 e 1999-2002), teve amplo apoio das empresas de comunicação para a agenda de modernização da economia, que contemplou a quebra de monopólios estatais e a privatização de companhias como a Vale. Ainda assim, sentiu-se incompreendido e até perseguido por jornalistas e órgãos da mídia.

Hélio Schwartsman: Um gesto de caridade

- Folha de S. Paulo

Fala do ministro Ernesto Araújo sobre o nazismo é obviamente um disparate

O chanceler Ernesto Araújo disse que o nazismo foi um movimento de esquerda. Trata-se, obviamente, de um disparate, já que o nazismo é uma espécie de tipo ideal dos movimentos de extrema direita —e como tal é reconhecido por toda a comunidade acadêmica.

Hoje, contudo, proponho algo diferente. Proponho que apliquemos a Araújo o princípio da caridade. E o que diz o princípio da caridade? Ele diz que, no curso de uma disputa intelectual, devemos conceder às declarações analisadas a mais generosa interpretação possível. Isso significa que devemos tratá-las em princípio como racionais e bem-intencionadas. Só poderemos considerá-las falaciosas quando não houver outra leitura possível. Mais do que isso, se o raciocínio apresenta defeitos, devemos reconstruir o argumento, tornando-o mais claro e livrando-o de erros laterais.

Trocando em miúdos, existe algum plano, ainda que muito etéreo, em que a declaração do chanceler faça sentido? Da forma como ele colocou, receio que não, mas, se esquecermos as noções de esquerda e direita e adotarmos o dogmatismo ideológico como fio condutor, aí é possível aproximar não só o nazismo do stalinismo —o tipo ideal de totalitarismo de esquerda— como também das guerras religiosas.

Com efeito, a literatura especializada sustenta que a violência tem poucas causas principais. Steven Pinker identifica cinco: predação (violência com vistas a atingir um fim), dominância (desejo de obter prestígio), vingança (propensão a reparar injustiças), sadismo (o mal por prazer) e a ideologia (criar a sociedade perfeita ou concretizar os desejos de Deus). Enquanto as quatro primeiras costumam definir casos de violência interpessoal, é a última que aparece nas grandes tragédias históricas.

Bruno Boghossian: Bolsonaro falsifica a realidade para enganar a população

- Folha de S. Paulo

Do nazismo ao desemprego, presidente adultera fatos para reduzir desgastes

Ao contestar números oficiais sobre o desemprego, Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser desmentido por seu próprio governo. De Israel, o presidente distorceu dados do IBGE para tentar convencer o país de que o mercado de trabalho, na verdade, está bombando. “É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população”, disparou.

O instituto havia calculado que o número de brasileiros desocupados subiu para 13,1 milhões em fevereiro. A conta segue padrões internacionais e leva em consideração pessoas que procuram emprego, mas não encontram. Bolsonaro não gostou.

O IBGE precisou divulgar uma nota de cinco parágrafos para explicar sua metodologia. Afirmou que adota regras semelhantes às de outros países e ainda negou a declaração do presidente de que beneficiários do Bolsa Família não são classificados como desempregados.

Vinicius Torres Freire: Economia definha na desordem política

- Folha de S. Paulo

Indústria vai mal, governo segue sem rumo e Bolsonaro duvida das estatísticas nacionais

A indústria não cresce quase nada, soube-se nesta terça-feira (2) pelo IBGE.

No início da semana no Congresso, gente do governo tentava apagar os incêndios criados pelo próprio governo, mas o fazia com baldes d’água e à matroca.

A economia esfria, o que deve azedar os ânimos no país e, por tabela, no Congresso. Ânimos azedos no Congresso pioram o humor econômico.

A confiança de consumidores e empresas regride desde o início do ano. Virou fumaça a esperança que sempre se reaviva na eleição de um presidente.

O resultado da indústria foi ainda pior por causa dos efeitos econômicos da barbaridade de Brumadinho. Mas não convém dourar a pílula com lama assassina. A indústria extrativa (como minério de ferro) é responsável por 11% da produção industrial total. O restante é indústria de transformação.

A indústria de transformação cresceu apenas 0,4% neste primeiro bimestre, em relação aos primeiros dois meses de 2018. Em 12 meses, o crescimento foi de apenas 0,5%. O crescimento previsto para março da indústria em geral é próximo de zero.

O governo ainda apanha no Congresso. Até os líderes da bancada evangélica batem em Jair Bolsonaro.

Há racha no PSL e entre o PSL e o governo. Ouve-se revolta contra vários ministros relevantes e ameaças de aprovar restrição dura da capacidade do governo de baixar medidas provisórias.

O governo inventa mais moda. Debate o tal “pacto federativo”, em tese redistribuição de recursos e deveres entre União, Estados e municípios.

Ou o governo vai frustrar todo o mundo com essa história de divisão de dinheiro (não há dinheiro) ou, se bobear, vai levar um tombo, perder recursos e ficar com um buraco maior nas contas.

É possível. A desordem e a besteira estão grandes.

Lideranças do Congresso dizem que vai passar uma reforma da Previdência, mas sem cortes nos benefícios de idosos (BPC), de trabalhadores rurais e com alívio nas regras de aposentadorias de servidores, afora o veto ao sistema de capitalização e à desconstitucionalização das normas previdenciárias. Para começar.

BOLSONARO ATACA IBGE
Demagogos sinistros e autoritários em geral gostam da ideia ou da prática de falsificar estatísticas econômicas, dentre outras mentiras. No mínimo ou a princípio, assediam quem trabalha para produzir informações confiáveis, por meio das melhores técnicas conhecidas.

A falsificação de estatísticas é um desastre. Pode alterar o valor das coisas, violar a segurança de contratos, abater a confiança econômica. Enfim, é uma violência contra o debate democrático.

Elio Gaspari*: Lula livre, em casa

- O Globo / Folha de S. Paulo

Manter um ex-presidente na cadeia faz mal à história do país

No próximo domingo (7) Lula completará um ano de prisão, fechado numa cela de 15 metros quadrados na carceragem da Polícia Federal de Curitiba. Sua situação é inédita na história do Brasil e essa circunstância sobrepõe-se aos aspectos jurídicos, porque a decisão dos magistrados um dia será uma nota de pé de página na narrativa de um fato maior. Em 1889 decidiu-se banir a família imperial. Vá lá, mas fazia sentido negar sepultura no Brasil a d. Pedro 2º durante décadas?

Para quem vive com a cabeça quente, Lula deve "apodrecer na cadeia", como disse Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Quando as cabeças esfriam, as coisas voltam para seu lugar.

Três precedentes mostram que seria melhor permitir, em algum momento, a transferência de Lula para o regime de prisão domiciliar. Nele só poderia receber um número fixo de visitantes. (Em 2017, quando Marcelo Odebrecht passou a cumprir a pena em casa, tinha direito a 15 visitantes previamente listados.)

Jefferson Davis, o incendiário presidente dos estados confederados do Sul dos Estados Unidos, foi preso em 1865 e libertado dois anos depois. A Guerra Civil americana custou ao país quatro anos de combates e algo como 700 mil mortos (2% da população).

As condições carcerárias de Lula são dignas, mas assemelham-se àquelas que a República Francesa impôs ao marechal Philippe Pétain em 1945. Ele presidira o regime ditatorial e racista de Vichy, colaborando sinceramente com a ocupação nazista. Nonagenário e doente, teve a pena comutada em 1951 e logo depois morreu, em casa. Lula não foi um Pétain.

Merval Pereira: Ambiente conturbado

- O Globo

Congresso tem a ideia de limitar ainda mais a capacidade do governo de editar medidas provisórias

O presidente Bolsonaro vai encontrar na sua volta de Israel um ambiente político conturbado, com uma Câmara dos Deputados disposta a criar embaraços e limites à atuação do governo.

Tudo porque os deputados estão irritados com a reiterada posição do presidente de generalizar a acusação de que os representantes da “velha política” querem que abra um balcão de negócios para a aprovação da reforma da Previdência.

Resultado: os que realmente querem benesses em troca de votos se sentem expostos à opinião pública. Os que não se consideram da “velha política” se revoltam com a maneira leviana com que o presidente trata do assunto.

A percepção generalizada é que o presidente Bolsonaro, com suas atitudes e com os ataques pelas redes sociais aos políticos, procura pressionar o Congresso a aprovar o que interessa ao Executivo, e se prepara para jogar a culpa da eventual não aprovação das reformas sobre os parlamentares.

Mesmo que seja aprovada uma versão desidratada da reforma da Previdência, também o ônus das medidas impopulares recairia sobre o Congresso, pois o presidente não se empenha na articulação política para aprovar as reformas. Não foi por distração nem sem razão que o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, garantiu ontem que as mudanças no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a aposentadoria rural não serão aprovadas pelo Congresso. E também descartou a capitalização integral da Previdência. São medidas impopulares, que os parlamentares querem barrar para neutralizar eventuais críticas

Zuenir Ventura: Presidente mestre em encrencas

- O Globo

Capitão teima em dirigir o país olhando pelo retrovisor

No meu tempo de criança se dizia que há pessoas que “procuram sarna pra se coçar”. Depois, passou a ser dito de maneira mais criativa: “há gente que é capaz de atravessar a rua para escorregar na casca de banana no outro lado da calçada”. O presidente Jair Bolsonaro pertence a essa categoria: não resiste à tentação de criar encrencas desnecessárias. Agora mesmo foi até Israel para, ao mesmo tempo, frustrar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por não transferir a embaixada para Jerusalém, como prometera na campanha, e desagradar à Autoridade Palestina, por criar um controvertido escritório de representação na cidade.

Bolsonaro conseguiu também, mesmo ausente, provocar agitações contra e a favor do golpe de 64. Constava que os militares em seu entorno o tinham convencido a amenizar as “comemorações devidas”, argumentando que elas eram, digamos, indevidas. O fato, porém, é que o Planalto lançou no dia 31 um vídeo provocativo exaltando a ditadura. O vice Mourão garante que “a decisão foi do presidente”.

Bernardo Mello Franco: Pior para os fatos

- O Globo

A insistência em descrever o nazismo como ideologia de esquerda mostra que Bolsonaro cultiva uma relação peculiar com a realidade. Se os fatos o contrariam, pior para os fatos

Jair Bolsonaro cultiva uma relação peculiar com a realidade. Ele não admite contestação, mesmo quando é desmentido com argumentos irrefutáveis. Se os fatos o contrariam, pior para os fatos.

Na segunda-feira, o presidente atacou o IBGE. Motivo: o instituto revelou que o desemprego voltou a subir. Em vez de encarar o problema, Bolsonaro reclamou da estatística. “Parecem índices que são feitos para enganar a população”, esbravejou.

A pesquisa seguiu parâmetros internacionais, mas foi descartada por não confirmar a propaganda. “Fui muito criticado e volto a repetir: não interessam as críticas. Eu tenho que falar a verdade”, prosseguiu o presidente. Ele deu as declarações numa data sugestiva: 1º de abril.

Ontem Bolsonaro resolveu esticar o Dia da Mentira. Em Israel, embarcou no delírio do chanceler Ernesto Araújo e disse que o nazismo foi uma ideologia de esquerda. “Não há dúvida, né? Partido Socialista… Como é que é? Partido Nacional-Socialista da Alemanha”.

O presidente despejou o besteirol em visita ao Yad Vashem, museu que lembra as vítimas do Holocausto. A instituição informa aos visitantes que o nazismo foi uma das expressões do “crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha”. Se não leu os livros escolares, Bolsonaro poderia ter consultado as plaquinhas.

Míriam Leitão: O IBGE sob novo ataque governista

- O Globo

O presidente ataca o IBGE, revela falta de informação básica sobre desemprego, mas o pior risco que o país corre é no Censo

O presidente Jair Bolsonaro revela mais do que ignorância quando critica o IBGE. É comum governantes não gostarem dos dados negativos, o que os diferencia é que os de mente autoritária querem desmoralizar o órgão que apura a estatística indesejada. Bolsonaro poderia afirmar que não é culpado pelo enorme desemprego do Brasil e que herdou o problema, afinal está no cargo há pouco mais de um trimestre. Em vez de dizer como enfrentará esse desafio, ele prefere brigar com o termômetro e ofender a inteligência alheia.

Em novembro, ele definiu como “farsa” o índice do desemprego. Agora, voltou à carga contra o instituto e, em entrevista à Rede Record, disse que os indicadores são feitos para “enganar a população”.

— O que acontece? Como é feita hoje em dia a taxa? Leva-se em conta só quem está procurando emprego. Quem não procura não é tido como desempregado — disse ele.

Se o presidente tivesse lido um pouco sobre o assunto saberia que os dois dados já são divulgados. O IBGE pergunta se a pessoa está procurando emprego. Se sim, ela entra na estatística dos desocupados, que deu 12,4%, ou 13,1 milhões de brasileiros, no trimestre encerrado em fevereiro. Se a pessoa gostaria de trabalhar, mas desistiu de procurar emprego, ela entra no índice dos desalentados, que registrou 4,9 milhões de pessoas. O IBGE divulga um terceiro dado que engloba tudo, chamado de subutilização da força de trabalho. Nele, entram os desempregados, os desalentados e os que estão subocupados. São ao todo 27,9 milhões de pessoas. O instituto brasileiro segue as melhores práticas internacionais.