O Globo
Ela fez mais pelo cinema do que faria uma
atriz. Foi um ícone, quando a palavra ainda queria dizer alguma coisa
Bastava uma consulta à IA — ou, como faziam
os antigos millennials, ao Google: “Personalidades do cinema mundial que
morreram em 2025”. Em segundos, a lista estaria na tela. Completa. Incluindo
diretores malianos e malaios, designers de som e de produção.
Seria enorme, claro — morrem muito mais celebridades do que nascem; não sei como elas ainda não se extinguiram. E haveria que separar quem entraria como camarote, no vídeo exibido durante a cerimônia de entrega do Oscar, e quem teria de se conformar a ir de pipoca, só no site da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Brigitte Bardot, acredite, ficou no segundo escalão.
Não que estivesse em má companhia. Também
acabaram fora do telão Björn Andrésen (o Tadzio, de “Morte em Veneza”) e
Richard Chamberlain. Mas, a Brigite Bardot...
Ela não era uma maria ninguém. No sexto dia
após o bigue-bangue, a equipe de desenvolvimento de produtos trabalhou pesado
no projeto do pterossauro, do shar-pei, do tucano – e Deus... Deus criou a
mulher. E era a Brigitte Bardot. Ele a fez louramente desalinhada, sob medida
para o biquíni e para encarnar a liberdade feminina. E viu que era bom. (Num
Gênesis apócrifo, que ainda vou escrever, foi de uma vértebra de Brigitte que
Deus criou Alain Delon, mas isso é assunto para outro dia.)
Pode ser que ela tenha, para os atuais
padrões hollywoodianos, envelhecido mal. Física e politicamente. Antes dos 40,
se cansou de ser o que era e resolveu ser quem sempre quis. Adotou as rugas e a
defesa dos direitos dos animais, com aquela visceralidade de quem sabe que
abraça uma causa (por enquanto) perdida. Trocou os holofotes pela salvação das
focas abatidas a pauladas no Canadá. Foi atuar para pôr fim à barbárie contra
os touros na Espanha e ao suplício de cobaias em testes de laboratório mundo
afora. Encaretou. Fez comentários xenofóbicos e não poupou o feminismo woke do
#MeToo.
Será que daqui a (muitos!) anos, esquecerão
de honrar a memória de Woody Allen por causa das tretas com Mia Farrow?
Esnobarão Catherine Deneuve por ter sido crítica ao “novo puritanismo” — esse
que pune homens por assédio, “quando tudo o que eles fizeram foi tocar o joelho
de alguém ou tentar roubar um beijo”? Ou, se a maré virar — e a maré sempre
vira —, os desprestigiados serão Sean Penn, Robert De Niro?
Muito antes de o Banco do Brasil virar BB, BB
era Brigite Bardot. E continuará a ser, bem depois de o banco ter deixado de
existir. Ela fez mais pelo cinema do que faria uma atriz. Foi um ícone, quando
esta palavra ainda queria dizer alguma coisa. E, sem ela, Búzios seria só um
punhado de conchas de moluscos.
É normal esquecer chaves, senhas, datas. O
que um dia caiu na prova. Coloquem na Dutra ou na Washington Luís um pedágio
cuja tarifa seja saber quem foram Dutra e Washington Luís. Quem souber, não
paga; quem não souber, paga em dobro. E vejam o milagre da arrecadação.
Esquecemos em quem votamos para deputado, a
hora do dentista e até aquele começo inesquecível, como lembrou o Aldir Blanc.
Alguém já disse que a memória é aquilo que,
depois da luta inglória para esquecer, permaneceu lá. Mas, bicho, como é que
alguém esquece a Brigitte Bardot?

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