O Globo
Estamos cercados por um clima de guerra,
pergunto o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões
Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No
processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente
separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas
que não podem ser esquecidos.
O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.
Reconheço que, nesse tema, o papel de um
governo não é tão decisivo. Mas um candidato poderia ter algum programa para o
esporte nacional, com o destaque que o futebol merece. Uma forma de subestimar
nosso esporte é entregá-lo de novo a um deputado qualquer do Centrão.
O segundo tema são as apostas on-line. Elas
dominaram a cobertura da Copa e aumentarão sua importância em nosso cotidiano.
As pesquisas já mostram que sacudiram os lares brasileiros, trazendo muita tristeza
e desolação. Há dados, ainda, sobre um grande número de estudantes que deixou
de tentar um curso superior porque torrou seu dinheiro nas apostas.
Pesquisadores afirmam que os efeitos são tão
amplos que não conhecem toda a sua extensão. Isso significa uma limitação para
as políticas públicas. Elas precisam do maior número possível de dados. No
entanto, os candidatos podem dizer algo, sem demagogia.
A questão das bets impõe um problema
desafiador. Grande parte dos políticos mais lúcidos prefere, em muitos temas, a
liberação à repressão. No entanto, sabe também que liberar traz consequências.
Uma política madura nesse campo significa um estudo profundo do que pode
acontecer e um esforço para atenuar o impacto. A questão está em aberto.
Foi liberado o jogo on-line, e ele domina o
universo do futebol, financiando quase tudo ao seu redor. O problema agora é
avaliar o impacto seriamente e apresentar as políticas públicas que possam
atenuá-lo. Sabendo, como sei, que uma só cabeça não vislumbra um programa
nacional, não só os problemas da Copa entram nessa equação. O cotidiano traz
questões mais dolorosas.
Na feira do fim de semana, uma moradora de
Rio das Pedras, comunidade na Zona Sudoeste do Rio, me disse estar horrorizada,
pois foram achados 20 corpos num lugar bem perto de sua casa. Ela sai às 5 da
manhã para evitar tiroteios. Ao nosso lado, um homem que mora noutra
comunidade, a Muzema, disse que o Comando Vermelho assumiu a área, e a vida não
está fácil.
Fui para casa pensando que estamos cercados
por um clima de guerra, perguntando o que a política pode fazer para acabar com
o sofrimento de milhões de pessoas. Os candidatos falarão disso; alguns querem
que os americanos bombardeiem barcos na Baía de Guanabara. Há bastante loucura
no ar. No entanto, a grande tarefa continua a nos desafiar com sua relativa
simplicidade: expulsar traficantes e milicianos, instalar os serviços normais
do governo.

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