terça-feira, 30 de junho de 2026

O reino dividido, por Thomas Traumann

O Globo

Em entrevista ao editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis, Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que termina por dividir o reino entre Israel e Judá.

— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado — alertou o bispo.

A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.

Faltando menos de 100 dias para o primeiro turno, a sua campanha não tem candidatos a governador viáveis em Minas Gerais e Rio de Janeiro, não obteve o apoio de nenhum partido fora o próprio PL, não arregimentou um único economista de primeira linha e perde em todas as pesquisas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os vídeos de Michelle Bolsonaro divulgados na semana passada acusando o enteado de maltratá-la, desobedecer a ordens do pai e fomentar uma onda de ódio nas redes sociais são reflexos dessa crise de legitimidade. Gravados com profissionalismo, os vídeos mostram a ex-primeira-dama usando o apoio do PL do Ceará ao ex-inimigo Ciro Gomes como pretexto para se mostrar como a verdadeira bolsonarista raiz da família. Michelle está se posicionando para herdar a liderança do bolsonarismo, seja em uma eventual derrota de Flávio em outubro ou até antes, na improvável hipótese de Jair decidir trocar de candidato neste ano.

A reação do bolsonarismo aos vídeos foi pesada. Os irmãos aumentaram a artilharia sobre a madrasta, mantiveram o acordo no Ceará e concentraram ainda mais o poder na campanha. Eduardo Bolsonaro compartilhou link para um vídeo com o título: “Dossiê: Michelle — As Notícias Desmentem”, no qual um youtuber acusa a ex-primeira-dama de boicotar Flávio e de agir por interesses pessoais em vez de priorizar a derrota do PT. Eduardo republicou ainda outro vídeo do ex-deputado Alexandre Ramagem que acusa a ex-primeira-dama de “birra” por não ter aceitado a decisão do marido sobre a candidatura do enteado. O primeiro auxiliar de Eduardo, o blogueiro Paulo Figueiredo, acusou Michelle de ser “tigrona com Flávio Bolsonaro e tchutchuca com (o ministro do STF) Alexandre de Moraes”. Figueiredo critica até a forma como a ex-primeira-dama chama o marido “galego”:

— Vocês não têm vontade de cortar um pouquinho os pulsos toda vez que ela fala “meu galego”? Não soa fake? Principalmente se vocês soubessem as coisas que eu sei — insinuou Figueiredo.

Deu certo. Levantamento da AP Exata Inteligência mostrou que o episódio fez as menções positivas de Flávio nas redes sociais subirem ao melhor patamar dos últimos 45 dias.

— Para o público geral, ficou consolidada a versão de que “roupa suja se lava em casa” e que a Michelle colocou em risco a possibilidade de a oposição derrotar Lula — diz Sergio Denicolli, da AP Exata. — Mas é importante ressaltar: ela não se dirigiu ao eleitorado total. Sua intenção era falar com as mulheres e com os evangélicos, e nesse segmento a imagem dela está preservada.

Com o ex-presidente incomunicável, Flávio Bolsonaro disse ao jornalista Claudio Dantas que o pai não sabia do vídeo e que “ficou tão chateado que se recusou a assistir ao noticiário, mesmo com toda a repercussão do caso na TV”. Na sexta-feira (26), em Goiânia, Flávio Bolsonaro minimizou as críticas da madrasta e definiu o episódio como “página virada”. Acredite quem quiser.

Na quarta-feira (1º), o candidato promove em Brasília um encontro com “mulheres conservadoras”. Mesmo que Michelle participe e pose para uma foto com o enteado, o estrago está feito.

A grande vantagem do bolsonarismo sobre a esquerda era a sua organização, coesão e respeito à hierarquia. Nas redes, nas ruas e no Congresso, o bolsonarismo se consolidou como um movimento político por saber disseminar uma visão de mundo única, que dava direção, palavras de ordem e coerência para os militantes.

Essa organização manteve a base unida mesmo em momentos de contradição, como a defesa da reabertura das empresas durante a epidemia da Covid, o discurso antissistema enquanto Bolsonaro entregava metade do governo para o Centrão, a campanha de desconfiança sobre as urnas eletrônicas com o PL elegendo a maior bancada do Congresso, a tentativa de golpe dos que defendiam a democracia, a condenação do ex-presidente e o descarte de Tarcísio de Freitas para a escolha de Flávio como candidato. Qualquer um que desafiasse a hierarquia era punido, como foi o governador João Doria e o general Freire Gomes. Até os vídeos de Michelle Bolsonaro.

Os vídeos desorganizam a base, racham a coesão interna e colocam em dúvida a hierarquia. Flávio Bolsonaro não foi apenas acusado de desrespeitar a mulher que cuida de seu pai doente. Foi acusado de contrariar as ordens expressas do pai sobre o Ceará e ter incentivado os ataques à madrasta. Se a milionária relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro preso Daniel Vorcaro provocou dúvidas sobre sua ética, os vídeos de Michelle atingiram sua legitimidade como o sucessor de Jair Bolsonaro.

Na pesquisa Genial/Quaest de junho, Flávio Bolsonaro já estava perdendo votos entre mulheres e evangélicos, dois segmentos nos quais Michelle é mais forte que ele. Segundo a pesquisa, depois da divulgação da doação dos R$ 61 milhões de Vorcaro a Flávio, a vantagem de Lula entre as mulheres na simulação de segundo turno saltou de 5 pontos percentuais em abril para 14 pontos percentuais em junho. Entre os evangélicos, onde Lula tem seus piores números, o escândalo Vorcaro fez a vantagem de Flávio Bolsonaro cair de 36 pontos percentuais em maio para 21 pontos em junho.

O voto feminino é um conhecido problema para o bolsonarismo. Como mostra Jairo Nicolau no livro “Um país dividido”, foram as mulheres que levaram Lula de volta ao Planalto. Depois de obter 53% dos votos femininos em 2018, Jair Bolsonaro caiu para 42% em 2022 graças à sua conduta na epidemia da Covid, à defesa da liberação de armas e às seguidas posturas misóginas. Flávio, que vinha ganhando tração por se apresentar como um Bolsonaro vacinado, foi jogado pela madrasta para o mesmo nicho masculino do pai.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, percebeu a largura da fenda aberta pelo conflito. Em entrevista à repórter Kelly Mattos, da Rádio Gaúcha, no aeroporto de Miami, ele elogiou o trabalho de Michelle (“O que ela fez pelo PL Mulher não tem preço”), fez um meio elogio a Flávio (“ele tá com a eleição quase empatada com o Lula”) e colocou a eleição em outro patamar:

— Se nós não nos entendermos, nós perderemos a eleição e quem vai pagar é o Bolsonaro — disse o dirigente. A declaração é um apito de cachorro: a vitória de Flávio não é dele, mas um veículo para a liberdade de Jair.

Como sempre repete Valdemar, as chances de Flávio Bolsonaro ser eleito presidente dependem do empenho de três pessoas: o governador Tarcísio de Freitas, o deputado Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro. Os dois primeiros ficaram neutros na disputa familiar. A terceira entrou para disputar com Flávio o espólio da família no caso de derrota em outubro. O reino está dividido.

 

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