sexta-feira, 11 de maio de 2012

Paris, reine du monde :: Fernando Gabeira

Paris, reine du monde / Paris c"est une blonde. Depois de tantas denúncias sobre as viagens de Sérgio Cabral e suas relações com o dono da Delta, Fernando Cavendish, tenho vontade de cantar.

De que adiantaram tantos argumentos racionais? Algumas imagens de uma única de cem viagens de Cabral ao exterior bastaram para convencer milhares de pessoas, antes indiferentes às denúncias, de que algo realmente singular acontece no Rio. Posso até parar de fazer sentido ou, então, buscar outro sentido na coleção de imagens que nos chegam de Paris. Cantarolando, cheguei à conclusão de que existe até uma loura na história.

Paris c"est une blonde. Na festa da cúpula do governo Cabral, a loura estava lá, corpo atlético e imenso decote nas costas tatuadas. Ela aparece dançando com Cavendish: ele está levemente inclinado e as costas da loura dominam o quadro. Não consegui decifrar a tatuagem. Uma borboleta, talvez. Um fragmento da imagem mostra um microfone, sugerindo que alguém canta, talvez a loura faça parte do show. Ela reaparece em outra foto, diante do grupo com guardanapos na cabeça, e mobiliza com sua presença toda a energia masculina.

Seria uma Joana d"Arc moderna? Estariam os homens com guardanapo na cabeça, alinhados piratas, saudando a heroína e prometendo guerra à pérfida Albion? Duvido. Nem o pós-modernismo seria capaz de criar uma Joana d"Arc tão animada nem os piratas de linho branco estariam preocupados com a sorte da França.

Há um momento, dizia o poeta, em que todos os bares se fecham e todas as virtudes se negam. No caso deles, não se trata de uma conjunção fortuita em certo instante da madrugada. Primeiro, eles fecham os bares, depois, então, é que negam todas as virtudes.

"Let"s win some money", diz Cavendish nessa mistura de inglês e português nascida do florescente turismo brasileiro no exterior. Ele disse a frase quando uma das festas estava no fim. O bar, no caso, o Salão Luís XV, do restaurante de Mônaco parecia fechado para eles. Se tivesse de escrever os gritos dos piratas de linho branco, colocaria só esta frase, tal como foi dita: Let"s win some money. Eles saudariam a loura como se fosse um bezerro de ouro.

Let"s win some money é o lema de um partido que se formou dentro e fora do governo, ao mesmo tempo que surgia uma nova classe C no País. As quatro mulheres exibindo belos sapatos com sola vermelha de Christian Louboutin não podiam só estar na rua diante de um fotógrafo. Elas são o coro ideal para o grito dos piratas. A cena ficaria assim: eles, avançando pelas mesas de um restaurante vazio, gritariam: "Let"s win some money". E elas ergueriam os sapatos em passos de can-can.

Se quisermos falar a verdade na ficção, precisamos tomar certas liberdades. Por exemplo, a sola do sapato da mulher do secretário de Saúde devia ter só uma cruz vermelha sobre fundo branco. Isso daria um toque social à festa. "Estamos no melhor Alain Ducasse do mundo", segundo Cabral. "Melhor que os EUA, melhor que o..." A voz dele vai sumindo. Não sabemos qual é o terceiro. Só sabemos que no melhor Alain Ducasse do mundo ele marca o casamento de Cavendish e espera a meia-noite para celebrar o aniversário de sua mulher, próspera advogado de concessionárias do governo.

"O casamento tem de ser no sábado. É festa", diz Cavendish. "Podemos ir para Mangaratiba ou Itaipava", sugere a mulher de Cabral. Nesse ponto é necessário um corte para quatro mansões de Mangaratiba, espaço paradisíaco que a primeira-dama visita com filhos e babá num helicóptero do governo. Ali três piratas de linho branco têm casas ao lado de Cabral: Cavendish, Sérgio Côrtes e George Sadala. O quarteto de Mangaratiba é apenas uma linha de roteiro: a história de cada um e como se entrelaçam os destinos no melhor Alain Ducasse do mundo.

"Abra essa boca", diz Cabral à mulher de Cavendish no momento em que selam a data do casamento. Cabral sabe que há modo de beijar não beijando, como os atores. Mas quer a realidade molhada de um beijo real. Para quê? Se imaginasse que a imagem cairia nas mãos de Garotinho, passaria mal e, com o perdão do melhor Alain Ducasse do mundo, os guardanapos teriam outro uso. A cena só seria possível quando recebesse a notícia, anos depois, no segundo Alain Ducasse, ou no terceiro, quem sabe. Garotinho divulgou as imagens num fim de semana.

Não se despreze a contribuição dos coadjuvantes. Quando Cavendish propõe "let"s win some money", uma voz feminina, quase imperceptível, responde: "Só se for muito, porque dá trabalho". É uma boa frase. Se considera que dá muito trabalho ganhar dinheiro em cassino, o que pensará de quem trabalha oito horas por dia e sofre quatro horas se deslocando nas grandes cidades? A frase não tem a mesma força do "então, comam brioches" de Maria Antonieta. É mais ou menos assim: então, comprem um helicóptero.

Let"s win some money não é um slogan qualquer. É um estado de espírito que anima estes anos no Brasil. No melhor Alain Ducasse do mundo jantavam alguns personagens do maior plano de infraestrutura do mundo, o PAC. Na boca de Cavendish, que aparece numa gravação dizendo que compra políticos de acordo com a necessidade de seus negócios, ele soa diferente. E se complementa assim: Let"win some money para comprar políticos que compram vinhos, fecham restaurantes e usam sapatos Louboutin.

O livro de Alain Riding Paris, a Festa Continuou é um relato minucioso de como a cultura francesa sobreviveu à invasão alemã e conviveu com os ocupantes. Um dos sonhos dos nazistas era tornar a cultura francesa irrelevante e, na definição dos Goebbels, dominada pelo kitsch. Para o quarteto de Mangaratiba, a luta continua. Em Mangaratiba embarcavam os resistentes, algemados no porão, rumo ao presídio da Ilha Grande. Nise da Silveira e Graciliano Ramos passaram por lá, em outras épocas. Como o Brasil mudou! Que tal defini-lo com a frase de um coadjuvante do jantar, referindo-se ao restaurante: "Pô, isso é um upgrading"?

Esses fantasmas tropicais não surgiram por acaso no Salão Luís XV. Eles falam uma nova língua, encarnam um novo tempo.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Os cofres públicos:: Merval Pereira

Até parece que o deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio, estava adivinhando quando, antes mesmo de a CPI começar formalmente seus trabalhos, anunciou que um dos seus objetivos principais deveria ser a garantia de que o dinheiro eventualmente desviado dos cofres públicos fosse devolvido. Por isso, encaminhou proposta de indisponibilidade dos bens de pessoas e empresas suspeitas de envolvimento no escândalo.

Num país em que o dinheiro roubado dos cofres públicos quase nunca é restituído, essa seria uma decisão fundamental da CPI. Segundo dados oficiais da Controladoria Geral da União (CGU), do total de recursos desviados em casos de corrupção na esfera federal em 2011, só 15,39% foram recuperados, num total de R$ 2,14 bilhões. A meta para este ano é aumentar para 25% essa restituição.

A lista de Miro incluía o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o senador Demóstenes Torres, o empresário Fernando Cavendish, dono da construtora Delta, e empresas-fantasmas ligadas à empreiteira identificadas nas investigações da Polícia Federal.

Com o anúncio da venda da empreiteira para uma empresa de outro ramo de negócio que tem o BNDES como sócio - a J&F Participações é uma holding que controla a empresa de alimentos JBS, a de higiene e limpeza Flora, a de papel e celulose Eldorado Brasil e o banco Original -, Miro pediu imediatamente ao Ministério Público Federal providências para impedir a venda, com o objetivo de garantir que, em caso de condenação por corrupção, o dinheiro possa ser restituído.

Para tanto, pediu que fossem relacionados e tornados indisponíveis todos os bens da empreiteira, para evitar "essencialmente que bandidos encontrem no crime uma atividade lucrativa e vantajosa".

O procurador regional da República Nívio de Freitas Silva Filho requereu a abertura de inquérito civil público para apurar possíveis irregularidades na venda da construtora Delta ao grupo J&F, e o pedido será analisado pela área de Patrimônio Público, que pode estar sendo afetado já que o BNDES, um banco público, tem 30% da empresa.

O temor é que a venda faça parte da desconstrução da empreiteira que estava em curso desde que a CPI foi instalada, com o objetivo de tentar fazer com que ela desaparecesse do noticiário e, pelo visto, da vida real também.

A Delta já saíra das obras do Maracanã e das obras da Petrobras, como que para se desligar dos governos estadual do Rio e federal, em que, ao final de 2011, era a principal fornecedora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com contratos avaliados em mais de R$ 2 bilhões.

A prisão de seu diretor para o Centro-Oeste, Cláudio Abreu, fez com que o relator da CPI quisesse restringir as investigações da empreiteira àquela região do país, e, mesmo depois das evidências de que essa atitude fora rejeitada pela CPI, ele insiste em começar as investigações sobre a empreiteira pelo diretor preso.

Como o próprio deputado Miro Teixeira disse na abertura dos trabalhos, quando se discutia a organização dos depoimentos, "réu preso tem preferência". O que não quer dizer que o empreiteiro Fernando Cavendish não tenha necessariamente que ser ouvido, ainda mais agora, depois do anúncio da venda em tempo recorde.

A CPI terá condições de investigar qual a verdadeira relação do bicheiro Carlinhos Cachoeira com a empreiteira, pois a promiscuidade dos negócios de ambos sugere que Cachoeira tem mais a ver com a Delta do que os documentos demonstram.

As transferências de dinheiro da Delta para empresas do bicheiro estão sendo também investigadas, depois dos depoimentos dos delegados da Polícia Federal que atuaram nas operações Vegas e Monte Carlo.

"Se a Delta fez transações com empresas-fantasmas, se envolveu em negócios escusos, como é que a solução é vendê-la? Eles metem o dinheiro no bolso?", questiona o deputado Miro Teixeira, que pediu ao MPF o cancelamento do negócio como "medida assecuratória".

Tenho me referido aqui na coluna ao fato de que os que pretendem convocar o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para depor na CPI o fazem por causa da denúncia do mensalão, mas essa referência genérica leva a um entendimento incorreto sobre o autor da denúncia do mensalão, que foi seu antecessor, o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza.

Gurgel foi o autor das alegações finais do caso do mensalão, já em 2011, e terá, por decisão do plenário do Supremo, cinco horas para fazer a acusação no julgamento.

As alegações finais, também ato processual como a denúncia, são uma manifestação das partes sobre a procedência ou improcedência da acusação estampada na denúncia, e devem se limitar aos fatos narrados na denúncia, às provas coligidas na instrução criminal, questões processuais e pedido de condenação ou absolvição.

As alegações finais do MP não podem acrescentar um milímetro à denúncia, qualquer modificação só é possível através de um aditamento à denúncia.

Foi o que o então procurador-geral Antonio Rangel fez retirando do rol dos acusados o ex-ministro Gushiken, por falta de provas, mantendo todas as demais acusações.

A Comissão da Verdade anunciada ontem pelo Palácio do Planalto tem uma composição à altura da responsabilidade da sua missão, que é a de revelar detalhes históricos que foram sonegados ao cidadão brasileiro pela falta de transparência característica das ditaduras e geralmente por força da censura à imprensa.

O mesmo governo que criou a Comissão da Verdade não pode, portanto, ser responsável pela tentativa de cercear a liberdade de expressão com o projeto de um suposto "controle social da mídia", que não passa de uma tentativa de censura que não tem a coragem de assumir a intenção.

FONTE: O GLOBO

Brancaleone:: Dora Kramer

Com o exímio diretor de cena João Santana ocupado em burilar a imagem da presidente Dilma Rousseff à semelhança do gosto popular e Lula temporariamente afastado do papel de catalisador de todas as atenções, o PT ficou desguarnecido.

Sem anteparos, desprovido de figurinos elegantes e de roteiro adaptado, deixou de lado o modelo moderado. Joga como veio ao mundo e, explícito, tem feito uma bobagem atrás da outra.

Rui Falcão na presidência do partido é apontado como o responsável pelos trabalhos, no bastidor, reconhecidamente atrapalhados. Não deixa de ser uma injustiça, por meia verdade.

Não foi (só) ele quem andou espalhando que a ideia de montar uma CPMI a partir da Operação Monte Carlo teve origem no intuito do ex-presidente Lula de se vingar de adversários envolvidos nas denúncias e socializar prejuízos políticos decorrentes do julgamento do mensalão.

Foram parlamentares e ministros do partido. Emergiu desses personagens também a versão de que a revista Veja seria "sócia" do esquema criminoso de Carlos Augusto Ramos, vulgo Cachoeira, na conspiração para derrubar ministros.

Apressados, nem notaram a tolice: Dilma os demitiu. Então, se maquinação houve, a presidente esteve a ela associada.

Rui Falcão assume as operações atabalhoadas um pouco depois, quando faz convocação pública à "sociedade e movimentos sociais" no apoio à CPMI para "desmascarar" os autores da "farsa do mensalão".

Entre os quais não se incluíam José Dirceu e companhia, que levaram a imagem do PT à lama, mas a imprensa, parlamentares que atuaram na CPI dos Correios e ministros do Supremo Tribunal Federal cujos votos foram especialmente rigorosos na aceitação da denúncia.

Aquilo que era para ser executado na sombra veio à luz. Não satisfeito, Falcão fez-se porta-voz do propósito de se aproveitar do momento para "enfrentar o poder da mídia que contrasta com nosso governo desde a subida de Lula". Isso era dito aos sussurros por petistas que asseguravam ter o apoio de parlamentares de outros partidos "loucos para pegar a Veja".

Agora, a pressão sobre o procurador Roberto Gurgel que era apenas insinuada, gestada nos atos dos integrantes da CPMI, tornou-se explícita porque Gurgel reagiu apontando claramente a existência de uma ofensiva urdida por quem deve e por isso teme: os réus do mensalão.

Ficou tudo às claras, restando aos feiticeiros buscarem a cada lance um jeito de não ser atingidos pelos efeitos do feitiço.

Indisposição. Um detalhe na pesquisa Ibope sobre a Prefeitura de São Paulo chama atenção. Dos 11 candidatos citados, só um não tem índice de rejeição superior ao porcentual de aprovação.

Por ordem de preferência a escala é a seguinte: José Serra tem 31% de votos positivos, mas 35% dizem que não votariam nele de jeito nenhum; Celso Russomanno é exceção, mas quase empata com 16% de aceitação e 13% de rejeição; Netinho recebe 8% dos "sim", mas é campeão do "não", com 38%.

Soninha Francine é escolhida por 7% e rejeitada por 17%; Gabriel Chalita tem 6% das preferências e 11% das opiniões negativas; 5% escolhem Paulinho da Força e 18% o repudiam; Fernando Haddad atrai 3% de simpatia e 12% de antipatia.

Os lanternas são Carlos Giannazi, Luiz Flávio D"Urso, com 1% cada, e Levy Fidelix sem nada, zero. No quesito rejeição dos dois primeiros recebem respectivamente 9% e 11% e o último vai a 19%.

Perna curta. O pedido – negado pelo ministro relator Joaquim Barbosa – da defesa para desdobrar o processo do mensalão a fim de que 35 dos 38 acusados fossem julgados em tribunal de primeira instância e não do Supremo Tribunal Federal, era clara manobra de procrastinação.

Um dos beneficiados pela volta à estaca zero seria o deputado cassado José Dirceu, justamente o réu que proclama o desejo de ser julgado o mais rápido possível.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A delação, o prêmio e a notícia:: Maria Cristina Fernandes

Jornalismo fiteiro, na definição que lhe deu Alberto Dines, é aquele que faz uso de grampos para propagar denúncias.

As fitas se transformaram em arquivos digitais em torno dos quais prospera um verdejante mercado de arapongas que compete com os especialistas em vazamentos editados da polícia federal.

As denúncias que vieram à tona vitimaram governos de diversas colorações partidárias.

A ética do jornalista é a mesma do bom gandula

Os grampos do BNDES jogaram uma cortina de fumaça sobre as privatizações do governo tucano, os vídeos com maços de dinheiro no Distrito Federal derrubaram o mais importante governo que o DEM já elegera e o flagrante de Waldomiro Diniz negociando propina detonou o cargo de seu chefe José Dirceu e abriu a caixa de pandora do mensalão petista.

Os grampos dão mais credibilidade às denúncias mas, na maioria das vezes, as reportagens deles resultantes deixam de fuçar os interesses de quem fornece as gravações.

O que vem à tona com a investigação dos malfeitos de Carlos Cachoeira nada mais é do que a rede clandestina de poder que o contraventor goiano, deixado à sombra desde que detonou Waldomiro Diniz, foi capaz de expandir com o apoio de empreiteiras, policiais, juízes, parlamentares, governadores e prepostos bem posicionados na máquina federal.

Passaram-se sete anos desde que Cachoeira ganhou notoriedade. Ao longo desse tempo a imprensa - com exceções como o jornal "O Popular" de Goiânia - pouco se ocupou dos negócios do "empresário" no poder.

No relatório em que pede a cassação do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), o senador Humberto Costa (PT-PE), desfia um conjunto de pautas desprezadas ao longo desse tempo.

Ao levantar os discursos, a conduta na presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e os requerimentos de informação ao governo feitos pelo senador goiano ao longo de seus dois mandatos no Senado, Humberto Costa mostrou todas as digitais de seu colega de Casa na defesa do jogo do bicho e dos negócios escusos patrocinados por Cachoeira à sombra do poder.

Isso não diminui o jornalismo tupiniquim. Acontece com os melhores do mundo.

Ao longo das últimas décadas o Watergate foi reverenciado como o marco de um jornalismo que, sabendo extrair informações de uma fonte secreta cultuada como um herói no seu patriotismo anônimo, foi capaz de derrubar um presidente.

No livro lançado nos Estados Unidos este ano "Leak: Why Mark Felt Became Deep Throat" ("Vazamento: Por que Mark Felt virou Garganta Profunda"), o jornalista Max Hollande revela que a fonte dos jornalistas, um ex-agente do FBI, tinha como principal interesse, na verdade, tomar o lugar do número 1 da instituição.

Passaram-se 40 anos até que alguém tenha se interessado em ir atrás das verdadeiras motivações do "Garganta Profunda", como Mark Felt era nominado pelos jornalistas a quem municiou.

O jornalismo tupiniquim até que foi mais rápido. Talvez por que as ambições da dupla Cachoeira-Demóstenes ultrapassem muito as de Felt.

Mas assim como as motivações do Garganta Profunda não são suficientes para reabilitar Nixon, os interesses que moveram Cachoeira sete anos atrás não invalidam a importância de se levar a cabo, com a severidade que o momento exige, o julgamento do mensalão.

Lá e cá, é de omissão, portanto, que se trata. Jornalista pode, sim, ter bandido como fonte. Até a justiça inventou um jeito para isso com a criação da delação premiada. O jornalista aceita informação de bandido na expectativa de pegar um outro maior. A questão é até onde se pode omitir os malfeitos da fonte. Tudo poderia ser resumido a uma questão de custo e benefício não fosse o interesse público.

O jornalismo melhoraria se se dispusesse a debater essa omissão. Se a militância é pelo interesse público, não há alternativa à transparência. O que o jornalista sabe e pode sustentar deve ser publicado. Não deve ser objeto de depoimento em CPI ou Conselho de Ética nem contra nem a favor de fonte.

A tentativa de alguns parlamentares petistas em tratar omissão jornalística como crime revela uma sede de vingança fora de tempo e de lugar, imprópria na forma e no conteúdo.

Foi-se o tempo em que a grande imprensa podia ser considerada a culpada de todos os males. A informação nunca circulou tão livremente. A CPI do Cachoeira é resultado desta liberdade. Qualquer um é livre para exorcizar na internet suas pendengas com antigos patrões, mas não deve reivindicar-lhes legitimidade para o debate público.

O PT é um partido vitorioso. É o único da história a se eleger pelo voto universal direto para três mandatos consecutivos na Presidência da República. Teve oportunidade de fazer sua depuração interna depois do mensalão e não foi adiante. Tivesse ido, seria capaz de aguardar com mais serenidade o julgamento de alguns dos seus pelo Supremo.

A agressividade petista também pode revelar um mal-estar com o norte deste governo. A popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff deriva, em parte, de sua atitude frente às denúncias trazidas pela imprensa que hoje seu partido critica.

Como a livre informação nunca é sócia de poder algum, ainda está para ser contada a história de como o caso Cachoeira mobilizou tantos poderosos da era petista - desde o principal estrategista de defesa no mensalão que hoje atua como advogado de Carlos Cachoeira, até o ex-presidente do Banco Central que assumiu a negociação da compra da Delta por um dos grupos mais beneficiados pelo BNDES.

Não cai mais ministro depois que prenderam Cachoeira. Enquanto estava fora das grades, ganhou manchetes. Agora chegou, de fato, a hora da delação premiada. A questão agora é descobrir quem, além de Cachoeira, ganhará com isso. E que à imprensa, recomenda um jornalista com quase 60 anos de militância, reste a ética do bom gandula: não ajeitar a bola só para o jogador do time de sua preferência cobrar

FONTE: VALOR ECONÔMICO

CPI em evolução:: Hélio Schwartsman

Se Franz Kafka (1883-1924) inovou a literatura ao fazer com que seu personagem Joseph K. enfrentasse um processo judicial sem nem mesmo saber do que era acusado, a CPI do Cachoeira revolucionou os princípios da investigação, ao criar uma situação em que os próprios investigadores não têm acesso às evidências que devem analisar.

Por mais bizarro que seja o resultado, ele tem uma explicação coerente. Essa e outras incongruências da CPI decorrem do fato de ela ter-se convertido numa arena em que duas lógicas opostas estão em disputa.

A melhor analogia vem da biologia. No nível da seleção de grupo, não interessa a nenhum dos grandes partidos uma apuração muito completa. O ideal mesmo seria encontrar meia dúzia de bodes expiatórios -de preferência, não dos mais graúdos- e sacrificá-los o quanto antes.

O problema com a seleção de grupo é que ela não é lá muito estável. É sempre possível encontrar entre os membros das comunidades um ou mais indivíduos particulares para os quais trair os interesses coletivos pode trazer significativas vantagens adaptativas. Seria o caso de um parlamentar que pretenda reeleger-se como paladino da CPI ou de alguém que, para safar-se de uma encrenca jurídica ou apenas evitar um dano maior à imagem, esteja disposto a romper com a lógica gregária.

A própria CPI só teve início porque as denúncias contra o senador Demóstenes Torres pareceram ao ex-presidente Lula e a alguns dos réus no mensalão uma ocasião propícia para ampliar sua aptidão inclusiva.

Para a maioria dos cidadãos que não fazemos parte de nenhum dos partidos e grupos metidos na disputa, resta torcer para que interesses individuais prevaleçam e as forças que atuam para limitar a CPI sejam derrotadas. Excluídos cenários extremos e bastante improváveis em que a governabilidade e as próprias instituições se veriam ameaçadas, quanto mais sujeira vier à tona, melhor.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Democracia e corrupção:: Marina Silva

O povo brasileiro vê mais um escândalo de corrupção e já não sabe o que sente, se indignação ou fastio. Muitos já não têm esperanças de que esse triste e repetitivo espetáculo um dia termine.

Desta vez, as informações divulgadas -a famosa pontinha do iceberg- nos dão uma visão estarrecedora: algumas das instituições mais importantes do país e até partes da sociedade estão permeadas por relações ilegais, dinheiro ilícito, tráfico de influência e até sequestro e extorsão.

Nos comentários, aqui e ali despontam expressões como "máfia" e "Cosa Nostra", representando um poder criminoso oculto incrustado em parte da própria estrutura do Estado e da sociedade.

É como se as estantes da sala ostentassem livros e objetos de fina arte intactos apenas em sua aparência, mas corroídos, desde as paredes, por traças e cupins. O Congresso, ministérios, governos estaduais, tribunais, polícia, empresas e até parte da imprensa dão sinais de infiltração e contaminação.

A democracia brasileira, que custou tanto esforço e sacrifício, é usada pelos operadores de tais esquemas como verniz para manter as aparências. E o mais preocupante é que o próprio processo de descoberta, investigação e punição do crime parece destinado a administrar o mal em vez de erradicá-lo.

A Comissão Parlamentar de Inquérito sobe ao palco para representar uma disputa política que, num ano eleitoral, estende-se pelas metrópoles e pelo interior levantando novas vestais e derrubando novos vilões, mas tudo rápido e passageiro, pois os grandes partidos -da situação e da oposição- estão envolvidos e, no próximo ano ou na próxima eleição, teremos outra montagem.

Velhos atores paramentam-se para novos papéis, trocam de lugar -acusadores passam a ser acusados- e acrescentam mais uma peça a seus currículos. Uma ópera-bufa, uma comédia de terror.

Não podemos perder as esperanças de que tudo isso resulte em avanços e aperfeiçoamento dos processos, de que as instituições corrijam e, sobretudo, previnam os sistemas de corrupção. Mas isso só será possível se pararmos de tratar a corrupção como se fosse um problema do governo que está de plantão, e passarmos a tratá-la como um problema a ser determinadamente enfrentado por todos os cidadãos e cidadãs de nossa nação.

Foi assim que reconquistamos nossa democracia e, em que pese os muitos aprendizes de feiticeiro, estabilizamos nossa economia, bem como diminuímos os índices inaceitáveis de pobreza, que por si só constituíam a maior denúncia do modelo concentrador e excludente de nossa economia.

É essa força da sociedade que nos livra de criarmos uma geração inteira sob o signo da conivência e da acomodação.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Sinais de desarrumação:: Celso Ming

Há algumas semanas a economia brasileira vem passando certos sinais de desarrumação.

Não dá mais, por exemplo, para continuar afirmando que a inflação não é problema. O avanço do IPCA de abril, de nada menos que 0,64% (foi de 0,21% em março), e, mais do que isso, o nível de difusão dessa alta (63%) mostram que ela não pode ser atribuída apenas à estocada dos preços dos cigarros - como sugeriu ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A primeira prévia do IGP-M de maio também apontou uma guinada forte dos preços no atacado (de 1,15%). E, como o atacado de hoje tende a ser o varejo de amanhã, em consequência desse fator alguma inflação adicional está encomendada.

A força das remarcações no atacado, por sua vez, reflete em alguma medida a escalada das cotações do dólar no câmbio interno, de 6,5% nas últimas cinco semanas, induzidas por ação do Banco Central.

A ânsia por puxar pela desvalorização do real parece ter impedido o governo Dilma de entender que, nos dois últimos anos, a indústria ficou muito mais dependente das importações. Para enfrentar custos crescentes dos fatores de produção, sobretudo da mão de obra, o setor industrial recorreu mais pesadamente às importações de matérias-primas, insumos, peças e conjuntos. A alta do dólar no câmbio interno criou um custo adicional de produção que está sendo repassado quase automaticamente para os preços finais.

Essa nova alta de preços vai sendo desenhada num ambiente em que o consumo cresce entre 5% e 6% ao ano sem contrapartida da atividade econômica, que vai ficando para trás.

Por falar nisso, a presidente Dilma enfrenta agora a perspectiva de não poder entregar, pelo segundo ano consecutivo, o crescimento econômico anual prometido, desta vez entre 4,0% e 4,5%. O discurso oficial ainda conta com essas projeções. Mas o mercado, consultado semanalmente pelo Banco Central por meio de sua Pesquisa Focus (que atinge cerca de 100 instituições), já trabalha com crescimento do PIB para 2012 de só 3,2%. Mas um punhado de analistas passou a projetar números inferiores a 3,0%. O mau desempenho da indústria, reafirmado por um punhado de estatísticas de origens diversas, parece confirmar essa percepção.

Em outras palavras, o comportamento insatisfatório do setor produtivo vai mostrando os limites da atual política econômica voluntarista da presidente Dilma, construída com sucessão de puxadinhos e expedientes improvisados. Parece mais difícil agora esticar a alta do dólar e derrubar os juros para elevar a competitividade da indústria.

Essa desarrumação foi ontem enfaticamente desmentida pelo ministro Guido Mantega. Mas está cada vez mais difícil confiar nas declarações dele, ultimamente contrariadas pelos fatos. O último objeto dos reiterados desmentidos do ministro foram as mudanças nas cadernetas. Mantega argumentava que não havia o que alterar nas regras das cadernetas, porque não detectara migração significativa de aplicações dos fundos de renda fixa para elas. Agora, insiste em que a alta do dólar no câmbio interno não provoca inflação relevante. Tomara que o ministro esteja certo e que, no final deste ano, possa comemorar um crescimento do PIB de ao menos 4,5%.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Novos elementos:: Míriam Leitão

O sistema de metas de inflação mudou, na visão do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Ele acha que a crise fortaleceu o sistema de metas, tanto que este ano os Estados Unidos e o Japão adotaram o modelo explicitamente. Ao mesmo tempo, mudou a interpretação de como ele deve funcionar. "A estabilidade de preços é condição necessária mas não é condição suficiente", diz o presidente do BC.

Tombini falou isso no seminário de ontem do Sistema de Metas de Inflação, um encontro que acontece anualmente no Rio e que reúne a diretoria do BC e economistas de bancos, empresas e consultorias. Na visão dele, é preciso que o Banco Central também garanta a estabilidade financeira. A crise nos países desenvolvidos explodiu depois de longo tempo de inflação baixa, crescimento econômico pouco volátil e juros baixos. Segundo Tombini, isso pode ter levado os agentes econômicos a assumir riscos excessivos.

Essa reflexão ele fez num momento em que há muita dúvida sobre se o Banco Central atual tem autonomia para elevar os juros se necessário for. Uma coisa, certamente, não mudou: a inflação continua desafiadora. Quem duvida deve olhar o gráfico abaixo: ele mostra que produtos afetados pelo dólar, os bens duráveis, ajudaram a puxar o índice para baixo. Estão em deflação de 2,65%. Os serviços, que são preços que não sofrem concorrência externa nem são afetados pelo dólar, estão em alta de 8%.

O governo se esforçou para que o dólar subisse - com imposto à entrada de capital e restrição às importações - e a moeda americana teve alta de 7% nos últimos 30 dias. Isso significa que os produtos impactados pelo moeda americana podem ficar mais caros agora.

A alta do dólar e um possível reajuste no preço da gasolina tornam mais difícil para o presidente do BC cumprir o que promete desde o início de seu mandato, que é levar a inflação para o centro da meta no fim de 2012. A inflação no Brasil está em torno de 5%, com perigo de aumentar mais no segundo semestre. A meta é 4,5%. Nos Estados Unidos, a meta é 2%. No Japão, 1%. Na Europa, 2%.

Aqui, no ano passado, o Banco Central comemorou quando ela fechou em 6,5%. Faltam vários umbrais a cruzar no caminho da estabilização no Brasil. A meta tem que ser mais baixa e o BC não pode confundir teto com centro. Se o país quiser mesmo ter juros de primeiro mundo precisa também querer ter inflação de primeiro mundo.

Alguns analistas acreditam que será interrompida a sequência de quedas que levou o IPCA em 12 meses, de 7,3%, em setembro do ano passado, para 5,1%, em abril. Se o IPCA de maio vier acima de 0,47%, o índice em 12 meses voltará a subir.

- A inflação não deve cair abaixo de 5% ao longo deste ano e por dois motivos: a valorização do dólar, que encarece os produtos comercializáveis, e também por questões de safras agrícolas - disse o economista Roberto Padovani, da Votorantim Corretora.

O que mais impressiona é isso acontecer apesar de o nível de atividade estar fraco. O PIB do primeiro trimestre deste ano, que só será divulgado no início de junho, não será muito melhor que os dois anteriores. O economista José Márcio Camargo, da Opus Gestão de Recursos, prevê PIB de 2,8% este ano com inflação de 5%.

- A indústria está fraca há quatro trimestres, e isso vai manter o PIB baixo. Mesmo com a queda dos juros não houve recuperação porque não estamos com problema de demanda, mas sim com um problema de competitividade e produtividade da indústria - disse José Márcio Camargo.

Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, acha que a economia cresce pouco pelo impacto da inadimplência, por estoques elevados da indústria e pelas restrições da Argentina aos produtos brasileiros, que afetaram empresas exportadoras no país.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, deixou claro o que todo mundo já tinha notado: mudou a forma de o BC se comunicar. Ele será mais direto ao falar com o mercado. Quanto mais transparência, melhor. O que preocupa é a sensação de que o BC procura novas interpretações para esconder o fato de que é mais leniente com a inflação.

- O Dionísio Dias Carneiro tinha uma frase que dizia: o BC deve ser o primeiro dos pessimistas e o último dos otimistas. Nosso Banco Central atual é o contrário disso. Ele gosta de tomar mais risco. Isso significa aumentar o risco da economia como um todo - disse a economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria.

FONTE: O GLOBO

Teoria & prática do BC do Brasil:: Vinícius Torres Freire

Presidente do BC explica em discurso por que e como mudou o modo de lidar com inflação e juros no Brasil

A direção do Banco Central do Brasil tem sido muito criticada pela maioria do "mercado". Por quê?

1) Porque mudou a política vigente de 1999 (início do regime de metas de inflação) a 2010, por aí;

2) Tolera inflação alta por mais tempo do que gestões anteriores;

3) Não se antecipa a altas da inflação esperadas pelo mercado; corre o risco do descontrole de preços;

4) Usa instrumentos "exóticos" a fim de reduzir a taxa de inflação;

5) Comunica suas intenções e políticas de maneira confusa.

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, respondeu indiretamente a várias dessas críticas. Foi no discurso com que abriu ontem, no Rio, o 14º Seminário Anual de Metas para a Inflação.

Tombini fez uma síntese sumária das novas teoria & prática do BC brasileiro, justificadas em parte pelas mudanças na compreensão do que seja estabilidade financeira e econômica no pós-crise de 2008.

Para resumir, e muito, a conversa, Tombini diz que os BCs têm de ser muito mais cuidadosos no controle de exageros dos mercados em períodos de bonança e estabilidade de preços, excessos que causam bolhas e colapsos catastróficos.

Parece óbvio, mas não era assim que a elite do mundo pensou entre, digamos, 1990 e 2008, pelo menos.

Mas ressalta que a atuação "prudencial" têm também efeitos macroeconômicos: sobre crédito e, pois, preços e ritmo da economia.

Não seria possível, assim, calibrar o nível de juros sem levar em conta o efeito de medidas administrativas de contenção de excessos de crédito e similares (e vice-versa).

O BC leva isso em consideração nos seus processos decisórios.

Ou seja, é possível ter juros menores se foram implementadas medidas "prudenciais" que têm também o efeito de esfriar a economia.

Mais: não é possível tomar decisões sobre juros ou limites de risco e crédito sem também considerar a política fiscal (gastos do governo).

Não se trata de novidade teórica, mas de repensar a prática do BC considerando em detalhe as relações entre medidas "prudenciais", juros e variação do gasto público.

O BC tem sido criticado ainda por variar muito e em pouco tempo os sinais que dá sobre futuras altas e baixas de juros. Entre considerações sobre o tema da comunicação dos BCs, Tombini vai direto ao ponto ao notar que o mundo está volátil demais no pós-crise. Basta ver como têm variado as previsões sobre EUA, China e Europa. Os BCs têm de se ajustar a essa biruta, diz Tombini.

O que Tombini não diz? Primeiro, se o BC pode tomar medidas "prudenciais" sem que elas se imponham devido à necessidade de reduzir riscos. Isto é, usá-las apenas como instrumento alternativo à taxa de juros no controle da inflação.

Segundo, não diz por que, mesmo com expectativas de inflação em alta, o BC não toma medidas, via juros ou outras, a fim de se antecipar a essa possível alta de preços.

Pode ser que o BC estime que o custo de esfriar ainda mais a economia não compense o resultado em termos de baixa da inflação. Pode ser que o BC preveja marasmo ainda duradouro na economia, o que impediria a tal alta da inflação, embora expectativas de mercado e previsões de modelos digam outra coisa. Sim, o pragmatismo do "novo BC" parece muito razoável. Mas, de qualquer modo, faltou explicar.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Surge, enfim, a Comissão da Verdade

A presidente Dilma Rousseff anunciou ontem, seis meses após ter sancionado a lei que criou a Comissão da Verdade, os sete integrantes que investigarão violações de direitos entre 1946 e 1988. Seis são da área jurídica, incluindo Rosa Maria Cardoso da Cunha, advogada de Dilma durante a ditadura militar.

Dilma anuncia nomes da Comissão da Verdade

Entre os sete escolhidos, seis têm formação jurídica e dois fizeram parte do governo FH; trabalhos começam no dia 16

Evandro Éboli, Luiza Damé, Juliana Dal Piva, Mariana Timóteo e Tatiana Farah.

BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO - Quase seis meses depois de sancionar a lei que cria a Comissão da Verdade, a presidente Dilma Rousseff finalmente anunciou ontem seus sete integrantes. Entre eles está a advogada de Dilma durante a ditadura, Rosa Maria Cardoso da Cunha.

Completam a comissão: José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça; Gilson Dipp, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ); Claudio Fontelles, ex-procurador-geral da República; Paulo Sérgio Pinheiro, advogado e ex-secretário de Direitos Humanos; Maria Rita Kehl, psicanalista e escritora; e José Paulo Cavalcanti Filho, advogado e escritor.

A cerimônia de posse dos integrantes e instalação da comissão ocorrerá na próxima quarta-feira, no Palácio do Planalto, com as presenças dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, José Sarney e Fernando Collor. Todos confirmaram presença, segundo o porta-voz da Presidência, Thomas Traumann.

O Planalto quer dar à Comissão da Verdade - que vai apurar, sem objetivo de punir, a violação de direitos entre 1946 e 1988 - um caráter de órgão de Estado, e não do governo petista. Os nomes serão publicados na edição de hoje do Diário Oficial da União. A presidente fez o convite aos sete pessoalmente ontem à tarde. À noite, todos foram jantar no Palácio da Alvorada.

Entre os escolhidos estão dois ex-auxiliares de FH: o advogado José Carlos Dias, ministro da Justiça de julho de 1999 a abril de 2000, e o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, secretário de Direitos Humanos no governo tucano. Dilma também colocou na comissão o primeiro procurador da República do governo Lula, Cláudio Fontelles (2003/2005).

A comissão terá prazo de dois anos para funcionar, após sua instalação. Seus integrantes receberão salário de R$ 11,2 mil e terão uma assessoria com 14 servidores. Caberá a ela esclarecer os casos de tortura, morte, desaparecimento e ocultação de cadáveres, identificando e tornando públicas as estruturas, locais, instituições e circunstâncias relacionados aos crimes contra os direitos humanos.

Para isso, poderá requisitar informações, dados e documentos, além de convocar pessoas que tenham relação com os fatos analisados e pedir perícias e diligências para coleta ou recuperação de informações, documentos e dados. Não terá, no entanto, poderes para punir.

Perfil dos escolhidos é elogiado por entidades

Após fazerem muita pressão pública pela nomeação da Comissão da Verdade, as entidades ligadas aos ex-presos políticos e às famílias de mortos e desaparecidos na ditadura militar receberam com alívio e animação os nomes dos indicados por Dilma, mas cobram que as investigações do órgão resultem em processos judiciais.

O grupo Tortura Nunca Mais quer que o trabalho da Comissão seja acompanhado pelo Ministério Público Federal (MPF) para processar violadores dos direitos humanos.

- Os crimes de lesa-humanidade são imprescritíveis e, nesses casos, as investigações devem ser levadas à Justiça - disse a diretora do grupo, a jornalista Rose Nogueira.

Rose elogiou o perfil dos escolhidos, dizendo que são pessoas equilibradas, em sua maioria juristas, e conhecedoras do tema.

Ex-preso político, Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, também felicitou a escolha de nomes do meio jurídico:

- Foi um período de grandes ilegalidades. Esse caráter jurídico da Comissão é necessário, tem de ter uma centralidade jurídica para analisar esse período. Achei a nomeação perfeita. São sete nomes de pessoas competentes e sérias - disse Ivan.

Para ele, que teve o pai assassinado na tortura, o foco inicial da Comissão deve ser a investigação dos desaparecimentos.

- Mas ditadura não é só morto e desaparecido. É preciso revelar também o conteúdo dos decretos secretos - apontou Ivan.

O procurador regional da República Marlon Weichert, do Grupo de Justiça de Transição, que investiga os crimes da ditadura, elogiou a biografia dos integrantes da Comissão.

- São todos nomes grandiosos. Não há reparo. Todos têm uma biografia que atende aos critérios da lei que criou a Comissão - disse o procurador.

Marlon afirmou que o MPF está preparado para compartilhar informações sobre o assunto com a Comissão.

- É do espírito público a sinergia de esforços- afirmou.

A indicação de Rosa Maria Cardoso da Cunha, que defendeu Dilma na ditadura, foi elogiada por Amélia Teles, uma das fundadoras da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e ex-presa política. Rosa Maria também foi advogada dela no período em que esteve presa.

- Ela é uma profissional muito séria, combativa e de imensa responsabilidade. Sempre lutou contra todos os obstáculos daquela época - avaliou Amélia.

Ela, no entanto, faz ressalvas ao funcionamento da Comissão.
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- Os nomes são bons. O problema não é esse. A comissão está engessada com um período longo para investigar em um prazo muito curto - afirmou Amélia Teles.

FONTE: O GLOBO

Filha de desaparecido elogia escolha de integrantes da Comissão

Maíra teixeira

SÃO PAULO - Filha do deputado Rubens Paiva, desaparecido após ser preso por militares em 1971, a psicóloga Vera Paiva elogiou a escolha dos integrantes da Comissão da Verdade.

"É um grupo com pessoas supercompetentes, que conhecem o contexto todo. Em princípio, ficou uma comissão digna, que pode dar conta do desafio", afirmou.

Ela ressaltou, no entanto, que o órgão só conseguirá desempenhar bem seu papel se tiver ter recursos e autonomia. "E acho importante também que um grupo de familiares de presos e desaparecidos políticos acompanhem as investigações", disse.

A presidente do grupo Tortura Nunca Mais, Rose Nogueira, também aprovou as nomeações. Colega de cela de Dilma Rousseff quando as duas foram presas pela ditadura, ela defendeu a nomeação da advogada Rosa Maria Cardoso da Cunha, que defendeu a presidente na época.

"Ela tem um entendimento sensível sobre a questão da tortura e das violações. Na ditadura, pedia que fizessem exames ginecológicos e pedia dentistas para os presos. Ela cuidava de dar um mínimo de dignidade em condições muito difíceis."

O procurador regional da República Marlon Weichert, que era cotado para integrar a comissão, disse que os escolhidos são qualificados para integrar o grupo. "Convivi com muitos deles. São honrados e têm trajetórias de vida pública de grande respeito."

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Na ilha por vezes habitada:: José Saramago

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

(in Provavelmente alegria, Editorial Caminho, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

OPINIÃO DO DIA – Roberto Gurgel : mensalão

Na verdade, o que nós temos são críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão. São pessoas que aparentemente estão muito pouco preocupadas com as denúncias em si mesmas, com os fatos, com os desvios de recursos e com a corrupção. Ficam preocupadas com a opção que o procurador-geral, como titular da ação penal, tomou em 2009, opção essa altamente bem-sucedida. Não fosse essa opção, nós não teríamos Monte Carlo, nós não teríamos todos esses fatos que acabaram vindo à tona. Há um desvio de foco que eu classificaria como, no mínimo, curioso.

GURGEL, Roberto, procurador geral da República. Entrevista: ‘críticas são de quem morre de medo do mensalão’ O Globo, 10/5/2012

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Investigada por desvios, Delta ainda cobra R$ 1 bi de governos
Comissão de Ética criada por Cabral ameaça renunciar
Inflação dá salto e BC pode frear juro baixo

FOLHA DE S. PAULO
Protetores de mensaleiros me atacam, diz procurador-geral
Senado estende seguro-desemprego a toda doméstica
Câmara assume gasto pessoal de deputados com taxa de limpeza
Inflação supera expectativas e sobe em abril

O ESTADO DE S. PAULO
Procurador-geral vê réus do mensalão por trás de ataques
Serra tem 31% e Haddad, 3%, na primeira pesquisa Ibope
Inflação pelo IPCA triplica em abril e vai a 0,64%
Dólar preocupa o governo

VALOR ECONÔMICO
Em negócio inusual, J&F vai gerir Delta sem pagar nada
Depósito judicial ajuda o superávit
Massa salarial já subiu 6,2% no ano
Governo pode reduzir compulsórios
Concessão de rodovias deve ser prorrogada

CORREIO BRAZILIENSE
Senado acaba com 14° e 15° salários
Procurador negocia para depor por escrito
STF define regras de julgamento
Remuneração de ministros do Supremo deve chegar a R$ 32.147
Seguro contra desemprego para doméstica

ZERO HORA (RS)
Estrutura precária atrasa ampliação de voos no Interior
Senado aprova Lei Geral da Copa

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Agreste vai receber duas megafábricas
Seca atinge bacia leiteira do Estado
Lei da Copa só depende de Dilma
Novo benefício para empregado doméstico

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Um dos donos da 'nova' Delta tem planos de disputar o governo de Goiás

José Batista Júnior diz que está longe da direção da empresa e não vê conflito

Flávio Freire

LIGAÇÕES PERIGOSAS

SÃO PAULO. Há menos de um ano filiado ao PSB de Goiás, José Batista Junior, um dos seis irmãos da família Batista, a controladora da J&F Holding, já tem planos definidos na esfera política. Mantido o entusiasmo que existe hoje no partido, Junior, integrante do Conselho de Administração da JBS, pretende se candidatar ao governo do estado em 2014. Com isso, terá de mudar de lado no balcão eleitoral. Depois de sua empresa doar R$ 12 milhões à direção nacional do PT e ao comitê financeiro da campanha de Dilma Rousseff, em 2010, ele agora buscará apoiadores na disputa à sucessão do tucano Marconi Perillo. A JBS é a maior processadora de carnes do mundo.

A proximidade com a política também levou a JBS naquele mesmo ano a fazer doações de R$ 6 milhões ao comitê presidencial da campanha de José Serra. A empresa também ajudou, em volumes menores, outros vários partidos, como DEM, PMDB, PRB, PMN, entre outros. Ainda, há dois anos, a JBS doou R$ 1,5 milhão ao PSB, partido ao qual se filiaria em 8 de junho de 2011. Além disso, a processadora foi uma das patrocinadoras do filme "Lula, o filho do Brasil", sobre a história do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ontem, Junior passou o dia na sede do diretório estadual do partido, em Goiânia. Já acerta detalhes de sua entrada na corrida sucessória. Informalmente, ele tem discutido com correligionários de que forma sua eventual campanha poderá ser beneficiada pelo desgaste que Perillo sofreu ao ter seu nome envolvido com o contraventor Carlos Cachoeira, que atuaria como representante da Delta Construções ajudando a negociar contratos com órgãos públicos. Curiosamente, a J&F Holding, que controla o frigorífico JBS, confirmou ontem que irá assumir a gestão da Delta.

No PSB, a possível indicação de Junior para concorrer ao governo goiano é comemorada. Indagado por que Junior seria o melhor nome para disputar o cargo em nome do partido, o presidente estadual da legenda, Barbosa Neto, evocou o sucesso do empresário.

- Ele presidiu por 25 anos uma empresa inserida em cinco continentes, Depois de ter passado por São Paulo e pelos Estados Unidos, voltou para o seu estado só para desempenhar um papel político. - disse Neto.

Nascido em Anápolis, 52 anos, Junior vive hoje em Goiânia com a família. Em meio à compra da Delta por seu grupo, ele evita contato com a imprensa. Ontem, mesmo ao lado de Barbosa Neto numa reunião partidária, não atendeu ao pedido de entrevista do GLOBO.

À época de sua filiação ao PSB, deixou claro que seu objetivo é ajudar na estruturação do partido e que não via conflito de interesses entre a prática político-partidária e o trabalho a frente de sua empresa, principalmente em razão das doações. Ele disse que há seis anos é apenas acionista da JBS e que cinco irmãos dirigem o grupo, além de estar sem ligação direta com a a empresa há quase dez anos.

FONTE: O GLOBO

J&F Holding confirma que vai assumir a gestão de empreiteira

Decisão será tomada após auditoria sobre ativos e contratos da empresa

Gustavo Uribe

SÃO PAULO. A J&F Holding, grupo que controla o frigorífico JBS, confirmou ontem que assumirá, a partir da próxima semana, a gestão da Delta Construções, empresa no epicentro de denúncias envolvendo o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Em nota, a J&F Holding afirmou que a decisão de adquirir a empreiteira será tomada após auditoria sobre os seus ativos e contratos, processo que será realizado nos próximos meses e que estabelecerá o valor a ser pago pela empresa, que atualmente corre o risco de ser declarada inidônea. A expectativa é que essa verificação seja concluída em até 60 dias.

A Controladoria Geral da União (CGU) identificou indícios de possível tráfico de influência e corrupção de servidores públicos em contratos firmados entre a construtora e o governo federal. A Delta ainda é a principal empresa nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Procurada, a J&F Holding não se pronunciou sobre o motivo de assumir o controle de uma empreiteira investigada por suspeitas de irregularidades. O BNDES detém 31,41% do capital da JBS, principal empresa sob o controle da J&F Holding, responsável por 96,6% da receita líquida do grupo (de R$ 62,7 bilhões).

O contrato preliminar, assinado na segunda-feira entre a J&F Holding e a Delta Construções, resguarda os novos gestores, até a conclusão da auditoria, de qualquer responsabilidade sobre os contratos vigentes. A Delta Construções apresenta atualmente, segundo projeções, mais de 200 contratos . O acordo dá direito à nova gestora de realizar substituições na estrutura administrativa da empreiteira, incluindo os cargos de presidente, diretores e conselheiros.

A J&F Holding informou que o novo presidente da Delta Construções será anunciado nos próximos dias e negou a informação de que o ex-presidente do Banco Central (BC) Henrique Meirelles, presidente do conselho consultivo da holding, exercerá algum cargo ou função na gestão da empreiteira.

As negociações para a venda da Delta Construções se estenderam por duas semanas, conduzidas por Joesley Batista (presidente da J&F) e Meirelles e por Fernando Cavendish, presidente licenciado da Delta Construções.

"Nosso objetivo é honrar os contratos que serão auditados e preservar os mais de 30 mil empregos da Delta Construções", afirmou, por meio de nota, Joesley Batista.

A J&F Holding informou que o controle da Delta Construções não envolve pagamento aos seus antigos controladores e especificou que, caso a venda seja concretizada, os recursos da distribuição dos dividendos futuros da Delta Construções serão utilizados no pagamento da empresa. Na nota, ela ressaltou que "não haverá necessidade de utilização de recursos próprios ou de terceiros para financiar a operação de compra".

A provável aquisição da empreiteira pela holding representa a expansão dos negócios da J&F para o ramo da construção civil. O grupo possui atualmente participações em empresas de alimentos, celulose, higiene, limpeza e concessão de crédito ao agronegócio, entre outros. O mercado financeiro já vinha apostando em um acordo para esta semana entre a construtora e a holding, com a divulgação de um comunicado.

"Já presente no mercado de commodities, com JBS e Eldorado, no mercado interno de consumo, com Flora e Vigor, e no setor financeiro, com Banco Original, a entrada da J&F Holding no setor de infraestrutura consolida a sua presença em áreas dinâmicas da economia brasileira, fundamentais para o desenvolvimento econômico do país", disse Henrique Meirelles por meio de nota.

FONTE: O GLOBO

BNDES é sócio da principal empresa da holding

Banco estatal tem 31% da JBS, a maior produtora de carne do mundo; grupo assumirá a Delta, acusada de desvios

Márcio Beck, Ronaldo D"Ercole

LIGAÇÕES PERIGOSAS

RIO e SÃO PAULO. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é sócio, com mais de um terço de participação, do principal empreendimento da holding J&F Participações: a empresa de proteína animal (carnes) JBS S.A., formada em setembro de 2009 a partir da associação com a Bertin, outra empresa do segmento. O banco informou que não tem participação acionária na J&F Participações nem concedeu financiamento à holding. Esclareceu que participa exclusivamente, com 31,4%, da JBS S.A, e que financia R$ 1,4 bilhão em investimentos na atividade produtiva da empresa, em operações contratadas entre 2008 e 2011.

O banco informou que usa recursos de giro para atuar no setor de frigoríficos, tendo como principal estratégia a subscrição de ações ou debêntures conversíveis - papéis que podem ser trocados por ações de uma empresa - por meio da sua subsidiária BNDESPAR. Desta forma, o banco liberou R$ 8,1 bilhões desde 2007, em quatro operações com a JBS. A maior delas foi a aquisição de R$ 3,5 bilhões em debêntures para reforçar a estrutura de capital da JBS após a aquisição da Pilgrim"s Pride pela JBS USA e a incorporação da Bertin S.A.

Além disso, o BNDES também aprovou, em junho do ano passado, financiamento de R$ 2,7 bilhões para a Eldorado Celulose e Papel, outra companhia do grupo. O empréstimo do BNDES corresponde a 53% da primeira linha da maior fábrica de celulose do mundo, que está sendo construída no município de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. A expectativa é que a unidade comece a operar em novembro, produzindo 1,5 milhão de toneladas por ano de celulose branqueada de eucalipto. O volume de recursos representa quase 20% dos R$ 14 bilhões desembolsados pelo banco para o setor nos últimos dez anos.

A Eldorado, segundo projeção do Banco Original, instituição financeira do grupo JBS, terá receita líquida de R$ 2 bilhões em 2013.

Nascido em 1953 de um pequeno açougue - a Casa de Carnes Mineira, na cidade de Anápolis, em Goiás -, o grupo JBS passou a voar alto na década passada. O fundador do negócio, José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, com a ajuda dos filhos José Júnior, Joesley e Wesley, passou ao longo dos anos a adquirir pequenos abatedouros e frigoríficos e, com a marca Friboi, no início dos anos 2000, já era um dos maiores produtores de carne bovina do país.

Internacionalização começou em 2005

A compra da Swift Argentina, em 2005, foi o ponto de partida na internacionalização do grupo. Dois anos depois, já contando com 21 unidades de produção de carne aqui, outras cinco na Argentina e capacidade de abate de 20 mil cabeças de gado por dia, o grupo foi à Bolsa de Valores e captou R$ 1,5 bilhão com o lançamento de suas ações no mercado.

O caixa reforçado abriu caminho para novas aquisições. De uma tacada, arrematou a Smithfield Fiverivers e a Tasman, tornando-se líder na produção de carne também nos Estados Unidos e na Austrália. Em 2008, criou o banco JBS, seu braço no setor financeiro.

Mas a vertiginosa expansão dos negócios da família Batista, sempre com o BNDES como principal financiador, chegaria ao ápice em 2009, quando o grupo anunciou a compra da Pilgrin"s Pride, um dos líderes do segmento de frangos nos Estados Unidos, e a fusão das operações da JBS Friboi com a Bertin, um dos principais concorrentes no mercado nacional de carne bovina.

Fusão com Bertin ampliou negócios

Na fusão com o grupo Bertin, a JBS incorporou também os ativos das áreas de lácteos (a Vigor) e de beleza e cosméticos (das marcas Albany, OX e Neutrox). E, em vez de pagamento em dinheiro, a família Bertin ganhou participação acionária no bloco de controle da JBS S.A.. Os Bertin são sócios dos Batista na JB Participações (com 40% e 60% do capital cada, respectivamente). Com 46,9% das ações da JBS, é a JB que escolhe seus executivos e define as estratégias de negócio da empresa.

O BNDES socorreu a JBS na operação de compra da Pilgrin"s, depois que a crise de 2008 inviabilizou uma emissão de ações da JBS nos Estados Unidos, que seria usada para pagar os acionistas da empresa americana. O banco tem hoje 31% do capital acionário da empresa.

No ramo financeiro, o grupo contou recentemente com um empurrão do Fundo Garantidor de Crédito (FGC, mantido pelos bancos privados) para incorporar o banco Matone. Em novembro do ano passado, o FGC injetou R$ 850 milhões para equilibrar o balanço do Matone, antes de ele ser comprado. Dessa união nasceu o banco Original, novo braço financeiro da holding J&F.

Empresa busca liderança no setor de celulose

Apesar da diversificação do grupo, o negócio de carnes continua sendo a principal atividade. No ano passado as receitas líquidas da JBS representaram 96,6% do faturamento da holding. O negócio de carnes deve perder peso com o início da operação da fábrica de celulose que a J&F inaugura no fim do ano, em Três Lagoas (MS), na qual está investindo R$ 6,2 bilhões, para tornar-se um dos líderes mundiais da commodity. A expectativa é que a unidade comece a operar em novembro.

FONTE: O GLOBO

Procurador-geral vê réus do mensalão por trás de ataques

Alvo da base aliada na CPI do Cachoeira, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, acusou os réus do mensalão de serem os mentores dos ataques contra ele. Parlamentares envolvidos na investigação contra a organização criminosa chefiada por Carlinhos Cachoeira afirmam que o procurador-geral prevaricou, pois havia indícios das ações de Cachoeira e de seus elos com políticos desde 2009, na chamada Operação Vegas, da Polícia Federal. Sem apontar um responsável, Gurgel afirmou que é "notório" quem seria o principal interessado nas críticas, mas negou-se a responder se seria o ex-deputado José Dirceu, acusado pelo Ministério Público de ser o "chefe da quadrilha" que operou o mensalão. As críticas, insinuou o procurador, seriam uma estratégia de réus do mensalão para fragilizar a acusação e seus julgadores - ministros do Supremo Tribunal Federal

Na mira da CPI, Gurgel reage e diz ser vítima de ofensiva dos réus do mensalão

Caso Cachoeira. Diante da ameaça de ser convocado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito e acusado de prevaricação, procurador-geral da República diz que ataques contra ele são movidos por quem está "morrendo de medo do julgamento" no Supremo

Felipe Recondo, Eugênia Lopes

BRASÍLIA - Alvo da base aliada na CPI do Cachoeira, especialmente do PT, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, acusou ontem os réus do mensalão de serem os mentores de ataques contra ele. Parlamentares envolvidos na investigação contra a organização criminosa chefiada por Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, afirmam que o procurador-geral prevaricou, pois havia indícios das ações de Cachoeira e de seus elos com políticos desde 2009, na Operação Vegas, conduzida pela Polícia Federal. Questionado se o principal interessado em fomentar as críticas contra ele seria o ex-ministro José Dirceu, Gurgel reagiu, sorrindo: "Eu acho que é notório. Fatos notórios independem de prova". Dirceu foi apontado pelo Ministério Público como o chefe da quadrilha do mensalão. "Eu tenho dito que na verdade o que nós temos são críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão", afirmou Gurgel. "Acho que, se não réus, há protetores de réus como mentores disso."

As acusações contra ele, insinuou o procurador, seriam uma estratégia dos réus do mensalão para fragilizar a acusação da Procuradoria e atingir também seus julgadores – ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), cujos nomes são citados em algumas conversas telefônicas gravadas pela Polícia Federal. Há um movimento no Congresso para convocar o procurador-geral a depor na CPI do Cachoeira. "Esse (o mensalão) é o atentado mais grave que já tivemos à democracia brasileira. É compreensível que algumas pessoas ligadas a mensaleiros tenham essas posturas de querer atacar o procurador-geral e querer também atacar ministros do Supremo com aquela afirmação falsa de que eu estaria investigando quatro ministros do STF", disse. "Há pessoas que foram alvo da atuação do Ministério Público e
ficam querendo retaliar. É natural isso. E há outras pessoas que têm notórias ligações com pessoas que são réus no mensalão", acrescentou, sem tergiversar.

Ofensiva. Na tentativa de pôr Gurgel contra a parede, parlamentares da base iniciaram ontem mesmo um movimento para convocar a subprocuradora da República Cláudia Sampaio. A convocação da mulher de Gurgel é defendida majoritariamente por petistas. Foi Cláudia quem informou ao delegado Raul Alexandre Marques, responsável pela Operação Vegas, em setembro de 2009, não ter encontrado elementos jurídicos que fundamentassem um pedido de investigação do Supremo na ocasião. "Não vou cumprir o papel de inocente útil de pessoas que querem desmoralizar o procurador-geral na véspera do julgamento do mensalão", reagiu o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), um dos integrantes da CPI. Em depoimento anteontem, o delegado Marques disse que Gurgel não deu prosseguimento às investigações da Vegas, que detectou indícios de crimes praticados por três parlamentares.

A estratégia montada no bunker do PT foi a de insuflar a convocação de Cláudia Sampaio para atingir Gurgel sem precisar chamá-lo para depor na CPI. "É preciso checar as declarações do delegado com os documentos da Operação Vegas. Se for confirmado, temos de ver se foi o procurador-geral o responsável ou outra pessoa abaixo dele", disse o senador Wellington Dias (PT-PI). Apontado como um dos integrantes da "ala independente" da CPI, o senador Pedro Taques (PDT- MT) é contra a convocação do procurador e de sua esposa. "Não podemos transformar esta CPI, que deve investigar a construtora Delta e sua relação com governos estaduais, na CPI do procurador-geral. Estamos fugindo do foco do debate."

CRONOLOGIA

As ações do procurador

27 de março

Inquérito. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, envia ao STF um requerimento para a instauração de inquérito contra o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO).

25 de abril

Tentativa. Fernando Collor (PTB-AL) tenta convocar Gurgel para depor na CPI. Segundo ele, o procurador-geral não tomou nenhuma providência, em 2009, quando recebeu informações da Operação Vegas que incriminavam Demóstenes e os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO).

29 de abril

Aviso. Parlamentares da base avisam que, caso Gurgel não aceite o convite, a convocação pode ser votada e aprovada na comissão.

2 de maio

Convite recusado. Gurgel rejeita o convite para ir à CPI mista. O pedido havia sido feito pelo presidente da comis-são, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), e pelo relator, Odair Cunha (PT-MG).

Nota oficial. No mesmo dia, a Procuradoria-Geral da República (PGR) emite uma nota oficial sobre o caso, onde o procurador-geral se defende das acusações e afirma que há três anos não havia indícios contra o senador goiano.

Anteontem

Delegado. Em depoimento na CPI mista instalada no Congresso, o delegado da Polícia Federal Raul Alexandre disse que partiu da subprocuradora da República Cláudia Sampaio Marques (esposa de Gurgel) a decisão de não levar adiante as evidências reunidas na Operação Vegas em 2009.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Protetores de mensaleiros me atacam, diz procurador-geral

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse que os ataques que sofre por não ter investigado Demóstenes Torres em 2009 partem de quem "está morrendo de medo do julgamento do mensalão". Sem citar nomes, Gurgel disse ser "compreensível" que pessoas que buscam proteger os réus do mensalão, denunciados pela Procuradoria, queiram fazer ataques a ele e a ministros do STF, que julgarão o caso.

Procurador diz que críticos tentam proteger mensaleiros

Alvo de ataques na CPI, Gurgel é o responsável pela acusação no caso mensalão

Setores liderados pelo PT querem levá-lo a depor sob o argumento de que retardou ação contra Demóstenes

Felipe Seligman, Rubens Valente, Andreza Matais e Natuza Nery

BRASÍLIA - O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, disse ontem que as críticas que sofre de integrantes da CPI do Cachoeira por não ter investigado o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) em 2009 são feitas por quem tem "medo do julgamento do mensalão".

Sem citar nomes, Gurgel, responsável por acusar réus do processo, disse ser "compreensível" que pessoas que buscam proteger ou que são "ligadas a mensaleiros" queiram atacá-lo e também a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), que serão responsáveis por julgar o caso.

As críticas a Gurgel têm sido lideradas pelo PT -partido da maior parte dos envolvidos no escândalo de 2005 e que tem controle sobre a CPI. Parlamentares têm dito que Gurgel tem de depor na comissão.

A principal crítica feita ao procurador é que ele deveria ter investigado Demóstenes em 2009, quando recebeu o material da Operação Vegas, da Polícia Federal, que já investigava o empresário Carlinhos Cachoeira, acusado de corrupção e de comandar jogos de azar.

Os autos da Vegas foram incorporados neste ano a outra operação da PF, a Monte Carlo, que começou em novembro de 2010 e resultou na prisão de Cachoeira.

Gurgel diz que o material da Vegas não era suficiente para pedir inquérito contra Demóstenes e que, graças à sua atitude, a apuração pode continuar na Monte Carlo e ser mais efetiva.

"O que nós temos são criticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão. Pessoas que estão muito pouco preocupadas com as denúncias em si mesmo, com os fatos -desvio de recurso, corrupção etc.- e ficam preocupadas com a opção que o procurador-geral tomou em 2009, opção essa altamente bem-sucedida. É um desvio de foco que eu classificaria como no mínimo curioso", afirmou Gurgel.

As declarações irritaram integrantes do governo. No grupo ligado ao ex-presidente Lula e ao ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, acusado pela Procuradoria de liderar o esquema do mensalão, a crítica foi explícita. "Assim como o país não sabia quem era o Demóstenes, a presidente Dilma também não tinha como saber quem era o Gurgel ao nomeá-lo", disse o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Gurgel é procurador-geral desde 2009 e foi reconduzido por Dilma em 2011 depois de vencer a eleição interna entre os procuradores.

Na CPI, a pressão sobre o procurador cresceu após o depoimento prestado pelo delegado da PF Raul Alexandre Souza à comissão, anteontem. Ele disse que Gurgel deixou de fazer investigações necessárias em 2009.

Na reunião, o senador Fernando Collor (PTB-AL) atribuiu a Gurgel uma "espécie de ameaça velada" a parlamentares, pois estaria disseminando a informação de que informações coletadas pela PF poderão atingir outros parlamentares.

Em suas declarações de ontem, Gurgel fez referência indireta a Collor ao dizer que os seus críticos são, "se não réus [do mensalão], protetores de réus", além de já terem sido alvos do Ministério Público e que agora querem "retaliar".

Outro foco de potencial atrito gira em torno das provas encaminhadas pela Procuradoria à comissão.

O delegado Souza afirmou que a PF interceptou 61.813 telefonemas na Vegas. Contudo, a quantidade de grampos que chegou é bem inferior, segundo cinco parlamentares ouvidos pela Folha.

A Procuradoria não informou o total dos áudios enviados. O delegado Souza fará hoje comparação entre o material da PF e o enviado à CPI.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Gurgel em entrevista: 'Críticas são de quem morre de medo do mensalão'

Procurador-geral da República afirma que por trás de ataques à sua atuação estão mensaleiros ou quem os protege

Carolina Brígido, Givaldo Barbosa

LIGAÇÕES PERIGOSAS

O GLOBO: A atuação do senhor tem sido alvo de críticas na CPI do Cachoeira...

ROBERTO GURGEL: Na verdade, o que nós temos são críticas de pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão. São pessoas que aparentemente estão muito pouco preocupadas com as denúncias em si mesmas, com os fatos, com os desvios de recursos e com a corrupção. Ficam preocupadas com a opção que o procurador-geral, como titular da ação penal, tomou em 2009, opção essa altamente bem-sucedida. Não fosse essa opção, nós não teríamos Monte Carlo, nós não teríamos todos esses fatos que acabaram vindo à tona. Há um desvio de foco que eu classificaria como, no mínimo, curioso.

Como o senhor classifica o trabalho da CPI?

GURGEL: Eu não posso ficar me preocupando com o que acontece a cada momento, a cada segundo na comissão. Eu tenho que me preocupar em levar adiante a investigação. O que parece haver é uma tentativa de imobilizar o procurador-geral da República para que ele não possa atuar como deve, seja no caso que envolve o senador Demóstenes, seja preparando-se para o julgamento do mensalão. Esse é o atentado mais grave que já tivemos à democracia brasileira. É compreensível que algumas pessoas que são ligadas a mensaleiros tenham essas posturas de querer atacar o procurador-geral e querer também atacar ministros do Supremo, com aquela afirmação falsa de que eu estaria investigando quatro ministros.

O senhor se sente atingido por essas críticas?

GURGEL: A atividade do Ministério Público tem como uma das suas características a de desagradar a muitos, se não a todos. Portanto, faz parte do nosso ofício saber que vamos ser alvo de crítica, que vamos ser alvo de pessoas que já foram alvos, e alvos notórios da atuação do Ministério Público, e que têm agora a sua chance de tentar uma retaliação. E é isso que se está fazendo. A minha preocupação é de continuar trabalhando, de continuar investigando, de levantar o véu e revelar cada vez mais fatos que estão submetidos também à CPMI, mas que parece mais preocupada com outros aspectos, parece mais preocupada com o julgamento do mensalão.

O senhor acha que há algum réu do mensalão como mentor desses ataques?

GURGEL: Eu acho que, se não réus, há protetores de réus como mentores disso.

O senhor suspeita de alguém específico? José Dirceu? Fernando Collor?

GURGEL: (Ri) Eu apenas menciono isso: há pessoas que foram alvo da atuação do Ministério Público e ficam querendo retaliar, é natural isso. E há outras pessoas que têm notórias ligações com pessoas que são réus no mensalão.

O senhor acha que os inquéritos sobre as ligações de Cachoeira devem continuar sob sigilo, apesar de todos os vazamentos?

GURGEL: A lei impõe o sigilo, porque há uma série de interceptações telefônicas. Agora, não há dúvidas de que esse é um dos casos de vazamentos mais escandalosos que temos na História. Pedi ao diretor-geral da Polícia Federal que fosse instaurado inquérito para que se apure. É preciso que se pare com essa coisa no país de achar que o sigilo é para inglês ver. A quebra de sigilo nesse caso foi talvez uma das mais escandalosas de que eu tenha tido notícia.

FONTE: O GLOBO