terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Merval Pereira - Postura correta

O Globo

Lula adotou a postura que se exige do líder político máximo do país ao deixar o descanso do carnaval para sobrevoar as áreas atingidas por inundações

O presidencialismo, por mais força que tenha o Legislativo devido a articulações políticas como acontece agora, tem uma marca de forte preeminência do presidente da República. Por isso, sempre que se quer reduzir seus poderes, fala-se em semipresidencialismo, em parlamentarismo.

Quando os militares temiam a ascensão de João Goulart ao poder, com a renúncia de Jânio Quadros, providenciou-se um parlamentarismo de emergência, que acabou derrubado anos depois por um plebiscito a favor do presidencialismo.

Não importa que ambos os regimes políticos tenham vantagens sobre o personalismo do presidencialismo. Vale que, quando se defende a troca de regime, está embutida na iniciativa uma dose alta de desejo de emparedar o presidente. Bolsonaro abriu mão de sua força no Congresso porque nunca acreditou em partidos, mas em personalismo.

Ninguém mais que Lula sabe, político experiente que é, que a presença física do líder nos momentos trágicos é importante para a população atingida, e para os demais cidadãos, que se sentem representados com atitudes de “amparo e conforto”. Foi o que o fez deixar o descanso do carnaval para sobrevoar as áreas do litoral de São Paulo atingidas por inundações consequentes de chuvas torrenciais na região.

Ao ressaltar que não importa que o governador paulista seja Tarcísio de Freitas, ex-ministro de Bolsonaro e filiado ao Republicanos, e que o prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto, seja tucano, Lula adotou a postura que se exige do líder político máximo do país, fazendo contraponto com o antecessor, que não expressava empatia em momento algum de tragédias, muito menos quando a área atingida era reduto político de um adversário.

Um detalhe político relevante é que o governador Tarcísio de Freitas é visto como liderança ascendente da nova direita e, embora apoiado por Bolsonaro, fez uma campanha bem mais equilibrada politicamente em São Paulo que seu protetor no Brasil. Como potencial candidato a presidente, tem o PT como principal adversário desde já, mas nem Lula, nem ele, deixaram de confraternizar diante da calamidade que não tem cor ideológica, atinge indistintamente cidadãos que necessitam do apoio de um Estado de Bem-Estar Social para tocar a vida adiante.

Da mesma maneira, a tragédia serviu de gatilho para mostrar que um governo partidário tem grandes limitações, que, se não forem superadas pelo espírito público, isolarão o presidente num círculo fechado impedindo a boa governança. Lula não tem maioria sólida no Congresso, apenas uma maioria circunstancial, que dependerá da boa vontade do presidente da Câmara, Artur Lira, ou de barganhas perigosas.

Também já não tem mais a popularidade esmagadora que alcançou um dia a cifra inacreditável de 80% de apoio. Popularidade tão esmagadora que o faz pensar até hoje que pode fazer o que quer. Governa como se ainda existisse maioria incontestável a apoiá-lo. Para que isso aconteça novamente, precisará exercitar mais esse espírito de convivência com os contrários, além de exercer o poder como líder de uma “frente democrática”.

Lira e o presidente do PP, Ciro Nogueira, estão em Las Vegas montando seus esquemas políticos para enfrentar a esquerda no Congresso, que dominam. Lula tem necessidade de manter o apoio dos não petistas para enfrentá-los, e só com a popularidade em alta terá força política para controlar a centro-direita fisiológica. A viagem de Lula a São Paulo é um bom início de definição de um governo mais amplo.

Ao contrário de Bolsonaro, Lula acredita em partido político e criou o PT, o mais bem-sucedido eleitoralmente. Mas acredita também em hegemonia, marca do PT, que pode ter tido a maior bancada, mas nunca teve maioria no Congresso. Num quadro de “frente ampla”, o PT terá de abrir mão da hegemonia, ou de agregar alianças apenas fisiológicas, para levar adiante um governo bem estruturado, que não pode depender apenas da empatia do presidente.

 

3 comentários:

Anônimo disse...

Vegas? Tratativas para liberação geral da jogatina.
"Para o infinito e além."
Além do que já fazem nas chamadas "casas do povo".

Anônimo disse...

Maldoso. Cobra perigosa. Malandro ixpértio.
Sim, o colunista oportunista.

ADEMAR AMANCIO disse...

Merval elogiando uma atitude do Lula.Aleluia!