domingo, 30 de novembro de 2014

Irmão de ex-ministro diz que ‘entregou envelopes lacrados em muitos lugares’

• Adarico Negromonte afirmou que doleiro Alberto Youssef lhe foi apresentado pelo ex-deputado José Janene (PP)

Fausto Macedo e Ricardo Brandt - O Estado de S. Paulo

CURITIBA - O irmão do ex-ministro Mário Negromonte (Cidades), Adarico Negromonte, disse à Polícia Federal que foi apresentado ao doleiro Alberto Youssef – alvo central da Operação Lava Jato – pelo ex-deputado José Janene (PP/PR) e que ganhava R$ 1.500 por semana para “entregar envelopes lacrados”. Ele afirmou que não sabe o que tinha dentro dos envelopes que o doleiro lhe passava.

Adarico ficou preso uma semana na sede da PF em Curitiba, base da Lava Jato, sob acusação de atuar como ‘mula’ do doleiro para transporte de valores de propinas. Ele foi solto nesta sexta feira, 29, por ordem do juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato.

Orientado por suas advogadas, Adarico Negromonte apresentou-se segunda feira, 25. A Justiça Federal havia decretado sua prisão temporária. Na PF, ele declarou que desde o final do ano de 2011 “prestava serviços” para o doleiro, personagem central do esquema de corrupção e propinas na Petrobrás.

A PF vinha monitorando Adarico havia meses, antes mesmo do estouro da Lava Jato, em março de 2014, quando Youssef foi preso com o ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera, Paulo Roberto Costa.

Adarico Negromonte, de 68 anos, disse que ia ao escritório de Youssef, situado à Avenida São Gabriel, em São Paulo. Ele contou que “após muito insistir” conseguiu o emprego de motorista do doleiro, mas que não sabia da verdadeira atividade de Youssef. “Janene me disse que Youssef era um empresário que prestou serviços para ele. Jamais pensei que Youssef estivesse envolvido nessa falcatrua toda. ”

Janene, que foi réu do processo do mensalão, morreu em 2010. Adarico Negromonte disse que soube das denúncias sobre a Petrobrás “pela imprensa”. Ele relatou que levava a namorada do doleiro, Taiana Camargo, “ao médico e para passear”. Geralmente, disse, quem ligava para ele, a mando de Youssef, era Rafael Ângulo – apontado como ‘laranja’ e ‘carregador de mala’ do doleiro. “Eu levava e buscava pessoas nos aeroportos e hotéis”, contou o irmão do ex-ministro de Cidades (2011/2012) do governo Dilma Rousseff (PT).

Ele afirmou que não sabe os destinatários dos envelopes lacrados. “Não sei ao certo para onde, pois foram muitos lugares.” A PF quis saber se ele levava envelopes para empreiteiras ou a agentes públicos, ele disse que não. Afirmou, ainda, que “nunca esteve na sede da Petrobrás ou outra empresa estatal”. Também declarou que levava apenas os envelopes, nunca “malas ou volumes maiores”.

Revelou que Rafael Ângulo o acompanhava na entrega dos envelopes. “Minha remuneração era R$ 1.500 por semana, sem carteira assinada.Sempre coube a Rafael entregar os envelopes. Nunca desci do carro para fazer (a entrega).”

Ele disse que viajou para “outros Estados” para fazer a entrega dos envelopes. Uma vez viajou para o exterior com Rafael Ângulo, “a passeio”, mas sem envelopes. “Pedimos a revogação da prisão temporária do sr. Adarico e o juiz acabou entendendo nossos argumentos”, declarou a advogada Joyce Roysen, que defende o irmão do ex-ministro.

Em sua decisão, o juiz Sérgio Moro anotou que Negromonte exercia o papel de “subordinado”, por isso não viu necessidade de estender o prazo de prisão do irmão do ex-ministro.

PT ameniza texto sobre expulsão de envolvidos em corrupção

• De última hora, foi retirada determinação de que afastamento seja "imediato"

Simone Iglesias e Thays Lavor* - O Globo

FORTALEZA – O Diretório Nacional do PT aprovou ontem documento no qual afirma que qualquer filiado comprovadamente envolvido em corrupção será expulso. O texto não prevê em que momento isso deve acontecer. A versão original estabelecia que a expulsão seria "imediata", mas essa palavra foi retirada ontem da versão aprovada. "Manifestamos a disposição firme e inabalável de apoiar o combate à corrupção. Qualquer filiado que tiver, de forma comprovada, participado de corrupção, deve ser expulso", diz o documento, aprovado em meio às investigações do escândalo de corrupção na Petrobras.

O documento foi proposto pela Mensagem, uma das mais importantes correntes do PT, e aprovado por consenso pelo diretório, reunido em Fortaleza. Apesar da retirada da previsão de expulsão imediata, o presidente do PT, Rui Falcão, disse que a ideia central permanece. Mas antes das expulsão, todos terão direito a defesa.

- Se há algum envolvimento, quero saber se as denúncias são comprovadas ou não. Todos têm direito a defesa e ao contraditório. Reafirmo que, se alguém estiver envolvido, essas pessoas não ficarão no PT.

No documento, o PT diz "exigir" que as investigações relacionadas à Operação Lava-Jato sejam conduzidas dentro dos marcos legais "e não se prestem a ser instrumentalizadas, de forma fraudulenta, por objetivos partidários". Outro trecho diz:"É inaceitável que a palavra dos delatores, inclusive já condenados outras vezes, seja aceita como verdadeira sem prova documental. A liberdade de expressão não pode ser confundida com o exercício interessado da calúnia e da difamação. Todo acusado, seja de que partido for, deve ter o direito de defesa e ser julgado com o devido processo legal".

Rui Falcão disse ter ido duas vezes ao Supremo Tribunal Federal pedir ao ministro relator da Lava-Jato, Teori Zavascki, acesso aos autos do processo no que se refere ao PT. Segundo Falcão, o ministro ficou de analisar o pedido. O dirigente afirmou que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, tem sido vítima de ataques infundados e de forma sistemática.

- Ele (Vaccari) reafirmou publicamente sua inocência, que todos nós já acreditávamos, condenando os ataques infundados que têm sido feitos a ele.

Falcão minimizou as manifestações contra o governo lideradas pelo PSDB, a quem chamou ironicamente de "campeão da luta contra a corrupção".

- (São) pequenos surtos que a gente vê na (Avenida) Paulista. Só uma vez reuniu 10 mil pessoas e se dividiram em grupos, um indo para o quartel do Exército. (*Especial para O GLOBO)

Aécio Neves - Trinta dias

• Hoje está mais claro do que nunca que a presidente concordava com os alertas que fiz na campanha sobre os problemas que o país enfrenta

- Folha de S. Paulo

Completamos um mês do fim das eleições presidenciais. Tudo o que se viu neste período comprova, na prática, o que a oposição denunciou no processo eleitoral: a grave situação em que o país se encontra.

Além dos prejuízos causados pela má gestão e pela corrupção endêmica, o PT prestou, recentemente, mais dois grandes desserviços ao Brasil. Um na campanha, outro nos dias que se seguiram.

O primeiro, na ânsia de vencer a qualquer custo, o de legitimar a mentira e a difamação como armas do embate político. O segundo, o de contribuir para a perda da credibilidade da atividade política ao fazer, sem qualquer constrangimento, nos dias seguintes à eleição, tudo o que afirmou que não faria.

Como a atividade política é instrumento fundamental da vida democrática, sua desmoralização só interessa aos autoritários, para quem o discurso político não é compromisso, mas encenação que desrespeita e agride a cidadania.

Finda a eleição, a candidata eleita, rapidamente, pôs de lado as determinações do marketing e colocou em prática tudo o que acusou a oposição de pretender fazer.

Fez isso sem dar satisfação à opinião pública. Sem dar explicação sequer a seus próprios eleitores. Os mesmos eleitores que observam, atônitos, a presidente implantar as "medidas impopulares", que usou como matéria-prima do terrorismo eleitoral contra seus adversários.

Hoje a realidade demonstra que ela concordava com todos os alertas que fiz sobre os problemas enfrentados pelo país, mas entre o respeito à verdade e aos brasileiros, e a insinceridade ditada pela conveniência do marketing, a presidente escolheu o marketing, o que não contribui para engrandecer a sua vitória.

Na campanha, o PT dizia que aumentar os juros tiraria comida da mesa do trabalhador. Três dias depois da eleição, foi justamente isso o que o governo Dilma fez.

No discurso do PT, se eleita, a oposição iria reajustar a gasolina, governar com banqueiros e patrões. Vencida a eleição, o governo anunciou o aumento dos combustíveis e convidou um banqueiro para a Fazenda. Anunciou ainda dois novos ministros: para cuidar da agricultura e da indústria, a dirigente e o ex-dirigente das confederações patronais.

Mesmo conhecendo a realidade, a candidata teve coragem de dizer que a inflação e as contas públicas estavam sob controle. Agora, deparamos com mais um rombo espetacular e manobras inimagináveis para maquiar as obrigações da Lei de Responsabilidade Fiscal.

Surpresos, os brasileiros assistem àquilo que muitos estão chamando de estelionato eleitoral. Tudo isso explica a indignação de milhares de pessoas que vão às ruas e se mantêm mobilizadas nas redes sociais.

São pessoas que se sentem lesadas, mas esse sentimento não tem relação com o resultado eleitoral em si. Processos eleitorais fortalecem a democracia, qualquer que seja o resultado da eleição. Vencer e perder são faces da mesma moeda. As pessoas estão se sentindo lesadas porque os valores que saíram vencedores na disputa envergonham o país.

Além do grave descalabro econômico e administrativo agora revelado, é assustador o que ocorre com a nossa maior empresa. Nos debates, ofereci várias oportunidades para a candidata oficial pedir desculpas aos brasileiros por ter tirado a Petrobras das páginas econômicas e a levado para o noticiário policial.

A situação, desde então, agravou-se de uma maneira jamais imaginada. A Petrobras hoje é um caso de polícia internacional. Não há mais como se desculpar.

Por outro lado, não deixa de ser simbólico o fato de a presidente ter se negado a participar do anúncio dos novos ministros da área econômica. É possível que ela tenha se sentido constrangida por correr o risco de se encontrar com a candidata Dilma Rousseff.

Os últimos 30 dias são uma amostra da situação real do Brasil e do que vem pela frente. E nos mostram por que não podemos nos dispersar.

Aécio Neves, 54, senador por Minas Gerais, foi candidato à Presidência da República pelo PSDB na eleição deste ano

Fernando Gabeira - Elite branca do B

• É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas

- O Globo / Segundo Caderno

Um amigo que veio do exterior estava surpreso com o Brasil. Soube da campanha eleitoral, da luta contra a elite branca, dos filmes mostrando como um banqueiro iria tirar a comida da mesa dos pobres. Ao chegar, encontra a vencedora procurando alguém do mercado, com capacidade para ajustar suas contas, que por sinal bateram um recorde negativo em outubro: R$ 8,13 bilhões negativos nas transações correntes.

Como explicar isso? Respondi que os números falavam por eles próprios. Ou melhor, começaram a falar depois das eleições, porque muitos deles foram, devidamente, engavetados durante a campanha. E as famílias pobres diante da mesa de jantar? A lógica implacável dos números acaba impondo do PT o que mais estigmatizava no adversário: um fazedor de contas, alguém que não espanque a aritmética.

Mais surpreendente ainda é a possível escolha de Kátia Abreu para a Agricultura. O amigo leu no “Guardian” sua primeira entrevista dela. Kátia disse que seu modelo político era Margaret Thatcher. E o repórter concluiu que combaterá os ecologistas como Thatcher combateu os mineiros em greve. Para isso não tenho grandes explicações. Conheci Kátia no Congresso e tanto com ela como com Ronaldo Caiado tive discussões produtivas. Não acredito que veja no meio ambiente um entrave ao progresso, como Dilma, naquele célebre ato falho em Copenhague. Mas as pessoas mudam. Não entendo como se espelhar em Thatcher e querer subir na carreira política sem conhecer melhor a trajetória da mulher que a inspira sua jornada.

Thatcher jamais mudou de partido e dificilmente entraria num governo no auge de um escândalo de proporções mundiais, o maior das democracias ocidentais, segundo o “New York Times”.
Ela pode usar uma bolsa a tiracolo, como Thatcher, mas seu programa é muito distinto dos conservadores ingleses, ainda hoje no poder. Eles têm uma das políticas ambientais mais avançadas do mundo. Talvez em outras entrevistas ela possa se explicar melhor. A impressão que o “Guardian” transmitiu era de que o meio ambiente e os grupos indígenas seriam um obstáculo para o projeto de Kátia: superar os EUA na produção de alimentos. Ela sabe que grande parte dos problemas tem solução negociada, e a própria ciência pode ser uma excelente referência para definirmos o caminho de um crescimento sustentável. Grandes dramas como a crise hídrica envolvem, por exemplo, a agricultura e toda a sociedade brasileira: não há bala de prata nem dama de ferro que dê conta deles.

O tom da reportagem assusta. Mas não deixa de ser irônico, concluí para o amigo que chega: o grande fantasma da campanha de Dilma era a elite branca e agora nos oferecem um diretor de banco e uma discípula de Margaret Thatcher numa versão tropical. Só mergulhando na nossa cultura política para tornar isso ao menos inteligível. O PT tem o hábito de dividir o país; pobres contra ricos, regiões contra regiões.

Mas quando a situação aparece com mais complexidade, precisa de novas subdivisões. Daí a necessidade de uma elite branca do B. A mesma subdivisão já aplicada à direita: uma direita como Ronaldo Caiado e uma direita do B, Paulo Maluf, Jader Barbalho, Newton Cardoso. Ninguém deve, portanto, temer ser considerado de direita ou da elite branca. Há sempre a escolha: elite branca do B ou direita do B. Uma política econômica sensata é o que precisamos, inclusive nesta conjuntura internacional. Seria algo estável no horizonte, porque os céus da política indicam tempestade.

O escândalo do Petrolão deve deixar inúmeras marcas. A própria imagem internacional do Brasil está em jogo. O momento é especial porque entramos num pesadelo de cifras. Todos os protagonistas levando milhões, até as formigas no Espírito Santo custaram R$ 67 milhões à Petrobras. Sessenta e sete milhões para as formigas, 200 para um subgerente, quanto não desapareceu nesse circuito?

Os malabaristas terão trabalho para explicar. Sua tática é sempre sumir no tempo e na multidão, com duas frases típicas: sempre foi assim, todo mundo faz. Houve corrupção na Petrobras em governos anteriores. Mas nada se compara ao uso sistemático da empresa para alimentar partidos políticos. O argumento de que sempre foi assim e todos fazem assim é a maneira de nos ejetar do aqui e agora e mergulhar num espaço mítico. Aliás, esta ideia de que sempre foi assim lembra um pouco da rigidez da morte. É só nela que não existem caminhos de renovação. Enquanto os petistas estiverem escondidos nas dobras do tempo e na multidão de corruptos, será difícil abordá-los.

Creio que é de Mark Twain esta frase: é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que foram enganadas. Compreender o Petrolão é uma dura tarefa. Se falharmos, o Brasil vira uma espécie de buraco negro. No espaço, esses buracos são uma singularidade gravitacional: não valem na sua proximidade as leis da física. Aqui embaixo, buracos negros são os países onde não valem as leis do Código Penal.

Merval Pereira - A democracia ameaçada

- O Globo

A democracia representativa em contraposição à democracia direta, com o uso de plebiscitos e consultas populares, este foi um debate importante no seminário da Academia da Latinidade realizado em Omã. De um lado um dos maiores filósofos da atualidade, o italiano Giani Vatimo, defensor de políticos "carismáticos" como Lula, Chavez e Fidel Castro e crítico das democracias "assépticas" que dão, segundo ele, mais valor ao equilíbrio do orçamento e à estabilidade política do que às paixões que podem transformar a sociedade.

Às críticas à democracia representativa, o especialista espanhol em filosofia política Daniel Innerarity, da Universidade do País Basco e professor visitante do Instituto Europeu em Florença, lançou um repto: não teríamos uma democracia aberta e uma política fraca, consequência de uma época em que a despolitização da democracia parece a muitos uma solução?

Como se estivesse respondendo às críticas do filósofo italiano Giani Vatimo de que tratei na coluna de ontem, Innerarity advertiu que a democracia pode ser seriamente ameaçada por procedimentos democráticos que permitem o acesso àqueles que querem destruí-la, mas também por que certos procedimentos claramente democráticos, se mal utilizados, podem prejudicar a qualidade da democracia.

"Há demandas por democracia direta ou plebiscitária", exemplifica ele, ou "a crença na transparência como um princípio universal". Nesses casos, garante Innerarity, o surgimento de governos populistas é apenas um sintoma de uma época cujos fracassos só superaremos se nos engajarmos na defesa da política contra a democracia despolitizada.

Ele constata que a possibilidade de exercer o que Pierre Rosanvallon chamou de "contrademocracia", devido aos avanços tecnológicos, e a não participação em eleições, por exemplo, não significa a falta de interesse desses cidadãos no espaço público. O novo ativismo, é individualista, isolado, orientado para questões de estilo de vida e crescentemente apolítico.

O professor espanhol diz que as pessoas mais indiferentes à política no seu formato tradicional são as mais ativas em arenas alternativas ou extraparlamentares, e acreditam que a não participação em eleições é uma decisão política. "Vivemos em uma sociedade que não quer mais ocupar o poder para realizar certos processos sociais, mas que em vez disso quer evitar abusos de poder. A sociedade contemporânea prefere a transparência no presente a responsabilidades futuras, e exerce a desconfiança da soberania negativa".

Daniel Innerarity diz que a democracia representativa sofre com a ambivalência de cidadãos cujas demandas desarticuladas são frequentemente contraditórias, incoerentes e disfuncionais. "É um tabu falar desse perigo, pois muitos da classe política e dos que escrevem sobre política adoram o povo e não o cobram de nenhuma responsabilidade".

O professor espanhol considera que a democracia representativa é a melhor invenção a que chegamos para conciliar, não sem tensões, o princípio de que o cidadão é o único soberano na democracia, com a complexidade dos negócios políticos.

"Por paradoxal que pareça, não há outro sistema como a democracia indireta e representativa quando se trata de proteger a democracia da imaturidade, incerteza e impaciência do conjunto dos cidadãos", analisa Innerarity que cita as pesquisas de opinião e expectativas exageradas por transparência ou soluções imediatistas como as ameaças modernas à democracia, e classifica como "tragédia contemporânea" o fato de que eleitores e eleitos são continuamente forçados a escolher entre a racionalidade e o populismo, por que "os governos são inábeis para explicar suas decisões e os cidadãos são incapazes de entendê-las".

Innerarity acha que esse drama imobiliza os políticos "que sabem o que teriam que fazer, mas não sabem como se reeleger caso o façam". Uma de suas críticas mais agudas é para a transformação de eleitores em consumidores, o que faz com que a política se misture com o imediatismo de curto prazo. Essa seria a consequência do predomínio das pesquisas de opinião e dos plebiscitos, que fazem com que a política se preocupe apenas com as demandas do momento presente.

Para Daniel Innerarity, seria preciso que os cidadãos, além de criticar, se educassem no engajamento pessoal da política. Talvez assim, diz ele, entenderíamos que estamos em uma situação paradoxal na qual ninguém confia na política, embora existam coisas que somente a política pode resolver.

Ele está falando, claro, sobre a política no sentido mais nobre, e não em politicagem.

Dora Kramer - Outro ponto na curva

- O Estado de S. Paulo

Os ministros da 5.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça negaram por unanimidade na quarta-feira o pedido de liberação de um homem acusado de trabalhar para o doleiro Alberto Youssef e aproveitaram a ocasião para se manifestarem abertamente sobre a corrupção que assola do País, tomando como exemplo o caso da Petrobrás.

"Uma das maiores vergonhas da humanidade", nas palavras do ministro Newton Trisotto; "Acho que nenhum país viveu tamanha roubalheira", acompanhou Félix Fischer; "O petróleo não é nosso, é deles, dessa quadrilha", sugeriu o subprocurador da República Brasilino Pereira dos Santos.

Palavras duras, que sustentam a posição do juiz federal Sérgio Moro, cuja atuação no processo decorrente da Operação Lava Jato vem sendo fortemente contestada pela defesa dos acusados. Guardadas as proporções e o momento, assim como ocorreu com o ministro Joaquim Barbosa, acusado de cometer toda sorte de arbitrariedades como relator do processo do mensalão.

A atitude dos ministros do STJ pode ensejar alegações de que estejam antecipando decisões futuras sobre outros recursos apresentados pelos advogados que atuam nesse caso. E não se pode negar que seja isso mesmo. É quase como se estivessem dizendo: "Por aqui não passarão".

Por uma questão bastante objetiva: a bandalheira ultrapassou todas as barreiras do abuso, forçando uma mudança de parâmetros. Os mesmos utilizados pela maioria dos ministros no processo do mensalão e que privilegiaram a realidade, a lógica e a clareza dos fatos em detrimento das tecnicalidades jurídicas. Os navegantes do mar de lama das transações ilícitas à custa do Estado passaram a desafiar abertamente a Justiça, que, se não reage, submete-se aos ditames da ilegalidade.

Estamos vendo agora que o processo do mensalão não foi um ponto fora da curva. Muito menos o Supremo fez o papel de tribunal de exceção: julgou os réus na conformidade do vigor dos fatos apresentados na denúncia da Procuradoria-Geral da República e depois relatados por Joaquim Barbosa.

Exorbitância houve, mas quem cometeu não foram os juízes, e sim os autores dos crimes que, à altura em que foi exposta ao País sua dimensão, foram vistos como "a mais grave agressão aos valores democráticos que se possa conceber", nas palavras do então procurador-geral, Roberto Gurgel, ao manter a denúncia apresentada cinco anos antes pelo antecessor Antonio Fernando de Souza.

Descobria-se ali que, a partir da Casa Civil, no governo montara-se um esquema de ilícitos envolvendo partidos, banqueiros, empresários, políticos e publicitários. A ambição desmedida, a certeza de que a bandeira da ética seria proteção garantida, que a aliança com notórios finórios o faria apenas sócio ideológico do projeto de financiamento de permanência no poder fizeram o PT perder a cerimônia e atuar com zero parcimônia.

Primeiro o partido deparou-se com a fúria de um aliado em quem pretendia passar a rasteira (Roberto Jefferson) e depois com a lisura de juízes que acreditava serem capazes de trocar a tarefa de guardar a Constituição pelo "favor" que supostamente teriam ficado devendo aos autores de suas indicações.

A julgar pelo prosseguimento do esquema da Petrobrás (ou quantos mais houver) mesmo depois de presos os envolvidos no mensalão, a lição não foi bem compreendida.

Virou tostão. Com os escândalos de corrupção girando em torno de bilhões, foi-se o tempo em que aumento de salários de autoridades provocava reações indignadas.

Diante das notícias sobre a Operação Lava Jato e seus desdobramentos, parece até bobagem se preocupar com o aumento de 26% que a Câmara dos Deputados se prepara para aprovar na remuneração de parlamentares, ministros, presidente da República e, consequentemente, funcionalismo público federal, estadual e municipal País afora.

Igor Gielow - Anestesia geral

- Folha de S. Paulo

A clássica coleção de ensaios "Sobre Fotografia", da americana Susan Sontag, discorre entre outras coisas sobre uma certa amortização de sentidos que a repetição "ad nauseam" de imagens chocantes provocaria sobre o público.

Algo muito parecido ao que a publicação de 1977 descreve ocorre no Brasil hoje. Escândalos em sucessão parecem tirar a perspectiva do todo. Cifras bilionárias, como as do caso Petrobras, sugerem nos levar para uma apatia sem fim.

Isso ocorre no jornalismo. "Só roubaram R$ 5 milhões? Não vale destacar muito" é uma frase verossímil numa fictícia conversa entre editor e repórter --como se qualquer um deles fosse, salvo raras exceções, ter acesso a tal quantia algum dia.

Assim, seguindo a cartilha de Sontag, vivemos um "voyeurismo crônico" com a bizarrice reinante. O risco é óbvio: os espertos podem se safar.

Veja o caso dos deputados André Vargas (ex-PT-PR) e Luiz Argôlo (SDD-BA). Eles muito provavelmente se livrarão da cassação de seus mandatos, podendo assim manter seus direitos políticos intactos ao fim do ano legislativo, em dezembro.

Ambos foram envolvidos nos rolos do doleiro Alberto Youssef. Tiveram sua cassação recomendada, após manobras diversas e longa procrastinação que nada teve de inocente, pelo Conselho de Ética da Câmara.

E agora? Por "falta de tempo", os dois têm tudo para passar o Natal em casa como ex-deputados com ficha limpa no Congresso --se assim permanecerão na Justiça, isso só o tempo dirá. O fato de serem peixes aparentemente pequenos no oceano de malfeitos revelado parece os relegar a um conveniente espaço lateral.

Pouco antes de morrer, em 2004, Sontag refletiu sobre as imagens da morte nas guerras após o 11 de Setembro e fez uma retratação parcial de suas visões do "Sobre Fotografia". Talvez ainda esteja em tempo de algum revisionismo permear as reações às roubalheiras e afins por aqui.

João Bosco Rabello - O efeito colateral em 2016

- O Estado de S. Paulo

Se, de um lado, tem potencial para devolver ao País a estabilidade econômica, de outro, o programa de recuperação fiscal anunciado pela nova equipe econômica se constitui em fator de agravamento da perda de densidade eleitoral do PT nas eleições municipais de 2016.

Sua extensão por três anos submete o partido à receita impopular para correção de rumos, consequência da gestão populista amparada na fartura de crédito e consumo, e na ilimitada farra de gastos públicos, revogada pela realidade econômica que impôs à presidente Dilma Rousseff uma guinada ortodoxa, à revelia de suas convicções.

Por instinto de sobrevivência, a presidente busca salvar seu segundo mandato, atenta à sua biografia e à meta de viabilizar o retorno de Lula em 2018. Ambos, Dilma e Lula, aos tapas e beijos, como na canção sertaneja, cuidam de administrar a reação da militância ao que o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), chama de "apenas uma etapa".

Costa, afinado com o ainda secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, age na linha preventiva de amenizar o efeito da desilusão do eleitorado petista já registrada na recente eleição de outubro, em todos os níveis. É quase inútil, mas é o que resta ao partido.

A economia respira por aparelhos e a gestão anunciada de Joaquim Levy e Nelson Barbosa representam seu ingresso na UTI, desmoralizando o discurso de campanha da presidente Dilma Rousseff, mas também indicando a pouca serventia da pergunta mais frequente nas rodas políticas e econômicas - se é para valer a renúncia da presidente ao seu modelo econômico.

A realidade pode revogar convicções ou, em escala menor, simplesmente arquivá-las compulsoriamente, à falta de outra saída.

Dilma se insere em uma dessas duas circunstâncias, mas decifrar qual delas a move torna-se secundário diante da inevitabilidade do receituário e do longo prazo de sua aplicação.

Alinhado ao drama político produzido pelas investigações na Petrobrás, o cenário para o governo representa o fim do projeto de poder do PT, que o levou ao delírio de instalar na estrutura do Estado um sistema de corrupção política de dimensões jamais vistas, capaz de banalizar a prática histórica no País.

À oposição, em um primeiro momento, a nova equipe econômica impõe a dificuldade de contestar escolhas que representam seu público e seu discurso.

Será preciso descolar-se da indignação com a aplicação pelo governo da receita que denunciava como crime contra a população, para adotar comportamento estratégico na missão fiscalizadora que lhe foi delegada pela quase metade do eleitorado de 2014.

Clóvis Rossi - Um começo bem medíocre

• Nova equipe liga o piloto automático em vez de pensar nas ideias novas prometidas na campanha

- Folha de S. Paulo

Não poderia ser mais medíocre o primeiro ato do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Primeiro porque ela própria nem se dignou a aparecer na apresentação em sociedade de sua nova equipe econômica.

Se eu não fosse inimigo número um de teorias conspiratórias, até diria que a indicação não foi dela.

Por isso, preferiu ficar em algum gabinete palaciano (ou em alguma masmorra, se me mantivesse na teoria conspiratória) em vez de endossar com a presença o novo duo (o terceiro, Alexandre Tombini, não é novo; continua na função de presidente do Banco Central).

É ridículo. Se a candidata dizia, durante a campanha, que a governo novo correspondem ideias novas, o primeiro ato teria que ser, obrigatoriamente, o enunciado das tais novas ideias, no pressuposto de que elas de fato existam.

Medíocre também foi o anúncio de que a prioridade do novo/velho governo será obter um superavit fiscal. Dou o devido desconto ao fato de que não cabia mesmo a Joaquim Levy/Nelson Barbosa/Tombini anunciar ideias novas que fossem além da economia.

Essa era a tarefa inalienável da presidente.

Ainda assim, há alguém aí que acredita que o Brasil terá todos os seus problemas resolvidos graças à prioridade concedida ao superavit fiscal anunciado?

Levy fez apenas o papel para o qual foi convocado, o de falar aos agentes de mercado, que, de resto, nem sequer foram eleitores de Dilma. Nem pensar em falar aos eleitores da própria presidente e ao público em geral, que não fazem parte do que os argentinos gostam de chamar de "patria financiera".

É a fala de um burocrata, quando a estagnação em que se encontra a pátria --e não apenas na economia, mas também em educação, saúde, mobilidade urbana, segurança pública, infraestrutura e um vasto etc.-- exige um estadista.

O novo governo mostrou-se refém dos detentores dos papéis da dívida pública. São eles que exigem um superavit fiscal que permita continuar tratando a dívida como algo sagrado que não se pode tocar.

Não, caro ortodoxo aí no sofá, não estou pregando o calote, embora ache que, se empresas e indivíduos podem renegociar suas dívidas, por que o governo não pode?

O que estou defendendo é que pelo menos se pense nas tais "ideias novas" do slogan de campanha.

Ideias, como, por exemplo, uma taxação excepcional sobre o patrimônio, cujo resultado seria dedicado a eliminar ou reduzir a dívida pública. É a proposta de Thomas Piketty, a nova estrela da economia mundial, em seu livro "O Capital no Século 21".

Manter o piloto automático (aumentar ou manter o superavit primário para pagar a dívida) é condenar o país à mediocridade por sabe-se lá quanto tempo.

Até a "Economist", a revista que pediu a cabeça de Guido Mantega e saudou, com muitas ressalvas, a escolha da nova equipe econômica, diz que "o crescimento [da economia] cairá a princípio e pode não se recuperar por um ano ou dois".

Você acha que o país está em condições de jogar fora nem que seja apenas um ano?

Carlos Melo - Uma presidente que virou refém das circunstâncias

- O Estado de S. Paulo

Por pontos, Dilma Rousseff venceu a eleição; vitória legítima. Mas a realidade que a cerca a torna refém das circunstâncias. Reduzidas são suas condições de impor pontos de vista e deixar fluir o jorro ideológico que brotou na campanha. Ao contrário da retórica triunfalista dos primeiros dias, a natural potência da reeleição agora escoa num indesmentível desgaste que drena o poder e a capacidade de ação da presidente.

Sem condescendência ou ressentimento, o analista perceberá que são várias e simultâneas as frentes de conflito em que o governo está metido - mais numerosas que os dedos das mãos. Pode-se dizer que Dilma envolveu-se - ou foi envolvida - numa penca de problemas. Vem ao caso discutir, aqui, apenas as aflições mais prementes: o escândalo da Petrobrás e o front da economia.

É nesses dois campos que, no curto prazo, residem os mais elevados riscos. Independentemente da vontade do governo ou de seu partido, não há controle sobre o duto da delação premiada: mais e mais implicados avaliam que o único meio para reduzir suas penas seja colaborar e também abrir o bico, liberando o fluxo de novas denúncias e envolvidos. O rio é caudaloso; quem saberá aonde vai dar?

Diante disso, as alternativas de Dilma se escassearam. O melhor seria fugir para frente: implementar processo de desenvolvimento elevado, garantir empregos e renda. Mas, como fazê-lo sem recursos e com a credibilidade econômica em pane? A crise de credibilidade reduz a confiança do investimento privado, as expectativas de melhora são corroídas. A piora econômica se alimenta do mau momento político, potencializado pela economia em frangalhos. Um ciclo de horrores. Necessário cessar o ciclo, estancar a sangria: dar alguns anéis para não ceder todos.

O front econômico é onde Dilma poderia mais imediatamente fazê-lo: acalmar os impacientes agentes de mercado é mais razoável do que enfrentá-los assim enfraquecida. Sim, implica morder a língua, conceder, capitular; reconhecer que o marketing não passou de bravata. Por isso, e não por paixão, a presidente foi em busca do prestígio de Joaquim Levy. Não foi convicção técnica, mas decisão política. Nem gosto, nem opção. Como o sapo, Dilma não pulou a cerca por boniteza, mas por precisão. Claro, pode-se prever que, mais a frente, os efeitos deletérios do ajuste atingirão aliados. Só então se saberá se Dilma se conformará (ou não) com esta margem do rio.

Cientista político e professor do INSPER

Sergio Fausto - O petrolão não é um fato isolado

- O Estado de S. Paulo

Ante os fatos estarrecedores que surgem na apuração do escândalo da Petrobrás, o governo empenha-se em tentativas disparatadas de ora borrar a singular gravidade do esquema de corrupção descoberto, ora atribuir a si os méritos pelo desenrolar desimpedido dos trabalhos da Polícia e do Ministério Público Federais, como se isso não se devesse à autonomia constitucionalmente assegurada a esses órgãos do Estado brasileiro. Melhor teria feito o governo se não tivesse solenemente ignorado, desde 2009, os alertas do TCU de que havia algo de muito errado acontecendo na maior empresa brasileira.

O disparate chega a tal ponto que dias atrás o ministro da Justiça se aventurou em análise sobre a "cultura brasileira" para "explicar" as causas do petrolão. A culpa seria de todos nós, supostamente tolerantes com a prática diária de atos de corrupção, como se o assalto continuado aos cofres da Petrobrás, perpetrado pela associação criminosa de agentes públicos, atores políticos e um cartel de empresas privadas, fosse fenômeno equivalente ao pagamento de propina ao guarda da esquina para evitar uma multa de trânsito. Por mais reprovável que seja este ato, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, muito mais grave aquela, por suas repercussões gerais, do que esta. Trata-se de uma obviedade que não deveria escapar a um homem esclarecido e normalmente sensato como José Eduardo Cardozo. É que mesmo as mais lúcidas cabeças do governo andam confusas nos dias que correm.

O rei está nu. No caso, a nudez decorre da revelação de um padrão de desvio de recursos públicos que é novo não apenas por sua escala, mas também porque é parte integrante de um fenômeno político inédito no Brasil: a formação de um bloco de poder articulado por um partido com máquina política e sindical, que mobiliza os instrumentos de um Estado em expansão desregrada para cooptar setores do empresariado e da sociedade e assim tornar viável seu projeto de hegemonia política duradoura. A captura de empresas estatais, agências reguladoras, bancos públicos e fundos de pensão é uma operação constitutiva desse modelo e de sua perpetuação (não um acidente de percurso). Nele há uma peculiar acoplagem dos interesses políticos dominantes à ideologia de que cabe ao Estado o papel de líder e motor do desenvolvimento. Os ideólogos de boa-fé, imbuídos do propósito de fazer a grandeza do Estado e da Nação, não raro confundidos como uma só e mesma coisa, preparam inadvertidamente o terreno ideológico e operacional, quando têm poder para tanto, em que vicejam esquemas de corrupção nos moldes do petrolão.

Com a bonança econômica dos anos Lula, propiciada em boa parte por condições externas muito favoráveis, com a oposição enfraquecida social e politicamente, o modelo rodou a mil por hora. Havia condições financeiras e políticas para contemplar todos os apetites, os legítimos e os ilegítimos. Como costuma acontecer em momentos de euforia, os operadores do modelo - e, por favor, não confundamos os "de boa-fé" com os "de má-fé" - perderam a noção dos riscos econômicos e/ou criminais em que incorriam. Os "de má-fé" experimentaram até recentemente a sensação de impunidade que só o poder aparentemente irrefreável é capaz de oferecer.

O petrolão não pode ser analisado como um ato isolado. Ele é o sintoma mais grave de uma doença que se instalou nos fundos de pensão, nos quais o PT passou a controlar a representação governamental e dos empregados, quando antes havia equilíbrio de forças; nas agências reguladoras, em que a nomeação por critérios técnicos foi substituída pela ocupação partidária; nos bancos públicos, cujas diretorias se abriram aos partidos, a ponto de o tesoureiro de um deles ter sido recentemente nomeado para uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal - para ficar apenas em algumas referências.

Dizer que já havia corrupção nas relações entre agentes públicos, atores políticos e empresas privadas antes de o PT chegar ao poder é afirmar o óbvio. Nessa matéria nenhum partido é puro, nem aqui nem em nenhuma parte do mundo. Não se trata, portanto, de apontar mocinhos e bandidos, mas de verificar em que medida essas relações vão ganhando forma de organização criminosa e penetrando as estruturas do Estado e do sistema político. No limite, dá-se a constituição de um poder paralelo e oculto que comanda o jogo político e empresarial, sob a carapaça da legalidade formal do Estado democrático. É o que aconteceu na Itália, onde até o venerando Giulio Andreotti, diversas vezes primeiro-ministro, se tornou parte integrante da rede mafiosa desbaratada pela Operação Mãos Limpas, no início dos anos 1990.

É desse risco que o Brasil possivelmente se está livrando com a operação Lava Jato, se ela produzir os efeitos desejados na esfera penal. A corrupção que ganhou forma nos últimos 12 anos não é moralmente mais condenável do que a que a precedeu.

Mas é politicamente mais perigosa, pela imbricação sistemática de partidos,
instituições do Estado e cartéis de empresas de grande porte, num esforço coordenado para desviar recursos públicos com o fim último de perpetuar no poder o mesmo sistema que engendrou ou permitiu a ação criminosa organizada. Não é que exista um gênio do mal por trás de tudo isso. O que temos é uma lógica de poder que, se não for quebrada, produzirá um mostro que possivelmente fugirá ao controle mesmo dos que se imaginavam capazes de controlá-lo.

Claro que reformar o sistema político é imprescindível para reduzir as chances de novos petrolões e fortalecer a democracia. Para isso, no entanto, nada é mais importante agora do que traçar com nitidez a divisória que separa a legalidade democrática da atividade criminosa, punindo exemplarmente os que cruzaram essa fronteira, não importa a cor partidária que tenham ou os interesses que representem.

Superintendente executivo do iFHC, colaborador do Latin american program do Baker Institute of Public Policy da Rice University, é membro do Gacint-USP.

Miriam Leitão - A economia do social

- O Globo

Encontrei Joaquim Levy, certa vez, em 2000, animado com um estudo que concluíra com outros economistas do governo. Cumprindo o que a Constituição manda, ele, mergulhado no Orçamento, separava os números: o que era subsídio para empresários e quanto custava. Explicou-me que assim se poderia ver o que restava para os mais pobres nos subsídios e gastos sociais.

O estudo e a longa conversa me renderam uma coluna, uma crônica, e muita reflexão sobre como os mais ricos se apropriam de nacos do dinheiro público exatamente pela falta de transparência, ou pela confusão de rubricas no Orçamento, pelo descontrole. Por isso, quando ele respondeu, durante a entrevista de última quinta-feira, que não se busca “o equilíbrio pelo equilíbrio”, mas para “garantir o avanço social” e permitir à sociedade “o exercício de escolher prioridades”, é disso que ele está falando.

O medíocre debate brasileiro criou conflitos inexistentes, como se já não houvesse suficiente dilema num país tão complexo. Nunca vou entender a suposta esquerda que pensa que a estabilidade é uma agenda da direita. Seja de que lado do campo político a pessoa pense estar, isso é uma questão de lógica: é melhor a estabilidade do que a inflação; a transparência do que a falta de informação; gastos controlados do que descontrolados. Aumentar a despesa com nossos impostos tem que ter hora, lugar e motivo.

O dado que Levy deu na entrevista de estreia é realmente impressionante: um quarto da dívida mobiliária do Governo Federal é o resultado dos repasses para os bancos públicos, principalmente o BNDES. Quantas vezes escrevi que essa sangria era um absurdo e um retrocesso. Voltava-se ao tempo da conta de movimento, em que o Banco do Brasil não tinha limites de gastos porque o Banco Central fazia repasses sequenciais. Foi o que aconteceu com o BNDES de 2008 a 2014.

Nada vai mudar apenas porque Joaquim Levy está no lugar certo, parece afinado com Nelson Barbosa, e o presidente do Banco Central dá sinais de que, afinal, tem companhia. A presidente Dilma precisa deixá-los trabalhar. É preciso que se complete a equipe econômica e quanto mais homogênea ela for, melhor. Levy precisa indicar a equipe de sua confiança, como fez Antonio Palocci em 2003. O lugar-chave é a Secretaria do Tesouro, que nos últimos anos foi uma lamentável oficina de fantasias contábeis.

Não adiantará também o ministro remar para um lado, e os três bancos públicos remarem para outro. Mesmo com os repasses contidos pelo novo ministro, é preciso que os bancos públicos atuem em sintonia com o Ministério da Fazenda.

Não se pode corrigir o rumo pela metade. O risco do qual temos que nos prevenir é grande demais. Se o país perder o grau de investimento, todo o financiamento ficará mais caro. É espantoso que tenhamos aceitado a regressão na escala das agências de risco. Se o Brasil cair mais um degrau para o nível especulativo, tudo ficará mais difícil, principalmente num mundo em que os Estados Unidos estão mais fortes.

Levy enfrentará resistências diárias. Recentemente, numa entrevista que me concedeu, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, disse que a política econômica que estava sendo exercida havia ganhado a eleição. Mas a que foi anunciada por Levy-Barbosa-Tombini é bem diferente da que vinha sendo praticada.

Haverá muito trabalho pela frente e um longo deserto a atravessar. O crescimento não voltará de forma imediata. O ajuste das contas públicas, mesmo sendo gradual, é forte. O Tesouro sairá de um déficit primário em 2014 para um superávit de 1,2% do PIB.

Joaquim Levy foi uma excelente escolha. Sua experiência é inegável. Além da trabalhar nos governos de partidos diferentes, foi funcionário do FMI, BID e trabalhou no Banco Central Europeu na formação da nova moeda. Mas tudo isso o desqualifica diante de muita gente do governo no qual ele estará inserido.

Uma amiga me enviou mensagem perguntando quem impôs essa mudança ao governo? Respondi que era a realidade, a mais incontornável das conselheiras. Que os conselhos da realidade sejam ouvidos pela presidente para que a estabilidade monetária permita que a agenda social do país permaneça.

Zander, Navarro - A tragédia petista - 2

- O Estado de S. Paulo

Nesta página esbocei uma interpretação sociológica acerca do desenvolvimento do campo petista (A tragédia petista, 26/10) e agora cabe determinar uma equação que possa revelar as principais variáveis de sua sustentação. Quem sabe, assim, entenderemos os ingredientes que explicam o continuado êxito eleitoral do PT.

Na analogia com a matemática, seriam muitas as variáveis a desvendar, entre as principais e as secundárias. Algumas surpreendem, como a espantosa passividade de nosso povo, sujeitando-se às corriqueiras manipulações do sistema partidário, comportamento que inclui até cientistas sociais com elevada formação científica.

Mas outras variáveis não são inesperadas, como o uso do Estado com fins primordialmente partidários ou a ocorrência dos absurdos gastos com propaganda. São fatos que tornam remotos os ideais republicanos que nos deveriam orientar.

Neste comentário sugiro que duas constantes e uma incógnita também compõem a equação, todas demonstrativas do crescimento do campo petista, especialmente nos anos pós-Constituinte e no curso da democratização do País. Contudo não são as variáveis que seriam logicamente antecipadas e a incógnita, provavelmente, não tem nenhuma chance de ser desvendada. Já as duas constantes constituem o eixo central do edifício petista.

A primeira delas diz respeito à capacidade de elevar ininterruptamente o caudal de votos destinados ao partido. Numa democracia eleitoral, o acesso ao poder e ao Estado requer maiorias em eleições regulares. Aqui, o mecanismo decorreu da sorte circunstancial do campo petista, que foi a explosão contemporânea da expressão participação social. Esta surgira pelas mãos da clássica teoria democrática pluralista, definida, em especial, por autores norte-americanos, como Robert Dahl e outros, nos anos 1970. Mas foi expressão tornada obrigatória apenas na década de 1990, em quase todo o mundo. Ideólogos petistas, entretanto, dela se apropriaram, tornando-a (falsamente) uma prerrogativa da tradição da esquerda.

Participação social tornou-se o fulcro da propaganda do partido, prometendo que os cidadãos teriam poder decisório sobre as coisas públicas, um sonho de teorias democráticas que a esquerda petista, espertamente, vendeu como criação sua. Foi assim com o Orçamento Participativo, a grande bandeira do partido naqueles anos, e tem sido da mesma forma com a multiplicação de conselhos, iniciando-se pelo setor da saúde e seus coletivos municipais. Posteriormente, o ideal participativo irradiou-se para as demais áreas, unindo uma narrativa que é irresistível, pois abriria o Estado à voz dos cidadãos, porém combinada a uma camuflada ação partidária capaz de capturar, cada vez mais, currais eleitorais e, ao fim, mais votos. Em poucas palavras: um discurso em si mesmo democrático, mas distorcido pela desonestidade petista, escondendo seu principal objetivo, que é a manipulação dos participantes, vistos apenas como portadores de votos necessários à conquista dos governos.

A presidente reeleita conhece bem esse mecanismo: seu antigo abrigo, o PDT, era o principal partido em Porto Alegre, mas foi varrido do mapa pelo Orçamento Participativo, o qual cooptou as lideranças dos bairros, recrutando-as para o guarda-chuva petista. Conselhos e conferências nacionais, somados à oferta de todos os tipos de bolsas: nada disso tem alguma coisa que ver com a venezuelização e menos ainda com a democratização do Brasil. Relaciona-se, exclusivamente, à conquista do Estado por meio de um processo de clientelismo partidário sem precedentes em nossa História.

A segunda constante da equação se chama corrupção. Nenhum partido sobrevive sem dinheiro, é preciso financiar seu funcionamento, com custos cada vez mais altos. Aqui serei breve, pois os fatos atuais, divulgados em escala crescente, emudecem a cidadania, perplexa com a ousadia de um partido que antes pregava a correção ética, à exaustão. O assalto à Petrobrás torna tal escândalo o maior já registrado e, simultaneamente, marca o PT como o partido mais corrupto da História brasileira. Os petistas serão capazes de lidar serenamente com os fatos iluminados pelo avanço das investigações? 

Como responder à colossal transferência de recursos públicos para garantir o sucesso de um partido? 

E lembremos, pois é gigantesca a crueldade política: o escândalo incide sobre uma sociedade desigual como a nossa, na qual prevalece uma estrutura regressiva de tributos, prejudicando os mais pobres. Como um partido autointitulado de esquerda se pode envolver nesse inominável crime?

E assim chegamos ao terceiro elemento que pretendo apontar nestas notas e que diz respeito à incógnita da equação. Ou pelo menos assim aparece, pois ainda não foi decifrada. Trata-se da pergunta: qual o objetivo finalístico de tudo isto? Há no horizonte de longo prazo um projeto para o Brasil ou um plano para reconfigurar a Nação que igualmente descreva a estratégia do jogo?

A resposta a essas indagações realça a maior de todas as vilanias, pois esses objetivos são inexistentes. Deixo o desafio: que alguém aponte algum documento de alguma significação mais substantiva, com a assinatura do Partido dos Trabalhadores, no qual esteja delineado um cenário de transformações para o Brasil. Como insistido no artigo anterior, o partido deixou de pensar desde os anos 90 e, em tempos recentes, tem sido incapaz de sequer refletir sobre o País, apontando os desafios e as mudanças que nos fariam uma Nação próspera e justa. Conformou-se com as delícias do poder, do consumo e do dinheiro produzidos pela ascensão social de seus operadores.

Esse é o coração da tragédia petista e nos deixa, os cidadãos, prostrados e à espera. Seria o anúncio da mudança que os atuais detentores do poder nem ao menos sabem enunciar, mesmo que retoricamente.

Sociólogo, é professor aposentado da UFRGS

Vinicius Torres Freire -O que o povo vai achar disso?

• "Ajuste", menos emprego e consumo, inflação e Petrolão seriam conjunção inédita em dez anos

Folha de S. Paulo

Ao fim deste ano, os brasileiros estarão em média mais pobres. A renda nacional, o PIB, terá crescido menos que a população. A renda, o PIB per capita, vai cair. Havia acontecido em 2009, ano de colapso mundial. Antes, no 2001 de apagão e outras crises. Além disso, em 2014 o consumo das famílias terá crescido no ritmo mais lento em uma década.

2015 vai ser meio assim, e mais. O povo terá de engolir um tanto mais de inflação e a primeira alta notável do desemprego desde 2003. Enquanto mastiga essa gororoba, deve assistir à estreia do "reality" do Petrolão dos políticos, entre outras indignidades de um Congresso em rebuliço.

Seria uma conjunção inédita de más notícias em mais de uma década. Não faltará quem queira superfaturar o clima econômico ruim, a barafunda político-criminal e o fato de tudo isso ocorrer enquanto Dilma Rousseff troca a roupa de sua política econômica em público, estreando o modelo que durante a campanha eleitoral prometera deixar no armário: o "ajuste duro".

A queda da renda per capita pode não parecer impressionante. O PIB é uma abstração. De ano para outro, pode não dizer grande coisa sobre a "economia da vida cotidiana", a sensação térmica do povo. O declínio do consumo das famílias, no entanto, vai dando concretude triste a estes anos de estagflação moderada. Pior ainda será o efeito de um aumento de desemprego.

A tendência da taxa de desemprego em geral foi de baixa desde 2003, com pequenos e breves repiques em 2006 e 2009, que, no entanto, ocorreram em outro ambiente, de melhora contínua da vida. Não vai ser o caso em 2015, embora não se preveja crise como as vividas até 2003. Ainda assim.

Há um risco razoável de inflação na casa de 7% ou mais. Meio ponto extra de inflação talvez não seja muito notável no dia a dia, em particular se não se trata de carestia da comida. Mas estão na fila reajustes chatos como os de ônibus, trem, água, luz, gasolina, para nem mencionar que virá alguma alta de imposto. Haverá o aumento de IPTU em São Paulo, onde o clima não está bom faz tempo, vide junho de 2013 e os votos na oposição a Dilma.

As "Bolsas" sociais vão crescer menos. Os juros de curto prazo e os dos crediários serão maiores. Mesmo o dólar, que se mudou de vez para patamar mais alto, vai contribuir para a sensação de empobrecimento, que pelo menos no curto prazo será em parte decorrência disso que o Banco Central chama de "realinhamento de preços relativos". Isto é, bens manufaturados tendem a ficar algo mais caros, haverá menos emprego e salário nos serviços, tarifas públicas serão reajustadas com mais rapidez.

Enfim, recorde-se que as expectativas de melhoria socioeconômica têm estado elevadas desde o final da década passada. Há uma geração de pessoas que se tornou adulta nesse ambiente mais esperançoso. Mesmo que o caldo não entorne demais, a panela meio cheia vai parecer mais vazia.

Essa conjunção de problemas não é fatal, destino, tumulto inevitável. A reestreia de Dilma pode inspirar confiança; pode haver melhora do humor econômico da elite e da "velha" classe média. O governo pode saber conversar politicamente com a população. Mas vai ser tenso.

Desafios da nova equipe – Folha de S. Paulo / Editorial

• Encarregados de comandar a economia no segundo mandato de Dilma precisam criar condições para país voltar a crescer sem inflação

A nomeação da nova equipe econômica do governo federal tem forte impacto simbólico. Sua composição sugere que a malfadada experiência intervencionista do primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT) será interrompida. Não se trata de nova orientação ideológica da presidente. É a realidade que demanda essa mudança.

Indicado para ser o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um economista de perfil ortodoxo e histórico de boa gestão das contas públicas, não deixou dúvidas. Retomar a confiança da sociedade será o objetivo fundamental. Metas orçamentárias claras e disciplina para atingi-las serão as regras do jogo.

O time conta ainda com Nelson Barbosa no Planejamento, que retorna ao governo, e Alexandre Tombini, que continua na presidência do Banco Central.

Apesar de sua orientação mais intervencionista, Barbosa já criticou as estripulias com o Orçamento. Tem força para retomar o protagonismo da pasta e trabalhar na necessária agenda da infraestrutura e do desenvolvimento. Tombini, por sua vez, contará com mais liberdade para deixar a inflação perto de 4,5%, o centro da meta.

Controlar os preços num quadro de aumento de tarifas administradas pelo governo, como combustíveis e eletricidade, constitui só um dos muitos desafios econômicos do segundo mandato de Dilma.

De início, impõe-se perceber quão diferentes são as condições de hoje em relação às que permitiram a euforia da década passada.

O contexto internacional ainda será de crescimento, mas o ciclo de alta das matérias-primas parece encerrado. Desaparece, com isso, o maná que turbinou o desempenho brasileiro nos anos 2000.

As circunstâncias também são menos favoráveis no ambiente doméstico, exigindo mais disciplina na condução da economia. Na tentativa de manter o dinamismo, o governo Dilma utilizou toda a margem de manobra no Orçamento e ampliou de forma temerária os empréstimos de bancos públicos. Conseguiu resultados pífios.

Além disso, produzem cada vez menos impacto no PIB os incentivos ao consumo e ao crédito. Por fim, embora nisto nada influa o governo, deve-se mencionar um aspecto demográfico: o contingente de trabalhadores já não aumenta em ritmo tão acelerado.

Assim, levar a economia a crescer 3,5% ao ano --o mínimo para o Brasil alcançar patamar razoável de desenvolvimento-- dependerá cada vez mais de ganhos de produtividade. Sem qualificar a mão de obra e elevar os investimentos dos atuais 17% do PIB para 22%, o país ficará preso ao débil avanço sob a gestão Dilma Rousseff, média de 1,6% ao ano.

A agenda, como se vê, é complexa; abarca medidas de cunho emergencial e mudanças estruturais.

No primeiro campo, urge uma guinada no trato das contas públicas. Hoje, com despesas em alta e arrecadação em queda, quase nada sobra para o pagamento dos juros da dívida, que cresce de forma acentuada. Esse montante, o chamado superavit primário, deveria chegar a 2,5% do PIB até 2016.

Provavelmente, a maior parte desse processo dependerá de mais tributação, mas certamente haverá contenção de gastos. Estão nesse âmbito as necessárias modificações nas regras de acesso a programas como seguro-desemprego, abono salarial e pensão por morte.

Pouco valerá esse controle, no entanto, sem maior transparência gerencial, com metas de longo prazo para a redução da dívida bruta (que inclui aportes nos bancos públicos) e limites para a expansão de despesas governamentais.

Um ajuste como esse permitiria que a taxa básica de juros (Selic) caísse dos atuais 11,25% para níveis civilizados, em torno de 7%. Seria uma grande contribuição para tornar mais atraente o investimento, sobretudo em infraestrutura --somente a parceria com o setor privado poderá dar conta do recado na velocidade necessária.

Ao longo do tempo, haveria espaço no Orçamento para maiores dispêndios em educação e saúde.

Na seara tributária, impõe-se a simplificação. Os alvos, no curto prazo, são PIS, Cofins e ICMS, os que mais oneram as empresas com regras confusas. É preciso, ainda, desonerar as exportações e os investimentos, facilitando a recuperação de créditos tributários.

O governo deve ser ambicioso também na retomada de algumas reformas, entre as quais se destaca a da Previdência Social. Seu deficit está na casa dos R$ 50 bilhões por ano, mas tende a crescer com o aumento da expectativa de vida.

Dilma Rousseff, como se vê, passará boa parte do segundo mandato equilibrando-se entre a necessidade de arrumar a casa e de atender os anseios da população por melhores serviços públicos.

Um bom pedaço dessa agenda, que não virá sem custos políticos, já foi indicado por Joaquim Levy. Espera-se que a presidente aceite o novo curso durante o tempo que for necessário --pelo bem do país.

Vem aí a vez dos políticos - O Estado de S. Paulo / Editorial

Assentados os fundamentos da identificação dos autores e beneficiários da torrencial sangria dos cofres da Petrobrás - com a conclusão dos depoimentos em regime de delação premiada do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e de seu comparsa, o doleiro Alberto Youssef -, o acerto de contas da Justiça com o maior esquema de corrupção da história da República está em vias de se iniciar. Em breve começarão a ser conhecidas, a caminho da barra dos tribunais, dezenas de protagonistas (fala-se em 70) cujos nomes ainda permanecem à sombra, diferentemente do que se passou com os mais de 20 controladores do clube das megaempreiteiras nacionais que chegaram a ser encarcerados e com os executivos da Petrobrás, seus parceiros no crime continuado. Já não sem tempo, é para os políticos que os holofotes irão se voltar.

O primeiro movimento acaba de ser anunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Com base no que a dupla Costa & Youssef entregou - e sem a necessidade, ao que tudo indica, de esperar o que delatarem outros envolvidos que resolveram imitá-los para colher os benefícios similares quando forem julgados -, Janot pretende pedir ainda este ano a abertura dos primeiros inquéritos para apurar as culpas dos parlamentares e outras autoridades públicas que embolsaram a parte que lhes tocava no ultraje. Em geral, sob a forma de comissões destinadas nominalmente aos respectivos partidos, era a paga generosa pela abertura das portas facilmente destrancáveis das diretorias da Petrobrás com as quais os cartéis da empreita firmariam contratos superfaturados - cobrindo, com margens superlativas, o pedágio requerido por intermediários e contratantes.

A sensata ideia do procurador é solicitar ao relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, o desmembramento dos autos. Serão julgados pela Alta Corte os acusados detentores de foro privilegiado. Dos demais, que não dispõem dessa prerrogativa, se ocuparão os tribunais de primeira instância - salvo se ficar comprovado que tiveram participação direta em eventuais crimes cometidos por políticos. Só então, de todo modo, as delações que embasarem as ações penais deixarão de ser segredo judicial. "O que temos de fazer, dentro do limite do possível, é manter no Supremo aquilo que é do Supremo", adiantou Janot semanas atrás. "Aquilo que não puder ser cindido em razão da prova, no limite fica também no Supremo." A tendência, portanto, é não repetir o "maxiprocesso" do mensalão, que trancou a pauta do plenário do STF por mais tempo do que seria razoável.

Desta vez, tampouco o Ministério Público produzirá uma única e cabal denúncia. A fragmentação poderá acelerar a análise dos casos. De qualquer forma, o acionamento das engrenagens da Justiça será lento, a princípio. Antes de encaminhar os seus pedidos ao ministro Zavascki, por exemplo, o procurador-geral terá de esperar que ele homologue o teor das delações premiadas. Youssef fechou o seu depoimento apenas na última terça-feira - e foram mais de 100 horas de revelações a serem conferidas. Janot adotou também uma posição sensata diante dos pedidos para que fossem invalidados os atos do juiz federal do Paraná, Sergio Moro, relacionados com a Operação Lava Jato. Alegou-se que, tendo os delatores citado políticos, os autos deveriam ser remetidos de pronto ao Supremo. Janot esclareceu que as menções a eles não integram os processos em curso no Paraná.

Respeitada, evidentemente, a cadência dos ritos processuais, quanto antes puderem ser conhecidos os nomes desses políticos, melhor para todos. Sairão de cena os vazamentos das informações que teriam sido prestadas pelos delatores. O uso do condicional se justifica. O público, destinatário último dos repasses à imprensa, não tem como avaliar se a fonte anônima está jogando limpo quando sopra que o ex-diretor Gosta ou o doleiro Youssef apontaram tais ou quais mandatários como envolvidos no saque da Petrobrás; a motivação do vazador é obscura. O público tampouco pode avaliar se os citados têm de fato culpa em cartório - delação premiada não é prova objetiva nem necessariamente sinônimo de verdade.

O erro no veto a empresas no financiamento de eleições - O Globo / Editorial

• Em vez de uma ‘reforma política’, deve-se fazer mudanças tópicas para acabar com legendas de aluguel, combater o fisiologismo e melhorar o nível da representação

É inevitável que a agenda do momento seja ocupada por temas relacionados à montagem do governo do segundo mandato da presidente Dilma Roussef. Continuará assim ainda por algum tempo, mas, em algum momento, passada a fase de montagem e acomodação da nova equipe, alguns assuntos se imporão, à margem da problemática econômica — que não é pequena.

Entre esses, o da “reforma política”, tema muito falado na campanha, porém sem maiores consequências, dada a contaminação do debate pelas paixões político-partidárias.

Mas é certo que a próxima legislatura será convocada a deliberar sobre esta reforma, mesmo porque faz parte do programa do PT para os próximos quatro anos tentar viabilizar o plano golpista da “Constituinte exclusiva". Não conseguirá, mas a pauta do Congresso, de alguma forma, será ocupada, em parte por essa reforma. O tema foi tratado no Tribunal Superior Eleitoral, durante a campanha, e frequenta fóruns de discussões. Na quinta, em um deles, o vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), o senador eleito José Serra (PSDB-SP) e o presidente do TSE, ministro Dias Toffoli, também do Supremo, concordaram que é um erro proibir o financiamento de campanha por empresas — já decidido pelo STF, mas ainda não promulgado.

Foi consenso que esta barreira apenas estimulará o caixa dois, conclusão correta. Militantes do PT usam o escândalo na Petrobras, em que empreiteiras financiadoras de campanhas se misturam a lobistas, a dirigentes da estatal e a doleiros, como argumento a favor desta proibição, entendido pelo partido como último estágio antes do financiamento público integral da política.

Trata-se de estrondoso equívoco. O escândalo demonstra ser impossível coibir completamento o “por fora” de empresas para políticos, diante da ampla e sofisticada tecnologia de lavagem de dinheiro disponível. O caminho certo é outro: manter as empresas como contribuintes de campanhas, mas ampliar ao extremo a transparência no relacionamento do mundo dos negócios com a política.

Como o Supremo já decidiu por maioria vetar a contribuição das pessoas jurídicas, o Congresso terá de voltar ao tema, inclusive com a ajuda de Toffoli, autor ainda de outras propostas razoáveis para melhorar a campanha eleitoral, encurtando-a e com o banimento de trucagens dos programas de candidatos na TV.

Espera-se que a sensatez vingue e o que se chama de “reforma” se resuma a ajustes tópicos de grande efeito saneador: cláusula de barreira e fim das coligações nos pleitos proporcionais. Medidas simples para acabar com legendas de aluguel, facilitar a formação de maiorias nas Casas legislativas, combater o fisiologismo e aumentar a qualidade da representação política.

Ferreira Gullar - Necessidade

• É fascinante que tudo seja imprevisível. Faz da vida uma aventura, e o jeito é torcer por um 'happy end'

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Como costumo dizer, estou a cada momento descobrindo o óbvio. É que, às vezes, o óbvio, por ser óbvio, esconde o mistério, ou, pelo menos, é o que me parece.

Uma das coisas óbvias que descobri é que muito troço na vida resulta, em boa parte, do acaso.

Sei que há pessoas que pensam o contrário, pois acreditam que tudo o que acontece já estava determinado. Acho isso difícil, quando mais não seja porque, sem falar no resto, só de gente no planeta há atualmente muitos bilhões. Já imaginou o que seria prever e determinar tudo o que deve ocorrer com essa quantidade de gente a cada minuto?

Bem, não vou discutir esse tema porque não é ele que me traz a essa conversa com você. Acho fascinante --ainda que um tanto assustador-- o fato de que o que pode nos acontecer seja imprevisível. Faz da vida uma aventura, e o jeito é torcer por um "happy end".

Mas o melhor mesmo é não se preocupar com isso e deixar o barco correr solto. Isso não significa não tentar fazer com que tudo dê certo, ou seja, que busquemos o melhor, a felicidade, a alegria.

É como no futebol: a função do técnico é treinar o time para que faça mais gols do que leve. Assim na vida como no jogo.

E era exatamente aí que eu queria chegar: a quantidade de acaso que entra na criação da obra de arte. Já falei sobre isso, citando como exemplo o nascimento do poema.

Antes de escrevê-lo, o poeta tem diante de si a página em branco e, numa página em branco, qualquer coisa pode ser escrita.

Como o poema ainda não existe, o poeta não sabe o que vai escrever nem como começar a escrevê-lo. Diante da página em branco, ele se defronta com um número incalculável de probabilidades, mas, no momento em que escreve o primeiro verso, essa probabilidade --ou seja, o acaso-- se reduz.

E à medida que o poema vai se formando, o acaso vai sendo reduzido e só entra ali o que se ajustar ao que já está escrito, o que for necessário à sua realização.
Sim, porque, como na vida, o que realizamos e se mantém é o que se faz necessário. Isto é, trata-se de uma relação dialética entre o acaso e a necessidade.

No poema, como na vida: por acaso, você encontra alguém, mas essa pessoa só se tornará sua companheira se você e ela necessitarem um do outro.

Mas voltemos à poesia. Por esta ou aquela circunstância, ocorre ao poeta determinada palavra que faz nascer o verso inicial do poema. Se em vez desse verso surgisse outro, o poema não seria o mesmo.

Mas não importa, desde que, nessa dialética, resulte um poema capaz de encantar o leitor e, se o consegue, torna-se necessário a quem o lê, incorpora-se a sua vida.

O mesmo ocorre com a pintura: na tela em branco tudo pode surgir, dependendo das primeiras pinceladas que o pintor lance ali.

E, na pintura, ocorre algo que dificilmente ocorre no poema: o pintor pode, estando o quadro pronto, borrar tudo e começar de novo, como aconteceu com um retrato meu pintado por Iberê Camargo: quando pensava que, enfim, ele concluíra o retrato, borrava tudo e começava outra vez. O poeta dificilmente faz isso: se o fizer, terá de começar de novo, enquanto, na pintura, o apagado não se apaga.

Com um poema meu ocorreu um fato que o ajudará a entender o que digo. Escrevi-o pouco antes de partir para o exílio e, lá chegando, verifiquei que o havia perdido.

Inconformado, decidi escrevê-lo de novo e o fiz. Pois bem, ao voltar para casa, reencontrei numa gaveta o poema supostamente perdido. Li-o e fiquei surpreso, porque ele era diferente do que escrevi depois.

A conclusão inevitável é que, se não o tivesse dado por perdido, não o teria escrito outra vez e, assim, a primeira versão passaria por ser a única forma possível de escrevê-lo.

E, de fato, não era, porque o poema, como tudo o mais na vida, resulta de uma soma de fatores circunstanciais que se oferecem à opção do poeta no momento em que o escreve.

Seu núcleo é, certamente, algo essencial que o poeta quer expressar, mas, como ainda não o fez, busca fazê-lo com as ideias e palavras que, naquela situação, lhe ocorrem. Logo, se o momento for outro, o poema não será exatamente o mesmo.

Lenine & Julieta Venegas - Miedo

João Cabral de Melo Neto - A Mulher e a Casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

Publicado no livro Quaderna (1960).