quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise no varejo reflete ambiente hostil de juros altos

Por O Globo

Recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz expõe danos da irresponsabilidade fiscal do governo

No último fim de semana, o Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabraz, dois dos nomes mais tradicionais do varejo brasileiro, entraram com pedido de recuperação judicial por não ter como arcar com o pagamento de dívidas. Há 986 varejistas na mesma situação, alta de 20,4% nos últimos 12 meses, de acordo com o monitor mantido pelas consultorias RGF e Bizdoc. Nos mais variados setores, há 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 233 bilhões de dívidas em atraso, pelos números da Serasa Experian — recorde na série histórica iniciada em 2016. O pano de fundo da crise de endividamento é a economia com juros reais entre os maiores do mundo.

Bombas contra a ABI e a imprensa que a linha-dura não calou, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar, contra a liberdade de imprensa, e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura

Há 50 anos, a bomba que explodiu na sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), em 19 de agosto de 1976, não tinha como alvo apenas o icônico Edifício Herbert Moses, na Rua Araújo Porto Alegre, 71, no Centro do Rio de Janeiro, simbolo do Modernismo brasileiro. Construído entre 1936 e 1938, e projetado pelos Irmãos Roberto, é uma joia da nossa arquitetura, com funcionalidade e plantas livres, além de uma fachada com quebra-sóis em venezianas de concreto para barrar o sol forte e pilotis sem portaria fechada na entrada.

O que houve foi um atentado terrorista da linha-dura do regime militar contra a liberdade de imprensa e uma advertência a todos os que ousavam questionar aquela ditadura. A explosão atingiu o sétimo andar do prédio da ABI, próximo à presidência da entidade, danificando salas, elevadores e outros pavimentos. Não houve feridos, mas os prejuízos foram estimados em cerca de 1 milhão de cruzeiros. Em panfleto deixado no local, a autodenominada Aliança Anticomunista Brasileira assumiu a autoria e acusou a associação de estar dominada por comunistas.

O conservadorismo empático da classe C, por Renato Meirelles

O Globo

A tia que é contra o aborto e acolheu a sobrinha; não é uma teoria política nem uma plataforma de campanha: é algo que está diante de nós há muito tempo

Vou chamá-la de dona Neusa. Não é uma pessoa. É a soma de muitas mulheres que conheci em 25 anos tentando aprender com o Brasil da maioria.

Ela tem 54 anos, trabalha como auxiliar de cozinha na Zona Leste de São Paulo e frequenta a mesma Assembleia de Deus há décadas. É contra o aborto. Fala isso sem levantar a voz, como quem está dizendo uma coisa sobre a qual nunca teve muita dúvida.

Há dois anos, uma sobrinha de 19 anos apareceu na casa dela depois de ter feito um aborto. Dona Neusa não perguntou muito. Fez chá, emprestou uma calça de moletom, ficou acordada até tarde. A menina chorou. Talvez de medo, culpa, alívio, cansaço. Talvez de tudo isso junto. Dona Neusa não tentou dar nome ao choro. E não contou a ninguém. Nem à irmã. Nem ao pastor.

Marketing político em transe, por Vera Magalhães

O Globo

Crises em várias campanhas mostram impasse em relação a uso de redes, financiamento e impacto da IA

Depois de alguns ciclos eleitorais em que ocupou as manchetes pela relação com escândalos de corrupção, o marketing político volta a movimentar o noticiário às vésperas do início da propaganda eleitoral na TV e no rádio, mas por outra razão: o intenso entra e sai de profissionais em várias campanhas, inclusive presidenciais.

A última troca se deu com a saída do publicitário Paulo Vasconcelos do comando do marketing de Ronaldo Caiado (PSD), anunciada nesta semana. O mesmo movimento já aconteceu, e duas vezes, na cozinha de Flávio Bolsonaro. E as conversas de bastidores dão conta de intensa disputa, com bateção de cabeça, também no Q.G. da campanha de Lula.

Flávio toca um disco velho, por Elio Gaspari

O Globo

2026 não é 2018

Começou uma campanha eleitoral imprevisível e com cheiro de mofo. Lula foi a São Bernardo para relembrar as greves históricas de 1979, e Flávio Bolsonaro retomou o discurso errático de seu pai.

A imprevisibilidade começa quando, segundo a última pesquisa da Quaest, a percentagem de entrevistados que desaprovam o governo (48%) é superior à dos que aprovam (46%). Na realidade, esses números refletem um empate, e esse equilíbrio se repete na liderança de Lula num eventual segundo turno: 43% x 40%. As entrelinhas dessa pesquisa não permitem saber com precisão para onde vão as preferências dos outros candidatos num eventual segundo turno.

O cheiro de mofo vem da escolha de Lula para iniciar a campanha onde começou sua vida pública, há 47 anos. Cheira a mofo a essência do discurso de Flávio em Copacabana, ecoando as falas do pai.

Deus no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidenciáveis usaram e abusaram do nome dEle ao lançar camapanhas

Deus não vota, mas foi arrastado para o centro da corrida presidencial. No domingo que abriu a disputa, os principais candidatos ao Planalto usaram e abusaram do nome dEle. Buscavam atrair o eleitorado religioso, cada vez mais visado pelas campanhas.

Em comício na Vila Euclides, o presidente invocou Deus nada menos do que 11 vezes. “Sou muito agradecido porque Deus sempre foi muito generoso comigo. Deus fez vocês, e vocês fizeram o Lula ser o que ele é”, disse, falando de si mesmo na terceira pessoa.

Em ato na Praia de Copacabana, Flávio Bolsonaro tentou atribuir sua candidatura a um desígnio divino. “Estou aqui com toda a humildade, aceitando essa missão que o presidente Bolsonaro me passou, porque eu tenho a convicção de que há um propósito de Deus para o nosso país”, discursou.

As idades do cronista, por Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo

Em meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança

É maravilhado, surpreso e assustado que, pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás, fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.

Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.

Adeus à pechincha na feira, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Movimento de queda nos preços dos alimentos deve perder força a partir deste mês

Aqueda nos preços dos alimentos em magnitude maior do que o mercado estimou nos meses de junho e julho foi um dos fatores que mais contribuíram para puxar para baixo a inflação corrente. Essa surpresa levou os investidores a precificar cortes de juros, endossando as últimas decisões do Copom, a despeito de expectativas inflacionárias de longo prazo ainda desancoradas e de elevadas incertezas nos cenários doméstico e externo.

Um pesadelo chamado Lulinha, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Os desdobramentos dos inquéritos envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, preocupam cada vez mais o comando da campanha do presidente Lula à reeleição. A equipe petista não sabe o que está por vir e, para se desviar da crise, aposta no crescimento das denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente, a partir do dia 28, quando começa a propaganda no rádio e na TV.

Nos bastidores da campanha de Lula há um clima de constrangimento e apreensão. “É dolorido para nós”, disse à coluna um dos principais auxiliares do presidente, sob a condição de anonimato. O discurso oficial é que todos serão investigados, “doa a quem doer”. Mas, como na política a melhor defesa sempre parece ser o ataque, a cobrança do governo e do PT se volta agora para o ministro do STF André Mendonça.

Putin e Trump empurram mundo para a bomba, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Ações de dirigentes mudam cálculos de países acerca da conveniência de ter armas nucleares

Proliferação aumenta chances de episódios de estresse como a crise dos mísseis de 1962

Eu sou muito novinho, mas a geração de meus pais viveu dias de pânico em outubro de 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, quando a perspectiva de enfrentamento nuclear entre EUA e URSS não apenas era real como pôde ser acompanhada de perto por jornais e rádio. Eu e meus coetâneos fomos poupados daqueles momentos de tensão, mas ainda crescemos num mundo sobre o qual pairava a ameaça de holocausto atômico.

PT atrela futuro à saudade do passado, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Aposta no culto à personalidade leva à conclusão de que Lula seja o único ativo disponível aos petistas

Trajetória de luta e superação não oferece as respostas necessárias ao enfrentamento dos desafios do país

Luiz Inácio da Silva mais uma vez, e como sempre, cultuou a si no primeiro ato oficial de uma campanha em moto contínuo desde que a anterior oficialmente terminou, em outubro de 2022. Lula, sem dúvida, é o principal ativo do PT; a insistência na exaltação da figura alimenta a suspeita de que seja o único.

O partido se propõe a comandar o país pela sexta vez em 24 anos e o que lhe ocorre fazer para convencer o eleitorado a aderir ao plano é apresentar um muito bem montado e produzido show de sessão nostalgia.

Janones desafia a esquerda a abandonar a 'campanha fofa', por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

Deputado defende usar contra a direita as mesmas armas da guerra digital

Conflito nas redes podem mobilizar militantes, mas não necessariamente conquistar novos eleitores

André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter "aceitado a missão", publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a "campanha fofa" e entrar na guerra digital "sem medo, sem pudor e sem remorso".

Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.

O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o "extermínio completo do bolsonarismo" e declarou-se pronto para "matar ou morrer". Depois, acusou seu campo de "treinar fofo", enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.

O Brasil da castração química não quer saber do diesel caro ou dos juros nos EUA, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Custo do dinheiro sobe nas economias do centro do mundo e isso deveria nos interessar

Preço do diesel em alta no mercado americano é mais uma febre que pode nos afetar

Em uma semana, o Brasil deve estar discutindo ideias brilhantes como castração química, "prendeu, matou", a lotação de prisões com adolescentes para alimentar tropas do PCC ou as maneiras pelas quais o governo federal vai impedir roubo de celular aí na sua calçada.

Vai começar a campanha eleitoral na TV; vai aumentar a torrente de mentiras e burrice nos grupos de zap e outras mídias atrozes. Ou melhor, apenas talvez as pessoas se ocupem disso já na semana que vem. Segundo marqueteiros políticos, está grande o desânimo de "nós, o povo", com a eleição.

Poesia | Horas de Saudade, de Castro Alves

 

Música | Elizeth Cardoso e Pery Ribeiro - Samba em Prelúdio (Baden Powell e Vinicius de Moraes)