O Estado de S. Paulo
Não se escapa de um ajuste fiscal mais profundo, desta vez, porque a realidade está se impondo
Muitos políticos agem como se o dinheiro
público jorrasse do Lago Paranoá. Essa prática fere a Constituição e compromete
o futuro do País. Mas, afinal, o que é responsabilidade fiscal?
Responsabilidade fiscal traduz-se num
Orçamento equilibrado, com receitas suficientes para financiar as despesas
públicas. Não erra, portanto, o senso comum: só se gasta o que se ganha. Mas é
um pouco mais complicado.
O País não começa, a cada ano, “do zero”. Há
um estoque de endividamento, cuja consequência é um volume anual de gastos com
juros de R$ 1,1 trilhão. Além disso, a dívida emitida no passado vence no
presente e, no lugar dela, novos títulos públicos são emitidos e mais juros são
contratados.
Esses empréstimos, no caso do governo, são os títulos públicos emitidos. Quem os adquire aposta em certa probabilidade de o governo “quebrar” no prazo acordado na compra do papel. Na verdade, os emprestadores aceitam uma taxa de juros que, em sua percepção, será suficiente para cobrir esse risco e preservar o poder de compra do seu capital.
A dívida pública é um instrumento essencial
para financiar as políticas públicas. Seu potencial, contudo, é diretamente
dependente da capacidade do Estado de mostrar-se saudável ou, no jargão,
solvente.
Estamos falando de uma dívida pública bruta,
hoje, incluídas todas as esferas federativas, de R$ 10,6 trilhões, frente a um
Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 13,1 trilhões, ou seja, 81,1%, pelos dados do
Banco Central. A dívida brasileira supera em 19,1 pontos porcentuais a média
dos países da América Latina (2025, ver nota abaixo).
Assim, é seguro afirmar que a dívida é
elevada. Mas é pior: a dívida é também crescente, o que turbina os juros
requeridos pela lógica acima explicada. A saber, as receitas e as despesas
públicas chamadas primárias (sem o lado dos juros, isto é, o lado financeiro)
resultam em déficit. Essas despesas não cobertas por tributos precisam ser
financiadas com novos títulos públicos.
Os juros dos títulos públicos estão marcando
de 7,4% a 8% ao ano, em termos reais, quando tomamos as Notas do Tesouro
Nacional – Série B (NTN-B) – papéis atrelados à inflação combinados a uma taxa
pré-fixada – de diferentes prazos. A Selic resiste em patamar elevado, de 14,25%
ao ano (o equivalente a um juro real ao redor de 9,5%). Não importa o critério
ou o indicador, os juros estão altos em diferentes prazos.
São muitas as causas desse fato, inclusive as
externas, o desequilíbrio fiscal e a meta de inflação não condizente com a
realidade brasileira. No que se refere ao desequilíbrio fiscal, se há déficit
primário e a dívida é alta e crescente, o governo ou bem eleva a carga
tributária ou emite mais títulos.
O problema é como garantir condições
razoáveis para a emissão de novos títulos num quadro de juros na Lua. Podese
fazer isso por um tempo, lançando mão de papéis pré-fixados com prazos bem
curtos ou de títulos atrelados à própria Selic, pois eles são uma espécie de
“quase moeda”, dada a facilidade com que se livra deles sem perder dinheiro.
Mas não existe moto-perpétuo. A restrição orçamentária e econômica se impõe.
Para ter claro, esses recursos para gerir,
pagar e refinanciar a dívida vão ocupando espaço fiscal e orçamentário, mas
também espaço econômico. Restringem as possibilidades de crescimento do País
pelo custo elevado do crédito para investir. É precisamente essa a situação a
ser enfrentada em 2027.
Não se escapa de um ajuste fiscal mais
profundo, desta vez, porque a realidade está se impondo. Embora não exista uma
crise instalada, há um caminho a ser consertado em busca da sustentabilidade
fiscal. Isso passa por recuperar os superávits primários e por respeitar a
restrição orçamentária.
Por isso, defendo a redução do crescimento da
despesa obrigatória, o corte dos gastos tributários e das emendas parlamentares
e a adoção outras medidas moralizadoras, a exemplo do fim dos supersalários.
O resultado primário está praticamente
estável em torno de 0,4% do PIB, quando tomamos os dados desde 2024 e incluímos
as projeções até o final de 2026. Ocorre que ele não tem sido suficiente para
reduzir o peso do risco fiscal nos juros mencionados. Os juros não estão
elevados à toa, caro leitor.
O anúncio de um programa crível de ajuste
fiscal teria o poder de reduzir os juros desde o primeiro instante.
Naturalmente, o risco menor seria espelhado nos leilões de venda de títulos
públicos feitos pelo Tesouro. As taxas propostas, mais baixas, seriam aceitas,
colaborando para derrubar os gastos e estabilizar a dívida. Esse ciclo virtuoso
precisa entrar na cabeça dos políticos.
Se não vamos pelo amor à causa, que seja pelo
respeito à Constituição Cidadã. “Sua Excelência, o fato”, como dizia dr.
Ulysses, e Sua Excelência, a restrição orçamentária, digo eu, se impõem. • Nota
metodológica: na apuração da dívida bruta pelo FMI, que o Banco Central já usou
no passado (e continua a divulgar, mensalmente, em paralelo ao dado oficial),
toda a dívida sob custódia da autoridade monetária é considerada. Nesse
conceito, o patamar de 2025 foi de 93,3% do PIB (Brasil) e 74,2% (América
Latina).

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