O Globo
Em entrevista ao
editor de O GLOBO Thiago Pra
— (Roboão) presumiu que o reino já era dele
sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no
segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o
pai no passado — alertou o bispo.
A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.
Faltando menos
de 100 dias para o primeiro turno, a sua campanha não tem candidatos a governador
viáveis em Minas Gerais e Rio de Janeiro, não obteve o apoio de nenhum partido
fora o próprio PL, não arregimentou um único economista de primeira linha e
perde em todas as pesquisas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Os vídeos
de Michelle Bolsonaro divulgados na semana passada acusando o enteado
de maltratá-la, desobedecer a ordens do pai e fomentar uma onda de ódio nas
redes sociais são reflexos dessa crise de legitimidade. Gravados com
profissionalismo, os vídeos mostram a ex-primeira-dama usando o apoio do PL do
Ceará ao ex-inimigo Ciro Gomes como pretexto para se mostrar como a verdadeira
bolsonarista raiz da família. Michelle está se posicionando para herdar a
liderança do bolsonarismo, seja em uma eventual derrota de Flávio em outubro ou
até antes, na improvável hipótese de Jair decidir trocar de candidato neste
ano.
A reação do bolsonarismo aos vídeos foi
pesada. Os irmãos aumentaram a artilharia sobre a madrasta, mantiveram o acordo
no Ceará e concentraram ainda mais o poder na campanha. Eduardo Bolsonaro
compartilhou link para um vídeo com o título: “Dossiê: Michelle — As Notícias
Desmentem”, no qual um youtuber acusa a ex-primeira-dama de boicotar Flávio e
de agir por interesses pessoais em vez de priorizar a derrota do PT. Eduardo
republicou ainda outro vídeo do ex-deputado Alexandre Ramagem que acusa a
ex-primeira-dama de “birra” por não ter aceitado a decisão do marido sobre a
candidatura do enteado. O primeiro auxiliar de Eduardo, o blogueiro Paulo
Figueiredo, acusou Michelle de ser “tigrona com Flávio Bolsonaro e tchutchuca
com (o ministro do STF) Alexandre de Moraes”. Figueiredo critica até a forma
como a ex-primeira-dama chama o marido “galego”:
— Vocês não têm vontade de cortar um
pouquinho os pulsos toda vez que ela fala “meu galego”? Não soa fake?
Principalmente se vocês soubessem as coisas que eu sei — insinuou Figueiredo.
Deu certo. Levantamento da AP Exata
Inteligência mostrou que o episódio fez as menções positivas de Flávio nas
redes sociais subirem ao melhor patamar dos últimos 45 dias.
— Para o público geral, ficou consolidada a
versão de que “roupa suja se lava em casa” e que a Michelle colocou em risco a
possibilidade de a oposição derrotar Lula — diz Sergio Denicolli, da AP Exata.
— Mas é importante ressaltar: ela não se dirigiu ao eleitorado total. Sua
intenção era falar com as mulheres e com os evangélicos, e nesse segmento a
imagem dela está preservada.
Com o ex-presidente incomunicável, Flávio
Bolsonaro disse ao jornalista Claudio Dantas que o pai não sabia do vídeo e que
“ficou tão chateado que se recusou a assistir ao noticiário, mesmo com toda a
repercussão do caso na TV”. Na sexta-feira (26), em Goiânia, Flávio Bolsonaro
minimizou as críticas da madrasta e definiu o episódio como “página virada”. Acredite
quem quiser.
Na quarta-feira (1º), o candidato promove em
Brasília um encontro com “mulheres conservadoras”. Mesmo que Michelle participe
e pose para uma foto com o enteado, o estrago está feito.
A grande vantagem do bolsonarismo sobre a
esquerda era a sua organização, coesão e respeito à hierarquia. Nas redes, nas
ruas e no Congresso, o bolsonarismo se consolidou como um movimento político
por saber disseminar uma visão de mundo única, que dava direção, palavras de
ordem e coerência para os militantes.
Essa organização manteve a base unida mesmo
em momentos de contradição, como a defesa da reabertura das empresas durante a
epidemia da Covid, o discurso antissistema enquanto Bolsonaro entregava metade
do governo para o Centrão, a campanha de desconfiança sobre as urnas eletrônicas
com o PL elegendo a maior bancada do Congresso, a tentativa de golpe dos que
defendiam a democracia, a condenação do ex-presidente e o descarte de Tarcísio
de Freitas para a escolha de Flávio como candidato. Qualquer um que desafiasse
a hierarquia era punido, como foi o governador João Doria e o general Freire
Gomes. Até os vídeos de Michelle Bolsonaro.
Os vídeos desorganizam a base, racham a
coesão interna e colocam em dúvida a hierarquia. Flávio Bolsonaro não foi
apenas acusado de desrespeitar a mulher que cuida de seu pai doente. Foi
acusado de contrariar as ordens expressas do pai sobre o Ceará e ter
incentivado os ataques à madrasta. Se a milionária relação de Flávio Bolsonaro
com o banqueiro preso Daniel Vorcaro provocou dúvidas sobre sua ética, os
vídeos de Michelle atingiram sua legitimidade como o sucessor de Jair
Bolsonaro.
Na pesquisa Genial/Quaest de junho, Flávio
Bolsonaro já estava perdendo
votos entre mulheres e evangélicos, dois segmentos nos quais Michelle é
mais forte que ele. Segundo a pesquisa, depois da divulgação da doação dos R$
61 milhões de Vorcaro a Flávio, a vantagem de Lula entre as mulheres na
simulação de segundo turno saltou de 5 pontos percentuais em abril para 14
pontos percentuais em junho. Entre os evangélicos, onde Lula tem seus piores
números, o escândalo Vorcaro fez a vantagem de Flávio Bolsonaro cair de 36
pontos percentuais em maio para 21 pontos em junho.
O voto feminino é um conhecido problema para
o bolsonarismo. Como mostra Jairo Nicolau no livro “Um país dividido”, foram as
mulheres que levaram Lula de volta ao Planalto. Depois de obter 53% dos votos
femininos em 2018, Jair Bolsonaro caiu para 42% em 2022 graças à sua conduta na
epidemia da Covid, à defesa da liberação de armas e às seguidas posturas
misóginas. Flávio, que vinha ganhando tração por se apresentar como um
Bolsonaro vacinado, foi jogado pela madrasta para o mesmo nicho masculino do
pai.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto,
percebeu a largura da fenda aberta pelo conflito. Em entrevista à repórter
Kelly Mattos, da Rádio Gaúcha, no aeroporto de Miami, ele elogiou o trabalho de
Michelle (“O que ela fez pelo PL Mulher não tem preço”), fez um meio elogio a
Flávio (“ele tá com a eleição quase empatada com o Lula”) e colocou a eleição
em outro patamar:
— Se nós não nos entendermos, nós perderemos
a eleição e quem vai pagar é o Bolsonaro — disse o dirigente. A declaração é um
apito de cachorro: a vitória de Flávio não é dele, mas um veículo para a
liberdade de Jair.
Como sempre repete Valdemar, as chances de
Flávio Bolsonaro ser eleito presidente dependem do empenho de três pessoas: o
governador Tarcísio de Freitas, o deputado Nikolas Ferreira e Michelle
Bolsonaro. Os dois primeiros ficaram neutros na disputa familiar. A terceira
entrou para disputar com Flávio o espólio da família no caso de derrota em
outubro. O reino está dividido.

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