sexta-feira, 8 de maio de 2026

O tempo próprio de Minas, por Vera Magalhães

O Globo

Estado, um dos mais cruciais para definir a eleição presidencial, assiste a indefinições à esquerda e à direita, que dificultam traçar um prognóstico

Minas Gerais ocupa um lugar singular na política brasileira porque reúne três características decisivas: é o segundo maior colégio eleitoral do país, tem um eleitorado social e regionalmente muito heterogêneo e, historicamente, costuma reproduzir o comportamento médio do eleitor brasileiro.

Por isso, cientistas políticos frequentemente descrevem Minas como uma espécie de “microcosmo do Brasil”, ou nossa versão de “estado-pêndulo”. Reúne regiões com perfil econômico, cultural e ideológico muito diferentes e oscilou da esquerda à direita ao longo dos últimos ciclos presidenciais.

O norte do estado e o Vale do Jequitinhonha têm características próximas ao Nordeste, o Triângulo Mineiro dialoga com o agronegócio do Centro-Oeste, o sul sofre influência econômica, cultural e política de São Paulo, e a Zona da Mata é historicamente ligada ao Rio.

Esse mosaico faz com que o estado funcione como termômetro nacional. Não por acaso, desde a redemocratização, quem venceu em Minas venceu também a eleição presidencial em todo o país. Desde 2014, a coincidência entre o resultado mineiro e o nacional foi especialmente impressionante.

Tal centralidade talvez explique, para além da mítica “desconfiança” dos mineiros, a demora na definição de candidaturas por lá neste ano, que tem aumentado a ansiedade na direita e na esquerda.

Lula precisa vencer em Minas para compensar prováveis derrotas no resto do Sudeste. A última rodada da Quaest em dez estados ainda lhe dá pequena vantagem, na margem de erro, mas acende uma luz amarela pela alta desaprovação do estado a seu mandato.

Por enquanto, Lula e o PT vivem em compasso de espera para saber se Rodrigo Pacheco assumirá a empreitada de ser o candidato lulista em Minas. O senador quer usar o tempo ao limite. Aliados dele lembram que apenas na última semana da inscrição de candidaturas em 2018 ele se definiu pelo Senado, e agora não teria por que se apressar. Em relação à aparente falta de vontade de Pacheco de se lançar à empreitada, um profundo conhecedor de seu histórico lembra que a vontade nasce da oportunidade. E essa depende de articulações que passam pelo próprio Lula para montar uma aliança que vá além do PT.

O plano B que cresceu nos últimos dias é o ex-presidente da Fiesp Josué Gomes da Silva, cuja única ligação com a política vem de ser filho do vice de Lula nos dois primeiros mandatos, José Alencar. Na mesma toada mineiríssima, Josué se filiou ao mesmo PSB de Pacheco, mas recorre a uma citação do pai para não negar nem confirmar quando lhe perguntam se será candidato:

— Em época de guerra, boato é como terra.

A indefinição não é exclusividade do campo lulista. Apesar de liderar a corrida em todos os institutos, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) ainda não crava que será candidato. Seu maior revés a administrar é uma disputa com o deputado Nikolas Ferreira (PL) para ver quem é a principal liderança da direita no estado.

Romeu Zema (Novo), que deixou o governo num momento de baixa avaliação, também enfrenta a contingência de estar no terceiro lugar “em casa”. Sair consagrado de Minas era condição mínima para emplacar uma candidatura que já padece da dificuldade de contar com um partido nanico e muita pressão dos aliados por aderir a Flávio Bolsonaro.

Toda essa indefinição dificulta usar os dados para traçar um prognóstico a respeito do que acontecerá em Minas em outubro. Em 2022, o segundo turno mostrou vantagem ainda mais apertada para Lula sobre Jair Bolsonaro que no conjunto do Brasil. O presidente precisaria, no mínimo, repetir esse “empate” para prevalecer sobre o filho do antigo adversário. E, para isso, precisará colocar a mão na massa de forma mais dedicada do que vem fazendo até agora.

 

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