Folha de S. Paulo
Apoio aos Bolsonaros rompe padrão de
relacionamento estabelecido quando os dois países se democratizaram
Faltou às duas nações vontade de criar
estruturas supranacionais resistentes
Nada como a extrema direita para degradar a política em espetáculo de grosseria e vulgaridade! Foi o que se viu do presidente argentino Javier Milei, na convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Em seu prolixo discurso, entrecortado por palavrões, o mandatário do país vizinho ofendeu o presidente Lula e um ministro do Supremo. Terminou sua participação cantando, em tom alucinado, um rock que dizia: "Eu sou o leão, rei de um mundo perdido", "sou o rei e te destroçarei". Na verdade, o autoproclamado manda-chuva das selvas veio ao Brasil como arauto da "onda azul", tratando de adular Donald Trump, que se empenha em transformar a América Latina em território dominado por aliados ultradireitistas.
A ominosa participação de Milei em apoio ao
candidato do clã Bolsonaro confirma a ruptura de um padrão de relacionamento
entre Argentina e
Brasil, estabelecido quando os dois países se democratizaram, já lá se vão
quase 40 anos.
Mais de duas décadas atrás, os cientistas
políticos portenhos Roberto
Russell e Juan Gabriel Tokatlian publicaram "El lugar de Brasil en la
política exterior argentina", pequeno-grande livro que focaliza as
relações bilaterais em perspectiva histórica e do ângulo das visões sobre elas
prevalecentes em seu país. Argumentam os autores que as ações externas
argentinas nunca tiveram o Brasil como inimigo.
Desde a independência, no século 19, a
chancelaria em Buenos
Aires teria se moldado por uma duradoura cultura de rivalidade:
competia-se pela hegemonia no Cone Sul e o reconhecimento da liderança regional
pelas potências ocidentais —dos Estados Unidos, a partir do segundo pós-guerra.
Para Russel & Tokatlian, a decadência
econômica argentina e a redemocratização dos dois países teriam aberto caminho
para outro modelo de relacionamento, baseado na amizade e cooperação entre as
duas nações. De fato, a criação da Agência Brasileiro-Argentina de
Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABCC), para garantir o uso
pacífico da energia nuclear nos dois países, em 1991, e o Mercosul,
estabelecido pelo Tratado de Assunção, no mesmo ano, foram os marcos da mudança
do paradigma das relações bilaterais, assentadas, agora, na colaboração e na
mútua confiança.
Poderiam ter sido o início de um projeto
geopolítico mais ambicioso que, baseado na integração econômica, projetasse a
subregião como ator relevante no mundo. Muitos fatores fizeram-no encolher —uns
econômicos, outros de concepção política. Menciono alguns destes últimos.
Faltaram ao Brasil e à Argentina vontade de criar estruturas supranacionais
resistentes, e empenho em atuar em uníssono nos organismos internacionais e em
definir estratégias comuns para lidar com os Estados Unidos.
Quando os países da região se inclinaram à
esquerda, na primeira década deste século, a Unasul adquiriu proeminência sobre
as relações bilaterais. Mas não ganhou musculatura como fórum de nações
sul-americanas, capaz de sobreviver a mudanças políticas produzidas a cada
eleição presidencial. Da mesma forma, a cooperação entre Brasil e Argentina,
que poderia ter sido política de Estado, foi capturada pela radicalização
política. Nela estamos hoje.

Nenhum comentário:
Postar um comentário