O Estado de S. Paulo
Na última terça, dois dias antes da operação
policial contra si, Jaques Wagner, líder do governo Lula, subiu à tribuna do
Senado para se solidarizar com Davi Alcolumbre, indignado o presidente do
Congresso ante a notícia de que teria levado US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro.
(Há mensagens do banqueiro à noiva, de agosto de 2025, em que relata boa
reunião, “até meia noite”, na residência oficial da presidência do Senado, na
qual teria aparecido “sem ele saber”.)
O discurso de Alcolumbre teve dois propósitos: transformar a denúncia contra o indivíduo senador Davi em “ataque ao Senado”; e disparar a ordem unida, sob o sentimento – medo – corporativista, do “eu sou você amanhã”. Estão aí Ciro Nogueira e o cavalo manco Flávio Bolsonaro...
Não faltavam ali no plenário os que, tendo
deitado na rede vorcárica, captariam o recado. E lá foi Wagner. Criticou a lei
de colaboração premiada no Brasil, país em que presos seriam coagidos a
delatar, tomado de repente daquele gilmarmendismo que faltara a Mauro Cid. E
disse que o fazia mui à vontade, porque não teria qualquer relação com Vorcaro.
Não mentia. A relação fraterna era com o
sócio de Vorcaro, Augusto Lima, a quem pediu que comprasse um apartamento, que
recompraria depois. As gestões para a compra estão documentadas na investigação
da PF, com a suspeita de constituição de fachada para ocultar a verdadeira
propriedade.
Essa amizade deriva da gratidão. Em 2018,
governador da Bahia Rui Costa, o secretário de Desenvolvimento Wagner aceitou –
sob sugestão de Lima – incrementar a fracassada tentativa de privatizar a Cesta
do Povo com um pacote de crédito consignado. Veio o terceiro leilão – e, desta
vez, com comprador: Lima. Nascia o Credcesta.
Pouco depois, o governo daria exclusividade
ao Credcesta para explorar, por 15 anos, a oferta de consignado aos servidores
do Estado. Precisando de lastro, Lima se associaria a Vorcaro – a base do
Master como o conheceríamos.
Os afetos antigos fundamentaram o que seria
mais um mandato parlamentar a serviço de, entre outras cargas, viabilizar a
venda de parte do Master ao BRB. No dia seguinte ao anúncio do memorando de
entendimento para a aquisição, Lima escreveu a Wagner: “Você, mais do que
ninguém, sabe de minha história e faz parte disso”.
No discurso a Alcolumbre, Wagner disse: “Não
tenho nenhum negócio (com Vorcaro). Aliás, não tenho nem CNPJ. Eu só tenho
CPF”. Não mentia.
CNPJ quem tem são os parentes. O enteado, por
exemplo, vinculado à BN Financeira, para a qual a rede vorcárica transferira R$
3,5 milhões. Haveria mais milhões, pagos “direta ou indiretamente, por
intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias
vinculadas ao grupo econômico investigado”.
Alcolumbre, homem de oportunidades, solidário a Wagner como lhe fora Wagner, chamou a presunção de inocência – aquela que deixa nem investigar – e mandou fechar o Estreito de Ormuz. Passa nada, e ninguém solta a mão de ninguém.

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