Revista Veja
A elite dirigente brasileira freia a ideia do
bom ensino para todos
Nos anos 1840, o príncipe herdeiro de Hanôver, que depois se tornaria rei Ernesto Augusto, opôs-se à implantação de ferrovias em seu país porque “não queria qualquer sapateiro ou alfaiate viajando tão rápido quanto ele”. A frase é citada por Orlando Figes no livro Os Europeus, ao tratar do impacto da revolução ferroviária na política, na cultura e na economia da Europa. Pois o príncipe mudou de posição e transformou-se em defensor das ferrovias, colocando a Alemanha na vanguarda do desenvolvimento. Não tivesse adotado os trilhos, o país teria ficado para trás entre as nações do continente.
O que o príncipe pensava há 200 anos é o que
sente a elite dirigente brasileira em relação à ideia de um sistema nacional de
escolas com a mesma qualidade para todos. A minoria privilegiada sabe que uma
boa escola é o trem para o futuro e procura reservá-la apenas para seus filhos,
mesmo que isso signifique sacrificar o avanço do país. Esse teria sido nosso
trem para o futuro: nenhum cérebro deixado para trás, todos dispondo do mapa
para buscar sua felicidade e as ferramentas para construir o país. No
livro Jogados ao Mar,
uma militante progressista demite sua empregada doméstica porque esta, em vez
de pedir aumento salarial, teve a ousadia de reivindicar para seus filhos a
mesma escola frequentada pelos da patroa. A empregada argumentava que não via
futuro para suas crianças, deixadas sem acesso a um ensino de qualidade e
sujeitas a greves. Ainda teve a petulância de comparar as escolas das crianças.
“Após mais de um século de República,
crianças pobres ainda não podem viajar na mesma velocidade das outras”
Ao longo de mais de um século de República,
nossos dirigentes pouco mudaram em sua resistência a permitir que seus filhos
viajem para o futuro na mesma velocidade que os do chamado povão. Mesmo sem
manifestar isso explicitamente, se assustam diante da ideia de vê-los estudando
nas mesmas escolas que os filhos das camadas mais pobres. Quando oferecem
matrícula para quase todos os brasileiros, negam a mesma qualidade a todas as
escolas. Os dirigentes brasileiros não se importam com o rumo do país porque
sabem que seus filhos estão cada vez mais preparados para integrar o “primeiro
mundo internacional dos ricos”, no qual já vivem, mesmo morando no Brasil. Para
eles, mudar de um país para outro não significa migrar, porque pertencem à
mesma nação social dos ricos do mundo. Por isso, dentro de seu país geográfico,
erguem muros contra os migrantes sociais do próprio Brasil. Além dos muros dos
condomínios que os barram no presente, instalam catracas nos portões das
escolas de qualidade para barrar o futuro.
Diferentemente do rei Ernesto Augusto, que
compreendeu a importância das ferrovias, aceitou “viajar na mesma velocidade
que sapateiros e alfaiates” para promover a revolução ferroviária e fez de
Hanôver uma sociedade próspera, a minoria brasileira prefere reservar o trem-escola
apenas para seus filhos. Prefere deixar o Brasil para trás, ainda que hoje seja
muito mais fácil implantar uma rede nacional de escolas públicas de qualidade
do que, há quase 200 anos, foi construir uma malha ferroviária na Europa.
Infelizmente, ainda não adotamos nada semelhante à Lei Guizot, de 1833, que
obrigou cada município da França a manter escolas públicas com padrões
nacionais de qualidade para todos.
Publicado em VEJA de 3 de julho de
2026, edição nº
3002

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