sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Centrão 'lulou'? Por Vera Magalhães

O Globo

Apoio de Hugo Motta e retomada de conversas com Alcolumbre mostram que caciques do Congresso enxergam chance maior de reeleição do petista

Às vésperas de voltar ao cenário onde tudo começou, na Vila Euclides, em São Bernardo, Lula passou a semana costurando em Brasília, com resultados que passam longe da vista do eleitor, mas podem ter efeitos importantes para o desenrolar da campanha. Num intervalo de poucos dias, obteve o apoio público do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), à sua reeleição e conseguiu conduzir uma reunião menos truncada e tensa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A adesão de Motta, com quem o Planalto viveu uma relação de altos e baixos desde fevereiro do ano passado, quando ele assumiu a Câmara, se explica por fatores da conjuntura política local, é verdade. Mas tem mais do que isso: um apoio explícito, logo na largada da campanha, por parte de um político que chegou a gravitar em torno do bolsonarismo demonstra aposta clara na reeleição do petista.

Essa não é uma avaliação restrita ao deputado da Paraíba. É algo que se espraia pelo Centrão como um todo e esteve no cerne do fracasso de Flávio Bolsonaro em fechar qualquer aliança que não o deixasse, como ficou, restrito ao PL, com menor tempo de TV que Lula.

O presidente foi discreto nas conversas, feitas por ele próprio ou muitas vezes por emissários diretos, com algumas lideranças-chave desse agrupamento de partidos que, no fim das contas, decidiu rumar solteiro para as urnas e fazer as costumeiras alianças locais à esquerda ou à direita.

Ciro Nogueira, que foi ministro da Casa Civil de Bolsonaro e um dos mais ferrenhos defensores, ao menos em público, de que o PP deixasse o governo, mudou da água para o vinho depois da eclosão de escândalos como Master e Refit. Passou a atuar para impedir a adesão da federação de que seu partido faz parte a Flávio. Chegou a mandar vários recados na direção do Planalto, e a receber outros como resposta.

Motta foi além da lógica da província ao trabalhar junto à cúpula do Republicanos por uma saída na mesma linha: neutralidade formal na disputa presidencial.

A conversa ao pé de ouvido de Lula com lideranças do Centrão também deixou o filho de Bolsonaro sem palanque em Pernambuco e também é responsável pelo fato de outro antigo aliado dos Bolsonaros, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), estar adiando ao máximo declarar apoio ao senador do PL, a ponto de ter se reunido com ele evitando a imprensa nesta semana.

De novo nesse caso, uma confusa lógica local pode jogar Lira para lá ou para cá, a depender de como ficar o quadro de candidaturas para o governo ou para o Senado. Não está claro se existe a participação de Lula na decisão do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC, de se candidatar ao Senado, e não ao governo, como esperava o grupo de Lira. Mesmo assim, o ex-todo-poderoso da Câmara ainda hesita em declarar apoio ao adversário do petista, pois sabe que, em seu estado, Lula deve prevalecer nas urnas.

Todos esses arranjos não visam só a ganhar a eleição, mas a estabelecer os novos pilares da governabilidade futura. Motta e Alcolumbre, sobretudo, se articulam para ser reconduzidos ao comando das duas Casas. Se voltam a se aproximar de Lula, é porque, na análise de pessoas próximas a ambos, vislumbram nele a maior chance de vitória em outubro.

A consequência mais imediata para o petista, além de atrapalhar a montagem dos palanques e da chapa de Flávio, é destravar projetos no Congresso que podem ajudar a fechar as contas ou a montar o discurso da campanha. No primeiro caso se encaixa o projeto que criou gatilhos para despesas a partir do ano que vem. No segundo, o fim da escala 6x1, que pode finalmente ser votado agora que a guerra fria com Alcolumbre parece ter sido encerrada por um breve armistício.

Foi uma semana em que Lula saiu do corner dos escândalos envolvendo Lulinha e Marcola e, se não conseguiu reativar a química com Donald Trump, colheu avanços no front doméstico.

 

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