sábado, 20 de junho de 2026

Sobre a amizade no caso Master, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na última terça, dois dias antes da operação policial contra si, Jaques Wagner, líder do governo Lula, subiu à tribuna do Senado para se solidarizar com Davi Alcolumbre, indignado o presidente do Congresso ante a notícia de que teria levado US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro. (Há mensagens do banqueiro à noiva, de agosto de 2025, em que relata boa reunião, “até meia noite”, na residência oficial da presidência do Senado, na qual teria aparecido “sem ele saber”.)

O discurso de Alcolumbre teve dois propósitos: transformar a denúncia contra o indivíduo senador Davi em “ataque ao Senado”; e disparar a ordem unida, sob o sentimento – medo – corporativista, do “eu sou você amanhã”. Estão aí Ciro Nogueira e o cavalo manco Flávio Bolsonaro...

Não faltavam ali no plenário os que, tendo deitado na rede vorcárica, captariam o recado. E lá foi Wagner. Criticou a lei de colaboração premiada no Brasil, país em que presos seriam coagidos a delatar, tomado de repente daquele gilmarmendismo que faltara a Mauro Cid. E disse que o fazia mui à vontade, porque não teria qualquer relação com Vorcaro.

Não mentia. A relação fraterna era com o sócio de Vorcaro, Augusto Lima, a quem pediu que comprasse um apartamento, que recompraria depois. As gestões para a compra estão documentadas na investigação da PF, com a suspeita de constituição de fachada para ocultar a verdadeira propriedade.

Essa amizade deriva da gratidão. Em 2018, governador da Bahia Rui Costa, o secretário de Desenvolvimento Wagner aceitou – sob sugestão de Lima – incrementar a fracassada tentativa de privatizar a Cesta do Povo com um pacote de crédito consignado. Veio o terceiro leilão – e, desta vez, com comprador: Lima. Nascia o Credcesta.

Pouco depois, o governo daria exclusividade ao Credcesta para explorar, por 15 anos, a oferta de consignado aos servidores do Estado. Precisando de lastro, Lima se associaria a Vorcaro – a base do Master como o conheceríamos.

Os afetos antigos fundamentaram o que seria mais um mandato parlamentar a serviço de, entre outras cargas, viabilizar a venda de parte do Master ao BRB. No dia seguinte ao anúncio do memorando de entendimento para a aquisição, Lima escreveu a Wagner: “Você, mais do que ninguém, sabe de minha história e faz parte disso”.

No discurso a Alcolumbre, Wagner disse: “Não tenho nenhum negócio (com Vorcaro). Aliás, não tenho nem CNPJ. Eu só tenho CPF”. Não mentia.

CNPJ quem tem são os parentes. O enteado, por exemplo, vinculado à BN Financeira, para a qual a rede vorcárica transferira R$ 3,5 milhões. Haveria mais milhões, pagos “direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo econômico investigado”.

Alcolumbre, homem de oportunidades, solidário a Wagner como lhe fora Wagner, chamou a presunção de inocência – aquela que deixa nem investigar – e mandou fechar o Estreito de Ormuz. Passa nada, e ninguém solta a mão de ninguém. 

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