O Estado de S. Paulo
Nunes Marques disse que a magistratura passa dificuldades e quis fim dos limites dos penduricalhos
Em meio ao julgamento que afrouxou as regras
dos penduricalhos a magistrados e procuradores, quatro ministros do Supremo
Tribunal Federal queriam, ao contrário de outros seis colegas, que não houvesse
limites para o pagamento das verbas indenizatórias reconhecidas e validadas
pelos conselhos da Justiça e do Ministério Público.
Quem abriu essa divergência foi Luiz Fux, que se disse contrário ao estabelecimento do limite de 35% além do teto para as verbas adicionais ao salário. Além disso, os ministros autorizaram o pagamento de uma gratificação de 5% a cada cinco anos de serviço. Essa regra, somada aos penduricalhos, garante a quem está no topo da carreira um salário de R$ 78 mil. Mas Fux queria mais. Assim como os ministros André Mendonça, Dias Toffoli e Nunes Marques. Este último defendeu até o pagamento de auxílio-creche aos doutores.
Trata-se de um velho dilema da República: os
limites entre a proteção dos indivíduos e o bem-estar comum. Tito Lívio conta
no livro III de seu Ab Urbe Condita Libri a reação do prefeito Quinto Fábio aos
tribunos da plebe quando propuseram a Lei Terentília: “Vosso poder tem por
objetivo a proteção dos indivíduos, não a ruína da comunidade”. O conflito
entre patrícios e plebeus em Roma antecedeu a publicação da Lei das Doze
Tábuas, base do direito romano. Os limites que a lei trazia a todos e a
garantia a um julgamento justo significavam limitar o arbítrio de uns contra os
outros.
Os ministros parecem ciosos na defesa dos
ganhos e direitos de alguns indivíduos. À direita, nossas forças políticas
dizem que alguns deles se comportam como se a sociedade lhes devesse a
liberdade e, por isso, se veem livres para legislar, prender e soltar. À
esquerda, os tribunos da plebe dizem que os ministros são rígidos quando se
trata de julgar a pejotização ou a revisão da vida inteira e negam à população
desvalida centenas de reais, enquanto preservam seus penduricalhos milionários.
Lembram que alguém que recebe R$ 78 mil mensais é capaz de pagar uma babá para
seus filhos, sem precisar de auxílio.
Afinal, onde o equilíbrio entre a legalidade
e a equidade? Como enxergar justiça se não for possível vislumbrar a pietas, a
gravitas ea dignitas? Vinte dias antes de seu voto, Nunes Marques disse que a
magistratura vivia um “momento difícil” em razão da forma “como se comunicam os
periódicos brasileiros em relação às dificuldades financeiras, às vezes não
muito reconhecidas pela sociedade”. De fato, é difícil entender a
insensibilidade de domésticas, pedreiros, trabalhadores de aplicativos e outros
que insistem em ver nos tais penduricalhos um privilégio dos doutores. A culpa,
logicamente, é da imprensa.

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