Trégua nos preços, riscos à frente
Por Folha de S. Paulo
Prévia da inflação surpreende positivamente e
melhora perspectivas para reduzir a taxa Selic
Convergência à meta ainda enfrente muitos
obstáculos, sobretudo os relacionados ao desequilíbrio fiscal produzido pelo
governo Lula
A inflação enfim
começa a dar sinais mais consistentes de arrefecimento. O IPCA-15 de julho,
prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, surpreendeu
positivamente ao subir apenas 0,06%, a menor variação para o mês em
três anos, puxado sobretudo pela queda dos preços dos alimentos.
O alívio se espalha por diferentes componentes do índice, levou consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA deste ano e reforça a expectativa de que o Banco Central volte a cortar a taxa de juros na reunião da próxima semana, hoje em 14,25% ao ano.
A desaceleração merece ser comemorada. Depois
de meses em que alimentos pesaram no orçamento das famílias, produtos como
tomate, batata e café registram
quedas expressivas.
Mais importante, a melhora não ficou restrita
aos itens mais voláteis. Medidas de inflação subjacente também mostram perda de
fôlego, sugerindo que a desinflação ganha consistência.
As boas notícias levaram bancos e
consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA de 2026. Mas as estimativas
permanecem ao redor de 5%, acima do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC.
O cenário, portanto, recomenda cautela, não
complacência. O Copom deve
encontrar espaço para mais uma redução modesta da Selic,
mas dificilmente poderá acelerar esse movimento.
O principal fator interno de preocupação é a
política fiscal expansionista. O governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
amplia estímulos para sustentar a atividade no período pré-eleitoral.
Indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da
FGV mostram que o impulso fiscal é muito superior ao sugerido pelo resultado
primário das contas públicas.
Em uma economia próxima do pleno emprego, a
alta dos gastos públicos tende a manter a demanda aquecida, dificultar o
trabalho do BC e retardar a convergência da inflação para a meta.
Também não faltam ameaças externas. O retorno
do fenômeno El Niño pode
comprometer safras e reverter parte da recente queda dos preços dos alimentos.
Nos Estados
Unidos, a disposição do novo presidente do Federal Reserve, Kevin
Warsh, de adotar uma postura mais dura contra a inflação aumenta a
possibilidade de juros elevados por mais tempo. Se isso ocorrer, o diferencial
de taxas exigido pelos investidores reduzirá o espaço para cortes mais
profundos da Selic.
Some-se a esse quadro a instabilidade
geopolítica. Uma
escalada do conflito envolvendo o Irã poderia levar novamente
o petróleo para
acima de US$ 100 por barril, pressionando combustíveis, fretes e diversos
preços.
A inflação oferece uma trégua e o Banco
Central pode iniciar um ciclo gradual de redução dos juros, desde que mantenha
a prudência. Sem disciplina fiscal, com riscos climáticos e geopolíticos
relevantes e diante da perspectiva de uma política monetária mais dura nos EUA,
o caminho para levar a inflação mais para o centro da meta continua estreito.
Kiev tenta ligar guerra na Ucrânia ao
conflito no Irã
Por Folha de S. Paulo
Ao atacar navio da teocracia aliada de Putin,
Zelenski ensaia nova tática para chamar a atenção de Trump
O Irã forneceu aos russos a tecnologia para
construção de drones Shahed-136, que infernizam os céus ucranianos desde o
início da guerra
Dos 36 grandes conflitos em curso no mundo
hoje, segundo a métrica do britânico Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos, 2 se destacam pela grande latitude de seu escopo geopolítico: a
invasão russa da Ucrânia e
a guerra no Irã.
No sábado passado (25), Kiev ensaiou uma
fusão dos embates ao
atacar um navio civil iraniano no mar Cáspio. O governo
ucraniano disse que a embarcação transportava equipamentos destinados às forças
de Vladimir
Putin, aliado da teocracia sob ataque desde o fim de fevereiro.
Os ingredientes para essa aproximação já
existiam. O Irã forneceu
aos russos uma primeira leva e a tecnologia para construção dos drones
Shahed-136, que infernizam os céus ucranianos desde o início da guerra, em
2022.
Neste ano, os ataques retaliatórios de Teerã
contra aliados dos Estados
Unidos no Golfo Pérsico levaram as nações árabes a procurar
Kiev atrás de auxílio. Afinal, poucos países do mundo estão tão acostumados a
lidar com drones e mísseis quanto a Ucrânia.
Até aqui, contudo, a animosidade era mais
retórica. O governo de Volodimir
Zelenski fez um experimento: tentou atrair os EUA para um apoio
renovado a seu esforço de guerra às vésperas da visita do presidente a Donald Trump,
ocorrida na terça (28).
A lógica da estratégia era mostrar ao
republicano que há interligação entre os conflitos, ainda que o apoio russo a
Teerã seja limitado, e o Irã não tenha papel de relevo hoje no conflito
europeu.
Em público, a Ucrânia e o Irã prometeram
evitar uma escalada. Mas na quarta (29), um terminal de gás natural no Egito
foi atacado por drones, que atingiram
dois navios, inclusive um dos EUA. Dois dias atrás, o local apareceu
em um programa da rede estatal iraniana em um mapa de alvos para retaliação
devido ao ataque da Ucrânia no mar Cáspio.
Tudo isso demonstra a volatilidade do cenário
internacional, refletida nas projeções menores de crescimento econômico e na
ameaça inflacionária representada pelo preço do petróleo.
O conflito no Oriente Médio é
um exemplo disso. Após ameaçar escalar a guerra, Trump suspendeu os ataques que
vinha promovendo, com retaliações correspondentes do Irã, em nome de um novo
esforço que ele chamou de "conversas amigáveis".
A pausa durou
poucos dias, e os ataques recomeçaram. Enquanto isso, Rússia e
Ucrânia vivem a fase mais violenta da guerra, sem um horizonte claro de acordo
patrocinado por Washington.
Sob Trump, a incerteza passou a ser o fator central num mundo que já estava
imerso em atritos.
Congresso adotou agenda nefasta de retrocesso
ambiental
Por O Globo
Num planeta acossado por tragédias
climáticas, tramitam 13 propostas para reduzir áreas de conservação
A frequência e a intensidade crescentes dos
eventos climáticos extremos — como as enchentes no Rio Grande do Sul ou as
ondas de calor e incêndios florestais devastadores em curso na Europa —
recomendam um zelo também crescente com a conservação do meio ambiente.
Infelizmente, não é a visão que tem prevalecido no Congresso Nacional, onde
prosperou nos últimos anos a agenda antiambiental, por meio de projetos que
fragilizam a proteção da natureza.
Tramitam 13 propostas para reduzir Unidades
de Conservação (UCs), alterar categorias ou extinguir áreas protegidas, revelou
levantamento do GLOBO com apoio do Observatório de Leis da Frente Parlamentar
Mista Ambientalista e da Rede Pró-UC. Entre 1988 e 2018, o Brasil registrou 46
iniciativas do tipo, diz a ONG WWF-Brasil. “O Congresso vem banalizando a
redução de Unidades de Conservação e ignorando limites constitucionais já
estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, afirma Douglas Montenegro,
advogado da Rede Pró-UC.
Entre os projetos controversos, estão a
redução de 40% da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, a anulação da
ampliação da Estação Ecológica (Esec) de Taiamã, no Pantanal Mato-Grossense, —
essencial para preservar espécies ameaçadas como a onça-pintada — e a
diminuição da Área de Proteção (APA) Baleia Franca, em Santa Catarina (que
abrange dez municípios e protege um dos principais corredores ecológicos do
Litoral Sul). Há ainda propostas para reduzir o Parque Nacional da Chapada dos
Veadeiros, em Goiás, e anular a criação do Parque Nacional do Albardão, no Rio
Grande do Sul.
No Jamanxim, o projeto, já aprovado na Câmara
e no Senado, converte em Área de Proteção Ambiental (APA) 486 mil hectares
retirados da floresta (do total de 1,3 milhão). A APA segue legislação mais
flexível de ocupação e exploração econômica. A proposta, que não foi precedida
de estudos técnicos, não tem qualquer relação com a obra da Ferrovia Ferrogrão
— esta não afeta a floresta e foi referendada por decisão recente do STF.
Objetiva essencialmente permitir a exploração agropecuária. Seus defensores
alegam o intuito de resolver conflitos fundiários históricos — o trecho
subtraído é ocupado por agricultores. Ora, obviamente não se deve resolver o
problema chancelando uma ocupação irregular.
O avanço sem pudor sobre UCs em ano eleitoral
adiciona mais um capítulo à agenda ambiental retrógrada do Congresso. Nos
últimos anos, parlamentares têm se empenhado em desmontar o arcabouço
legislativo de proteção, visto equivocadamente como entrave ao agronegócio e ao
desenvolvimento. Em boa parte, têm conseguido seu objetivo, como ocorreu na
flexibilização do licenciamento ambiental. Ignoram que uma legislação frouxa
deixa o Brasil mais vulnerável às mudanças climáticas e restringe o mercado
para exportações agrícolas.
UCs não são criadas à toa. Servem para
proteger flora e fauna, conter a pressão sobre a vegetação nativa, blindar
mananciais fundamentais ao abastecimento e preservar o clima e o regime de
chuvas essencial ao agronegócio. Por isso precisam ser mantidas, quando não
ampliadas. Reduzi-las ou extingui-las representa um retrocesso — e traz riscos.
É preciso barrar tais desvarios no nascedouro. A conta da irresponsabilidade já
chegou num planeta acossado por tragédias climáticas cada vez mais intensas e
frequentes.
É descabido sigilo de cem anos sobre visitas
a Vorcaro na cadeia
Por O Globo
Lula criticava segredos durante gestão
Bolsonaro, mas seu governo lança mão do mesmo expediente
Não faz sentido o sigilo de cem anos
decretado sobre a lista de visitas recebidas na prisão por Daniel
Vorcaro, ex-dono do Banco Master,
enquanto esteve detido na Superintendência de Polícia
Federal (PF) em Brasília. O pedido, feito pela coluna Ancelmo Gois, do
GLOBO, via Lei de Acesso à Informação, foi negado pela PF. Depois de recurso da
coluna Malu Gaspar, também do GLOBO, a mesma solicitação foi recusada pelo
ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva. O que pode haver de tão
bombástico numa simples lista para justificar sigilo de um século?
Os registros compreendem nome, CPF, data,
horário e grau de parentesco dos visitantes. “Caracterizam-se como informações
pessoais sensíveis à esfera privada tanto do visitante quanto do detento”, diz
a PF em comunicado. “O tratamento de informações pessoais deve observar, de
forma estrita, a proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das
pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais.” Lima e Silva alegou a
necessidade de preservar informações “relacionadas à intimidade e à vida
privada”. Mas o pedido para que fosse encaminhada a lista com tarjas protegendo
dados sensíveis também foi negado pela PF.
É louvável o zelo da PF e do ministério com a
intimidade dos presos. Mas qualquer dado relacionado a Vorcaro hoje é de
interesse público. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou
informações sobre suas prisões, relações com o poder, mensagens pessoais e até
o financiamento ao filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Tudo pode ser
relevante. O cidadão tem o direito de saber quem visitou o banqueiro na cadeia.
Até porque não há nenhum crime em ter visitado Vorcaro.
A despeito de promessas de campanha, o atual
governo continua a impor sigilos centenários. O mesmo Luiz Inácio Lula da Silva
que tanto criticou Bolsonaro pelos abusos lança mão do expediente. “Vou pegar o
sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa.
Afinal de contas, se é bom, não precisa esconder”, disse Lula em 2022. Uma vez
no poder, o roteiro saiu diferente. O atual governo tem negado informações em
patamares não muito diferentes do anterior.
Não é prática apenas do Executivo. O Senado
negou pedido da coluna Malu Gaspar para informar os registros de entrada de
Vorcaro na Casa. Alegou seguir a Lei Geral de Proteção de Dados e um decreto
sobre acesso a “informações pessoais relativas à intimidade, vida privada,
honra, e imagens detidas pelos órgãos e entidades”. No ano passado, o Senado já
decretara sigilo de cem anos sobre entradas e saídas do lobista acusado de
chefiar o esquema que lesou milhões de aposentados.
Vorcaro é acusado de ter liderado uma das maiores fraudes bancárias da História do país. Milhares de investidores tiveram de ser socorridos. Fundos de Previdência de servidores terão de recorrer aos cofres públicos. As investigações mostram que ele pagava uma milícia particular para intimidar e ameaçar quem o contrariasse, em especial jornalistas. E quem o visitou não é de interesse público?
O ataque dos ‘jabutis zumbis’
Por O Estado de S. Paulo
A toque de caixa, senadores aprovam projeto
que obriga o País a contratar termoelétricas onde não há reservas ou gasodutos
e que gera um custo extra de R$ 1,5 trilhão para as contas de luz
A resiliência de alguns jabutis no Congresso
é impressionante. Algumas dessas emendas – inseridas em projetos de lei sem
qualquer relação com o tema original do texto – são derrubadas e voltam como
“zumbis”. Por exemplo, há iniciativas que ameaçam as contas de luz há tanto
tempo que, muitas vezes, o que muda é apenas o parlamentar disposto a
defendê-las.
É o caso do Projeto de Lei 5.017/2019.
Destinado originalmente a conceder descontos especiais na tarifa de energia
elétrica para irrigação, aquicultura e poços semiartesianos voltados ao consumo
humano, o texto foi emendado com um jabuti que obriga a contratar
termoelétricas em locais onde não há nem reservas de gás nem gasodutos, além de
pequenas centrais hidrelétricas. O custo da brincadeira pode chegar a R$ 1,5
trilhão aos consumidores nos próximos 30 anos, segundo a Associação Brasileira
de Grandes Consumidores de Energia (Abrace).
Apresentado na Câmara em 2015, o projeto foi
aprovado pelos deputados em 2019 e estava na Comissão de Serviços de
Infraestrutura do Senado desde 2021. A inglória missão de relatar o projeto
agora coube ao senador Hermes Klann (PL-SC), suplente de Jorge Seif (PL-SC),
licenciado do cargo desde o início de maio. Até então um ilustre desconhecido
nos corredores de Brasília, o senador Klann assumiu a relatoria no dia 14 de
julho. Sem perder tempo, apresentou seu parecer no mesmo dia – que, na verdade,
era um texto elaborado por um dos relatores anteriores, o senador Marcos
Rogério (PL-RO), já com os jabutis devidamente embutidos nas contas de luz.
Rogério, presidente da comissão, prontamente o submeteu ao colegiado, e o texto
foi aprovado em votação simbólica – antes da qual, para coroar a chanchada,
faltou luz. A pantomima não durou nem dez minutos. Nem senadores da base aliada
nem da oposição manifestaram alguma objeção à proposta.
Diante das controvérsias que gerou após ser
aprovado na comissão, o texto provavelmente terá de passar antes pelas
Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e de Assuntos Econômicos
(CAE) antes de chegar ao plenário do Senado e voltar à Câmara para uma última
análise. Isso pode até atrasar a tramitação da proposta, mas que o leitor não
se deixe enganar.
Afinal, como já dissemos neste espaço, é
exatamente assim que nascem – e neste caso em particular, ressuscitam – os
jabutis. Com algumas atualizações e modificações, essa mesma iniciativa aparece
e reaparece na forma de emendas em projetos de lei e medidas provisórias há
quase dez anos, especialmente em anos eleitorais, quando o Legislativo costuma aprovar
absurdos desse tipo a toque de caixa, abaixo do radar da opinião pública.
No passado, o País já podia recorrer a
projetos mais baratos para o abastecimento de energia. Hoje, com o aumento da
presença de fontes renováveis no sistema, o cenário é mais desafiador, mas nem
por isso justifica a contratação compulsória dessas usinas. Em um mesmo dia,
pode haver sobra e falta de eletricidade, de forma que operar o sistema
elétrico requer dos órgãos técnicos do setor mais flexibilidade para acionar e
desligar usinas e evitar apagões – o oposto do que o projeto do Congresso
propõe.
É inacreditável que os parlamentares estejam
dispostos a repassar mais esse custo para os consumidores. O governo Lula, por
sua vez, não apenas faz vista grossa a essas práticas do Congresso como também
compactua com elas. Os leilões de reserva de capacidade realizados em março,
que contrataram muito mais usinas que o necessário, são prova disso.
É assim, à base de lobbies e em detrimento da
segurança e da confiabilidade do sistema, que o setor elétrico tem operado já
há anos. Com energia limpa em abundância, o País tem uma vantagem comparativa
única que poderia ser usada como um instrumento para atração de investimentos e
para o crescimento da economia. Lamentavelmente, a escolha preferencial tem
sido o atraso e a estagnação.
Devemos negociar com todos
Por O Estado de S. Paulo
Diante do tarifaço dos EUA, o Brasil age bem
ao buscar acordos com Coreia do Sul e China via Mercosul, mas isso não pode
excluir o diálogo com americanos nem a abertura da economia
Em meio aos efeitos da nova ofensiva
tarifária do presidente dos EUA, Donald Trump, Brasil e Coreia do Sul
concordaram em acelerar negociações para viabilizar um acordo comercial através
do Mercosul, tema discutido na recente reunião entre o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva e seu colega sul-coreano Lee Jae Myung, em Brasília.
Uma outra possibilidade de parceria, entre o
Mercosul e a China, também voltou a ganhar visibilidade após telefonema de Lula
ao presidente chinês, Xi Jinping. Avançam ainda negociações com o Canadá, outro
país fortemente punido por Trump.
Isso mostra que, felizmente, o Brasil, a
exemplo de outros países afetados pelo tarifaço americano, não ficou parado e
foi buscar alternativas. Por mais barulho e atenção que a politização desmedida
dos tempos atuais gere, o espaço para negociações continua aberto. E negociar,
mais do que nunca, é fundamental.
Além de anunciar a criação de um grupo de
trabalho com os sul-coreanos para viabilizar um acordo com o Mercosul, o Brasil
também informou que uma missão técnica da Coreia do Sul visitará frigoríficos
brasileiros já no mês que vem, para avaliar as condições sanitárias. O
entendimento pode elevar as exportações de proteína animal do Brasil para a
Coreia do Sul.
Os dois países assinaram ainda um memorando
de entendimento para ampliar a cooperação na área de mineração. Quanto mais
interessados em seus minerais críticos o Brasil cativar, melhor será sua
posição para firmar acordos de fornecimento desses recursos, indo além da
simples transferência de tal riqueza para um comprador externo. Detentor da
segunda maior reserva de minerais críticos do planeta, atrás somente da China,
o Brasil atrai a cobiça de fabricantes globais de carros elétricos e
equipamentos tecnológicos, altamente dependentes dos minerais críticos.
Já a sinalização de que há disposição tanto
do Brasil quanto da China para um acordo comercial via Mercosul é mais um
efeito colateral das tarifas dos EUA. Ao castigar o Brasil de maneira
particularmente dura, o presidente Trump inadvertidamente empurrou o Brasil
cada vez mais em direção à China. Pode ser que essa consequência leve o governo
americano a ampliar a lista de isenções de produtos brasileiros taxados.
Buscar mais mercados é a saída óbvia para
contornar a pressão dos EUA, mas isso não significa que o Brasil, se for
bem-sucedido, possa se dar ao luxo de não lutar para voltar ao mercado
americano – especialmente porque a pauta de exportação brasileira para os EUA é
mais sofisticada que para outros parceiros.
Por outro lado, uma negociação entre o
Mercosul e a China também joga luz sobre o que importa na “crise política sem
precedentes” entre Brasil e Argentina. Por mais que o presidente argentino,
Javier Milei, maldiga o Mercosul, ele segue no bloco. E como bloco o Mercosul
tem mais possibilidades de negociar um acordo vantajoso com a China do que a
Argentina teria negociando sozinha. Conhecido como “louco”, Milei tem sido
bastante racional na relação com os chineses, a despeito de seu alinhamento
ideológico total com os EUA de Trump.
Ao Brasil, porém, não basta apenas buscar
novos parceiros porque Trump retomou sua cruzada protecionista. A conquista de
novos mercados é um imperativo, que deve sempre nortear a política externa e
econômica brasileira.
E a atração de novos parceiros passa pela
abertura da nossa economia, conhecida como uma das mais fechadas do mundo.
Enquanto a média global de corrente comercial – soma de exportações e
importações – é de 56,6% do PIB, a brasileira é de apenas 35,5% do PIB, segundo
dados do Banco Mundial.
Mais do que atrair parceiros, é preciso saber
mantê-los. Hoje, mesmo países que já têm relações de longa data com o Brasil
encontram dificuldade para navegar as enormes barreiras protecionistas que por
aqui vigoram. Está mais do que na hora de o Brasil se abrir ao mundo.
A fé que move as políticas públicas
Por O Estado de S. Paulo
Fracasso do Reforma Casa Brasil é incapaz de
abalar a crença de Lula em suas medidas eleitoreiras
Uma reportagem publicada recentemente
pelo Estadão informa
que o setor de construção ficou frustrado com os resultados do Programa Reforma
Casa Brasil. Anunciada pelo governo Lula em outubro do ano passado, a
iniciativa conta com um orçamento de R$ 40 bilhões, mas apenas R$ 1,3 bilhão
havia sido contratado até maio. Um governo responsável teria examinado as
razões por trás do fracasso do programa antes de ajustar seus critérios e, no
limite, poderia até mesmo suspendê-lo para análise e eventual reformulação.
Mas o governo Lula, guiado pelas pesquisas e
de olho exclusivamente nas eleições, prontamente ampliou o prazo dos
financiamentos de 60 para 72 meses, elevou o limite de renda familiar para
enquadramento de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil e reduziu a taxa de juros de 1,17%
para 0,99% ao mês. O montante contratado até subiu para R$ 2,7 bilhões até o
dia 16 de julho, mas o fato é que apenas 6,7% do orçamento do programa foi
executado até agora. Decepcionada, a indústria de materiais de construção
reduziu sua projeção de crescimento neste ano de 1,9% para 0,5%.
O curto histórico descrito nesta nota
evidencia o padrão pernicioso que orienta as políticas públicas no País há
décadas. Em muitos casos, em vez de identificar um problema, avaliar suas
causas, traçar metas e propor medidas que conduzam aos resultados almejados, a
solução mágica já está pronta, à espera de um suposto problema a ser resolvido.
Para justificar o Reforma Casa Brasil, por
exemplo, o governo mencionou a necessidade de reduzir o déficit habitacional brasileiro,
elevar o estoque de unidades qualificadas e prover fontes de financiamento
imobiliário às classes baixa e média. São, de fato, problemas conhecidos da
economia brasileira.
Resolvê-los, no entanto, requer mais que
intenção. E a julgar pelos resultados, o Reforma Casa Brasil era mais uma
demanda da indústria de materiais de construção do que de famílias propensas a
executar obras em seus lares – ao menos neste momento, em que o nível de
endividamento e a inadimplência voltaram a registrar recorde.
Com o orçamento apertado e a renda consumida
por outras dívidas, compreende-se que a disposição das famílias para fazer
obras seja baixa. O setor de materiais de construção explicou que as reformas
têm sido feitas aos poucos, de forma que haja tempo para recuperar o fôlego
financeiro até assumir um novo compromisso.
Mas nem mesmo a realidade é capaz de abalar a
crença do governo no programa. A despeito de os números dizerem o oposto, o
Ministério das Cidades afirma que “o programa tem alcançado efeitos desejáveis
até o momento”.
Como um disco riscado, o governo Lula recorre
incessantemente a medidas já testadas e reprovadas no passado. Rever gastos
públicos, aprovar reformas estruturais e reequilibrar as contas públicas de
forma a conter a trajetória da dívida pública permitiria criar condições para
que o País tivesse juros mais baixos.
Assim, não apenas os interessados em reformar suas casas poderiam assumir empréstimos com taxas mais civilizadas e prazos de pagamento mais longos, mas toda a sociedade e para qualquer objetivo.
Fed mantém o juro, que não deve subir tão
cedo
Por Valor Econômico
Os rendimentos dos Treasuries subiram e as ações caíram nos EUA, com os investidores vendo uma inclinação do Fed em não agir antes das eleições de meio de mandato de novembro
O Federal Reserve (Fed), sob o comando de
Kevin Warsh, manteve ontem a taxa de juros básica americana na faixa de 3,50% a
3,75%, em uma decisão amplamente esperada, apesar de uma inflação
persistentemente acima da meta de 2% e de preços de energia elevados,
impulsionados pelas guerras na Ucrânia e no Irã. Dos 12 membros do Comitê
Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, três votaram a favor de um aumento de
0,25 ponto percentual para enfrentar a pressão inflacionária. Em seu discurso
sobre a decisão de política monetária, Warsh declarou que o comitê não tem
“nenhuma tolerância” com uma inflação elevada e ressaltou o compromisso da
autoridade monetária em trazer a inflação para a meta de 2%. Mas observou que
não se pode resolver em nove semanas mais de cinco anos de inflação acima da
meta.
Warsh, que comandou sua segunda reunião de
política monetária como presidente do Fed, foi nomeado pelo presidente Donald
Trump, que, desde o seu retorno à Casa Branca, tem exercido forte pressão sobre
o banco central americano para reduzir as taxas de juros em vez de aumentá-las.
Contudo, o cenário externo altamente volátil, alimentado pelas ações
intempestivas do próprio Trump, não permitem a Warsh afrouxar a política
monetária, sob o risco de minar a credibilidade do Fed. Ontem, os preços do
petróleo Brent subiram quase 8%, para acima de US$ 90 o barril, após Trump
prometer dar uma “surra” no Irã em retaliação ao “ataque surpresa” contra as
forças americanas, ameaçando uma escalada ainda maior do conflito no Oriente
Médio.
Manter o juro estável é o máximo que Warsh
consegue entregar para Trump neste momento. Em um reconhecimento, o presidente
declarou ontem que Warsh estava fazendo um trabalho fantástico. “Ele é um
sujeito brilhante”, disse Trump a repórteres no Salão Oval, após o anúncio da
decisão de política monetária.
Embora alguns analistas tenham descrito a
decisão de manutenção do juro como sendo “hawkish hold” (manutenção com viés de
alta), por conta dos três votos dissidentes a favor de um aperto monetário, a
reação dos mercados financeiros refletiu a expectativa de um Fed mais inclinado
à manutenção nas próximas duas reuniões antes das eleições legislativas de meio
de mandato, nas quais os republicanos buscarão manter a maioria nas duas casas
do Congresso em um cenário desafiador de crescente preocupação dos americanos
com os rumos da economia.
No mercado de bônus, os rendimentos dos
títulos do Tesouro americano de 30 anos - que acompanha as expectativas de
inflação - saltaram para 5,20%, nível mais alto em dois meses, enquanto as
ações registraram perdas significativas - o Dow Jones recuou 2,19%, o S&P
500, 1,52% e o Nasdaq, 1,74% -, com os operadores vendo a inclinação para uma
abordagem mais lenta de aumento das taxas de juros como insuficiente para
conter a inflação. O dólar caiu para seu nível mais baixo em quase uma semana.
Aparentemente, os “bond vigilants” não
ficaram impressionados pela afirmação de Warsh de que não hesitará em agir se a
inflação permanecer elevada. Os participantes do mercado ainda interpretaram a
repetida declaração de Warsh de que as condições monetárias nos EUA estão mais
apertadas hoje, com a alta dos juros dos Treasuries desde a reunião de junho,
como uma indicação de que ele não está com pressa em elevar as taxas de curto
prazo que o Fed efetivamente controla.
Durante a entrevista coletiva à imprensa,
Warsh reafirmou sua decisão de eliminar o “forward guidance” de política
monetária, argumentando que, no intervalo entre as duas últimas reuniões do
Fed, o mercado reagiu a dados econômicos reais, “aprendendo a jogar com a bola
e não com o juiz”. Ele rebateu as críticas de que a falta de “foward guidance”
torne o processo de decisão mais opaco no Fed, o que elevaria o risco de a
autoridade monetária pegar os mercados de surpresa. “Surpresas não são o
objetivo”, afirmou Warsh. Ele sempre foi um crítico da postura de abertura de
seus antecessores, afirmando que eles tornaram os mercados excessivamente
dependentes das sinalizações do Fed sobre a direção das taxas de juros.
É sintomático que a guinada por menos transparência e mais opacidade no processo decisório do Fed ocorra durante o governo de Trump, que é avesso à “accountability” (responsabilidade, prestação de contas) e que tem borrado cada vez mais as linhas que separam o público do privado. É preocupante que essa mudança ocorra num momento desafiador para o Fed, de prolongamento das guerras no Irã e na Ucrânia e de aumento significativo do endividamento público e privado nos EUA. Warsh deixou claro que a tendência é de mais opacidade. Até mesmo as entrevistas coletivas pós decisão de política monetária podem estar com os seus dias contatos. Ao ser questionado sobre o tema, Warsh se limitou a dizer que está comprometido com esse encontro com a imprensa “este ano”.
Horizonte de desafios no cenário regional
Por Correio Braziliense
O vencedor da corrida ao Planalto terá de se
debruçar desde logo sobre uma conjuntura regional que se sobrepõe a um panorama
global de guerras e conflitos que ensaiam entrelaçar-se
A crise diplomática aberta com a Argentina,
depois das declarações do presidente Javier Milei em visita não oficial ao
país, ilustra nos tons mais berrantes o cenário regional que aguarda o próximo
governo brasileiro, na virada do ano. Paralelamente, entram em cena, na
vizinhança imediata, mais dois governos de direita alinhados em alguma medida a
Donald Trump: Keiko Fujimori, no Peru, e Abelardo de la Espriella, na Colômbia.
Para além de eventual incidência no debate
eleitoral que deslancha por aqui, a guinada política na América do Sul — e na
América Latina, em geral — terá peso fundamental na formulação da política
externa para os próximos anos. Desde logo, porque o presidente eleito em
outubro deverá contracenar com Trump na Casa Branca por metade do mandato. Seja
quem for o titular do Planalto, terá de fazer interface com uma agenda de
orientação cristalina: o lema, em Washington, é reafirmar a hegemonia no
Hemisfério, inclusive como parte da disputa com a China pela hegemonia global.
Se na relação bilateral predomina hoje a
guerra das tarifas, ao longo dos meses tende a ganhar terreno outra guerra —
contra o crime organizado transnacional, especialmente o narcotráfico. Milei,
Keiko e De la Espriella fazem coro com Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña
(Paraguai) e José Antonio Kast (Chile) na adesão ao modelo de "mão
dura" adotado em El Salvador por Nayib Bukele — outro trumpista raiz. A
presidente peruana anunciou, no discurso de posse, o envio dos militares para
"recuperar" as regiões do país conflagradas pela violência.
Figura nos planos de vários deles, se não
todos, a perspectiva de cooperação operacional com os Estados Unidos na
abordagem militar da segurança pública. Pela perspectiva de Washington, esse
movimento se desdobra na direção de estabelecer ou restaurar a presença militar
no continente. Nos próximos anos, ainda com Trump no comando, uma rede de bases
norte-americanas poderá estar em funcionamento de norte a sul das fronteiras.
Sem falar na recente reativação da IV Frota, com jurisdição sobre as Américas:
nos últimos meses, ela mostrou ao que veio afundando barcos na costa da
Venezuela e da Colômbia e impondo o bloqueio de petróleo contra Cuba.
É de múltiplos desafios o horizonte que se desenha para o vencedor da corrida ao Planalto em outubro. Os candidatos que despontam como favoritos apontam em direção opostas, na pauta externa. Mas subirão ao palco no mesmo cenário. Cada qual com sua abordagem, terá de se debruçar desde logo sobre uma conjuntura regional que se sobrepõe a um panorama global de guerras e conflitos que ensaiam entrelaçar-se. Não bastará enfileirar argumentos para o debate de campanha. Mais que isso, será preciso ter ideias claras e fundamentadas para conduzir o país em um período que se anuncia acidentado e pouco previsível.
Resposta rápida para conter as facções
Por O Povo (CE)
As iniciativas para conter a influência das
facções na política têm de ser cada vez mais rigorosas, pois trata-se de
defender a sociedade de delinquentes perigosos, que tem como objetivo
sequestrar as instituições públicas para submetê-las ao comando do crime
O combate à influência das facções
criminosas nas eleições de outubro é crucial para garantir a segurança e a
integridade das eleições que se aproximam.
É cada vez mais comum a infiltração desses
grupos criminosos nos poderes Legislativo e Executivo, principalmente em
cidades de menor porte, supostamente por haver menos fiscalização dos órgãos
públicos nesse segmento.
O fato é que se tornou generalizada a ação do
crime organizado apresentando candidatos ligados às facções ou cooptando políticos que
se deixam corromper.
Contribui de maneira decisiva para evitar a
infiltração de organizações criminosas nas eleições as ações conjuntas da
Polícia Federal (PF), Ministério Público e outros órgãos públicos para
identificar e levar à Justiça integrantes ou representantes dessas
facções.
Um exemplo da ofensiva legal contra os grupos
criminosos foi a operação realizada nesta terça-feira pela Força Integrada de
Combate ao Crime Organizado no Ceará, composta pela PF, Polícias Civil, Militar
e Penal do Ceará e pela Secretaria Nacional de Polícias Penais. Durante a operação
foram realizados mandados de busca e apreensão nas cidades de Iguatu,
Ocara e Horizonte. As investigações referem-se a supostas irregularidades
ocorridas nas eleições de 2022 e 2024.
Além das ações da Polícia Federal, que
ocorrem em vários estados brasileiros, outra ofensiva parte do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE). De acordo com a legislação eleitoral, o fato de
um candidato ser acusado ou mesmo réu não o impede de candidatar-se.
No entanto, precedentes do TSE apontam que,
no caso de organizações criminosas, não seria necessária uma condenação para
impedir uma candidatura. "A robustez dos elementos fáticos que denotem a
participação do pretenso candidato em milícias ou organizações armadas é
suficiente para obstar a candidatura", declarou ao O POVO o procurador
Regional Eleitoral no Ceará, Celso Costa Lima Verde Leal. Portanto, nesses
casos, segundo o procurador, "o TSE deixou claro não ser necessária uma
condenação criminal colegiada ou transitada em julgado contra o candidato,
diferenciando essa vedação das regras estritas da Lei das
Inelegibilidades".
Essas iniciativas para conter a influência
das facções na política têm de ser cada vez mais rigorosas, pois trata-se
de defender a sociedade de delinquentes perigosos, que tem como objetivo
sequestrar as instituições públicas para submetê-las ao comando do crime.
A velocidade com que essas organizações criminosas disseminam-se por todo o País, tornando-se cada vez mais poderosas e violentas, exige uma resposta rápida, com o uso de todos os instrumentos legais disponíveis para barrar seus intentos criminosos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário