Folha de S. Paulo
A campanha do presidente tornou-se o
guarda-chuva sob o qual articula-se a paz entre o Congresso e o STF, para que
tudo permaneça como está
No terceiro mandato, o reformismo brando de
Lula dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista
O PT veste vermelho,
quando concorre para marcar posição, alternando às cores nacionais quando crê
no triunfo. Lula vestiu
branco, sob o fundo de uma bandeira verde-amarela, na convenção de lançamento
de sua sétima candidatura presidencial. "Lulinha porreta", como se
exibiu? Não: isso foi dirigido à militância. O sétimo Lula é o candidato da
"ordem".
"Ordem", aí, com aspas. O certo é candidato do status-quo, ou seja, da desordem institucional. Sua campanha tornou-se o guarda-chuva sob o qual se articula a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está.
Desde que Jair ungiu Flávio,
delineia-se a reeleição de um presidente assombrado por crônica rejeição
majoritária, que resiste às "bondades eleitorais" oferecidas às
custas do endividamento público. As conexões de Flávio com o Master e sua
submissão absoluta à Casa Branca foram lidas pela direita como atestado de
óbito.
Daí, seguiram-se a retração de Tarcísio de
Freitas à fortaleza paulista e a confirmação das candidaturas especulativas de
Caiado e Zema, que sonham herdar a base eleitoral bolsonarista na hipótese de
implosão do pretendente bolsonarista. Mas, sobretudo, o centrão extraiu do
cenário a conclusão lógica de que deve concentrar seus esforços na apropriação
do tesouro depositado no cofre das emendas parlamentares.
União Brasil, PP e Republicanos, principais
partidos do centrão, assim como o MDB, declararam neutralidade no plano
nacional e "flexibilidade" nas disputas estaduais. Hugo Motta,
presidente da Câmara, fez suas contas antes de pronunciar o veredicto:
"Lula é o presidente que converge com aquilo que pensamos ser o melhor
para o país". Tudo indica que Alcolumbre, seu colega do Senado,
siga na mesma direção.
O "país" mencionado por Motta não é
o Brasil das ruas, mas um Brasil oficial vergado pelo desequilíbrio
institucional. Seu objetivo é conservar a inflação de poderes do Congresso
–isto é, o sequestro legalizado da prerrogativa de desviar recursos públicos
para as bases dos parlamentares. Sob um governo Lula 4, isso solicita uma
reconciliação com o STF, cuja maioria alinha-se ao presidente.
O STF reagiu à operação golpista de Jair
Bolsonaro pela ampliação de seu próprio poder. Os juízes supremos gostaram e,
passada a situação excepcional, prosseguiram a escalada. Censuram ilegalmente,
indiciam arbitrariamente, ameaçam o sigilo de fontes jornalísticas, legalizam
rendas abusivas do Judiciário, protegem seus colegas das investigações
policiais no caso Master. Hoje, precisam evitar uma retaliação do Congresso que
emanará das urnas. Lula, Alcolumbre e Motta surgem como intermediários na
costura de um pacto de elites: as emendas em troca dos poderes excessivos dos
juízes de capa preta.
O "Lulinha da dona Lindu" nunca foi
de esquerda, algo que ele mesmo admite. No terceiro mandato, seu reformismo
brando dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista. Sua campanha
atual, valsa derradeira, baseia-se em duas negativas: não ao autoritarismo dos
Bolsonaro, em nome da democracia; não ao neoimperialismo de Trump, em nome da
bandeira auriverde. Dois "nãos", nenhum "sim".
"Vai ter briga com emenda
parlamentar", prometeu Lula no palanque da convenção. Esqueça:
aos 80, o fiador do pacto das instituições representa uma ordem imune à mudança
e carente de amparo popular.

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