quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A degradação do dólar, Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Trump agrava a situação fiscal dos EUA a ponto de deflagrar uma crise nos mercados globais

Um número assombrou os investidores na semana passada: a dívida pública federal dos Estados Unidos acabou de ultrapassar a barreira dos US$ 40 trilhões. Esse deveria ser um problema só dos americanos, mas a repercussão de seus efeitos será sentida em todo o mundo, incluindo o Brasil. A má notícia é que o presidente Donald Trump está agravando a situação fiscal do país a ponto de deflagrar uma séria crise nos mercados globais.

Uma prévia disso aconteceu na semana passada: a taxa paga pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos bateu em 5,31%, maior nível desde o início da grande crise financeira mundial, em 2007. O governo Trump ficou desconfortável e quis baixar essa taxa à força, anunciando um aumento no volume de recompra de papéis da dívida de prazos mais longos (de 10 a 30 anos). Os investidores digeriram mal o anúncio. Viram nele uma forma de intervenção, distorcendo a livre formação de preços e não resolvendo a origem do problema: o crescente déficit fiscal dos EUA. Sem falar na pressão que Trump faz para o Federal Reserve cortar os juros básicos, ainda que a inflação não endosse tal movimento.

O alívio nas taxas dos papéis do Tesouro durou menos de 24 horas. A medida ressuscitou o chamado “debasement trade”, estratégia na qual os investidores reduzem a exposição ao dólar (ou a aplicações em moeda americana, como a dívida pública), buscando refúgio em ativos como ouro e bitcoin. Na semana passada, o bitcoin subiu 22%, enquanto o ouro ganhou 5,5%. O índice DXY, que mede a variação do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, fechou no menor nível em três meses. A aposta é de que Trump seguirá adotando medidas para degradar o valor do dólar.

Enquanto isso, cresce o temor com a trajetória da dívida pública. No ano fiscal de 2026, que acaba em setembro, o governo dos EUA terá pagado US$ 1,1 trilhão em juros da dívida. O serviço da dívida já é a terceira maior despesa do Orçamento americano, atrás apenas dos programas federais de Saúde e dos benefícios da Previdência Social. A projeção é de que o déficit fiscal chegue em 6% do PIB ao fim do ano. Os cortes de impostos aprovados em 2025 e os gastos com a guerra no Irã contribuíram para piorar o déficit. E mais: Trump quer aumentar o orçamento de gastos militares e de Defesa de US$ 1 trilhão, em 2026, para US$ 1,5 trilhão em 2027.

Se nada for feito, os investidores devem cobrar juros mais altos para rolar a dívida pública dos EUA. Por tabela, as taxas de títulos de governos ao redor do mundo acabam subindo. O dólar não será a única vítima. •

 

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