O Globo
Interlocutores do governo identificaram um
clima de “já ganhou” entre autoridades, o que é um duplo erro. É preciso ter
projeto para o mandato
Há uma avaliação entre interlocutores do atual governo, de que teria se espalhado dentro da administração a convicção de que a eleição está ganha. Em vez de apresentar um projeto para o próximo período, a presidência e os ministros apenas dizem que os programas seriam a continuidade do atual. O erro primeiro é que nenhuma eleição está resolvida de véspera; apesar do favoritismo do presidente Lula há incertezas pela frente. O segundo equívoco é não perceber que o próximo mandato presidencial tem desafios específicos que precisam ser enfrentados com propostas sólidas.
Uma questão que preocupa os economistas é o
desequilíbrio fiscal. O déficit primário caiu no atual mandato na comparação
com os quatro anos anteriores, mas a PEC da Transição produziu uma história
nessa gestão diferente do que normalmente acontece. Em geral, apertam-se os
gastos nos primeiros anos para ampliá-los no final. Desta vez houve um forte
relaxamento fiscal no início. O governo diz que encontrou um Orçamento
impossível de ser executado e despesas escamoteadas. É verdade. Os precatórios
não estavam sendo pagos, o governo Bolsonaro elevou benefícios sociais durante
a eleição, mas não incluiu previsão para esses novos patamares de gastos no
Orçamento de 2023. Por isso houve a PEC da Transição.
O problema é que as despesas previdenciárias
subiram muito fortemente porque foram retomados os aumentos reais do salário
mínimo ao qual quase todos os benefícios estão vinculados. O arcabouço fiscal
substituiu um parâmetro em ruínas que era o teto de gastos. Mas ao abusar do
expediente de tirar gastos da conta final, o próprio arcabouço perdeu a credibilidade.
O ministro da Fazenda, Dario
Durigan, teria indicado em conversas com o mercado financeiro que pode
apertar as regras do arcabouço. Segundo
reportagem de Fábio Graner e Manoel Ventura, em conversas de bastidores
Durigan tem dito que pode ser reduzido o ritmo de crescimento do teto de gastos
que hoje é 2,5%. Cairia para 1,5% ou 2%. Isso é pouco e tarde. É preciso ter um
programa mais forte para implementar no ano que vem, até porque contingências
como a guerra no Oriente Médio e o novo tarifaço americano levaram o governo a
implementar planos para ajudar as empresas atingidas.
Em qualquer área o “mais do mesmo” está longe
de ser o suficiente num país com tantas carências. O início em ministérios como
Saúde, Educação, Cultura e Meio Ambiente foi o de mudar a conduta do governo
anterior, reequipando a máquina e reimplantando políticas públicas. Houve
resultados concretos. O Meio Ambiente reverteu a tendência de alta do
desmatamento e derrubou a taxa a níveis historicamente baixos. Mas este não é o
único problema da área ambiental.
Todo governo precisa de um projeto, com
metas, avaliação de resultados, correções de rumo. É por isso que cada mandato
é dividido em quatro anos. O caminho mais fácil para errar é o de achar que o
resultado favorável na eleição está garantido.
O quadro eleitoral está instável, a campanha
ainda não começou, as chapas estão se formando. Basta ver o desencontro de
informações sobre quem será candidato em Minas Gerais, um dos mais importantes
e decisivos colégios eleitorais do país.
O candidato do PL à
Presidência, Flávio
Bolsonaro, enfrenta o desgaste de todos os seus erros, não tem o apoio de
partidos que se alinharam à direita. O candidato do PSD, Ronaldo
Caiado, tenta abrir brecha na direita e se apresentar como a alternativa ao
antipetismo. O candidato do Novo, Romeu Zema,
faz apenas a defesa do partido que pode ficar sem bancada. De qualquer maneira
todas as peças estarão se movendo no tabuleiro nestes próximos dois meses.
A formulação do programa foi entregue a
petistas históricos em vez de se ampliar o arco de alianças, dado que a
campanha precisa enfrentar novamente as ameaças à democracia. O debate e a
divulgação do que se pretende fazer não teve qualquer visibilidade. Os
interlocutores do governo se impressionam com o fato de que eles falam do ano
que vem como se não houvesse uma eleição pela frente. Falam com a certeza de
que nada vai mudar. Era o mesmo comportamento que tinha o governo Bolsonaro com
o detalhe de que naquela administração se conspirava por um golpe. Vinha daí a
certeza da continuidade. Eles foram derrotados. O governo atual precisa ainda
ganhar a eleição. Nada está decidido de véspera numa democracia.

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