Já a recente tortura e morte do cachorro
Orelha, em janeiro deste ano em Florianópolis, tem causado uma comoção em todo
o país. Como entender essa mudança, em apenas algumas décadas, no humor da
população? Aqueles que acham que está havendo demasiada atenção para a morte de
um cão, em um país com múltiplos problemas como o Brasil, certamente estão
perdendo o famoso bonde da história. Toda esta revolta em torno da morte do Orelha,
na realidade, revela uma transformação, ainda que sutil e vagarosa, na
autocompreensão dos seres humanos sobre seu lugar e relação com o mundo.
Na origem do pensamento ocidental, o homem
colocou-se em um pedestal acima da natureza e de todos os demais seres viventes
por possuir aquela faculdade que lhe dava a mais importante das vantagens para
sua sobrevivência e dominação: a Razão. E não só sobre a natureza e os animais,
mas também sobre aqueles humanos – bárbaros, escravos, etc. que supostamente, por
não deterem a Razão, eram meros “instrumentos vivos” e portanto condenados aos
trabalhos corporais e à escravidão, como expressou-se Aristóteles em seu
tratado A Política.
A prepotência da Razão informou o cristianismo
por meio da patrística e da escolástica, municiando a fé cristã de explicações
lógicas e reforçando a ideia do homem “criado à imagem de Deus”. Finalmente, a
Razão desembocou no secularismo iluminista e no seu lema kantiano: “sapere
aude” (ouse saber). Tal trajetória teórica foi adotada pelas principais
correntes políticas da era moderna – o marxismo e o liberalismo – que levaram à
prática, cada uma a seu modo, o que já estava inscrito no destino do ser humano
racional: dominar a natureza, inclusive todos os demais seres viventes, colocando-os
a seu serviço. Além disso, extrair dela o que for útil para o homem, destruir o
que não pode ser aproveitável e, desse modo, desenvolver as “forças produtivas”
para criar as bases materiais e espirituais da civilização humana moderna.
Certo é que esse projeto delirante encontrou
inúmeros obstáculos e gerou visíveis contradições, já que a razão humana, ao
contrário do que pregavam as teorias originadas a partir dela, nunca impediu
inúmeras guerras de conquista, tentativas de aniquilamento de populações
inteiras (do qual a destruição da faixa de Gaza pelo governo de Israel é um
exemplo recente), e a conquista e colonização de territórios de outros povos considerados
“inferiores” e “irracionais”. Enquanto
enaltecia as artes e obras arquitetônicas geradas pela sua criatividade, o
homem ao mesmo tempo desenvolvia armas e instrumentos de guerra cada vez mais
mortíferos, que multiplicavam exponencialmente as ondas de destruição e morte.
Todo esse lado sombrio da era do Antropoceno
era justificado racionalmente – afinal de contas, o homem tinha de dominar a
natureza para sobreviver, sendo as guerras sempre legitimadas por necessidades
de defesa, eliminação de inimigos ameaçadores, etc. A Primeira Guerra Mundial
chegou até a ser defendida como uma suposta causa nobre: dar um fim definitivo
aos conflitos humanos. Seria, dessa forma, “a guerra para acabar com todas as
guerras”. E o impacto das mortes era sempre amenizado por um humanismo choramingão
e filisteu.
Claro está que os descaminhos da Razão não
passaram desapercebidos nas obras de arte, na poesia, em movimentos culturais
diversos, e nas disciplinas sociais. Os filósofos da Escola de Frankfurt, só
para citar um exemplo, dedicaram vários estudos críticos à racionalidade
humana. Jurgen Habermas apontou como a parte “instrumental” da Razão – que
busca o sucesso e a dominação, e opera pela técnica e a relação meio-fins –
veio a predominar sobre a “razão comunicativa”, voltada para o potencial humano
de entendimento.
Mas
talvez tenha sido Freud quem melhor sintetizou a fragilidade do palanque em que
se apoiava o amor-próprio do homem, ao apontar as três descobertas científicas,
ou “feridas narcísicas”, em sua expressão, que relativizaram o poder da razão
humana: a descoberta de Nicolau Copérnico, que demonstrou que a terra não era o
centro do universo mas um mero planeta girando em torno do sol; a teoria da
evolução de Charles Darwin, que provou que o homem não é uma criação divina,
mas um descendente dos primatas; e a sua própria descoberta do inconsciente,
que demonstrou que o pensamento humano é influenciado por desejos e impulsos
que o próprio homem não controla.
Como viu muito bem Hannah Arendt, são fatos,
e não teorias, que transformam o mundo. O caso do cão Orelha é um desses fatos.
Ele pode ser politizado à esquerda ou à direita, mas isso faz parte do jogo
político. Não vai deixar de refletir, e em
sua tragicidade encorajar, a tomada de consciência que o ser humano compartilha
um mundo em comum com outros seres, mundo este que ele tem de preservar até
para sua própria sobrevivência. E que a Razão não pode ser substituída pela
paixão das irracionalidades, como gostariam algumas seitas moderninhas ou
pós-qualquer-coisa, mas ajudar o homem a tornar-se o que um controverso
filósofo chamou certa vez de “pastor” do mundo existente.
*Paulo César Nascimento, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília

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