sexta-feira, 15 de maio de 2026

Conversa de chefes de Estado, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Lula e sua equipe não foram a Washington em nome da Guerra Fria. Mas em nome de uma concepção de desenvolvimento econômico com desenvolvimento social

O encontro do presidente Donald Trump com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ponto de vista sociológico, tem especial importância porque foi claramente um encontro de chefes de Estado.

O reiterado empenho de diferentes agentes de conspiração contra a democracia, lá e aqui, pela banalização tanto da figura de Trump quando da figura de Lula, está ficando cansativa. É claramente uma forma golpista de esvaziamento do processo político, de modo a reduzi-lo à alternativa do único. No fim das contas, os envolvidos nessa atividade golpista têm atuado no sentido de minimizar e usurpar as funções próprias do Estado.

No caso dos EUA, a solidez do Estado americano deu sinais de fragilização quando da invasão do Capitólio para impedir a certificação da vitória de Joe Biden. Um sinal de descolamento das instituições em relação aos mecanismos de afirmação da vontade democrática do povo americano.

Esse fragilização se refletiu na segunda eleição de Trump porque deu-lhe a convicção que fora investido do imenso poder, especialmente militar, do Estado americano não só nas relações internas como também nas relações internacionais. Ele tenta personificar o Estado.

O fato revelou o quanto os EUA, especialmente desde a Guerra Fria, enfraqueceu as democracias já em si mesmas frágeis nos países dependentes não só aqui na América Latina. Governos populistas, de esquerda ou não, para afirmar sua soberania tiveram que alinhar-se com países de orientação ideológica não necessariamente igual à de sua própria população.

Um exemplo significativo foi o de Cuba. Literalmente uma colônia de diversões mundanas dos americanos de Miami, sob domínio de um político corrupto, Fulgencio Batista, foi convulsionada pela insurreição patriótica de uma geração de jovens motivados pelo ímpeto de completar sua revolução da independência de 1898. Com a intervenção americana Cuba tivera uma independência peculiar e anômala. Eram sem ser.

A revolução castrista de 1959 não era uma revolução comunista e, de certo modo, nem teve o apoio do Partido Comunista Cubano. Mas o bloqueio americano, negando ao país até a importação de remédios, levou Cuba a uma aliança com a União Soviética, que trouxe a polarização geopolítica para as portas dos EUA, com os gravíssimos riscos da crise dos mísseis.

O outro personagem do encontro de Washington no dia 7 de maio, Luiz Inácio Lula da Silva, não representa uma poderosa nação militar. Além do mais à mercê de traidores da pátria que, não faz muito, em função dos problemas com os agitadores de 8 de janeiro de 2023, não tiveram escrúpulo de ameaçar o Brasil até com bomba atômica se não baixasse a cabeça para Trump, suposto aliado dos bolsonaristas. Mal-assessorado, Trump aparentemente se guiava por falsas informações dessa gente de somenos. A invasão da Venezuela e a captura de seu presidente e da esposa na própria cama animavam os bolsonaristas a acreditar que, a um estalo de seus dedos, Trump mandaria capturar no Brasil legítimas autoridades brasileiras.

Acompanho há muitos anos a trajetória de Lula. Desde antes de se tornar presidente pela primeira vez. Tive uma longa conversa com ele, na sacristia da Matriz de São Bernardo, por sugestão dele, que, sabedor de minhas pesquisas sobre o Brasil rural, especialmente a Amazônia, queria ouvir-me sobre um lado do Brasil que ele não conhecia. Num sábado à tarde, conversamos durante umas quatro horas, na sacristia da Matriz de São Bernardo. Lula tem uma memória incrível. Hábil e respeitável negociador, treinado nas lides sindicais, quando seus oponentes estão indo ele já está voltando.

Foi o que aconteceu quando se encontrou com Trump no banheiro da ONU, dirigiu-lhe a palavra, conversou descontraidamente. Quando retornaram, deixaram os assessores do presidente americano pasmos e irritados. Tinha terminado o ciclo de manipulação do presidente americano contra o presidente e o governo do Brasil.

O encontro de mais de três horas, no dia 7, com pompa e circunstância, risos, tapinhas nas costas e propostas escritas de entendimento em relação a questões que se preocupam Trump também preocupam o Brasil. Desde o governo Dilma, foi a primeira vez que um presidente brasileiro teve uma conversação de chefe de Estado com um presidente americano. E um encontro no estilo de seminário de estudo em defesa do “nosso” capitalismo, que, inspirado no neoliberalismo antidesenvolvimentista de Milton Friedman, entrara em decadência notória. Lula e sua equipe não foram a Washington em nome da Guerra Fria. Mas em nome de uma concepção de desenvolvimento econômico com desenvolvimento social. Lula foi lá convencer Trump de que o capitalismo pode ser salvo.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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