O Estado de S. Paulo
Único a mostrar no debate o respeito e a civilidade que a política exige em vez da estética de coach
Plutarco conta em sua Vida de Demóstenes que o orador grego atribuía uma importância capital à entonação e à atitude das pessoas que falam para persuadir. Certa vez, quando um homem que fora espancado pediu-lhe que o defendesse em juízo, Demóstenes disse: “Ora, não recebeste um só dos golpes de que falas!”. O homem, levantando a voz, gritou: “Eu, Demóstenes, não recebi os golpes?!”. “Agora, sim, ouço a voz de um homem maltratado”, respondeu.
Hannah Arendt viu na ratio et oratio de Cícero, o outro orador tratado por Plutarco no quinto livro de suas Vidas Paralelas, um último vestígio dessa antiga conexão entre a fala e o pensamento, “ausente de nossa noção de exprimir o pensamento por meio de palavras”.
As palavras na antiguidade – sustentava
Arendt – “não eram consideradas grandes porque exprimiam grandes pensamentos”;
pelo contrário, “o pensamento era secundário no discurso”. O ato de encontrar
as palavras adequadas no momento certo, independentemente da informação que
transmitissem, constituía uma ação. Plutarco conta que Demóstenes passava meses
ensaiando orações e chegou a raspar a cabeça de um lado para não se mostrar em
público enquanto não estivesse pronto. Cícero pretendia unir no orador a
eloquência ao pensamento e o homem público ao erudito, para que a prática do
discurso não se apartasse da sabedoria.
Outra época... Os candidatos a presidente não
dispõem de tempo para treinar oratória nem a natureza lhes deu o talento dos
antigos. Nem raspando a cabeça... O debate presidencial do último domingo
mostrou as ausências de Lula, Flávio e Zema e a incapacidade de alguns
candidatos para as grandes palavras. Seria preciso dizer a Renan Santos que a
agressividade e a violência são incapazes de levar à grandeza? As críticas a
Lula e Flávio Bolsonaro eram esperadas, mas não a forma desrespeitosa com a
qual o candidato do Missão se referiu à primeira-dama, Janja da Silva, e à
deputada Erika Hilton. O eleitor viu ali apenas vulgaridade e falta de modos e
de educação.
A civilidade é necessária aos debates
políticos e judiciais. Foi a agressividade gratuita que levou, em 1954, o
advogado Joseph Welch perguntar ao senador Joseph McCarthy: “O senhor não tem
nenhum senso de decência?”. A linguagem rude das redes sociais não cabe em um
candidato à Presidência.
Assim, Ronaldo Caiado, até pelo contraste com Renan e com o candidato Augusto Cury – este último se mostrava tão confuso que parecia capaz de tomar um ônibus errado para casa –, tornou-se o único debatedor a demonstrar o respeito e a civilidade que a política exige e, ao mesmo tempo, a recusa de adotar a estética dos coaches.

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