O Estado de S. Paulo
Novas tarifas impostas pelo governo Trump ao
país vizinho atingem, sobretudo, pequenas e médias empresas
As novas tarifas de Donald Trump foram “feitas para
nos machucar e nos dividir…. os EUA estão tentando nos quebrar
para poder nos possuir. Isso nunca, jamais, vai acontecer.” disse Mark
Carney, primeiro-ministro do Canadá, no sábado, 22 em Ottawa,
poucas horas depois de as tarifas estadunidenses de 50% entrarem em vigor sobre
uma longa lista de produtos canadenses, que atinge sobretudo pequenas e médias
empresas do país.
Carney, ex-presidente do Banco do Canadá e do Banco da Inglaterra, que construiu a carreira inteira sobre a arte de escolher palavras que não movam mercados, adotou um tom mais duro: “Você está em guerra quando é atacado. E nós fomos atacados.”
O primeiro-ministro anunciou que vai retaliar
“dólar por dólar” a partir de 8 de setembro, atingindo aço, laticínios,
eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, papel e eletrônicos dos EUA. As
exigências de última hora de Washington incluíam uma cláusula que restringiria
a capacidade do Canadá de fechar acordos comerciais com outros países — o que
não deu a Ottawa outra opção senão a de se levantar da mesa. Ceder também teria
mostrado que a ameaça funciona, praticamente garantindo que ela voltasse a ser
usada.
O impacto econômico das tarifas será brutal
para alguns setores canadenses, mas Ottawa só tem a si mesma para culpar. A
vulnerabilidade do país resulta de uma estratégia construída ao longo de meio
século, do Pacto Automotivo de 1965 ao Nafta: em 2024, 75,9% das exportações canadenses de bens tinham como
destino os Estados Unidos.
As exigências dos EUA, porém, iam muito além
de tarifas. Washington insistiu até o último minuto em concessões nas proteções
à língua francesa e à cultura canadense — e já havia listado a lei 96 de
Quebec, que protege o francês, como barreira comercial.
Carney foi categórico: “Não estávamos dispostos a comprometer
a proteção da língua francesa e da nossa cultura”, temas que “nunca estiveram
na mesa”. Num país bilíngue, a exigência soou como ataque à soberania. E não
veio sozinha: desde abril de 2025, funcionários do Departamento de Estado se
reuniram ao menos três vezes com o Alberta Prosperity Project, grupo
separatista que pediu a Washington apoio financeiro para um referendo de
independência.
O premiê da Colúmbia Britânica chamou os contatos de “traição”. Nos bastidores,
circulou uma lista ainda mais ampla de exigências, sem confirmação oficial, mas
coerente com o que Carney descreveu em público.
Uma submeteria todo investimento estrangeiro
em portos, telecomunicações, oleodutos e redes elétricas canadenses a um
conselho binacional, dando a Washington veto sobre quem investe no país. Outra
obrigaria Ottawa a cumprir metas de gasto militar destinadas à compra de
equipamento dos EUA.
No Canadá, o efeito do colapso das
negociações foi previsível: fortaleceu ainda mais a onda nacionalista
anti-americana, sinal de que os canadenses estão dispostos a arcar com um custo
econômico alto para preservar sua soberania. Consumidores já vinham reduzindo
as compras de marcas dos EUA, e as viagens de férias ao vizinho do sul despencaram.
Pesquisa do Pew Research Center divulgada em julho mostra a opinião favorável aos EUA
entre canadenses caindo de 57% para 33% desde 2023, enquanto a da China subiu
de 14% para 44%. Até Pierre Poilievre, líder da oposição antes visto como o
rosto canadense da onda populista de direita, endossou a recusa do acordo.
Nenhuma força política nacional relevante
defende hoje voltar à dependência de 2015. Ottawa acelerará sua estratégia de
diversificação. Ainda assim, o dano econômico será considerável, e não é
implausível que os dois lados cheguem a um acordo nas próximas semanas.
Qualquer que seja o desfecho, os EUA é que
pagarão o preço mais alto. A ruptura com Ottawa ocorre justamente quando
dezenas de governos se preparam para escolher um lado na disputa tecnológica
entre Washington e Pequim — uma escolha bem mais difícil de desfazer do que
qualquer acordo comercial. O governo Trump está pressionando aliados a aderir à sua aliança de
inteligência artificial e a se afastar do grupo liderado por Pequim, do qual o
Brasil é membro fundador.
Essa dependência é diferente da comercial.
Como mostram Sam Winter-Levy e Anton Leicht na
revista Foreign Affairs,
Estados Unidos e China controlam 90% da capacidade global de computação, e a
tecnologia não pode ser estocada: usar os sistemas de ponta exige conexão
permanente com servidores sujeitos a Washington ou a Pequim.
Quem escolhe um lado herda seus padrões, seus fornecedores e suas restrições de exportação e não desfaz essa escolha em um ciclo eleitoral. E quem propõe esse arranjo é o mesmo país que abusou da confiança do aliado mais leal que tinha. Nada disso ajuda Washington a convencer governos a se alinharem tecnologicamente com os Estados Unidos — um alinhamento que os deixaria pelo menos tão dependentes quanto o Canadá o foi nas últimas décadas.

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