O Globo
As instituições precisam se aperfeiçoar para assim tornar mais robusta a democracia. O Código anunciado pelo ministro Edson Fachin é um bom passo
O ministro Edson
Fachin disse que o Brasil tem um encontro marcado com a melhoria
institucional. Ele falou primeiro do próprio Supremo e da necessidade de
autocorreção. É prioridade da sua gestão, o Código de Ética. A relatora será a
ministra Cármen
Lúcia. Mas o presidente do STF propôs
algo mais amplo e listou as frentes de aperfeiçoamento. Quando o ano realmente
começa e Congresso e o Judiciário retomam seus trabalhos, é hora de pensar que
“ainda temos muito a fazer”, disse Fachin.
“Temos um sistema representativo que precisa recuperar sua capacidade de processar as demandas da sociedade. Temos instituições de controle que precisam funcionar melhor. Temos uma cultura política que ainda não consolidou plenamente os valores republicanos. E temos, sobretudo, uma dívida histórica com os excluídos”, disse o ministro em seu discurso.
O STF esteve nos últimos dias sob críticas
diretas pelas decisões controversas do ministro Dias Toffoli no caso do Banco Master.
Diariamente fica-se sabendo de atos do ministro que causam estranheza. Os
repórteres Aguirre Talento e Álvaro Gribel, do Estado de S.Paulo, informaram
ontem que o ministro registrou por escrito, ao orientar as perguntas nos
depoimentos tomados pela Polícia Federal, a intenção de buscar “omissões” e
“contradições” na fala do diretor do Banco Central, Ailton de Aquino.
Esse caso é tão tortuoso que tornou urgente o
que já era muito necessário. Um código que defina mais claramente os conflitos
de interesse que impedirão ministros de julgar determinadas ações. Ou que
impedirão que parentes dos ministros defendam causas na Corte. “Momentos de
adversidade exigem mais do que discursos: pedem responsabilidade institucional,
clareza de limites e fidelidade absoluta à Constituição”, disse o ministro
Fachin.
Hoje, às 15h30, o sistema do Superior
Tribunal Militar vai receber a representação do Ministério Público Militar da
ação de indignidade para o oficialato do ex-presidente Jair
Bolsonaro, dos generais Augusto
Heleno, Walter
Braga Netto e Paulo
Sérgio Nogueira, e do almirante Almir
Garnier Santos. Como foram condenados a mais de dois anos, têm que
responder a essa ação que pode levar, se forem condenados, à perda de patente
e, na prática, expulsão da Força na qual serviram. O STM não julgará de novo se
houve ou não tentativa de golpe de Estado. Apenas analisará a ação militar.
Cada uma das cinco representações vai, por sorteio, para um dos ministros.
Tudo é tão intenso no Brasil que esta ação
inédita decorre da condenação no STF dos generais, do almirante e do
ex-presidente. Ao julgá-los e, antes disso, ao enfrentar as pressões de Jair
Bolsonaro e seus generais, a Corte protegeu a democracia. “Nos momentos
críticos, como na defesa do processo eleitoral e nas urnas, o Tribunal atuou
para impedir erosões institucionais”, disse Fachin. É verdade. Mas ele mesmo
disse que “sem embargo desses reconhecimentos, o momento histórico é também de
ponderação e de autocorreção”.
Esses que o Supremo julgou, e que agora podem
ser considerados indignos para o oficialato, representaram uma ameaça concreta
à democracia. As dúvidas e cobranças que cercam agora o STF não são ameaça
democrática. Representam o desejo legítimo de que a Corte tenha mais
transparência nos seus atos.
O caso Master vai ter novos desdobramentos. O
de ontem foi o pedido de recuperação judicial do Fictor, instituição que
supostamente compraria o Master. O pedido de recuperação judicial desconstrói a
narrativa de que o Master estaria próximo de uma solução de mercado quando foi
liquidado pelo Banco Central. Na verdade, o Fictor, incapaz de honrar as
dívidas de R$ 4 bilhões, não tinha a menor capacidade de sustentar a aquisição.
Este será um ano curto e pesado, porque o
Congresso terá na verdade só o primeiro semestre para trabalhar e a oposição
deve focar na derrubada do veto ao projeto de redução das penas dos condenados
por crime de golpe de Estado e na ameaça de uma CPI do Banco Master. Pouco
tempo de trabalho, e a maioria dedicada a tentar construir discursos de
palanques.
Como diz o presidente do Supremo, o Brasil tem um encontro marcado com o aperfeiçoamento das instituições para que elas funcionem melhor. Os Poderes da República têm muito a fazer para tornar mais robusta a democracia brasileira.

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