sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Opinião do dia – Gilvan Cavalcanti (valores)

“Penso que ser de esquerda, hoje, seria incorporar os valores históricos dos quais ela nasceu: liberdade, democracia, justiça, igualdade, solidariedade, trabalho. Mas, também, acrescentar os novos valores, o abecê do novo século: cidadania, direitos, laicismo, inovação, criatividade, integração, mérito, multiculturalismo, oportunidade, segurança, sustentabilidade e internacionalização. Valores estes, consagrados na Constituição de 1988.

A época atual é tempo novo, em que o caráter da sociedade - modo de produzir, de consumo, de trabalho, de comunicação, relacionamento de conceber e organizar a vida individual e social - está se modificando profundamente. Em outras palavras, a esquerda deveria ser, na essência, do trabalho, do desenvolvimento sustentável, da cidadania e dos direitos civis, da criatividade, da meritocracia, do saber e da consciência, do indivíduo e laico, da democracia representativa, da integração mundial, interdependência, da paz e segurança.”

Cf. Gilvan Cavalcanti de Melo, "A esquerda democrática, compromisso com o futuro”, in O que é ser esquerda, hoje? org. Francisco Inácio Almeida, Editora. Contraponto e Fundação A. Pereira, Rio de Janeiro-Brasília, 2013, p.268

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rediscutir diploma de jornalismo não tem cabimento

Por O Globo

Causa estranheza a questão ressurgir num momento em que Supremo está desgastado por notícias incômodas

A discussão sobre a obrigatoriedade de diploma para o exercício da profissão de jornalista é anacrônica. Está superada desde pelo menos 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência por 8 votos a 1. Na ocasião, o STF entendeu que ela era inconstitucional, por violar as liberdades de expressão e informação. A tentativa de ressuscitar a questão agora não tem nexo lógico, sentido jurídico ou pertinência histórica numa sociedade que tanto lutou para restabelecer a democracia.

Inexistente em democracias maduras, a obrigatoriedade do diploma foi imposta no Brasil por decreto de 1969, em plena ditadura militar, com o objetivo indisfarçável de controlar quem poderia exercer a profissão. Há mais de 40 anos, felizmente, sopram no país ventos democráticos. Por isso causa estranheza que o debate tenha ressurgido no mesmo Supremo que extinguiu a exigência, em meio ao desgaste provocado na Corte pelo caso do blogueiro maranhense Luís Pablo — alvo de operações da Polícia Federal (PF) determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, sob acusação de perseguição ao ministro Flávio Dino. Nas investigações, Moraes determinou a quebra do sigilo das fontes de Pablo, em violação flagrante ao que ordena a Constituição.

A força e a fraqueza do status quo brasileiro, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

É preciso discutir o dilema imposto pela necessidade de reformas em um ambiente em que muitos com poder resistem às mudanças

Um grande dilema vai marcar o início do próximo quadriênio (2027-2030). De um lado, o país precisará fazer reformas econômicas, administrativas e político-institucionais para não entrar numa grave crise, o que inviabilizaria o mandato do novo presidente num momento de incerteza internacional e aumento da desconfiança do eleitorado. Por outro, os atores que representam o status quo atual tendem a continuar fortes, especialmente os congressistas sob a hegemonia do Centrão, e mesmo o Judiciário, que tem perdido popularidade, ainda tem muita capacidade de resistir à mudança.

O enfrentamento desse dilema é a questão mais importante após a eleição, mas já deveria ser discutido desde já, pois a sociedade precisa saber dessa dificuldade política e dos custos de não resolvê-la. Ainda mais porque os principais presidenciáveis pouco falam da realidade que enfrentarão no ano que vem, seja a das políticas públicas, seja a da complexa governabilidade.

A herança das políticas públicas de Lula III tem coisas boas e ruins. A política ambiental foi retomada depois da hecatombe bolsonarista. O sucateamento do SUS realizado pelo governo anterior foi estancado, com algumas novidades, como o uso inteligente da telemedicina como instrumento para combater as desigualdades territoriais. O MEC voltou a ter protagonismo, com diversos avanços importantes, com destaque para a política federativa de colaboração com os estados e municípios na alfabetização, com impacto no desempenho escolar já no presente quadriênio.

Diferenças na campanha eleitoral, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

A mera consciência partidária dos eleitores bolsonaristas de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder

No domingo dia 16, os partidos políticos começaram suas campanhas eleitorais de 2026. Mais do que a eleição para a presidência, as eleições para as duas casas do Congresso decidirão o destino político do país. A direita há décadas optou por aumentar sua representação nas duas casas e governar o Brasil indiretamente por meio do Legislativo, emparedando a Presidência da República. O poder político foi desfigurado pela concepção de que o Brasil tem um partido só, o de uma família.

A mera consciência partidária dos eleitores que a seguem de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder. O PT, em particular, caiu na armadilha. O que não deixou para a esquerda senão fazer política fora dos marcos do que é propriamente democracia direta e eleitoral.

Crise da Casas Bahia será arma eleitoral contra Lula, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Endividamento das famílias atingiu um recorde: 82% dos consumidores disseram ter alguma dívida

“Tá caro, tá caro, a culpa é do Bolsonaro!” foi um dos bordões da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022, que jogou no colo do presidente Jair Bolsonaro a responsabilidade pelos preços altos. Quatro anos depois, estrategistas do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmam que é hora de revidar. Mais do que corrupção ou segurança pública, a oposição concluiu que o tema central da campanha será o custo de vida, culpa de um governo perdulário.

É nesse contexto que a crise da Casas Bahia, uma das maiores e mais populares varejistas do país, será explorada pela campanha de Flávio como um espelho das famílias brasileiras. Na quarta-feira (19), o candidato do PL gravou um vídeo na porta de uma das lojas da empresa, que aguarda resposta de um pedido de recuperação judicial porque não conseguirá honrar as dívidas com os credores.

STF entrou na eleição e pode sair dela com menos poderes, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Tribunais constitucionais podem rever entendimentos, mas é preciso fundamentação consistente, estabilidade e respeito à segurança jurídica

Não é apenas a nossa política externa que está na berlinda eleitoral, diante da escalada tarifária contra os produtos brasileiros e das interferências dos Estados Unidos na política brasileira. O protagonismo do Supremo Tribunal Federal (STF) também entrou na campanha presidencial e pode converter a eleição de outubro num plebiscito informal sobre os limites do Judiciário. Não se trata apenas das propostas de impeachment, politicamente improváveis, mas na possibilidade de que decisões controversas e atitudes de alguns ministros fortaleçam uma agenda de mudanças constitucionais capazes de alterar o funcionamento da Corte.

Legados ao vento, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, é um erro morrer; assim que encerram o velório, o artista começa a ser esquecido

Tom Jobim, Cazuza, Cartola, Drummond, Guimarães Rosa e Clarice são das poucas exceções

Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.

Conto do vigário liberal, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Partido Missão se declara liberal, mas abraça posições iliberais

Credulidade da Faria Lima em relação à sigla é inquietante

Sempre que vejo "Faria Lima" como sujeito de título noticioso que não seja sobre trânsito, fico desconfiado. Utilizar o nome da avenida paulistana como metonímia para "mercado financeiro" é arriscado, entre outras razões porque o tal de mercado não é uno. Reúne desde operadores de day trade até operários que investem o dinheiro de seus fundos de pensão, sem mencionar a viúva aposentada e eventuais clones de Daniel Vorcaro.

Fuga de capital político traduz desagrado com Flávio Bolsonaro, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O centrão não quis se amarrar a Flávio Bolsonaro como talvez se amarrasse a Tarcísio de Freitas

Insatisfação também aparece nas ruas com esvaziamento e cancelamento de atos públicos

Flávio Bolsonaro (PL) sentiu o golpe da fuga de capital político com a neutralidade do centrão na cena eleitoral. Tanto sentiu que resolveu arrumar uma desculpa para a evasão, dizendo que ficaram na encolha por medo. Do quê ou de quem, o senador absteve-se de informar.

Receio mesmo pareceu ter ele de espaços vazios ao cancelar uma motociata em Juiz de Fora (MG) no dia seguinte ao modesto comparecimento de público em ato inaugural de campanha em Copacabana. A fotografia neutra retrata situação mais pragmática: o centrão não quis se amarrar ao candidato do PL como talvez se amarrasse a Tarcísio de Freitas (Republicanos) fosse ele o antagonista de Luiz Inácio da Silva (PT) na disputa presidencial.

Na eleição suja de 2026, neodireitas se testam e política adia problemas para 2030, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Campanha começa como se previa, sem ideias e discutida na polícia ou na Justiça

Pleito também é laboratório de líderes digitais para a sucessão de quem se aposenta

A campanha para presidente começou bem. Bem do jeito que se previa. Por ora, é caso de polícia: de questões judiciais, de tentativas de artimanhas judiciais e candidatura pirata. Em São Paulo, se batem direitas que vão disputar a cidade daqui a dois anos, prenúncio de projetos de renovação inevitável de métodos e lideranças políticas no caminho da aposentadoria. Isso tem algum efeito na campanha presidencial.

O inelegível Pablo Marçal, um dia candidato a prefeito de São Paulo, lançou-se a presidente com um truque que pode durar até o início de setembro, quando o TSE deve tirá-lo da disputa oficial. Por ora, essa pessoa apenas está sem acesso a recursos oficiais de campanha, mas terá uns 20 dias de mumunha eleitoral. A avacalhação não tem fim.

Lula precisa de adversário? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na guerra de lama entre os favoritos, Lulinha brilha, mas ‘Dark Horse’ não é ‘página virada’

Os três inquéritos da PF e o envolvimento de Lulinha no escândalo do INSS atingem em cheio Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente e candidato, e aprofundam as divisões do Supremo, jogam dúvidas sobre a PGR e aumentam a pressão sobre a Polícia Federal. De quebra, são um alívio para Flávio Bolsonaro. Com um filho desses, Lula precisa de adversários?

Lulinha é amigo de Roberta Luchsinger, que é amiga e fornecia empréstimos e joias para o Marcola, que é amigo de Lula e, como seu chefe de gabinete no Planalto, recebeu de Roberta uma minuta de contrato, “sem licitação”, para a venda de canabidiol ao governo. Pairando sobre todos, o Careca do INSS, cabeça de um dos maiores escândalos do País.

Estratégia diversionista, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ao discutir exigência de diploma, Moraes e Dino tentam mudar o rumo do debate e fugir das críticas

A estratégia vem sendo utilizada por alguns ministros do Supremo Tribunal Federal em diversas ocasiões. Quando são questionados sobre um ponto sensível, levantam “balões de ensaio” e tentam mudar o rumo do debate público e fugir das críticas.

É exatamente isso que vem sendo feito pelos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino no suposto embate entre o sigilo da fonte e a exigência de diploma para jornalista – só que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

O sigilo da fonte está na Constituição e foi violado no caso do blogueiro Luís Pablo, do Maranhão.

Tesouro dos EUA piscou, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou a recompra inesperada de seus títulos (treasuries) de longo prazo com o dobro de recursos, coisa de no mínimo US$ 4 bilhões, e divulgou a posição recorde da dívida pública do país, de US$ 40 trilhões, esta já mais ou menos prevista.

O mercado financeiro global foi tomado pela ansiedade. Os preços do ouro saltaram 2,82% num único dia, as cotações do dólar caíram, as Bolsas comemoraram e, como não podia deixar de ser, caiu a remuneração (yield) dos treasuries de longo prazo. Esta manobra do Tesouro diz muita coisa e terá consequências.

A recompra de US$ 4 bi em títulos cujo estoque soma US$ 40 tri é insignificante. Mais significante é a operação em si mesma e o que há por trás dela.

SP vê disputa que o Brasil adiou, por Vera Magalhães

O Globo

Recusa de Lula e Bolsonaro em passar o bastão para Haddad e Tarcísio transfere para o Estado debate sobre os principais temas nacionais

À medida que a campanha se desenrola, vai ficando claro quanto a disputa travada em São Paulo entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad tem mais consistência programática do que aquela de que Lula e Flávio Bolsonaro se escondem e representa o que deveria ser a discussão nacional, não fossem os desígnios em grande medida personalistas do próprio petista e do pai e mentor do senador do PL.

Todo mundo lembra a profusão de vezes em que Lula disse, em 2022, que não disputaria a reeleição e que aquela seria uma eleição de “transição”, cuja circunstância principal era preservar a democracia e derrotar o bolsonarismo. Boa parte do poder de atração que teve sobre o eleitor liberal que já tinha prometido nunca mais votar no PT residiu nesse canto da sereia.

A farsa de Pablo Marçal, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Coach subiu no picadeiro para ajudar Flávio Bolsonaro e promover seus próprios negócios; registro deve ser negado pelo TSE

A nova aventura de Pablo Marçal está com os dias contados. Inelegível até 2032, o coach registrou a candidatura a presidente nos últimos minutos do prazo. Conseguiu tumultuar a disputa, mas deve ser barrado pelo TSE.

Com milhões de seguidores nas redes sociais, Marçal tem a receita para bagunçar o coreto. Em seis dias de campanha, berrou palavrões, insultou jornalistas e chorou num podcast.

Ele reapareceu a bordo de um factoide: declarou R$ 7 bilhões em patrimônio. Depois de ganhar as manchetes, alegou erro ao preencher um formulário. Quem o conhece identificou mais uma pegadinha para causar polêmica e reforçar a imagem de novo rico.

Sigilo de fonte está ameaçado, por Pablo Ortellado

O Globo

STF fez esforço para proteger Dino da acusação de uso indevido de carro funcional

O ministro Alexandre de Moraes deu ordem de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Almeida, que publicou reportagem denunciando uso indevido de carro funcional pela família do ministro Flávio Dino para deslocamentos particulares, inclusive ir à praia. A apreensão do celular dele resultou na violação de seu sigilo de fonte. A medida foi condenada pelos três grandes jornais (O GLOBO, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo) e pelas principais associações jornalísticas.

A investigação contra Luís Pablo foi aberta a pedido do próprio ministro Dino e inicialmente sorteada para o ministro Cristiano Zanin, mas em seguida redistribuída para Alexandre de Moraes sob alegação de que tinha conexão com o inquérito das fake news. Ao autorizar a busca, Moraes registrou que a conduta seguia “modus operandi semelhante” ao da organização criminosa ali investigada — como se uma reportagem sobre carro funcional equivalesse a um ataque à Corte.

Poesia | Quando encontrar alguém , de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Dalva de Oliveira - Hino ao amor(Edith Piaf)