Correio Braziliense
A questão que desune Michelle e Flávio, ambos
bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com
questões familiares, os dois lados perdem
A disputa pública por espaço que envolve filho e madrasta configura uma tragédia grega. Desde tempos remotos, a controvérsia não costuma terminar bem. Um dos lados vai sofrer agora ou no futuro. E as consequências, na maioria das vezes, não beneficiam ninguém. É drama sobre drama. Mágoas, rancores e ciúmes só podem ser resolvidos com muitos anos de psicanálise conduzida por profissional qualificado. A questão que desune Michelle e Flávio, ambos bolsonaros, não é política. É pessoal. Quando a política se mistura com questões familiares, os dois lados perdem.
Trata-se de questão pessoal, que não deveria
ser objeto de atenção dos jornais. Acontece que a briga incomoda a campanha de
Flávio Bolsonaro, ungido pelo pai a candidato, sem qualquer consulta prévia ao
partido e às principais lideranças nacionais. Ele é uma espécie de herdeiro do
trono. Desde priscas eras, as benesses de herança sempre foram objeto de
intensa e violenta briga por aqueles que se sentem excluídos. Michelle é uma
arrivista na política brasileira. Apostou no casamento, gerou uma filha e
pretende receber os dividendos de seu investimento. Flávio impediu seu ganho.
Restou a ela lhe fazer a guerra.
Quem acompanha a campanha do principal
opositor ao atual governo entende que a situação eleitoral de Flávio está
condenada ao fracasso. Ele vinha perdendo sustentação devido ao esdrúxulo apoio
às sobretaxas impostas por Donald Trump a produtos brasileiros no mercado
norte-americano. Taxar produtos estrangeiros é dinheiro em caixa. Ele se
apropriou sem qualquer hesitação do petróleo da Venezuela, que os
norte-americanos estão consumindo sem nada pagar aos proprietários das
reservas. Os venezuelanos estão morrendo de fome e sede depois do terremoto e
Donald só se preocupa em contar as notas de dólar que entram no seu cofre.
O irmão, nos Estados Unidos, faz uma guerra
sem qualquer noção. Atira para todos os lados. É um poço de ressentimentos no
seu autoexílio dourado no Texas. Tem recebido o auxílio do neto do
ex-presidente Figueiredo. Esse chega ao cúmulo de afirmar que as mulheres não
sabem votar, as solteiras de maneira ainda pior. As casadas, um pouco melhor
porque tendem a acompanhar o voto dos maridos. Os bolsonaros fazem uma estranha
campanha pelo avesso da política. Candidatos lutam para reunir apoios, os
filhos do capitão trabalham para afastar eventuais correligionários. Eles não
querem votos, mas se satisfazem em xingar, agredir, depreciar e provocar. E
perdem sempre, a exemplo de seu pai, preso em casa sem poder se comunicar com
ninguém, além da supracitada Michelle.
O resultado dessa estranha campanha política
é que o candidato Lula transita sem problemas no seu caminho pela reeleição.
Sua maior preocupação, neste momento, é que Flávio Bolsonaro mantenha a
campanha no mesmo diapasão, ou seja, cometendo erros sobre erros. Lula precisa
de adversários. Sem eles, sua reeleição entra numa zona perigosa. O atual
momento lembra outra situação curiosa ocorrida quando da reunião do famoso
Colégio Eleitoral, que elegeu o sucessor do general Figueiredo na Presidência
da República. No fim do processo eleitoral, Tancredo Neves sabia que seria
eleito com relativa facilidade. O mineiro esperto se preocupou em manter a
candidatura de Paulo Maluf. Ele precisava de adversários. Hoje, Lula precisa do
confronto mesmo que seja por intermédio de um candidato que vive em outro
mundo, no ambiente das rachadinhas, do favorecimento a milicianos no Rio de
Janeiro, do estranho faturamento de sua loja de chocolates e do apoio ao
governo dos Estados Unidos em sua cruzada contra o Brasil. É a imagem nítida de
um anticandidato que trabalha contra seu objetivo.
Até agora, nenhum dos dois candidatos
conseguiu montar um palanque em Minas Gerais, o terceiro maior colégio
eleitoral do país. Os estudiosos do processo eleitoral brasileiro afirmam que
quem vence em Minas ganha no Brasil. Tem sido assim. Aécio Neves, é bom
lembrar, perdeu a eleição presidencial quando foi derrotado por Dilma Rousseff
em Minas. No entanto, até agora ninguém sabe quem vai apoiar quem no sempre
misterioso território das alterosas.
Há quem veja na súbita transformação de
Gilberto Kassab em candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado à
Presidência da República um sinal de que o cenário eleitoral vai sofrer
profundas transformações. Flávio pode desistir de sua aventura, porque a
oposição tem nomes mais qualificados do que o filho de Jair. O nome do senador
Rogério Marinho, neto do inesquecível Djalma Marinho, é um deles. Tudo pode
mudar porque os erros do atual postulante do PL são muitos, graves e
cumulativos. Flávio Bolsonaro é cativo de seu destinozinho medíocre. A renúncia
pode ser a melhor solução para sua tragédia familiar e política.

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