terça-feira, 4 de agosto de 2015

Dirceu não é mais o mesmo, mas sua prisão pode manchar era Lula

• Petista ainda cumpre pena pela condenação no mensalão e pode perder benefício do regime domiciliar

Por Alan Gripp –O Globo

RIO - José Dirceu não é a sombra do que foi, mas sua nova prisão, ainda que fosse a bola mais cantada no mundo político atual, tem consequências significativas, no curto e médio prazos.

A principal delas é política. Os investigadores disseram estar convencidos de que o esquema de corrupção na Petrobras nasceu no primeiro governo Lula e era a repetição do mensalão. Em ambos os casos, segundo os procuradores da Lava-Jato, Dirceu foi o principal estrategista, preenchendo postos-chaves para a engrenagem dos esquemas.

Como se sabe, no mensalão os recursos desviados foram usados na compra do apoio da base aliada no Congresso. Na Lava-Jato, os recursos foram drenados para campanhas eleitorais e, aqui e ali, para os bolsos de alguns — Dirceu entre eles, aponta a investigação.

Ainda que existam diferenças, a comparação tem o poder de deixar uma mancha na era Lula e enfraquece a tese, já em desuso, de que o ex-presidente desconhecia as negociações não republicanas de sua administração. E mais: em tom enigmático, os procuradores sugeriram que Lula, ele próprio, integra a lista de investigados da Lava-Jato.

Tudo isso pode insuflar os protestos contra Dilma Rousseff, marcados para o dia 16 de agosto. Esse é o maior temor dos dirigentes petistas. As manifestações anteriores já haviam se notabilizado pelo caráter antipetista, extrapolando a insatisfação contra a presidente. A depender da adesão, os atos podem deixar ainda mais vulnerável o governo, que vai encarar, fragilizado, o retorno de um Congresso frenético.

A prisão de Dirceu também tem consequências jurídicas para ele próprio. Sua situação é bem mais complicada do que a de outros alvos da Lava-Jato. O petista ainda cumpre pena pela condenação no mensalão e ganhou da Justiça o chamado benefício de progressão do regime, deixando a cadeia para cumprir o restante da pena em prisão domiciliar. Agora, é possível que, provocada pelo Ministério Público, a Justiça reveja esse benefício.

Pesa contra Dirceu o fato de que parte dos pagamentos recebidos do lobista Milton Pascowitch foi feita no período em que ele estava preso. Segundo o próprio Pascowitch, trata-se de propina. Portanto, em tese, Dirceu não tinha exatamente o "bom comportamento" que o levou para casa.

Também é certo que o passado do mensalão terá impacto numa eventual futura condenação do petista na Lava-Jato, quando o seu histórico será levado em conta.

É bom lembrar que a prisão ocorre ao mesmo tempo em que o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, justamente o operador alçado ao cargo por Dirceu, em 2004, também negocia um acordo de delação premiada. Não sem razão, a notícia desta negociação reforçou o sentimento de pânico em Brasília.

É preciso esquecer a propaganda e abrir o jogo ao Brasil, diz FHC

Por Cristiane Agostine – Valor Econômico

SÃO PAULO - Em um recado indireto à presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta segunda-feira que é preciso deixar de lado a propaganda política e “abrir o jogo” ao Brasil sobre os motivos da crise política e econômica que o país vive. Ao citar sua gestão como exemplo, FHC disse que o governo precisa se comunicar e explicar para a população o que pretende fazer para resolver os problemas.

“Não adianta esperar que tecnocraticamente se resolvam as questões. Não é isso. É preciso que haja crença, esperança e você não engaja ninguém na esperança se não tiver liderança que diga com clareza o que está fazendo e o que vai acontecer”, afirmou o ex-presidente. “Esqueça por um momento a propaganda e abra o coração, abra o jogo ao Brasil. Vamos ter que ter um momento do Brasil de verdade, de dizer: erramos nisso, acertamos nisso e vamos ter que fazer isso, vamos ter que apertar o cinto e vai acontecer tal coisa”, disse FHC, ao dar uma palestra organizada pela ESPM, instituição de ensino superior, em um teatro na capital paulista nesta segunda-feira.

Em críticas às gestões do PT na Presidência, o ex-presidente afirmou que o país “perdeu o rumo” e que viveu um momento de “delírio” na economia, ao apostar na expansão do consumo e no crédito. “Houve um momento de perda de rumo. Perdemos o rumo. Recuperar o rumo não é fácil. Nós perdemos o rumo e nós todos ficamos embalados com a ideia megalomaníaca de que tudo era possível”, disse. “Entramos em um momento no Brasil de um certo delírio. Foi a partir de 2007, 2008 até que viram que a crise não era uma marola e, em vez de termos nos preparado para fazer o que era preciso fazer, não fizemos”, afirmou.

Ao falar sobre a crise política enfrentada pelo país, o ex-presidente disse que o volume de corrupção registrado é “brutal” e afirmou que para superar esse período é preciso “liderança nova”. FHC, no entanto, ponderou que não existe “salvador da pátria” e disse que os problemas só serão superados dentro de um “processo” político.

Sem citar Dirceu, FHC exalta instituições: 'Democracia está trabalhando'

José Roberto Castro e Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

• Tucano disse ironicamente que não sabia sobre prisão de ex-ministro, mas que instituições estão começando a fazer contrapeso à cultura brasileira, de arbítrio

SÃO PAULO - Poucas horas depois da divulgação da prisão do ex-ministro José Dirceu na 17° fase da Operação Lava Jato, o ex- presidente Fernando Henrique Cardoso fez nesta segunda-feira, 3, um discurso para estudantes exaltando as “instituições” que estão combatendo a corrupção.

“As instituições começam a funcionar de uma maneira mais eficiente. Não obstante ao volume de corrupção, que é brutal, alguns responsáveis estão na cadeia, os tribunais começam a funcionar e a polícia começa a prender quem antes não era preso. Os procuradores acusam e a imprensa divulga”, disse FHC ao estudantes da primeira turma da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

“A democracia está trabalhando e as instituições estão começando a fazer contrapeso à cultura brasileira, que é de arbítrio”, concluiu o tucano. Eleito em 1994 e reeleito em 1998, Fernando Henrique Cardoso lembrou aos estudantes que foi o “primeiro presidente eleito que não caiu” e fez críticas a atual presidente.

O ex-presidente exaltou a chegada ao poder de movimentos sociais na Espanha, mas disse que no Brasil os partidos ainda não conseguiram entender esse fenômeno.

Ao deixar o teatro em São Paulo onde deu palestra a estudantes universitários, o ex-presidente foi questionado por jornalistas sobre a prisão do ex-ministro. Sem parar para entrevista, FHC respondeu, com ironia: “eu nem estava sabendo”.

Lei de Conteúdo Nacional. Falando a estudantes sobre a necessidade de o País conectar sua produção à produção global, FHC criticou o governo Dilma e a Lei de Conteúdo Nacional para a exploração de petróleo. O tucano disse que a presidente implanta política como se País estivesse “nos anos 30” ou “nos anos 70, como (Ernesto) Geisel”.

“É bom ter indústria nacional, mas não adianta forçar. Só pode produzir petróleo se tiver 65% feito aqui. Como não tem condições, o governo começa a emprestar dinheiro, começam empresas fictícias que não conseguem qualidade, atrasa tudo e não funciona".

'É hora de esquecer propaganda e falar do Brasil de verdade', diz FHC

Daniela Lima – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Em uma série de recados velados ao PT e à presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) afirmou que não se atravessa uma crise de confiança só com ações técnicas e publicidade enganosa.

"É preciso que haja crença, esperança. Você não engaja ninguém se não tiver liderança que diga com clareza o que está fazendo e o que vai fazer", iniciou, rememorando o caminho que percorreu para dar credibilidade ao plano Real.

"Esqueça por um momento a propaganda e abra o coração, abra o jogo ao Brasil. Vamos ter que ter um momento do 'Brasil de verdade', de dizer: 'erramos nisso e nisso, acertamos nisso e vamos chegar nisso", recomendou.

Foi a segunda vez que o tucano recomendou publicamente um mea-culpa aos integrantes do partido que ocupa o Planalto desde 2003. Para FHC, o país está "sem rumo" e os brasileiros "atônitos". Ele disse ainda que cenários como esse não se resolvem com "um ato, mas com processos".

"Não existe um salvador da pátria", concluiu.

Numa referência indireta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, FHC disse que, entre os anos de 2007 e 2008 o país se perdeu em um "delírio" megalomaníaco.

"Até que viram que a crise não era era uma marola e, em vez de termos nos preparado para fazer o que era preciso ser feito, não fizemos. Não fizemos na saúde, não fizemos investimentos", afirmou.

O ex-presidente falou sobre o quadro nacional durante aula inaugural da ESPM, instituição de ensino superior de São Paulo. Ele deixou o evento sem falar com jornalistas e não quis responder sobre a prisão do ex-ministro da Casa Civil de Lula, José Dirceu.

"Eu nem sabia", disse.

Lideranças novas
FHC também destacou que será preciso renovar lideranças e gerações no comando da política. Ele não citou nomes de seu partido ou de outros como exemplos ou modelos a serem seguidos. Sempre que se referiu a políticos, falou de nomes do passado, como Tancredo Neves.

Para oposição, prisão de Dirceu aproxima investigação de Lula e Dilma

Por Folhapress – Valor Econômico

BRASÍLIA - Com a prisão do ex-ministro petista José Dirceu nesta segunda-feira, líderes da oposição afirmam que as investigações da Operação Lava-Jato se aproximam cada vez mais do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff, além do núcleo principal do PT.

Para o senador Aloysio Nunes (SP), vice-líder do PSDB no Senado, os fundamentos usados para a prender José Dirceu deveriam influenciar, pelo menos, uma investigação contra Lula e Dilma.

Segundo os investigadores, Dirceu foi um dos criadores do esquema de corrupção na Petrobras e na estatal a prática do mensalão - a compra de apoio parlamentar.

"Se a justificativa é que ele [Dirceu] contribuiu para formar o esquema da Petrobras, essa mesma se prestaria também, pelo menos, à abertura de uma investigação contra Lula e Dilma. Ele não montou isso sozinho. Havia um presidente da República e uma chefe da Casa Civil", afirmou o tucano.

O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), também comentou a prisão do ex-ministro e sugeriu, em nota, que "falta pouco" para as investigações começarem a chegar a Lula e Dilma.

"Temos que aplaudir essa nova etapa da Lava-Jato, que não se restringe a intermediários e finalmente começa a chegar aos cabeças pensantes, elaboradores de todo esse esquema corrupto dentro do Palácio do Planalto alimentado por 'pixulecos'. Falta pouco agora", disse.

O líder democrata na Câmara, Mendonça Filho (PE), acredita que essa fase inaugura o início das investigações contra o núcleo político do esquema, e que atingirá principalmente o PT. "O Dirceu foi o grande mentor do projeto de poder do PT e a prisão de hoje [segunda] agrava ainda mais o quadro político já delicado do partido."

Mendonça se refere ao PT como uma "organização criminosa". "É triste para o Brasil ver que foi dominado por uma organização criminosa, com aval da cúpula de um dos principais partidos da história da República", disse.

Na mesma linha dos colegas, o presidente do DEM, senador Agripino Maia (RN), afirmou em nota que a prisão de Dirceu "deixa clara a ligação entre os escândalos do mensalão e do petrolão como práticas do governo petista".

"Os fatos agora tornados públicos poderão finalmente chegar ao andar de cima. A hora é de apoiar as investigações e confiar na isenção das instituições", afirmou.

Impeachment
Já o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (SP), defendeu um novo governo no país para que "ele possa, junto com a Justiça, corrigir os rumos do Brasil. Para o deputado, "há o encaminhamento de que o impeachment pode se tornar necessário" porque a "ingovernabilidade está instalada no país".

Na avaliação do deputado, o processo de julgamento e as punições do mensalão "não serviram como advertência ao PT de que era preciso parar com as atividades que envolviam corrupção".

O líder do partido na Câmara, deputado Rubens Bueno (PR), também afirmou que as investigações se aproximam de Lula.

"A prisão de Dirceu complica ainda mais o Partido dos Trabalhadores, que, na Presidência da República, montou uma engrenagem de corrupção para roubar recursos da população brasileira. Desmoraliza totalmente um partido que pregava a ética na política e ao chegar ao poder, infelizmente, mergulhou de cabeça no submundo do crime", disse.

Dirceu foi preso preventivamente na manhã desta segunda na 17ª fase da Operação Lava-Jato. Seu irmão, Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, sócio dele na JD Consultoria, também foi detido. Outro detido é Roberto Marques, ex-assessor do petista. Eles estão na superintendência da PF em Brasília e devem ser transferidos para Curitiba, onde ficarão à disposição da 13ª Vara da Justiça Federal.

Com a prisão de Dirceu, a ordem no Palácio do Planalto é blindar a presidente Dilma e tentar impedir que os desdobramentos da Lava-Jato contaminem ainda mais agenda do governo.

Durante a reunião de coordenação política nesta segunda, ministros disseram que a gestão Dilma "precisa ser blindada" da repercussão que a prisão do ex-ministro vai trazer ao cenário. No entanto, o núcleo político da presidente avaliou que será "bastante difícil" manter o governo fora do desgaste que o fato vai criar ao PT e aos petistas.

Na quinta-feira vai ao ar o programa do partido em rede nacional. Para a cúpula da legenda, a nova prisão de Dirceu vai dar ainda mais munição para a reedição de panelaços durante a exibição da peça.

Como a "Folha de S.Paulo" revelou, o programa será a primeira vez em que a presidente aparecerá em rede nacional após o panelaço do dia 8 de março, durante seu discurso pelo Dia Internacional da Mulher.

Petistas afirmam que a nova prisão de Dirceu tem o efeito de uma "pá de cal" na já desgastada imagem do partido.

Dirigentes petistas já esperavam a prisão do ex-ministro. Um membro da cúpula do PT disse à reportagem que, apesar do desgaste à legenda, a prisão de Dirceu é "mais do mesmo".

Oposição vê investigação se aproximar do Planalto

Bernardo Caram, Daniel Carvalho, Isadora Peron e Ricardo Brito – O Estado de S. Paulo

• PSDB, DEM e PPS fazem elogios à atuação da Lava Jato e dizem haver razão para apuração incluir Lula e Dilma

BRASÍLIA - A avaliação que predominou entre os líderes da oposição após a prisão do ex-ministro José Dirceu é que as investigações da Operação Lava Jato estão chegando mais perto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff. "O mesmo fundamento que embasou a condenação de Dirceu no mensalão, a teoria do domínio do fato, deveria conduzir a investigação de Lula e Dilma", defendeu o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP). Essa também foi a posição adotada pelo senador Alvaro Dias (PSDB-PR).

"Quando se chega a esse estágio de investigação, o que se pressupõe é que algo mais virá." O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), adotou um tom mais ameno. O tucano afirmou que o partido "não comemora nem lamenta" a prisão de Dirceu, mas disse que aqueles "que cometeram delitos, independentemente da função que ocupam ou ocuparam, devem responder por eles dentro do que determina a lei". Em nota, o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), disse que faltava pouco para as investigações chegarem a Lula e Dilma.

"Temos que aplaudir essa mais nova etapa da Lava Jato, que não se restringe a intermediários e finalmente começa a chegar aos cabeças pensantes, elaboradores de todo esse esquema corrupto alimentado por "pixulecos" dentro do Palácio do Planalto. Falta pouco agora", disse. Essa também foi a avaliação do presidente do partido, senador Agripino Maia (RN). "A hora é de apoiar as investigações e confiar na isenção das instituições", disse. Para ele, a nova prisão de Dirceu "estabelece clara ligação entre o mensalão e o petrolão como práticas de governo". O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), afirmou que, diante das novas revelações da operação, "há o encaminhamento de que o impeachment pode se tornar necessário".

"Polícia começa a prender quem não era preso", diz FHC
Poucas horas após a prisão do ex-ministro José Dirceu pela Operação Lava Jato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez ontem um discurso a estudantes no qual exaltou as instituições que combatem a corrupção. "Não obstante o volume de corrupção, que é brutal, alguns responsáveis estão na cadeia, os tribunais começam a funcionar e a polícia começa a prender quem antes não era preso. Os procuradores acusam e a imprensa divulga", disse FHC a alunos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo.

"A democracia está trabalhando e as instituições estão começando a fazer contrapeso à cultura brasileira, que é de arbítrio." Ao deixar o teatro em que foi realizada a palestra aos estudantes universitários, o ex-presidente foi questionado por jornalistas sobre a prisão do ex-ministro. Sem parar para entrevista, FHC respondeu: "Eu nem estava sabendo".

Planalto tenta evitar desgaste para Dilma

• Em discurso no Alvorada, presidente, sem citar Dirceu, diz que não tem medo "da travessia"

Fernanda Krakovics, Maria Lima, Cristiane Jungblut e Junia Gama – O Globo

BRASÍLIA - Embora já fosse esperada, a prisão do ex-ministro José Dirceu pegou ontem de surpresa o Planalto por ocorrer justamente na volta do recesso parlamentar, em meio ao esforço do governo para tentar recuperar a governabilidade e melhorar o ambiente político. A estratégia do Planalto é tentar se descolar do episódio, em tentativa de blindar a presidente Dilma Rousseff desse desgaste.

O Planalto teme que a prisão de Dirceu sirva de combustível para as manifestações contra o governo marcadas para o dia 16, ao alimentar o sentimento antipetista, e para os pedidos de impeachment protocolados na Câmara. A preocupação é não deixar a Lava-Jato ofuscar ações "positivas" preparadas para os próximos dias, como a celebração, hoje, dos dois anos do programa Mais Médicos.

Ontem, durante a reunião da coordenação política com a presidente, os participantes procuraram não tocar no assunto com Dilma. Mas, de acordo com um integrante do Planalto, houve comentários sobre o tema feitos por alguns participantes em conversas paralelas.

À noite, nas pouco mais de duas horas do churrasco oferecido aos líderes e presidentes de partidos no Alvorada, Dilma não falou sobre a prisão de Dirceu, mas o assunto dominou as conversas. O clima descrito pelos presentes era de muita preocupação com o desfecho político das investigações. Houve consenso de que o alvo final é o ex-presidente Lula. Em discurso, Dilma disse que ninguém deve temer o que vem pela frente:

- Na crise política, as instituições devem ser preservadas. Devemos fazer nossa travessia sem medo. Eu não tenho medo. Eu aguento pressão , eu percebo o que está acontecendo, ouço para mudar e melhorar.

Dilma também pediu que os aliados enfrentem com altivez as pautas difíceis que serão votadas no Congresso:

- Da estabilidade fiscal eu não arredo o pé. Não quero que votem como carneirinhos, mas como uma base corajosa em nome do Brasil e para o Brasil.

Os punhos de petista e o fim do mito da perseguição política

Marcelo de Moraes – O Estado de S. Paulo

Em 15 de novembro de 2013, quando foi preso por causa da condenação no chamado escândalo do mensalão, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu se deixou fotografar erguendo o punho. No gesto, repetido pelo também condenado José Genoino, Dirceu tentou transformar essas prisões num protesto político.

Evocava seu passado - e o de Genoino - de ex-militantes combatentes da ditadura militar para justificar que a prisão pelo mensalão não passaria de uma espécie de revanchismo político contra a chegada do PT ao Palácio do Planalto. Menos de dois anos depois, Dirceu volta a ser preso, mesmo estando cumprindo pena de prisão domiciliar por causa do escândalo anterior.

Agora, foi detido pela Polícia Federal, na 17.a fase da Operação Lava Jato, batizada como Pixuleco. Nas fotos não há mais punhos erguidos, nem protestos. A cara é de desânimo. E o decreto de prisão que o juiz federal Sérgio Moro redigiu é contundente no seu conteúdo, afirmando que, mesmo durante o julgamento do mensalão, "reforça os indícios de profissionalismo e habitualidade na prática do crime".

A nova prisão de Dirceu tem o devastador efeito de uma pá de cal no seu mito. Durante o julgamento do mensalão, seus aliados e admiradores cultivaram uma ideia de que o então ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa pesara na mão no relatório contra os políticos petistas, especialmente no caso do ex-chefe da Casa Civil do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Essa corrente acreditava firmemente que Dirceu e outros petistas foram condenados no mensalão sem provas. Em suma, uma injustiça. O protesto dos punhos cerrados ajudou a inflar, por algum tempo, essa ideia de que por trás da condenação estava uma fortíssima disputa política e ideológica.

O famoso "nós contra eles", uma espécie de pai do "Fla x Flu" que marcou a última campanha presidencial entre petistas e tucanos. Num eco dentro do Congresso, o então vice-presidente da Câmara, o deputado André Vargas (ex-PT-PR), também ergueu seu punho ao lado de Joaquim Barbosa, solidário aos companheiros presos. Assim como Dirceu, Vargas também não tem mais nenhum motivo para erguer seu punho, já que teve seu mandato cassado e foi preso por causa de seu envolvimento nas investigações conduzidas pela Lava Jato.

A prisão de ontem enterra esse mito. Segundo Moro, Dirceu está sendo preso acusado de receber propinas, dentro do esquema de desvio de recursos no escândalo da Petrobrás. Segundo essas investigações, seu nome aparece no esquema depois de delação feita por Milton Pascowitch, supostamente pela simulação de contratos de consultoria de sua empresa. Como político, Dirceu teve papel central na chegada do PT ao poder.

Com extrema habilidade, foi um de seus principais organizadores e coordenou a campanha vitoriosa de Lula em 2002, iniciando um ciclo de quatro triunfos seguidos na disputa pela Presidência da República. Principal dirigente do PT, fortaleceu a estrutura da legenda e soube preparar o terreno, com alianças políticas mais ao centro, para que Lula chegasse ao poder depois de três tentativas frustradas. O desfecho inesperado dessa trajetória é um baque que o PT terá dificuldades para assimilar.

Charge de Chico Caruso - O Globo


Partidos não sabem lidar com povo na rua, diz FHC

Daniela Lima – Folha de S. Paulo

• Tucano chamou corrupção de "brutal" e deu conselhos à presidente Dilma Rousseff

SÃO PAULO - A menos de duas semanas dos novos protestos contra a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o Congresso e os partidos estão "atrás" da sociedade e não sabem como agir diante dos movimentos que cobram novas práticas da política.

"O Congresso está tateando. Os partidos, nem se fala. Não sabem se ficam neutros, se entram na onda ou se ficam contra. Não sabem como tirar proveito da situação. E não tem proveito a tirar. Tem que aprender", disse nesta segunda (3), em aula inaugural da ESPM, em São Paulo.

A crítica ocorre uma semana após o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), anunciar que a sigla vai veicular propaganda convocando "indignados" a irem às ruas no dia 16 contra Dilma.

FHC fez uma retrospectiva do país. Disse que o momento atual tem deixado a sociedade estupefata e que a corrupção "é brutal". Enviou mensagens a Disse. Disse que não se supera um período de crise de confiança com "tecnocracia" e que a recuperação requer "liderança nova".

Sem citá-la, recomendou: "Esqueça a propaganda e abra o jogo ao país. Tem que ter o momento do Brasil de verdade". Disse que é preciso explicar o motivo do ajuste, apontar os próprios erros e dar perspectiva. "Essa explicação não é técnica. É clara e emocional." E arrematou: "Tem que tentar fazer o que é certo. Pode errar, mas você não vai estar falseando a si mesmo. Quem começa a falsear a si, falseia o resto".

Produção industrial cai 0,3% em junho e recua 6,3% no 1º semestre

Por Robson Sales – Valor

RIO - A produção industrial registrou queda de 0,3% em junho, perante um mês antes, na série livre de influências sazonais. Em maio, contudo, tinha avançado 0,6%. Os dados constam da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A queda de junho, porém, foi menos intensa que a média prevista por 22 analistas consultados pelo Valor Data, de baixa de 0,8%. O intervalo das estimativas ficou entre recuo de 1,2% e decréscimo de 0,3%.

Ante junho de 2014, a produção industrial brasileira caiu 3,2%. Foi 16º taxa negativa consecutiva nesse tipo de comparação. Nos seis primeiros meses deste calendário, a indústria apresentou recuo de 6,3%. Nos 12 meses até junho, a queda correspondeu a 5%.

Considerando a passagem de maio para junho, a produção de bens de capital apresentou queda de 3,3%, a produção de bens intermediários caiu 0,2%, enquanto a de bens de consumo duráveis declinou 10,7%. A produção de bens de consumo semi e não duráveis, contudo, registrou incremento, de 1,7%.

Ainda no comparativo mensal, 15 dos 24 ramos pesquisados tiveram declínio na produção, como máquinas e equipamentos (-7,2%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-12,7%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-2,8%).

Perante junho de 2014, a produção de bens de capital recuou 17,2%, a de bens intermediários caiu 1,7%, ao passo que a produção de bens de consumo duráveis diminuiu 2,4% e a de bens de consumo semi e não duráveis teve baixa de 2,4%.

"No índice acumulado para o fechamento do primeiro semestre de 2015, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial mostrou queda de 6,3%, com perfil disseminado de taxas negativas, já que as quatro grandes categorias econômicas, 24 dos 26 ramos, 67 dos 79 grupos e 70,1% dos 805 produtos pesquisados apontaram recuo na produção", destacou o IBGE em nota.

Merval Pereira - O DNA da corrupção

- O Globo

A aguardada (até por ele mesmo) prisão de José Dirceu ganhou maior densidade política devido à linha do tempo traçada pelo procurador Carlos Fernando Lima, determinando que o início do esquema foi o mesmo do mensalão, quando José Dirceu era o todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula, que o chamava de "capitão do time".

Se o DNA dos dois escândalos, mensalão e petrolão, é o mesmo, como definiu o ministro do STF Gilmar Mendes e confirmou a Operação Lava-Jato, e a finalidade, a mesma, financiar as atividades políticas de PT e seus aliados, estaremos em breve diante do mesmo dilema que os investigadores do mensalão enfrentaram há dez anos: a cadeia de comando parava em Dirceu, ou o presidente Lula era o verdadeiro Capo di tutti capi?

A presidente Dilma, que na ocasião era ministra de Minas e Energia e presidia o Conselho da Petrobras, fica em posição frágil diante da definição de quando o esquema do petrolão começou. Será possível que Dirceu nomeasse diretores da Petrobras sem que Dilma soubesse por que estavam sendo escolhidos, e com que missão?

Naquela altura do mensalão, havia o receio de que indiciar Lula como seu grande mentor poderia desencadear uma ação dos tais movimentos sociais a que o ex-presidente sempre recorria como ameaça. Para que o processo tivesse prosseguimento sem transtornos políticos, o procurador-geral da época, Antonio Fernando de Souza (que, aliás, hoje é advogado de defesa do presidente da Câmara, Eduardo Cunha), preferiu parar em Dirceu, considerando-o o grande chefe do que classificou de "quadrilha", denominação que, afinal, o STF derrubou.

Hoje, a situação política é outra, embora ainda restem receios quanto a Lula. Sua aura de grande liderança popular persiste, mas já está arranhada a ponto de permitir uma investigação sobre tráfico de influência a favor da Odebrecht pelo Ministério Público de Brasília. Lula não teve condições, embora tentasse, de parar a investigação.

Ontem, na entrevista coletiva sobre a fase "Pixuleco" da Operação Lava-Jato, o procurador Carlos Fernando Lima citou diversas vezes o ex-presidente Lula, para deixar claro que o escândalo da Petrobras começou ainda no seu primeiro governo. Perguntado se considerava Dirceu a liderança mais importante para o esquema de corrupção na Petrobras, o procurador fez questão de afirmar que Dirceu "é um dos principais, mas não o único".

Indagado se o ex-presidente Lula será investigado, Carlos Fernando Lima disse, escolhendo as palavras, que "neste momento não existe nenhum indicativo de necessidade de prisão de quem quer que seja que não esteja preso". Mas deixou claro que "nenhuma pessoa num regime republicano está isenta de ser investigada".

Ainda deu-se ao trabalho de explicar que "apenas pessoas com foro privilegiado devem ser investigadas em foro competente. Um ex-presidente pode ser investigado em primeiro grau".

A questão central é que a chegada do PT ao poder fez com que a corrupção se tornasse "endêmica e disseminada, como metástase", na definição de outro procurador. Ou, na definição de Carlos Fernando Lima: "(...) Houve uma sistematização da corrupção no governo do PT, como compra de apoio parlamentar". De maneira enigmática, ele deixou um recado direto a bom entendedor como Lula: "Temos uma ideia boa e clara de onde podemos chegar, mas isso é fato sigiloso".

É certo que ainda existe um temor reverencial quando se fala de Lula em nível institucional, pois em nível popular esse medo já se desfez. O próprio ex-presidente Fernando Henrique fica cheio de dedos quando o assunto é uma possível prisão de Lula. Ora diz que sua prisão "dividiria o país", que Lula é um líder popular e que "não se deve quebrar esse símbolo".

Mais tarde, em uma nota com o objetivo de esclarecer declarações a uma revista alemã, disse que se Lula merecer ser preso "é de lamentar, porque terá jogado fora (coisa que vem fazendo aos poucos) sua história..".

Como se vê, já é possível perguntar e discutir se Lula vai ser preso, o que indica que são muitos os indícios que o envolvem com as empreiteiras do petrolão. Agora resta aguardar para ver se nossa democracia já está madura o suficiente para vermos com naturalidade, embora indignados, um ex-presidente da República sendo investigado por corrupção.

Luiz Carlos Azedo - Delírios persecutórios

Correio Braziliense

• O PT nunca aceitou a condenação de José Dirceu no processo do mensalão, cuja legitimidade até hoje é questionada pela legenda e pelos advogados que atuaram no caso

Delírios persecutórios se caracterizam pela crença de ser vítima de perseguição ou conspiração. Quem sofre do distúrbio acredita — e possui explicações coerentes para o fato — que alguém conspira e deseja o seu mal. Na definição clínica, o sujeito acredita que é objeto de uma conspiração, podendo estar relacionada com fraude, espionagem, perseguição, envenenamento, calúnia, assédio ou obstrução nos seus objetivos a longo prazo.

Para sustentar o delírio, exageram-se pequenos acontecimentos. Uma injustiça, por vezes, demanda uma ação judicial. É a chamada “paranoia querelante”, muito comum nos tribunais e órgãos públicos, nos quais a pessoa afetada envolve-se em repetidas tentativas de obter, respectivamente, sentenças ou decisões favoráveis. Delírios persecutórios também podem se manifestar por meio de ressentimento e raiva, às vezes recorrendo a violência.

Na abordagem freudiana, a contradição do delírio persecutório se manifesta no “eu amo” que se transforma em “eu odeio”, e gera uma espécie de bateu, levou: “Ele me odeia e me persegue, o que me dá o direito de odiá-lo”. A partir daí, vem a projeção: os sentimentos são percebidos externamente de maneira oposta, e o sujeito acha que o outro o odeia. Freud associa esse ódio exterior ao afeto ou amor interior, mas aí já é outra prosa mais complicada: entra na roda a discussão sobre desejos reprimidos.

A nova prisão de José Dirceu na 17ª fase da Operação Lava-Jato, batizada de Pixuleco pela Polícia Federal, por suspeita de envolvimento no escândalo da Petrobras, desperta nos militantes petistas um sentimento de frustração e de revolta. No segundo caso, a maioria acredita que está sendo vítima de uma grande conspiração de direita, quiçá, dos Estados Unidos de Barack Obama. Os argumentos dos advogados dos réus e a narrativa da cúpula petista estimulam essa reação, que não deixa de ser uma maneira de mobilizar os quadros do PT para a luta política, cada vez mais dura.

O PT nunca aceitou a condenação de José Dirceu no processo do mensalão, cuja legitimidade até hoje é questionada pela legenda e pelos advogados que atuaram no caso. O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, relator do processo, que depois presidiu o STF e comandou o julgamento, sofreu ataques diretos dos petistas devido à atuação no caso. Agora, o mesmo ocorre com o juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, que é tratado como um “ferrabrás” que exorbita das funções no caso Lava-Jato, ao pôr na cadeia, preventivamente, os principais acusados.

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, em entrevista em Curitiba, disse que o escândalo da Petrobras e o mensalão têm a mesma genealogia: “Nós temos o DNA, realmente, de compra de apoio parlamentar — pelo Banco do Brasil, no caso do mensalão, como na Petrobras, no caso da Lava-Jato”. Segundo ele, “José Dirceu recebia valores nesse esquema criminoso enquanto investigado no mensalão e enquanto foi preso. Seu irmão fazia o papel de ir até as empresas para pedir esses valores”.

Esse foi um dos fatos, segundo o procurador, que motivaram o novo pedido de prisão para Dirceu, que já cumpria pena em prisão domiciliar por condenação no mensalão. Para o advogado dele, a cúpula petista e os amigos do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, a prisão foi arbitrária e desnecessária: ele poderia perfeitamente responder às acusações até que transitasse em julgado o processo da Lava-Jato, cumprindo, em casa, a pena pela qual já foi condenado.

Conspiração
A polêmica sobre Dirceu é uma amostra grátis do que pode ocorrer no país caso as investigações avancem na direção de petistas mais ilustres. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se articula e mobiliza forças para salvar o PT de uma catástrofe eleitoral irreversível, que inviabilize a candidatura dele em 2018. A volta ao poder de Lula é cada vez mais difícil, por causa do fracasso do governo Dilma Rousseff e do escândalo da Lava-Jato, que desgasta a imagem dele como líder político.

Lula é um craque da comunicação política, sabe utilizar com maestria a emoção dos militantes petistas e dos eleitores cujas vidas melhoraram durante o seu governo. No programa do PT que vai ao ar na quinta-feira, dirá que a legenda sofre uma perseguição odienta.

Vaias à presidente Dilma Rousseff, hostilidades quase físicas a políticos petistas em aviões de carreira e em restaurantes, além de uma bomba caseira lançada contra o Instituto Lula, em São Paulo — um ato tipicamente fascista — servem para corroborar o discurso. O clima pesado nas redes sociais é um exemplo da radicalização que vem por aí, já que grande manifestação contra o governo Dilma e o PT está programada para o próximo dia 16.

As investigações da Operação Lava-Jato contra o PT não são um fato banal, muito menos um delírio. A cúpula petista está à beira de ser tragada pelo escândalo. Rui Falcão, presidente nacional do PT, nega as denúncias: “O Partido dos Trabalhadores refuta as acusações de que teria realizado operações financeiras ilegais ou participado de qualquer esquema de corrupção”, diz.

A nota assinada por Falcão renova a fé dos militantes petistas que não acreditam nas denúncias e imaginam que tudo não passa de perseguição e conspiração golpista, ou seja, uma espécie de delírio persecutório coletivo.

Bernardo Mello Franco - A causa de Dirceu

- Folha de S. Paulo

Nos últimos anos, José Dirceu ainda era tratado como herói por muitos políticos e militantes do PT. Até ser preso, continuou a aparecer nos encontros do partido, onde posava para fotos e ouvia o grito de "guerreiro do povo brasileiro".

Sua inocência era defendida até por petistas que admitiam a existência do mensalão. Para eles, o ex-ministro teria sido condenado por agir "em nome da causa". Seria injusto compará-lo a um corrupto clássico, desses que desviam dinheiro público para passear de Lamborghini.

O mito do heroísmo foi estimulado pelo próprio Dirceu, que investiu na confusão entre o julgamento na democracia e a perseguição na ditadura. Essa narrativa ficou insustentável com as revelações da Lava Jato.

O ex-guerrilheiro não voltou à cadeia por negociar votos no Congresso com métodos heterodoxos. Ele agora é acusado de receber "pixulecos" de empreiteiros e lobistas que participaram do saque à Petrobras.

Além de colaborar com a montagem do esquema de corrupção, Dirceu "se beneficiou dele", disse o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima. O juiz Sergio Moro enumerou ocasiões em que os desvios da estatal teriam ajudado a enriquecê-lo.

Condenado por chefiar o mensalão, Dirceu recebia um "mensalinho" de R$ 80 mil a R$ 90 mil, disse o lobista Milton Pascowitch. Ele também contou que pagou despesas pessoais do ex-ministro, como a reforma de uma casa de campo (R$ 1,3 milhão), a reforma de um apartamento em São Paulo (R$ 1 milhão) e a compra do imóvel de uma filha (R$ 500 mil).

Antes que se questione o delator, a decisão de Moro ressalta que ele apresentou provas do que disse.

A Lava Jato já havia revelado que Dirceu recebeu R$ 39 milhões após deixar o governo. Mesmo assim, ele pediu doações a militantes petistas para pagar a multa do mensalão. Agora que o ex-ministro voltou à cadeia, alguns participantes da vaquinha podem concluir que a sua causa, na verdade, era a causa própria.

Cristian Klein - Risco alto e controlado

- Valor Econômico

• Ameaça à economia trava união entre as ruas e o Congresso

No delicado equilíbrio político que sustenta o governo, o fator mais desestabilizador não é o presidente da Câmara dos Deputados. Eduardo Cunha atrapalha, vai vender caro (como sempre) qualquer legislação de interesse do Planalto, mas não representa o maior risco para a presidente Dilma Rousseff. A maior ameaça vem das ruas.

E para azar do governo e dos petistas, as manifestações marcadas para dia 16 encontram o mesmo tipo de "aquecimento" dos protestos de 15 de março, que reuniram cerca de 1,7 milhão de pessoas pelo país.

Uma semana antes, numa homenagem ao Dia da Mulher, o pronunciamento de Dilma em cadeia nacional de rádio e TV fora retaliado por intensos panelaços em diversas capitais. Agora, a mobilização será precedida por outra fala, que pode agitar os humores da opinião pública quando a presidente aparecer no programa partidário do PT, nesta quinta-feira. A propaganda petista será veiculada três dias depois da prisão, ontem, do ex-presidente do partido, José Dirceu.

JD é acusado de estender o mensalão - pelo qual ainda cumpria pena em regime domiciliar - para o esquema de corrupção na Petrobras, investigado na Operação Lava-Jato. Dirceu preso pode ser considerado "mais do mesmo", como esperam os petistas, ou um elemento a reavivar a indignação popular, como anseiam os oposicionistas.

Os protestos do dia 16 serão uma prova de fogo para Dilma e os movimentos que se organizam nas redes sociais contra ela e o PT. Até o momento, as ruas deram sinalizações contraditórias, ou pelo menos insuficientes, sobre o grau de insatisfação do brasileiro. A primeira manifestação foi gigantesca. A segunda, em 12 de abril, mobilizou cerca de um terço do protesto anterior. É o terceiro ponto de observação que dirá se Dilma continua sob pressão das ruas ou se o bloco dos (mais) descontentes se dispersou.

Em 5 de maio, o programa partidário do PT escondeu Dilma, mas mostrou o ex-presidente Lula e o resultado foi semelhante ao do Dia da Mulher - panelaços não só pelas capitais, mas pelas cidades do interior. Diferentemente da primeira vez, porém, não havia a associação entre caçarolas e convocação de protesto - conjunção que se repetirá agora.

Essa combinação parece ser uma das características favoráveis à ação coletiva anti-Dilma. Por outro lado, a conjuntura política não é a mesma de meses atrás.

Com o refluxo do segundo protesto, a oposição partidária, PSDB à frente, se aproximou da oposição das ruas, o que quebra seu caráter supostamente autônomo, espontâneo. Como lembrou a cientista política americana Kathryn Hochstetler, em entrevista ao Valor na sexta-feira, essa partidarização é um dos maiores equívocos que a mobilização de rua contra Dilma pode cometer. Tende a reduzir o escopo dos protestos ao se identificar com uma das partes interessadas, em vez de criar coalizões suprapartidárias de descontentamento. O efeito pode ser até o contrário, ao amalgamar, em contraprotestos, grupos ligados ao governo. É exatamente o cenário que está se desenhando, já que PT, CUT e movimentos sociais como o MTST resolveram convocar manifestações de apoio à Dilma, em resposta aos chamados para o domingo, 16.

Para os defensores do governo - ou contrários ao "golpe" - a mobilização pode ser igualmente pouco inteligente. Em março, além dos panelaços, os protestos bem-sucedidos contra Dilma foram esquentados pela ida às ruas dos apoiadores da presidente, dois dias antes, numa sexta-feira, reforçando o clima de Fla x Flu das eleições do ano passado.

Seja como for, os dilmistas buscam provocar um efeito dissuasório, contra as tentativas de impeachment em curso.

Ao que parece, esse risco de polarização e, sua contraface, a dissipação do movimento das ruas já foram contabilizados pelos atores políticos - incluindo o empresariado.

Com a crise político-econômica aguda, evitar a perda do grau de investimento passou a fazer parte do topo das prioridades da agenda do governo e de boa parte dos interesses ligados à oposição partidária.

Se não for por seu próprio esvaziamento, as ruas precisam ser domadas, controladas, sob pena de aprofundar ainda mais a recuperação econômica.

Esse é o principal entrave à aliança entre o Congresso e as manifestações de massa, que poderia sacramentar o fim precoce do mandato de Dilma.

A classe política - em conversação contínua com o poder econômico - está reticente. O PSDB dá uma no cravo e outra na ferradura. Anuncia adesão aos protestos, mas recusa-se a incendiá-los. O senador Aécio Neves, presidente do partido e adversário à reeleição de Dilma, disse que "não comemora nem lamenta" a prisão de Dirceu. Preferiu louvar o "pleno funcionamento das instituições".

O longo tempo que separa Dilma do fim do mandato - recém-legitimado - abre espaço para a cautela, dadas as incertezas e ressignificações em jogo: o quê (afastamento constitucional ou golpe), quando (antes ou depois do meio do mandato), como (impeachment ou renúncia), porque (pedaladas fiscais, dinheiro sujo de campanha ou envolvimento direto em corrupção - o tiro de misericórdia ainda não encontrado) e quem assumiria (se Michel Temer, Aécio ou um novo eleito).

Outras questões sobre a mesa: Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos acusados na Lava-Jato, têm condições de liderar o processo no Congresso? À oposição interessa chegar ao poder em meio a uma crise e logo se tornar vidraça?

Tudo somado, ao delicado equilíbrio de sustentação do governo por sua base aliada corresponde uma cuidadosa aproximação da oposição partidária com a das ruas. Ambos tentam manejá-las.

Entre os principais grupos que comandam as manifestações, o PSDB elegeu o mais moderado, o Vem Pra Rua, seu interlocutor preferencial. O movimento ganhou perfil de "protesto institucionalizado" (vários grupos em torno de uma Aliança), organizado (pelas redes sociais), moderado (com articulação no Congresso) e ordeiro (leva até seguranças para manifestação).

Resta saber se a insatisfação pode ser controlada em fogo brando.

FHC e a tormenta petista – Editorial / O Estado de S. Paulo

Há raros momentos, nos períodos de tormenta que ciclicamente afetam a vida de um país, em que um gesto de serenidade e de lucidez ilumina o cenário para expor, aos que têm olhos para ver, o melhor caminho para a bonança. Em artigo publicado domingo no Estado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso rejeitou qualquer conversa com o PT que “cheire a conchavo ou, pior, que permita a suspeita de que se deseja evitar a continuidade nas investigações em marcha” sobre corrupção no governo. E acrescentou: “Para dialogar, não adianta se vestir em pele de cordeiro. Fica a impressão de que o lobo quer apenas salvar a própria pele”. “Será que chegou o tempo”, diz o texto, “de rezar pela sorte de alguns setores da vida empresarial e política? Talvez. Mas a hora para agir já não é mais, de imediato, do Congresso e dos partidos, mas, sim, da Justiça.” É o caminho.

Com esse artigo, o líder tucano desmonta a ardilosa tentativa lulopetista de envolver o maior partido da oposição num “diálogo” capaz de neutralizar politicamente tanto a possibilidade de eventualmente o Congresso votar o impeachment de Dilma Rousseff – por conta, por exemplo, da rejeição das contas do governo pelo TCU – como de a Operação Lava Jato resultar na condenação dos líderes do PT e da base aliada por envolvimento com o escândalo da Petrobrás e outros, como do setor elétrico, a que as investigações levem.

O lulopetismo é conhecido pela soberba com que despreza opiniões que não sejam as suas próprias e pela falta de cerimônia com que procura o apoio dos adversários – que normalmente trata como inimigos – nos momentos de apuro. Foi assim que, por ocasião do estouro do escândalo do mensalão, no primeiro mandato de Lula, sob o argumento da necessidade de preservar o equilíbrio institucional, a oposição foi persuadida a aliviar a pressão sobre o Planalto. A partir daí, contando com a sólida base de apoio popular de que então dispunha, Lula logrou dar a volta por cima e reeleger-se em 2006.

Em seu artigo, Fernando Henrique recorda que tomou a iniciativa, em 2013, quando Dilma e os ex-presidentes da República brasileiros viajaram à África do Sul para o funeral de Nelson Mandela, de sugerir, diante “do tamanho da crise em gestação”, que todos se unissem para “propor ao País um conjunto de reformas para fortalecer as instituições políticas”. Mas a sugestão não prosperou. Mais do que isso: “Naquela ocasião, como em outras, a resposta do dirigente máximo do PT foi ora de descaso, ora de reiteração do confronto, pela repetição do refrão autorreferente de que antes dele tudo era pior”.

O líder tucano afirma que a recusa de entrar num mero “conchavo” com os petistas “não implica dizer um não intransigente ao diálogo”. Mas é essencial que os donos do poder adotem uma postura realmente democrática: “Tomara que as aflições pelas quais passam o PT e seus aliados lhes sirvam de lição e os afastem da arrogância e do contínuo desprezo pelos adversários, até agora tratados como inimigos. É hora de reconhecerem de público que a política democrática é incompatível com a divisão do País entre ‘nós’ e ‘eles’”.

Com a hipocrisia de travestir de intenções altruísticas uma descarada tentativa de pedir socorro num momento de desespero, Lula botou seus porta-vozes em campo para sondar a possibilidade de colocar a autoridade moral e o prestígio político de Fernando Henrique Cardoso – que sempre contestou e tentou destruir – a serviço da sobrevivência de seu periclitante projeto de poder. O PT é um partido que “chegou nitidamente ao fim de um ciclo” porque “não se autorreformou, não capitaneou uma grande mudança pela reforma política”. E este diagnóstico não é de FHC, mas de um fundador e importante líder do partido, o ex-governador gaúcho Tarso Genro, em entrevista ao Estado publicada no domingo.

Do líder tucano é a recomendação de que “cabe aos donos do poder o mea culpa de haver suposto sempre serem a única voz legítima a defender o interesse do povo”. A crise em que o lulopetismo mergulhou o País parece estar ensinando ao povo brasileiro que é preciso escolher melhor quem tem a missão de defender seus interesses.

Dirceu, de novo – Editorial / Folha de S. Paulo

• Encarceramento do ex-ministro da Casa Civil era esperado, mas ainda assim provocou súbitas mudanças no panorama político

Não se pode dizer que a prisão de José Dirceu tenha sido uma surpresa. O próprio ex-ministro já a dava como certa –e desde o início de julho buscava impedi-la por meio de habeas corpus preventivos, afinal rejeitados pela Justiça. Nem por isso o novo encarceramento do petista deixou de provocar mudanças súbitas no panorama político.

A primeira e mais óbvia implicação dessa 17ª fase da Operação Lava Jato diz respeito ao PT. Com horário reservado na quinta-feira (6) para propaganda em rede nacional de rádio e televisão, a direção partidária planejava reduzir os danos já infligidos à conspurcada legenda. Se a missão era difícil, agora se tornou impossível.

Dirceu, como se sabe, nunca foi um Zé Ninguém na agremiação. Mesmo tendo sido preso em decorrência do mensalão e cumprindo o restante da pena em regime domiciliar, jamais perdeu ascendência sobre correligionários. No ano passado, 3.972 pessoas lhe doaram quase R$ 1 milhão para que pagasse multa imposta pela Justiça.

Embora tenha divulgado nota negando participação em "qualquer esquema de corrupção", pareceria ridículo se o PT, a esta altura, pretendesse se dissociar de Dirceu –um ícone do petismo.

De um lado, há o ultraje. Para os investigadores, o ex-ministro da Casa Civil no primeiro governo Lula foi um dos responsáveis por criar o sistema de desvios na Petrobras.

De outro, há a desfaçatez. Segundo o juiz federal Sergio Moro, existem boas razões para crer que o petista recebeu propina antes, durante e até depois do julgamento do mensalão, quando já se encontrava atrás das grades.

Sua nova prisão, determinada por Sergio Moro em caráter preventivo, tem a finalidade de "interromper o ciclo delitivo", dentro de um contexto de "criminalidade desenvolvida de forma habitual, profissional e sofisticada".

Mais uma vez, portanto, desloca-se o foco do escândalo para o PT, resultando em alívio momentâneo para o PMDB. O principal sócio do governo Dilma Rousseff (PT) via-se pressionado, nas últimas semanas, pelas suspeitas que incidem sobre alguns de seus líderes.

Pesava especialmente a expectativa de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, viesse a denunciar em breve o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Um lobista disse que, em 2011, pagou US$ 5 milhões ao hoje presidente da Câmara no intuito de garantir um contrato com a Petrobras.

Nada impede, naturalmente, que a acusação seja formalizada pela PGR nos próximos dias. Com José Dirceu preso, Eduardo Cunha não poderá insistir na esdrúxula tese de que as investigações têm sido conduzidas com propósitos políticos.

Melhor assim. Quando se trata de combater a corrupção no país, a Justiça precisa ser implacável com todos os partidos. Sem exceção.

José Casado - Da mesma árvore

- O Globo

Palácio do Planalto, janeiro de 2003. Lula degusta a primeira semana no poder em conversa com os ministros José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e Miro Teixeira (Comunicações).

Preocupa-se com o novo Congresso, que toma posse no mês seguinte. Chegou à Presidência com 52 milhões de votos, mas o PT não conseguiu ir além dos 18% das cadeiras na Câmara, com 91 deputados federais.

Discute "como é que se organiza", nas suas palavras, a maioria no Legislativo. Dirceu sai na frente com um enunciado sobre o "Congresso burguês", evocação dos "300 picaretas" que Lula usara anos antes ao se referir à maioria dos parlamentares federais.

O líder escuta, sorridente, a ideia de usar cargos com fatias do orçamento do governo e das empresas estatais para compor a "maior base parlamentar do Ocidente".

A proposta esconde e mistifica, tanto quanto revela. Palocci e Miro percebem o aval de Lula a Dirceu. Em oposição, sugerem alianças a partir de projetos específicos - a começar pelo "ajuste fiscal" -, até para atrair parte da oposição, o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, sociólogo que exibia o orgulho de ter passado a faixa presidencial ao operário transformado em símbolo da democracia industrial brasileira. Palocci e Miro insistem. Acabam atropelados.

A partir de então, houve romaria ao quarto andar do Planalto, onde o secretário-geral do PT Silvio Pereira e o tesoureiro do partido Delúbio Soares loteavam cargos entre aliados. Dirceu homologava, auxiliado por Fernando Antônio Guimarães Hourneaux de Moura, mais conhecido como "FM". No Congresso, provocavam-se frequentadores do Planalto: "O deputado anda ouvindo muita rádio "FM"".

A mecânica das negociações havia sido testada na campanha. Numa noite de junho de 2002, Lula, o vice José Alencar, Dirceu e Delúbio foram ao apartamento do deputado Paulo Rocha (PT-PA), em Brasília. Lá estava Valdemar Costa Neto, líder do PR, que contou à revista "Época" em agosto de 2005: "O Lula e o Alencar ficaram na sala; fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Comecei pedindo uns R$ 20 milhões..."

Valdemar levou metade e, mais tarde, ganhou como outros a "porteira fechada" de departamentos (Dnit), delegacias (Trabalho e Receita Federal) e diretorias (Infraero, Itaipu e Correios).

O "filé" era a Petrobras, na definição de Roberto Jefferson, líder do PTB. Foi partilhado por dois Josés: Dirceu, do PT, e Janene, do PP. Logo, somaram-se líderes do PMDB.

Havia engenho na separação entre o mensalão e a reserva de até 3% nos contratos entre a Petrobras e cartéis privados - supervisionada pelo diretor Renato Duque, recrutado por Dirceu e "FM". O mensalão viabilizava "a maior bancada parlamentar do Ocidente". A Petrobras financiava a máquina eleitoral necessária aos "20 anos no poder", incluindo uma espécie de folha complementar de salários para ocupantes de cargos-chave no governo.

Mensalão e corrupção na Petrobras nasceram da mesma árvore. Depois de dez invernos, evidencia-se seu cultivo com o uso sistêmico da política para crimes. Novos detalhes devem aflorar depois de amanhã, quando se define a lista de sucessão na Procuradoria-Geral da República. Como sempre, tudo foi encoberto em nome da luta "contra a exploração dos trabalhadores" - os mesmos que, hoje, estão pagando a conta.

Celso Ming - O ajuste sobre os ricos

- O Estado de S. Paulo

A economia brasileira vai afundando no rombo das contas públicas, na disparada da inflação e na quebra dos investimentos que bloqueiam o crescimento, a renda e o emprego.

A política em vigor, o ajuste colocado em prática pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é insuficiente para obter o reequilíbrio das contas públicas e para relançar as bases para o crescimento. Não há outro caminho: é o ajuste mais as reformas.

Não se pode dizer que não foi tentada outra rota. Desde 2010, o governo do PT colocou em marcha a Nova Matriz Macroeconômica. Foi o que levou a economia ao atoleiro porque se baseou no consumo cevado a subsídios, no crédito fácil e nos juros artificialmente baixos.

Ainda há gente, principalmente entre as chamadas esquerdas brasileiras, que repudia a atual política econômica da presidente Dilma que, embora tardiamente, passou a distribuir a conta da má gestão anterior para a população.

Um desses exemplos de ataque à atual política econômica é do ex-governador do Rio Grande do Sul o petista Tarso Genro. Mas ele não sabe o que propor em troca, como se vê há meses por suas intervenções e que foi corroborado pela entrevista publicada domingo no Estadão.

O ex-governador, que quebrou o Rio Grande a ponto de obrigar seu sucessor a deixar de pagar o funcionalismo público, quer um ajuste que onere só os ricos. A proposta dele é passar a cobrar uma taxa sobre patrimônio; aumentar substancialmente o imposto sobre herança; taxar os ganhos financeiros e impor as reformas. Ele não diz o que pretende das reformas, mas o resultado do que imagina não deve ser diferente das propostas que vem fazendo.

É pobre o ajuste que dependa só dos ricos. Se for concentrado em mais impostos sobre patrimônio, que nenhum país sabe como cobrar; se depender da arrecadação do imposto sobre herança, que precisa esperar que o proprietário morra; e se avançar sobre a renda financeira - que, portanto, alcance fundos de investimento, fundos de pensão e a poupança da classe média -, o ajuste será miserável e, como tal, ineficaz.

Nem os Estados Unidos, nem a área do euro, nem o Japão propuseram receitas parecidas com essas e, no entanto, vêm conduzindo a recuperação que pode ser lenta, mas é segura e sustentável.

Agora que a opção socialista ficou inviável, ex-marxistas, quando assumem funções de governo, têm dificuldades para eleger políticas que garantam fundamentos sólidos para o crescimento e para o emprego. Agarram-se a opções que supõem ser keynesianas, que se baseiam na expansão do consumo obtida por aumentos de despesa pública, sem antes examinar a real situação do Tesouro e sem garantir a expansão da oferta de mercadorias, de serviços e de empregos.

Não existe a opção em que insistiu o partido Syriza à frente da Grécia neste primeiro semestre. A rejeição de um programa construído sobre princípios de responsabilidade fiscal implicou a aceitação de pacote ainda mais duro do que o que foi recusado.

Não dá nem para perdoá-los por não saberem o que fazem, porque já sabem o que fizeram e já viram que deu errado.

Míriam Leitão - Reorganizar o governo

-O Globo

O governo está falando em reforma administrativa e redução de ministérios.

Tomara que seja a sério e não para conseguir algum noticiário positivo neste turbilhão de más notícias em que vive imerso. Se quiser fazer uma reforma, terá motivo e forma de fazer. Dá para cortar, no mínimo, 18 ministérios. Isso diminuiria custos com a sua estrutura e ainda daria alguma esperança.

Nem tão poucos ministérios, como no governo Afonso Pena, quando o Brasil era menor e bem menos complexo, nem tantos que tornem o governo mastodôntico e disfuncional. Imagine uma reforma racional, sem levar em considerações outras questões.

Os ministérios da Aviação Civil e dos Portos ficaria, claro, dentro de Transportes, onde sempre ficou. O de Relações Institucionais iria para a Casa Civil, que sempre teve a função de fazer a articulação política. É claro que não precisa de um Ministério da Integração Nacional e outro de Cidades. Pode-se ter um só que tenha uma secretaria de assuntos urbanos. Desenvolvimento Agrário pode ficar dentro da Agricultura, como sempre ficou, onde também ficaria a Pesca e Aquicultura. O dedicado às micro e pequenas empresas foi invenção recentíssima apenas para dar um cargo ao partido de Gilberto Kassab. Pode ficar dentro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. O do Turismo pode ser extinto e suas funções serem exercidas pela empresa estatal que cuida de turismo, a Embratur, como era anteriormente.

Faz sentido ter um Ministério do Planejamento e um Ministério de Assuntos Estratégicos? Alguém faz planejamento sem pensar em questões estratégicas? No primeiro mandato, esse ministério só serviu para produzir estudos para alavancar a propaganda do governo. No atual, está criando uma duplicidade com o Ministério da Educação.

Já conversei com pessoas que me disseram constrangidas por serem chamadas para conversar com o ministro de assuntos estratégicos sobre temas que deveram ser assunto na Educação.

Em que os esportes do Brasil melhoraram desde que o assunto saiu da pasta da Educação? É outro que pode ter suas funções mais bem alocadas.

O tema Direitos Humanos é caro para todos, mas por que tem que se dividir em três ministérios? Direitos Humanos, das Mulheres e da Igualdade Racial. O governo costuma dizer que não se poderia extinguir os ministérios porque esses temas são importantes. Claro que são. Vários outros. Mas criar um ministério não é a única forma de dizer que os temas são importantes. Se isso fosse verdade, não haveria um acampamento dos Sem Terra bem na parte mais visível de Brasília. Afinal, o PT assumiu defendendo a reforma agrária há 12 anos, e criou-se um ministério para isso.

Não precisam ter status de ministério a Secretaria-Geral da Presidência, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o Banco Central, a Advocacia-Geral da União, a Controladoria-Geral da União.

Já ouvi no governo, quando falei da necessidade urgente de redução do número de ministérios, que não se economizaria muito. Mas seria um bom choque de gestão, para começo de conversa. Ajudaria também a cortar cargos de nível alto de assessoramento, uso de aviões da FAB, carros oficiais e muita empáfia. Outro dia vi um ministro, desses de função inespecífica, andando por um aeroporto cercado de assessores como se fosse um vice-rei. Mesmo se a economia fosse pequena, o governo ficaria mais funcional e uma reunião ministerial poderia ser uma reunião de trabalho e não um comício.

A presidente da República pode fazer muita dessa reorganização por decreto. Mas não fará nada na dimensão necessária porque cristalizou-se a ideia de que uma coalizão só funciona se todos os partidos, e suas facções, estiverem contempladas em cargos de ministros. Que é uma prática necessária para garantir a governabilidade. Isso é balela. Essa ocupação da máquina pelos partidos e seus indicados só tem feito mal aos contribuintes, aos funcionários realmente dedicados ao serviço público e ao próprio governo. Tem sido também o caminho para o desvio, as negociatas, as propinas. Os partidos, ao assumirem os ministérios, não têm plano algum para aquela pasta. Não querem influenciar nas políticas públicas, querem criar um gueto só seu. Uma capitania. Esse é o começo da distorção.

José Paulo Kupfer - Reformas incompletas

- O Estado de S. Paulo

Está cada vez mais nítido que os problemas do reequilíbrio das contas públicas são mais complexos do que um programa de ajustes de curto prazo poderia solucionar. Em importante artigo, publicado em meados de julho, os economistas Marcos Lisboa, Samuel Pessôa e Mansueto Almeida mostraram, com riqueza de detalhes e dados, a natureza estrutural dos desarranjos fiscais, a partir da constatação de que “desde 1991, a despesa pública tem crescido a uma taxa maior do que a renda nacional”.

No ensaio Ajuste inevitável, os economistas produzem uma radiografia da forte expansão dos gastos públicos nas últimas duas décadas e meia. Acompanham também a evolução da carga tributária nesse período, que passou de 25% para 35% do PIB, concluindo que a receita de impostos cresceu pouco menos do dobro do crescimento da renda.

Minucioso e devidamente propositivo no lado dos cortes que contribuiriam para conter e acomodar despesas, o texto, contudo, deixa lacunas na parte que se refere às também necessárias reformas no lado da arrecadação. Os economistas ficaram devendo sugestões para o redesenho de receitas que, como se sabe e não é de hoje, são socialmente regressivas e economicamente anticompetitividade. Quando se fala em corrigir defeitos estruturais no campo das contas públicas, uma reforma que altere a natureza das fontes de arrecadação e o perfil dos contribuintes não deveria ficar de fora.

Depois de quatro ajustes fiscais em 16 anos - um, em média, a cada quatro anos -, é preciso incluir reformas no perfil da atual carga tributária, buscando uma solução integrada, capaz de fugir das soluções provisórias e incompletas até aqui tentadas. Quando, concomitantemente, começam a ser divulgadas informações mais amplas e transparentes sobre a formação das receitas tributárias, essa tarefa ganha maior relevância.

Em resposta a críticas do economista-celebridade Thomas Piketty, que lamentou, quando veio lançar no Brasil seu famoso O capital no século XXI, em fins do ano passado, a pouca informação sobre o Imposto de Renda, a Receita Federal acaba de tornar pública uma série de dados mais detalhados, abrangendo o período de 2008 a 2013. Um primeiro estudo com base nessas novas informações, publicado sexta-feira no jornal Valor, confirmou, com números acachapantes, conhecidas distorções do sistema tributário nacional.

No artigo Jabuticabas tributárias e desigualdade no Brasil, os economistas Sérgio Gobetti e Rodrigo Orair, pesquisadores do Ipea, mostram quanto a arrecadação tributária ainda tem potencial de crescimento, sem afetar a competitividade econômica e melhorando sua ação distributiva. Segundo o estudo, em 2013, o topo da pirâmide, formada por exatos 71.440 contribuintes, com rendimento acima de 160 salários mínimos por mês (R$ 1,3 milhão anuais), 0,3% dos declarantes do IR ou 0,05% da população ativa, concentravam 14% da renda total e 22% de toda a riqueza em bens e ativos financeiros. Numa chocante inversão, enquanto 66% da renda desses super-ricos é isenta de IR, na faixa até 5 SMs, a parte isenta não chega a 10%. Para os autores, a distorção se deve à isenção da taxação de dividendos, que passou a vigorar em 1996 e reduz o potencial de arrecadação em cerca de R$ 50 bilhões por ano - valor não tão distante dos R$ 70 bilhões de corte em despesas públicas contidos na meta original de superávit primário de 1,1% do PIB.

É lugar comum comparar a carga tributária brasileira, de 40% do PIB, com a de outras economias de renda semelhante, em torno de 30%, lembrando que nosso nível de tributação rivaliza com o de países ricos. Muito menos comum, infelizmente, é a comparação com a estrutura tributária dos outros países. Enquanto nos países da OCDE, onde a tributação média do lucro total (pessoas físicas e jurídicas) é hoje de 51%, rendas e lucros respondem por um terço da carga tributária, no Brasil mal chega a um quinto.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Ásia, miragens e milagres

- Valor Econômico

• O êxito do Japão e dos tigres asiáticos não pode ser explicado apenas pelas 'virtudes' dos seus modelos

Publicado na "Folha de São Paulo", na edição de domingo (2 de agosto de 2015), o artigo de Samuel Pessoa sobre a experiência asiática suscitou minhas dúvidas e discordâncias.

Volto a 1993, ano da publicação pelo Banco Mundial do estudo "The East Asia Miracle". Ao investigar o desempenho das economias asiáticas os economistas do banco escreveram:

"Nós sustentamos (neste estudo) que as Economias de Alto Crescimento da Ásia criaram condições e desafios que combinam a concorrência com os benefícios da cooperação entre as empresas e entre o governo e o setor privado. Tais condições vão desde simples normas de alocação de recursos não baseadas no mercado, como é o caso do acesso facilitado ao crédito para os exportadores, até a complexa coordenação do investimento privado, no Japão e na Coreia, executada pelos conselhos formados por empresários e representantes do governo. A característica central de tais 'concursos' é que o governo distribui prêmios - acesso ao crédito ou a divisas - sob critérios de avaliação de desempenho".

O êxito do Japão e dos tigres asiáticos, como Coreia e Taiwan, não pode ser explicado apenas pelas "virtudes econômicas" dos seus modelos. A geopolítica intrometeu-se. A revolução chinesa de 1949 e a guerra da Coreia, travada entre 1950 e 1953, foram cruciais: ocupado pelas forças do general Douglas MacArthur e ameaçado de "pasteurização", o Japão foi estrategicamente desobrigado de desmontar práticas e instituições que marcaram o desenvolvimento de sua economia, desde a revolução Meiji, na segunda metade do século XIX.

Os Estados Unidos aceitaram os modos asiáticos de impulsionar o crescimento. Modos que contemplavam políticas industriais "protecionistas" e de fortes incentivos às exportações. A tolerância americana foi ampla e irrestrita. Incluía não só a abertura do seu mercado para a invasão dos produtos japoneses - mais tarde coreanos e taiwaneses - como também admitia o regime autoritário de Park Chung Hee na Coreia.

A investigação sobre o desenvolvimento dos países asiáticos deu origem a uma volumosa bibliografia cuja estante não pode, nem deve, ser adornada pela etiqueta da oposição Estado x Mercado. Essa etiqueta binária oculta a complexidade das realidades asiáticas. Não pretendo pontificar a respeito de tais realidades, como o fazem os físicos e engenheiros da sociedade. Mas arrisco algumas sugestões. Julgo dignas de consideração:

1- a natureza e relevância da intervenção do Estado, particularmente das políticas industriais e de direcionamento do crédito;

2- a importância dos acordos implícitos e das relações de "cooperação" e "reciprocidade" entre os agentes relevantes;

3- a subordinação das políticas macroeconômicas ao arranjo autoritário-burocrático comprometido com a incorporação de novos setores "competitivos" à estrutura produtiva;

4- ajustamento da matriz educacional às exigências do crescimento acelerado e do avanço tecnológico;

5- a forma da inserção internacional.

Nesta "organização capitalista" prevaleciam os nexos "cooperativos" e de reciprocidade nas relações Estado-empresas, nas negociações entre os grandes conglomerados e seus fornecedores, na íntima articulação entre os bancos (em sua maioria estatais em Taiwan e na Coreia) e a grande empresa, no provimento de mão de obra capacitada e, finalmente, na "administração estratégica" do comércio exterior e do investimento estrangeiro.

O economista Ajit Singh, em seus trabalhos sobre o desenvolvimento da Ásia, não hesitou em escolher, como fator crucial do sucesso do "catching up", a capacidade revelada pelas economias asiáticas de transformar continuamente investimentos em lucros (poupança das empresas) e os lucros em investimento, o investimento em ganhos de produtividade durante um longo período, sem que se insinuassem indícios mais sérios de fragilidade financeira. A isto o economista japonês Michio Morishima chamou da "combinação ótima" entre o máximo de competitividade e o máximo de cooperação e planejamento.

A China replicou à sua moda as experiências do Japão, da Coreia, de Taiwan e de Cingapura e iniciou sua escalada nos mercados mundiais tornando-se a maior exportadora de manufaturas do planeta, desde o "low end" dos têxteis, vestuário e brinquedos até o "high end" da eletrônica de consumo, microprocessadores, bens de capital, robótica e outros componentes de informática e microeletrônica.

É impróprio, para não dizer empobrecedor, apontar o dedo para causas singulares do desempenho das economias asiáticas: a "educação", "a taxa de poupança" ou a "estabilidade macroeconômica". No caso da Coreia, por exemplo, a taxa média de inflação na década de 60 foi de 17,4% ao ano, subindo para 19,8% nos anos 70. (Essa é uma constatação histórica e não uma defesa de regimes inflacionários). É vasta a literatura a respeito das políticas de estabilização dos países asiáticos, sempre administradas com múltiplos instrumentos e com o cuidado de não ferir a taxa de investimento e a competitividade das exportações.

A propósito da "estabilidade macroeconômica": até a eclosão da crise no segundo semestre de 1997, a resistência das economias asiáticas aos choques externos deve ser atribuída, em grande parte, à "repressão" financeira e aos controles estritos exercidos sobre os mercados cambiais. As operações cambiais estavam praticamente restritas à compra e venda de divisas para saldar obrigações nascidas da balança de transações correntes. Os governos exerciam controles rigorosos sobre a conta de capitais.

O estudo do Banco Mundial foi escrito na "fase de aquecimento" do ciclo de expansão comandado por uma imprudente "liberalização financeira" que culminou na crise cambial e monetária do final de 1997. Tailândia, Coreia, Malásia juntaram a imprudência financeira ao vigor da acumulação de capital e de incorporação do progresso técnico para aumentar a sua participação nos mercados mais dinâmicos e "competitivos" da economia mundial. Neste período, a estagnação japonesa já exibia as consequências da "descompressão" financeira que levou ao colapso dos preços dos imóveis e da bolsa de Tóquio no início dos 90. Não demorou o estouro da outra bolha asiática insuflada por crédito externo.
-------------
Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e escreve mensalmente às terças-feiras. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists.

Adriana Calcanhotto - Inverno

Fernando Pessoa - Não digas nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender –
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz
Não digas nada.