Valor Econômico
O federalismo precisa ser mais incorporado na
interpretação dos caminhos e descaminhos democráticos do Brasil
A disputa presidencial de 2026 será decisiva
ao país, disso ninguém tem dúvida. Só que o debate político precisa aprender a
ter um olhar mais sistêmico para tantos cargos eletivos em jogo. Desde que as
eleições se tornaram “casadas”, em 1994, a competição pelo Palácio do Planalto
ocorre simultaneamente às corridas eleitorais nos estados. Até que nos últimos
anos tem aumentado a cobertura sobre o lado regional do pleito geral que ocorre
a cada quatro anos - César Felício faz isso brilhantemente aqui no Valor. Só que é preciso avançar
mais na compreensão do papel da esfera estadual na democracia brasileira.
Obviamente é difícil fazer uma cobertura jornalística e análises políticas que consigam captar tanta disputa numa mesma eleição: presidente, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais. O peso da Presidência da República é muito grande no sistema político brasileiro, mas mesmo essa característica tem se modificado com o poder cada vez maior adquirido pelo Congresso Nacional - o que deveria levar a aumentar o acompanhamento das disputas pelas cadeiras congressuais, tarefa para a qual, infelizmente, a sociedade brasileira ainda não se preparou.
Num canto mais escondido e incompreendido
estão as eleições estaduais. O peso delas não está apenas no lugar destacado
dos governadores e dos estados no processo político brasileiro - o que por si
só já seria uma questão central do jogo político. O federalismo, seja no seu
papel governativo no plano subnacional, seja no seu efeito na formação e
desenvolvimento das carreiras políticas, precisa ser mais incorporado na
interpretação dos caminhos e descaminhos democráticos do Brasil.
Há quatro razões que deveriam fazer com que
os analistas, a mídia e a sociedade prestassem mais atenção no pleito estadual:
o impacto dos palanques regionais na disputa presidencial, a relação entre os
competidores pelo Congresso Nacional e as engrenagens políticas subnacionais, o
papel do federalismo na governança democrática do país e a crise de vários
governos estaduais no atual período, revelando modelos de corrupção e conluios
com o crime organizado que podem impactar o futuro de todo o país.
Os palanques estaduais são peça-chave das
eleições presidenciais brasileiras. Foi muito por isso que Fernando Henrique se
aproximou do PFL e do seu então domínio no Nordeste. No mesmo sentido foi por
esse caminho que Lula teve seu sucesso no eleitorado nordestino para além de
sua força pessoal, pois as lideranças petistas ou aliadas na Bahia, Pernambuco,
Ceará, Maranhão e Piauí, principalmente, tiveram um enorme papel na manutenção
do poder do lulismo nos últimos anos. Embora o PT tenha seu berço político em
São Paulo, as lideranças que têm crescido e mesmo rejuvenescido o partido são
basicamente as nordestinas.
Também há o efeito oposto: políticas
públicas, lógicas ou lideranças nacionais impactam a política estadual. A
polarização atual consegue ter esse efeito, num Sul mais bolsonarista, mesmo
sem ter grandes líderes locais - pegando Moro emprestado no Paraná, por exemplo
-, ou no peso do lulismo no Nordeste. O Plano Real ou o Bolsa Família também
irradiaram o poder federal para as disputas estaduais. Desse modo, não é uma
coisa determinando simplesmente a outra. Existe uma simbiose com equilíbrios
diferentes a cada contexto eleitoral.
Numa eleição que tende a ser muito apertada
como a de 2026, palanques estaduais bem montados podem ser decisivos. Dada a
força no Nordeste, o Ceará, a Bahia e, em menor medida, o Maranhão são grandes
preocupações de Lula, porque ele precisa não só vencer em tais colégios
eleitorais, mas vencer bem para ganhar musculatura na competição nacional.
Flávio Bolsonaro conta com a vantagem no Sul, todavia, terá disputas difíceis
no Paraná e no Rio Grande do Sul porque seus palanques não são, digamos, os
melhores frente à realidade local - enfrentar o governador Ratinho Jr., por
exemplo, será complicado.
Um dos grandes problemas que a polarização
nacional produz nos seus líderes maiores é imaginar que se pode criar um
candidato a governador ou a senador do nada nos estados em que possuem maior
força. Em alguns casos, tanto o lulismo como o bolsonarismo têm escolhido nomes
de última hora, como se não tivessem dominado a política nacional nos últimos
anos, inclusive fechando as portas para qualquer terceira via.
As agruras regionais atuais do lulismo e do
bolsonarismo revelam como ainda lhes falta uma compreensão maior do jogo
político estadual e da necessidade de se criar lideranças fortes nos estados
com mais antecedência. Mas o problema da lógica da polarização no federalismo
não é só esse: existe uma pluralidade partidárias nos planos estadual e
municipal que é geralmente esquecida por analistas e pelos chefes dos dois
grupos mais destacados da política nacional. Aqui o radicalismo e o hegemonismo
dependem mais do que gostariam da imprescindível política de alianças.
Muitas coisas vão determinar o vencedor em
outubro, mas nesta conta estarão com certeza os resultados estaduais nos
pleitos de São Paulo, Ceará, Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e, sobretudo, em
Minas Gerais e Rio de Janeiro. Esse xadrez federativo vai definir o próximo
presidente da República.
Um segundo elemento decisivo da política
regional está na forte relação da eleição ao Congresso com as engrenagens
subnacionais. Se o velho discurso de que o Congresso Nacional de amanhã será
pior do que o de hoje for verdadeiro, parte disso se deve às relações dos
congressistas com os governos e representantes estaduais.
Fala-se muito do poder desmesurado e
antirrepublicano das emendas parlamentares. Só que essa distribuição de
recursos se dá no território eleitoral de cada representante, e seu fluxo
depende de negociações e estruturas de mando presentes na simbiose dos
congressistas com políticos estaduais e municipais. É preciso conhecer e
acompanhar mais como funciona tal engrenagem política. Deputados federais não
vêm de Marte nem nasceram na Praça dos Três Poderes. Antes foram vereadores,
deputados estaduais, secretários, em suma, é dessa vida local que tiram a
energia para conquistar votos.
Quem foi Arthur Lira antes de ser deputado
federal? Davi Alcolumbre começou sua carreira como senador? Mais do que isso, o
núcleo duro do Congresso Nacional tem fortes relações com governos estaduais e
municipais, e compreender melhor essa ponte é fundamental para melhorar a
democracia brasileira, em vez de apenas praguejar sobre o futuro do Congresso
Nacional - mesmo que a profecia de Ulysses Guimarães continue incontestável.
Atentar mais para a relevância política das
eleições estaduais é, ainda, uma forma de compreender o duplo lado do
federalismo em termos democráticos. Esse terceiro ponto do argumento do artigo
envolve, de um lado, o fato de que os governos estaduais são centrais para a
qualidade de vida dos cidadãos, especialmente em políticas como segurança
pública, educação, saneamento básico e saúde.
A boa governança do país, neste sentido,
depende de governadores qualificados, tanto mais se souberem coordenar a ação
dos governos estaduais com os municipais, grande alavanca para a melhoria da implementação
das políticas públicas em todo o território nacional.
Por outro lado, os estados são centrais como
contrapesos democráticos à União, ou seja, ao Congresso Nacional e ao Executivo
federal. Esse papel é maior do que os analistas políticos têm dito. Como mostra
a experiência recente do governo Bolsonaro, que muitas vezes foi paralisado em
seus métodos autocráticos pela ação dos governadores, pode ser que no futuro
tenhamos que precisar de novo dos governos estaduais para evitarmos erros
crassos em políticas públicas ou, o que seria ainda mais grave, o avanço de um
projeto autoritário e centralizador vindo de Brasília para o Brasil. Esse ponto
deve ser lembrado na hora de os eleitores votarem para governador.
Os três pontos anteriores são delineadores do
lugar dos estados na política brasileira, contudo, uma outra questão vem
ganhando força nos últimos anos e se expressado de forma aguda no momento:
alguns governos estaduais foram tomados por uma corrupção profunda e pelo
relacionamento cada vez maior com o crime organizado. O caso mais explícito
disso é o Rio de Janeiro, mas estados da fronteira Norte têm igualmente seguido
essa trilha.
O governador Cláudio Castro e seus aliados na
Assembleia Legislativa não iniciaram essa jornada trágica, mas com certeza a
levaram a um ponto extremo, que pode ser um caminho sem retorno se o país não
se der conta de que a eleição estadual do Rio de Janeiro é sobre a capacidade
de vencer a corrupção generalizada e o crime organizado tomados como algo que
pode se alastrar nacionalmente. A recente prisão do deputado estadual Thiago
Rangel revela que o estado não estava apenas sendo governado por uma quadrilha,
composta em massa por apoiadores de Bolsonaro, mas que esteve prestes a
entregar cargos a traficantes em lugares estratégicos como a educação.
Entender melhor os nexos político-federativos
com os estados é fundamental para influenciar as eleições presidenciais, eleger
melhores congressistas, fortalecer a democracia e evitar o desmantelamento do
Estado brasileiro. Tal constatação deveria reequilibrar a cobertura política e
as discussões dos analistas políticos.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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