sábado, 21 de março de 2026

O escudo Gilmar, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O acordo sério que se urde não é o de delação. É o de empastelamento. Para que nunca saibamos o que se comprou quando comprada aquela parte do hotel. Para que nunca saibamos o que se contratou quando contratado aquele escritório de advocacia. (Ou aquela consultoria.) Para que nunca saibamos do que tratavam quando tratavam sobre bloquear algo.

O caso Master bateu no teto – nas togas – das possibilidades investigativas deste país. E a história nos ensina que aqui paramos. O caso Master chegou ao Supremo e o Brasil voltou ao lugar em que decidirá pela acomodação; o que significa asfixiar a investigação. Chegamos de novo – a história se repete – a Dias Toffoli, vários “os amigos dos amigos” de alguém que precisa ter a ação contra si bloqueada. Vários agora os que precisam ter as ações contra si bloqueadas.

Não é a história que se repete. A história nos ensina. Não saímos do lugar. Desse lugar tendo saído – por Dias Toffoli, para Dias Toffoli – o inquérito xandônico onipresente e infinito. Desde esse lugar tendo se procedido – por Dias Toffoli – à destruição de provas sobre corrupção. Dias Toffoli é a fachada. Expressão de que o limite se aproxima.

Chegou-se ao momento em que advogado de provável delator precisa garantir que a colaboração do cliente será “séria”. Garantia necessária porque o banqueiro passara a testar mercados sobre a hipótese de uma delação seletiva, poupados ministros do Supremo. Não há mesmo estímulos para que fale de suas relações com Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, membros do tribunal que homologará o seu acordo e que o julgará. Os dois primeiros ainda membros do clube do uísque londrino de Vorcaro, em cuja mesa também se sentaram Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, chefes das instituições portas-de-entrada à delação.

Não voltamos ao mesmo lugar. Nunca saímos do lugar. Não há razões para crer em que seja séria a delação. Estão aí as gestões de Gilmar Mendes – baixado o escudo Gilmar – para evidenciar a impossibilidade de que ministros do STF sejam investigados. Ele tranca a Corte e manda recados. Não se pode saber nem quanto nem de quem a empresa de Dias Toffoli recebeu em suas transações com a teia vorcárica. Tampouco se pode saber quanto e a quem o fundo sócio da empresa de Dias Toffoli pagou – fundo que nos levará à Reag, enredada na Operação Carbono Oculto, sobre trânsitos entre PCC e mercado financeiro.

Mendes criou uma prevenção-puxadinho para si – relatorblindador de tudo quanto se refira à busca por dados sobre relações de ministros-empresários com Vorcaro. Dias Toffoli – a proteção a Dias Toffoli – sendo apenas objeto de partida. O cerceamento à prerrogativa investigatória das CPI, apenas parte do projeto. O recado é também ao banqueiro. Não valerá o esforço.

Entregar políticos do centrão bolsonarista, governadores ferrados, o PT baiano e burocratas do Banco Central é fácil – e o acordo que se tece poderia fazer ser suficiente. A delação de Vorcaro só será séria se detalhar também suas relações e de seus zetteis com ministros do STF. Não será. •

 

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