Correio Braziliense
Trump e Xi Jinping conversam em Pequim. O
dólar nunca esteve tão baixo. O ouro conseguiu extraordinária valorização nos
mercados globais. E as consequências são percebidas no interior da Amazônia,
com o garimpo ilegal
Donald Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, e os brasileiros tentam antecipar o que será combinado entre os dois grandes da economia mundial. Juntos, eles significam 40% do comércio internacional. Desde Barack Obama, o governo dos Estados Unidos age no sentido de conter o veloz desenvolvimento econômico dos chineses. Na era Trump, os norte-americanos aumentaram muito suas tarifas específicas para produtos daquele país. Pequim respondeu na mesma medida. Também elevou tarifas.
Porém, Pequim fez mais: começou a vender seus
títulos do tesouro norte-americano. Os chineses chegaram a deter cerca de US$
1trilhão investidos naquele título. Hoje, possuem cerca de US$ 700 bilhões
naquele papel. Uma das consequências desse movimento de xadrez financeiro foi a
queda do valor do dólar em todo mundo. O dólar nunca esteve tão baixo. Os
chineses inundaram o mercado com os títulos do Tesouro norte-americano e
começaram a utilizar sua moeda, o renminbi, em seus negócios internacionais.
Foi outro violento ataque ao dólar.
No sentido inverso, o ouro conseguiu
extraordinária valorização. Os bancos centrais de diversos países perceberam a
queda do valor do dólar. Passaram a fazer reservas em ouro. A consequência no
Brasil foi curiosa: explodiu o comércio do ouro por toda a Amazônia. A Polícia
Federal (PF) e o Exército não conseguem controlar a lavra e a pesquisa do vil
metal. Os números são eloquentes: a medida do ouro é chamada de onça
troy, que equivale a 32g do metal. Seu preço hoje está na faixa de US$
4.600 a US$ 4.800, o que, com o dólar em torno de R$ 5, resulta em R$ 23 a 25
mil. Trata-se de mercado internacional. O metal tem esse valor em Itaituba, no
interior da Amazônia, ou em Amsterdã, na Holanda.
A evolução do preço do ouro nos últimos anos
supera o de qualquer ação na Bolsa de Valores. Em 2021, era de US$ 1.829. Hoje,
passou de US$ 4.800, com forte aceleração nos últimos dois anos. Valorização de
170% em cinco anos. Ótimo negócio. Em termos práticos, quem comprou ouro em
2020 praticamente dobrou o capital em dólares.
A estimativa da Agência Nacional de Mineração
(ANM) é de que saem do país, sem pagar imposto, 15 a 20 toneladas de ouro por
ano, com valor aproximado de R$ 5,5 bilhões/ano. Grande parte não aparece como
contrabando clássico, mas é esquentado com documentos falsos. É
mercado bilionário, comparável a outros grandes crimes econômicos no
Brasil. Os compradores do ouro brasileiro no exterior são, em geral, atores
formais do mercado global, não contrabandistas diretos.
Na Suíça, funciona o maior centro mundial de
refino de ouro. O metal é vendido para bancos, joalherias e investidores. Em
Londres, opera o centro financeiro global do ouro, Dubai tornou-se grande hub
para ouro de origem africana e sul-americana. Índia, grande consumidor de ouro
em joias. China compra ouro para investimento e para indústria. O chinês médio
costuma fazer reserva financeira em ouro para se sustentar na idade provecta.
Antes era o dólar, agora é o ouro. Além desses, há compradores no Canadá e nos
Estados Unidos.
Tudo começa com o garimpo ilegal, na
Amazônia, em terras indígenas, e o posterior esquentamento com documentos
falsos. Não existe um comprador criminoso único. O sistema envolve empresas
brasileiras, refinarias internacionais e multinacionais. O garimpo,
especialmente o ilegal no Brasil, raramente é autônomo. Em muitos casos,
há financiadores por trás, que bancam a operação e ficam com a maior parte
do lucro. Esses financiadores aparecem em diferentes níveis da cadeia: há
empresários e redes logísticas, donos de pistas de pouso clandestinas, aviões,
balsas e rotas de transporte. Funcionam como infraestrutura do garimpo. Facções
e redes ilegais atuam em várias áreas: controle territorial, segurança armada e
lavagem de dinheiro.
O garimpo ilegal no Brasil é financiado
por rede econômica estruturada, que inclui investidores locais, empresas
de compra de ouro, logística ilegal, crime organizado e demanda internacional.
Ou seja: não é uma atividade isolada de trabalhadores pobres. É negócio
organizado e altamente lucrativo. O garimpeiro recebe entre R$ 1.500 e R$ 4.000
por mês. A situação típica é trabalho pesado, renda instável e o risco de
procurar durante semanas e não achar nada.
A consequência desse comércio é que a densa
floresta na Amazônia esconde 2.837 pistas de pouso irregulares — ou seja, não
têm cadastro junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Quase 814 delas
estão dentro de terras indígenas ou unidades de conservação. São números do
Ministério da Defesa. A rede de infraestrutura para pesquisa, lavra e venda do
ouro está em crescimento, porque opera junto com o narcotráfico. Trump e Xi
Jinping conversam em Pequim, mas as consequências são percebidas no interior da
Amazônia.

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