O Globo
Os mais velhos passam a depender de
familiares, amigos, vizinhos
O jornalista, escritor e imortal Ruy Castro comprou, semanas atrás, a briga em que, agora, me incluo. A digitalização galopante, não só de notícias e relações sociais, mas de serviços financeiros, comércio e até das políticas públicas, está isolando os idosos. Nesta semana, o IBGE informou que, no ano passado, 95% dos lares e nove em cada dez brasileiros contavam com acesso à internet. A proporção alcança o teto de 95%-96% nas faixas etárias entre 20 e 49 anos; entre os maiores de 60 anos cai para 74,5%. Desde 2016, triplicou o percentual de idosos acessando a web, mas dois terços dos que estão fora do mundo virtual alegam desconhecimento. A falta de letramento digital é a nova face do analfabetismo.
Semanas atrás, a Escola Municipal João Othmar
Moura, de João Alfredo, município do Agreste Pernambucano, viralizou numa rede
social ao postar fotos da turma de educação de jovens e adultos (EJA). Os
estudantes, alguns idosos, posaram com caderno e caneta, à frente de uma
bandeira do Brasil, entre um ábaco e um globo terrestre. O país, tempos atrás,
ousou debater a relação custo-benefício de alfabetizar os mais velhos, como se
fosse justificável deixar na escuridão os que não tiveram a chance de estudar
na época adequada. No Censo Escolar 2025, o Ministério da Educação contou 2,252
milhões de estudantes no EJA.
Em 2025, o IBGE reportou a menor taxa de
analfabetismo da História. O país investiga o letramento da população desde o
Censo de 1940, quando 44% dos habitantes não eram capazes de ler nem escrever
um bilhete simples. Em 2010, a proporção caíra para 9,6%; em 2022, para 7%, num
total de 11,4 milhões de analfabetos. No ano passado, eram 8,4 milhões, taxa de
4,9%. Ainda assim, na população com 60 anos ou mais, 13,8% não eram
alfabetizados — são 4,9 milhões de idosos brasileiros sem saber ler ou
escrever.
Enquanto avança na educação formal, o Brasil
não pode cochilar na inclusão digital. A nova fronteira da desigualdade se
manifesta em inúmeras dimensões. É maior nas áreas rurais e no Nordeste;
alcança metade dos que se declararam sem instrução e quase um quarto dos
idosos. É um fosso que, em parte, solapa cidadania, já que as pessoas
crescentemente se informam, se relacionam e acessam serviços remotamente.
Idosos estão entre as principais vítimas dos
golpes financeiros digitais, que se multiplicam no país. No Anuário Brasileiro
de Segurança Pública de 2025, os pesquisadores alertaram sobre a migração dos
crimes do mundo real para o virtual. Na última meia década, estelionatos têm
superado o total de roubos. Em 2024, as polícias civis registraram 745.333
roubos, 15,2% a menos que no ano anterior. No mesmo período, os casos de
estelionato cresceram 7,8%, num total de 2,166 milhões. Em meio eletrônico, o
salto foi ainda maior, 17%.
— Essa parece ser uma tendência que veio para
ficar, na medida em que está fortemente correlacionada com a transformação
digital da sociedade brasileira, que ganhou impulso a partir de 2020, primeiro
ano da pandemia de Covid-19, quando boa parte das interações da população
passou a ser mediada por meios digitais (...). Em 2020, a Febraban registrou um
volume de 104,3 bilhões de transações bancárias, com 65,7% delas feitas por
aplicativos de celulares e/ou navegadores de internet. Em 2024, esse volume
praticamente dobra, atingindo 208 bilhões de transações. E a participação dos
canais digitais salta para 81,5% — destaca o Anuário.
Os idosos acessam cada vez mais a internet,
mas parte significativa permanece excluída. Além disso, compõem a faixa etária
que mais se declara insegura em relação aos novos meios, segundo pesquisa do
Aláfia Lab citada por Nina Santos, pesquisadora no Instituto Nacional de
Ciência e Tecnologia em Democracia Digital e ex-secretária adjunta de Políticas
Digitais da Secom/Presidência da República:
— Os idosos são os que dizem encontrar mais
desinformação, declaram-se mais inseguros e são os mais preocupados com os
danos no ambiente virtual. O ambiente é de muita vulnerabilidade, a
inteligência artificial (IA) cria nova camada de desigualdade, e os serviços
públicos estão cada vez mais digitalizados. Ainda que exista atendimento
presencial, o acesso a direitos, a benefícios se dá por meio digital. Isso
afasta uma parcela da população do Estado — diz.
Autoridades precisam se ocupar desse abismo,
porque a evolução tecnológica não cessa. Os desafios serão permanentes, alerta
a pesquisadora. Boa parte dos programas de educação midiática ou digital ocorre
em escolas, em que circulam basicamente crianças, adolescentes, jovens. Os mais
velhos passam a depender de familiares, amigos, vizinhos. Nem sempre as redes
próximas os deixam menos vulneráveis.

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