quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Caiado e os bons modos, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Único a mostrar no debate o respeito e a civilidade que a política exige em vez da estética de coach

Plutarco conta em sua Vida de Demóstenes que o orador grego atribuía uma importância capital à entonação e à atitude das pessoas que falam para persuadir. Certa vez, quando um homem que fora espancado pediu-lhe que o defendesse em juízo, Demóstenes disse: “Ora, não recebeste um só dos golpes de que falas!”. O homem, levantando a voz, gritou: “Eu, Demóstenes, não recebi os golpes?!”. “Agora, sim, ouço a voz de um homem maltratado”, respondeu.

Hannah Arendt viu na ratio et oratio de Cícero, o outro orador tratado por Plutarco no quinto livro de suas Vidas Paralelas, um último vestígio dessa antiga conexão entre a fala e o pensamento, “ausente de nossa noção de exprimir o pensamento por meio de palavras”.

As palavras na antiguidade – sustentava Arendt – “não eram consideradas grandes porque exprimiam grandes pensamentos”; pelo contrário, “o pensamento era secundário no discurso”. O ato de encontrar as palavras adequadas no momento certo, independentemente da informação que transmitissem, constituía uma ação. Plutarco conta que Demóstenes passava meses ensaiando orações e chegou a raspar a cabeça de um lado para não se mostrar em público enquanto não estivesse pronto. Cícero pretendia unir no orador a eloquência ao pensamento e o homem público ao erudito, para que a prática do discurso não se apartasse da sabedoria.

Outra época... Os candidatos a presidente não dispõem de tempo para treinar oratória nem a natureza lhes deu o talento dos antigos. Nem raspando a cabeça... O debate presidencial do último domingo mostrou as ausências de Lula, Flávio e Zema e a incapacidade de alguns candidatos para as grandes palavras. Seria preciso dizer a Renan Santos que a agressividade e a violência são incapazes de levar à grandeza? As críticas a Lula e Flávio Bolsonaro eram esperadas, mas não a forma desrespeitosa com a qual o candidato do Missão se referiu à primeira-dama, Janja da Silva, e à deputada Erika Hilton. O eleitor viu ali apenas vulgaridade e falta de modos e de educação.

A civilidade é necessária aos debates políticos e judiciais. Foi a agressividade gratuita que levou, em 1954, o advogado Joseph Welch perguntar ao senador Joseph McCarthy: “O senhor não tem nenhum senso de decência?”. A linguagem rude das redes sociais não cabe em um candidato à Presidência.

Assim, Ronaldo Caiado, até pelo contraste com Renan e com o candidato Augusto Cury – este último se mostrava tão confuso que parecia capaz de tomar um ônibus errado para casa –, tornou-se o único debatedor a demonstrar o respeito e a civilidade que a política exige e, ao mesmo tempo, a recusa de adotar a estética dos coaches.

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