segunda-feira, 20 de abril de 2020

'Não queremos negociar', diz Bolsonaro em ato pró-golpe

Não queremos negociar nada, diz Bolsonaro em ato pró-intervenção militar diante do QG do Exército

Presidente discursou para apoiadores aglomerados e com bandeiras contra o Congresso e gritos de ataques ao Supremo

Ricardo Della Coletta / Renato Onofre – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Em cima da caçamba de uma caminhonete, diante do quartel-general do Exército e se dirigindo a uma aglomeração de apoiadores pró-intervenção militar no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou neste domingo (19) que "acabou a época da patifaria" e gritou palavras de ordem como "agora é o povo no poder" e "não queremos negociar nada".

"Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil", declarou o presidente, que participou pelo segundo dia seguido de manifestação em Brasília, provocando aglomerações em meio à pandemia do coronavírus. "Chega da velha política. Agora é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos."

"Todos têm que ser patriotas, acreditar e fazer sua parte para colocar o Brasil no lugar de destaque que ele merece. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder. Mais que direito, vocês têm a obrigação de lutar pelo país de vocês", afirmou Bolsonaro, que tossiu e levou a mão à boca ao final do discurso.

"O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente. Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro", disse. "Contem com o seu presidente para fazer tudo aquilo que for necessário para manter a democracia e garantir o que há de mais sagrado, a nossa liberdade", completou o presidente.

A aglomeração diante do quartel-general do Exército foi o ato final de uma carreata em Brasília, feita pelos apoiadores do presidente e com pedidos de intervenção militar, gritos contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, e pressão pelo fim do isolamento social recomendado pela OMS contra a pandemia.

A fala de Bolsonaro e sua participação nesse ato em Brasília, no Dia do Exército, provocaram fortes reações no mundo jurídico e político.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ser uma “crueldade imperdoável com as famílias das vítimas” pregar uma ruptura democrática em meio às mortes da pandemia da covid-19.

“O mundo inteiro está unido contra o coronavírus. No Brasil, temos de lutar contra o corona e o vírus do autoritarismo. É mais trabalhoso, mas venceremos”, escreveu Maia. “Em nome da Câmara dos Deputados, repudio todo e qualquer ato que defenda a ditadura, atentando contra a Constituição.”

“Não temos tempo a perder com retóricas golpistas. É urgente continuar ajudando os mais pobres, os que estão doentes esperando tratamento em UTIs e trabalhar para manter os empregos. Não há caminho fora da democracia”, afirmou.

O governador João Doria (PSDB) disse ser "lamentável" que o presidente "apoie um ato antidemocrático, que afronta a democracia e exalta o AI-5". O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também chamou de "lamentável" a participação de Bolsonaro. "É hora de união ao redor da Constituição contra toda ameaça à democracia."

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, disse à coluna Mônica Bergamo, da Folha que “só pode desejar intervenção militar quem perdeu a fé no futuro e sonha com um passado que nunca houve". Gilmar Mendes, também do STF, disse que "invocar o AI-5 e a volta da ditadura é rasgar o compromisso com a Constituição e com a ordem democrática".

O presidente Nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, disse que "a sorte da democracia brasileira está lançada" e que esta é a "hora dos democratas se unirem, superando dificuldades e divergências, em nome do bem maior chamado liberdade".

A escalada do tom de Bolsonaro ocorre em um momento de isolamento político do presidente. Reportagem da Folha deste sábado (18) mostrou que os adversários de Bolsonaro, e hoje ele os tem em todas as esferas de poder, desistiram de uma acomodação com o presidente.
A avaliação prevalente, ouvida pela reportagem nas cúpulas do Legislativo, do Judiciário e em estados, é a de um paradoxo: a fraqueza política de Bolsonaro só tende a acirrar sua agressividade no embate, o que ocorreu neste final de semana em Brasília.

No sábado, na rampa do Planalto diante da Praça dos Três Poderes, Bolsonaro afirmou que a política de enfrentamento ao novo coronavírus "mudou um pouco" desde a sexta (17) —quando houve a troca de Luiz Henrique Mandetta por Nelson Teich no Ministério da Saúde— e voltou a se queixar de prefeitos e governadores por adotarem medidas de isolamento social.

Bolsonaro também responsabilizou o STF (Supremo Tribunal Federal) por determinar que os demais entes federados têm poder para ordenar o fechamento de comércios. Neste momento do vídeo em que falou aos seguidores, Bolsonaro apontou o dedo para a sede do Supremo, do outro lado da praça.

Só na semana passada, o presidente criticou o STF, sugeriu Maia conspirava para derrubá-lo e ainda agudizou a crise do coronavírus ao demitir seu ministro da Saúde.

O presidente tem negado a gravidade da pandemia e tem promovido passeios e aglomerações em Brasília, ao contrário do que recomenda a OMS. Bolsonaro demitiu Mandetta por discordar de seu posicionamento técnico sobre a pandemia.

Além da gestão Bolsonaro, outros governos que ignoram a seriedade da doença são Turcomenistão, Nicarágua e Belarus.

Como mostrou a Folha neste domingo, Bolsonaro tem intensificado estratégia de blindagem política para tentar evitar que os efeitos da pandemia sejam usados contra ele na disputa eleitoral de 2022.

O plano consiste, neste primeiro momento, na defesa pública de que o coronavírus se trata de uma adversidade pequena, que não justifica medidas restritivas que podem aumentar o desemprego no país.

A ideia é que, ao se antecipar agora sobre os impactos econômicos que são praticamente inevitáveis, o presidente explore, na corrida eleitoral, a retórica de que a sua postura era desde o início a mais acertada, mesmo que contrariando as recomendações das autoridades de saúde.

CARREATAS PELO PAÍS
Neste domingo, além de Brasília, ocorreram manifestações em diferentes pontos do país, como Salvador, São Paulo e Manaus. Além de ataques ao Supremo e ao Congresso e de pedidos pela volta do regime militar, os manifestantes criticaram o isolamento social, pedindo a volta ao trabalho e a abertura do comércio.

Em Brasília, no ato que teve a participação de Bolsonaro, a volta à normalidade e a reabertura do comércio também estiveram na pauta dos manifestantes.

Além de defender o governo e clamar por intervenção militar e um novo AI-5 —o mais radical ato institucional da ditadura militar (1964-1985), que abriu caminho para o recrudescimento da repressão— os manifestantes aglomerados em frente ao quartel-general do Exércio defenderam o fechamento do STF e miraram em Maia.

As carreatas pelo país com apoio de Bolsonaro neste domingo ocorreram no momento em que o número de mortes pelo coronavírus chegou a 2.462 no Brasil. Em 24 horas, foram registrados 115 óbitos pela doença. Os dados foram divulgados neste domingo pelo Ministério da Saúde. Ao todo, são 38.654 casos confirmados.

O ministério, porém, afirma que a tendência é que o número real de casos seja maior, já que apenas pacientes internados em hospitais fazem testes e há casos que ainda esperam confirmação. Reportagem da Folha mostrou que equipes de atenção básica em várias cidades e estados afirmam que tem havido subnotificação.

Já o apoio à quarentena como forma de evitar a disseminação do novo coronavírus sofreu uma queda nas duas últimas semanas, mas ainda é majoritária entre os brasileiros.

Segundo o Datafolha, são 68% aqueles que dizem acreditar que ficar em casa para conter o vírus é mais importante, ainda que isso prejudique a economia e gere desemprego.

No levantamento anterior do instituto, feito de 1º a 3 de abril, eram 76%. A pesquisa atual ouviu 1.606 pessoas na sexta e tem margem de erro de três pontos percentuais.

Essa queda não se reverteu integralmente em apoio à afirmação contrária, de que vale a pena acabar com isolamento social em nome da reativação econômica. O índice dos que concordam com isso oscilou positivamente de 18% para 22%, enquanto aqueles que não sabem foram de 6% para 10% no período.

Esse debate, visto por especialistas tanto em economia como em saúde como desfocado e politizado, tem pautado as polêmicas envolvendo Bolsonaro.

Depois de minimizar a gravidade da Covid-19, a comparando a uma “gripezinha”, o presidente passou a insistir no foco do impacto econômico das quarentenas. No cálculo, está o temor de que a recessão que provavelmente seguirá a emergência sanitária do Sars-CoV-2 solape seu apoio em cerca de um terço do eleitorado.

Em oposição, governadores como João Doria (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSC-RJ), assumiram a linha de seguir as recomendações internacionais de saúde, priorizando o isolamento.

O resultado é uma queda de braço que marca a organização do combate à pandemia no Brasil e já deixou vítimas políticas no caminho.
Mandetta perdeu o cargo de ministro da Saúde na quinta (16), entre outros motivos, por não concordar com as diretrizes de Bolsonaro sobre o isolamento social.

O Supremo Tribunal Federal interveio e decidiu na quarta (15) que os estados e municípios têm liberdade para impor as restrições que decidirem durante a crise.

Isso contrariou o presidente Bolsonaro, que se queixou de estar de mãos atadas na questão. Ele queria editar decreto obrigando a reabertura do comércio. Manteve esse tom na sexta, quando sugeriu que as pessoas desobedecessem as ordens locais.

AS PROJEÇÕES DO PRESIDENTE

FANTASIA
Tese: Após a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, Bolsonaro disse que o coronavírus era “muito mais fantasia” e se tratava de uma “gripezinha”

Realidade: Até o momento, mais de 2 milhões de pessoas foram contaminadas pelo coronavírus e mais de 150 mil morreram por causa da doença no mundo

GRIPES
Tese: O presidente defendeu que outras gripes virais mataram mais do que o total de pessoas que o coronavírus levaria a óbito e que, portanto, não fazia sentido reagir com histeria à pandemia mundial

Realidade: De 2010 a 2019, 1.645 pessoas morreram infectadas no Brasil pelo vírus que causa a gripe nos meses de janeiro a abril. Até agora, o novo coronavírus já provocou mais de 2.000 mortes

CHINA
Tese: Bolsonaro afirmou que os efeitos da pandemia estão superdimensionados e disse que na China, primeiro epicentro da doença, o coronavírus estava “praticamente acabando”

Realidade: O número de diagnósticos da doença tem caído na China, mas na sexta-feira (17) foram registrados 357 novos casos

QUARENTENA VERTICAL
Tese: Na tentativa de evitar que recaia sobre seu governo a culpa por um aumento do desemprego, o presidente defendeu a adoção de uma quarentena vertical (apenas para os grupos de risco da doença) e criticou o isolamento horizontal. “A dose do remédio não pode ser excessiva”, disse

Realidade: A maior parte das unidades da federação, no entanto, seguiu a orientação do Ministério da Saúde e manteve o isolamento horizontal

HIDROXICLORIQUINA
Tese: Na tentativa de reverter um desgaste em sua imagem, Bolsonaro passou a defender a prescrição da hidroxicloroquina, usada para tratar o lúpus e a artrite reumatoide, em pacientes em estágios iniciais do coronavírus. A rede bolsonarista chegou até mesmo a apelidar a substância de “remédio do Bolsonaro”

Realidade: As pesquisas científicas apontam que a substância tem demonstrado resultados satisfatórios, mas seu efeito ainda não é conclusivo. Um estudo chinês apontou que a hidroxicloroquina não tem apresentado resultados melhores que os cuidados que costumam ser prescritos para o tratamento da doença
PICO
Tese: Bolsonaro disse no último dia 12 que parecia que o vírus “estava começando a ir embora”

Realidade: Só na sexta-feira foram registradas 217 mortes pelo coronavírus. A previsão do Ministério da Saúde é que o quadro mais agudo ocorra entre maio e junho

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