Revista Veja
Nunca a geopolítica pesou tanto na definição
do futuro presidente
As eleições presidenciais brasileiras, ao menos desde o segundo mandato de Lula, sempre foram tumultuadas. Lula reelegeu-se em 2006 sob a sombra do mensalão. Dilma Rousseff, em 2010, foi a exceção: Lula gozava de popularidade tão vasta que teria eleito um poste. A reeleição de Dilma, em 2014, veio tisnada pelas manifestações de 2013, pela eclosão da Lava-Jato e pelo acidente que vitimou o candidato Eduardo Campos — e desembocou na tempestade perfeita de escândalos, descontrole fiscal e recessão que resultou no impeachment. Bolsonaro venceu em 2018 em meio à destruição do centro político, à facada e à prisão de Lula. E a eleição de 2022 teve disputa acirrada, atrito com o STF e uma transição tensa, marcada por vandalismo e ensaios de golpe.
Cada eleição teve seus dramas, quase sempre
encobrindo o debate dos problemas que mais afligem a cidadania: segurança
pública, inflação, saúde, serviços públicos. A eleição deste ano não foge à
regra. Traz ingredientes antigos — escândalos, denúncias, investigações — e um
novo, de peso inédito na cena tupiniquim neste século: a geopolítica. No
terreno dos escândalos, Lula e Flávio Bolsonaro são alvejados pelos casos do
Master e do INSS.
O maior dano, até aqui, coube a Flávio; mas ambos saem feridos. Para Lula, o
acúmulo é constrangedor — as denúncias envolvendo Jaques Wagner e o Banco
Master; o caso de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio, o “Marcola”, que
recebeu empréstimos de uma operadora política de Brasília; e as investigações
sobre Lulinha, por suposto tráfico de influência. A consequência é uma rejeição
inédita a ambos — que, paradoxalmente, lideram as pesquisas. No final das
contas, será eleito o menos odiado.
“Pela primeira vez, o resultado da eleição
pode ser decidido por fatores externos”
Porém, nunca, na história recente, a
geopolítica pesou tanto em uma eleição. Bolsonaro buscou o apoio de Trump e
Putin em 2022, mas ficou no ensaio. Nada se compara ao momento atual, marcado
por tarifaços e trocas de farpas entre Lula, Javier Milei e Trump. Milei fez
acusações pesadas contra Lula, que retirou o embaixador de Buenos Aires. Com os
Estados Unidos, a tensão pode ter atingido o ponto máximo com a notícia do
cancelamento do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti em Washington — se
confirmada, é fato inédito nas relações entre os dois países. Tudo em meio a um
tarifaço que atinge severamente nossas exportações, enquanto ressoam as guerras
do Golfo Pérsico e da Ucrânia e suas consequências. O Brasil sempre teve o
privilégio e a maldição de criar os próprios problemas — e eles tinham efeitos
internos. Agora, temos problemas causados por nós e também por outros, vindos
de fora. Com consequências que podem perdurar após as eleições.
Independentemente de quem for eleito.
A conclusão da cena de uma eleição tumultuada
não é a crise — é a normalidade da crise que, desde 2023, foi agravada pelos
atos do 8 de Janeiro, o julgamento dos mesmos e depois por dois escândalos
ciclópicos, INSS e Banco Master. O que muda é a procedência da tempestade que
não é apenas made in Brazil.
Antes, ela nascia dentro do país. Agora, parte expressiva vem de fora,
escapando do controle dos próprios candidatos. A novidade de 2026 não é haver
drama, o que já é tradição nacional. É que, pela primeira vez, com empate
técnico e cercado de escândalos, o resultado da eleição pode ser decidido por fatores
externos.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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