sexta-feira, 29 de junho de 2012

'Morder canela não é para humanos', diz FHC

Ex-presidente ironizou Lula, que prometeu "morder a canela" de adversários para eleger Fernando Haddad

Marcelo Portela

BELO HORIZONTE - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ironizou ontem a frase de seu sucessor Luiz Inácio Lula da Silva - que, ao falar de seu apoio ao candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, prometeu "morder a canela dos adversários" para levá-lo à vitória. "Eu não sei morder canela. Não acho apropriado para um ser humano", disse FHC, após palestra a empresários do setor da construção, em Belo Horizonte (MG).

FHC falou também sobre a escolha do vice para o pré-candidato tucano, José Serra, advertindo que o PSDB deve avaliar com cuidado a viabilidade de uma chapa puro-sangue entre Serra e o ex-secretário de Cultura Andrea Matarazzo. "A questão não é só ganhar (a eleição)", afirmou. Há o "problema político" de ter maioria na Câmara. "Na democracia, não se governa sem apoio."

FHC afirmou ainda que Matarazzo "foi excelente secretário, mas o problema é político". "Dá para governar depois?", perguntou. Ele lembrou que, graças ao Plano Real, poderia ter concorrido à Presidência sem uma grande aliança e "eventualmente ganhar sozinho". "Eu não quis isso. Ganho e não governo. Na democracia, você não governa sem apoio."

FHC ressaltou, porém, que política é feita "no ferro quente" e, por não estar diretamente envolvido na campanha de Serra, não teria condições de avaliar a melhor possibilidade para a chapa. "Não conheço a situação concreta da Câmara e o cálculo que o (José) Serra e o Geraldo (Alckmin) estão fazendo para ver se dá para ir sozinho ou não. Não é só porque quer ou não quer (chapa puro-sangue)", observou.

Para 2014. FHC admitiu que, hoje, "não há muitos nomes" do PSDB em condições de disputar a Presidência em 2014. E confirmou a possibilidade de candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que "depende basicamente dele", embora precise "criar condições" para alavancar a própria candidatura. "Ninguém pode ser candidato de si mesmo", disse o ex-presidente.

E acrescentou: "O PSDB deverá ter um candidato. Não há muitos nomes. Não sei qual é a posição do governador de São Paulo, torço para que o Serra seja eleito, mas não sei como vai ser. São os nomes que estão aí, a não ser que apareça outro."

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Crise entre PT e PSB chega a Belo Horizonte

Amanda Almeida

BELO HORIZONTE. Depois de romper em Recife e Fortaleza, PT e PSB se estranham em Belo Horizonte, com a pressão petista por uma coligação na chapa de vereadores. O PT ameaça implodir a aliança que, em 2008, uniu ainda o PSDB para a eleição de Marcio Lacerda (PSB). Se o partido do prefeito aceitar a exigência dos petistas, os tucanos prometem deixar Lacerda. Envolvidas numa complexa negociação, as três legendas esticam a corda até amanhã, último dia para convenções.

Temeroso com a possibilidade de rachas e sem saber o que é pior - perder o PSDB e o palanque com o senador Aécio Neves (PSDB) ou o PT, com forte votação em áreas mais pobres da cidade -, Lacerda tenta costurar um acordo.

O PT teme perder cadeiras na Câmara Municipal e estabeleceu como condição para apoiar Lacerda a coligação proporcional com o PSB. Rachados, já que uma ala da sigla defendia candidatura própria, os petistas tinham garantido o vice, o deputado federal Miguel Corrêa Júnior. Na negociação, o PSDB ficaria com a presidência da Câmara.

Na noite de quarta-feira, a Executiva municipal do PSB aprovou resolução que sinaliza o veto à coligação proporcional com os petistas. Mas, preocupado com um agravamento das relações entre PT e PSDB em âmbito nacional, o presidente do PSB-MG, Walfrido Mares Guia, ainda não descarta a possibilidade de ceder aos petistas.

FONTE: O GLOBO

PC do B apoia Haddad, mas não deixa cargos

Vice de petista defende que sigla mantenha Secretaria da Copa na gestão de Kassab

Bernardo Mello Franco

SÃO PAULO - Nova candidata a vice-prefeita de São Paulo na chapa do petista Fernando Haddad, a presidente estadual do PC do B, Nádia Campeão, disse ontem à Folha que seu partido não vai entregar os cargos que mantém na gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Ela também saiu em defesa da aliança com Paulo Maluf (PP), que levou sua antecessora Luiza Erundina (PSB) a abandonar a campanha com críticas ao que julgou excesso de pragmatismo do PT.

No governo Kassab, o PC do B comanda a Secretaria de Articulação da Copa de 2014, com Gilmar Tadeu. O prefeito tem sido criticado por Haddad e apoia seu principal adversário, José Serra (PSDB).

"No que depender de nós, o PC do B permanece na secretaria. O candidato é o Serra, não o Kassab", disse Nádia, que foi secretária de Esporte na gestão da petista Marta Suplicy (2001-2004).

Ela classificou a gestão do prefeito de "mediana": "Nota cinco, com boa vontade".

A nova vice de Haddad sustentou que o tempo de TV não será o único benefício da aliança com o PP e defendeu que a chapa também saia em busca dos votos de Maluf.

"É importante que o eleitor do Maluf na zona norte, no Ipiranga (zona sul), nas áreas onde existe um voto mais conservador, pense e avalie nossas propostas", disse.

Mais cedo, ao ser apresentada em ato público com Haddad, ela afirmou que não vê problema na aliança.

"Nós temos que lidar com o fato de que é importante ter um outro partido na aliança, o PP. Concordo com o que já disse o Haddad: não é o caso de personificar o apoio do PP. Mas não vejo problema, não."

Nádia disse que a sigla reivindicará atuação "expressiva" no governo caso Haddad seja eleito. Entre as áreas cobiçadas citou Habitação, Saúde, Cultura e Educação.

"Nós crescemos, e o PT compreende o papel que podemos ter. Acho que a gente terá uma participação maior."

Forçado a desistir da pré-candidatura a prefeito pelo PC do B, o vereador Netinho de Paula era aguardado no ato de ontem, mas não compareceu. Nádia atribuiu a falta ao trânsito, e a assessoria dele endossou a versão. Na segunda-feira, o vereador disse estar com o "coração ferido" por deixar a disputa.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Em Curitiba, Ducci oficializa Rubens Bueno (PPS) como vice

Ao lado de Rubens Bueno e Beto Richa, prefeito destaca a “coerência” de seu grupo político em contraposição a quem “muda de lado”

O prefeito de Curitiba, Luciano Ducci (PSB), apresentou ontem quatro armas para a campanha de reeleição. Um candidato a vice com densidade eleitoral, o deputado federal Rubens Bueno (PPS). O apoio maciço da máquina estadual. Um lema: a promessa de erradicar a miséria na capital. E a estratégia para atacar Gustavo Fruet (PDT), escolhido como o principal adversário: exaltar a coerência da aliança consolidada ontem – embora a coligação de Ducci possa ela própria ser alvo de questionamento nesse sentido, pois o PSB é aliado do PT no plano federal e do PSDB no estadual.

Fruet foi um dos principais nomes do PSDB na oposição ao governo Lula na Câmara dos Deputados. Mas, sem espaço no PSDB para concorrer à prefeitura, migrou no ano passado para o PDT. E hoje conta com o apoio do PT para ser eleito.
Renata Bueno e Ducci
A palavra “coerência” estava escrita no cartaz que serviu de pano de fundo do anúncio oficial do vice de Ducci, no Hotel Bourbon, no Centro de Curitiba. E deve dar o tom da campanha. “Jamais vamos violentar nossa consciência para vencer eleição a qualquer custo”, afirmou o governador Beto Richa (PSDB), presente no evento, sem citar diretamente Fruet. “Nossa alma não está à venda e não compramos ninguém. Jamais vamos perder a vergonha na cara para vencer a qualquer custo. Até porque esse custo, às vezes, é muito alto. Vários políticos trocaram de lado, sem explicação, e até hoje pagam por isso”, enfatizou Richa. Ducci também aproveitou para dar sua alfinetada no adversário do PDT: “[A cobrança de coerência] é um recado para quem muda de lado de uma hora para outra, sem explicação”.

A presença de Richa, juntamente com vários assessores, mostrou ainda que o grupo que está no governo estadual dará apoio maciço à campanha do prefeito.

Ficha não caiu

Ontem, Rubens Bueno disse que não estava totalmente investido no papel de candidato a vice. “A ficha ainda não caiu”, disse ele. O deputado também explicou que aceitou ser o candidato a vice atendendo a um pedido de Richa. “Recebemos um chamado para o projeto capitaneado pelo governador Beto Richa e aceitei em nome da compreensão desse momento da vida política da cidade”, disse Bueno. Ele exerce atualmente a liderança do PPS na Câmara Federal e ocupa posição de destaque na bancada da oposição na CPMI do Cachoeira – funções que, a partir de agora, serão divididas com os compromissos de campanha.

Questionado se se tornar vice não seria um retrocesso em sua carreira política, Bueno negou. Disse ter “espírito público para servir ao projeto político em qualquer função”. Também afirmou que na vida pública é preciso saber atuar taticamente “Tem o momento de recuar para avançar com mais força. Hoje, o Paraná tem um eixo político que nós não podemos desorganizar.”

Bueno negou, no entanto, que o convite para assumir a candidatura a vice inclua um acerto para viabilizar sua candidatura ao Senado em 2014 pelo mesmo grupo. “Não houve nada disso”, desconversou. Para ser vice de Ducci, o PPS teve de desistir de lançar a vereadora Renata Bueno, filha de Rubens Bueno, à prefeitura.

Carro-chefe

O prefeito Ducci afirmou que a erradicação da miséria será o carro-chefe de um novo mandato – objetivo idêntico ao do governo da presidente Dilma Rousseff. Dados do IBGE mostram que Curitiba tem cerca de 16 mil pessoas em situação de extrema pobreza. “É possível fazer isso”, disse.

Preteridos mostram frieza ou silenciam

A escolha de Rubens Bueno (PPS) para vice de Luciano Ducci (PSB) frustrou a expectativa dos outros políticos que pleiteavam a vaga ou eram cotados para compor a chapa de reeleição. O descontentamento maior é o do deputado federal Fernando Francischini (PSDB). Ele diz que a escolha de Bueno pode influenciá-lo a aceitar o convite para presidir no Paraná o Partido Ecológico Nacional (PEN), sigla recém-criada. “Estou propenso a aceitar pois me dá oportunidade de ocupar um espaço que estou perdendo no PSDB”, afirma. Porém, Francischini ressalta que, caso mude de partido, continuará apoiando o governo estadual.

Uma das razões para a saída do deputado do ninho tucano seria o acordo que garantiria à vereadora Renata Bueno (PPS), filha de Rubens Bueno, a vaga para a candidatura a deputada federal, em 2014, com apoio privilegiado da prefeitura e do governo. Renata nesta semana por pouco não comprometeu a indicação do pai a vice ao afirmar que só Rubens Bueno “salvaria esse governo [de Ducci]”. O caso foi contornado com uma retratação e ontem Renata e Ducci fizeram questão de aparecer juntos.

Poucas palavras ou silêncio foi a estratégia de outros preteridos à vaga de vice. O deputado estadual Ney Leprevost (PSD) não compareceu ao evento de ontem e disse que prefere manter o silêncio a respeito da escolha de Bueno. “Conversei com a direção estadual e nacional do meu partido e ainda estamos avaliando o quadro político”, disse, lacônico.

Apenas dois dos preteridos estiveram presentes ao anúncio oficial da candidatura: os deputados estaduais Osmar Bertoldi (DEM) e Mauro Moraes (PSDB). Bertoldi deixou o evento sem falar com a imprensa. Já Moraes disse que defendia um tucano na composição, mas que aceitou a decisão tomada.

Prefeito e Rubens Bueno não vão se licenciar dos cargos para a campanha

O deputado federal Rubens Bueno (PPS), candidato a vice prefeito, disse ontem que não vai se licenciar do cargo durante a campanha municipal. Ele afirmou que já passou por momento parecido. “Fui candidato em 1992 [a prefeito de Campo Mourão, no interior do Paraná] sem me licenciar. E, quatro dias antes da eleição, estava em Brasília votando a favor do impeach¬¬ment do [ex-presidente Fernando] Collor”, disse Bueno. O prefeito Luciano Ducci (PSB) também assegurou que não pretende se licenciar para a campanha – o que significa que terá de pedir votos fora do horário de expediente. Ele disse não ver problemas em eventuais ausências de seu vice e em ter de fazer campanha em horários limitados. O prefeito acredita que essa dificuldade será superada pela militância dos partidos que formam a aliança: “São 15 partidos unidos, com cerca de 500 candidatos a vereador”. (SM)

FONTE: GAZETA DO POVO (PR)

Júlio (PSB), apresentado e respaldado em Recife

Com a força de uma ampla coligação e a bênção de Eduardo Campos, Geraldo Júlio tem sua primeira aparição como protagonista

Sheila Borges

Com o respaldo de uma coligação de 14 partidos, o administrador e especialista em gestão pública Geraldo Júlio (PSB) foi apresentado ontem como o candidato a prefeito do Recife da Frente Popular pelo governador Eduardo Campos. O chefe do Executivo estadual frisou que Júlio é o nome de sua total confiança por ter as condições técnicas e políticas para colocar a capital pernambucana “no rumo do desenvolvimento do Estado”. Júlio, por sua vez, estreou em um ato político, como principal protagonista, ressaltando que é movido a desafios. E, ao ser convocado por Eduardo e pelas demais legendas da Frente, aceitou participar do que ele mesmo chamou de uma “campanha histórica”.

“Vamos construir um novo Recife. Sinto-me preparado e disposto. Para isso, é fundamental trabalho, unidade, dedicação, luta e paz política. Seremos o primeiro a acordar e o último a dormir”, discursou Júlio, revelando a sua vontade de ganhar as ruas, já que a campanha começa oficialmente na próxima sexta-feira (6). Diante de um auditório lotado, Eduardo convocou os aliados a cair em campo para que Júlio possa ser conhecido pela população.

O governador disse que a campanha tem duas fases: antes e depois do guia eleitoral. Na primeira, as siglas precisam promover reuniões e debater de casa em casa para falar do projeto da Frente. Na segunda, o investimento maior será no guia de TV e rádio, já que a Frente deve ter 15 minutos.

Para quem o rotulava de um técnico sem jogo de cintura político, Geraldo Júlio foi logo avisando que sempre militou. Começou com os pais, na campanha do ex-governador Miguel Arraes em 1986, quando o avô de Eduardo foi eleito governador pela segunda vez. De lá para cá, atuou em todas as campanhas da Frente. Está no PSB desde a década de 80. Lembrou que a presidente Dilma Rousseff (PT) foi sempre uma técnica, antes de ser eleita em 2010.

“Vamos construir um governo popular, cuidando daqueles que mais precisam. Isso é inegociável”, falou, frisando que vai contar com as parcerias de Dilma e do governador. Em relação à gestão do prefeito João da Costa (PT) da qual o PSB participa com o vice-prefeito Milton Coelho, Geraldo Júlio frisou que será respeitoso, não atacará, uma vez que os dois estão no mesmo campo. “Será uma campanha bonita. Não entraremos em brigas. Não vamos nos perder.”

Apesar de Júlio ter adotado um tom diplomático com o PT, para dizer que não fará oposição ferrenha, Eduardo e o senador Armando Monteiro (PTB) – que falou em nome dos partidos da Frente –, teceram críticas. “O Recife, infelizmente, ainda é palco de carências estruturas que nos desafia. É possível construir um modelo de gestão que permita novos avanços”, disse Armando, referindo-se à candidatura de Júlio.

Ao falar sobre o contexto que gerou a candidatura alternativa à do PT, Eduardo argumentou que essa atitude não foi tomada contra ninguém, mas a favor do Recife. “Todos compreendemos que na vida, às vezes, a gente perde as condições de fazer determinadas tarefas. O PT perdeu. Essa atitude (de lançar outro candidato) foi tomada com tranquilidade. Conversei com Lula (o ex-presidente) hoje (ontem). Não queria vir pra cá, só falando por telefone. Olhei nos olhos e disse que somos os mesmos. Não vão fazer intriga”, frisou, citando o diálogo que teve com o ex-presidente ontem em São Paulo.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Em Recife, Raul Jungmann (PPS) não é mais candidato

O ex-deputado Raul Jungmann (PPS) decidiu retirar sua pré-candidatura à Prefeitura do Recife, ontem, durante plenária com as principais lideranças do partido. De acordo com a presidente estadual do PPS, Débora Albuquerque, a decisão foi tomada em consenso pelos presentes que entenderam que os acontecimentos dos últimos dias alteraram a conjuntura política do Recife e que, diante deste novo cenário, o mais racional seria a desistência da candidatura própria.

Jungmann explicou o porquê desta decisão do PPS, que ainda não sabe, a menos de dois dias do prazo final das convenções partidárias, com quem vai rumar na eleição majoritária do Recife. “Decidimos retirar a nossa candidatura por causa das mudanças no tabuleiro político. O PPS criou uma comissão que vai definir para onde o partido vai. Temos convites dos mais diversos. Vamos analisar qual o melhor caminho a seguir e ver o que vamos fazer da vida”, afirmou Raul. Perguntado se haveria possibilidade de sair candidato à Câmara de Vereadores do Recife, Jungmann foi taxativo. “Isto não está em questão.”

Débora Albuquerque acredita que o PPS resolva o seu posicionamento até hoje. “Vamos nos reunir e espero que consigamos chegar a uma decisão conjunta. Todos já estão cansados desta indefinição”, disse a presidente da sigla. Depois de quase três meses investindo na pré-candidatura do campo oposicionista, o mais provável é que os pós-comunistas sigam junto com o candidato do PSB. Raul Jungmann preferiu não adiantar nenhuma informação, mas em outras oportunidades já falou que agora a polarização é entre o PT e o PSB e que o PPS já admite a possibilidade de marchar junto com os socialistas.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O grande eleitor: Michel Zaidan Filho

A mídia especializada na cobertura política dessas próximas eleições municipais anda perplexa diante da instabilidade do quadro das pré-candidaturas à Prefeitura do Recife, acostumada como está de vislumbrar um certo grau de arrumação nos partidos e candidatos ao pleito municipal. Dessa vez, as coisas se complicaram porque as instancias municipais de decisão foram literalmente esvaziadas pela ação de outros eleitores qualificados que passaram a definir esse e quadro, em função de seus interesses e à revelia dos partidos e de seus eleitores. O que se viu nas últimas semanas aqui em Pernambuco, mas não só em Pernambuco, foi uma verdadeira desestabilização do quadro político-eleitoral pela ação de atores e personagens que, embora não estando diretamente ligados ao pleito, passaram a ter um poder de decisão e de interferência sobre a vida dos partidos, como nunca se viu.

Como se explica que um político, sequer filiado a um partido, possa ter uma influencia tão grande na definição das pré-candidaturas desse partido, a ponto de desagregar a organização e depois resolva lançar um candidato às eleições municipais pelo seu próprio partido? E as manobras dissuasórias para evitar que a oposição lance seus candidatos? Estamos diante de uma esfera pública dominada por uma espécie de coronelismo que pensa ter a iniciativa política na sociedade, para isso desestabilizando totalmente o quadro partidário, desagregando os partidos e cooptando a oposição. Esse cenário lembra, curiosamente, a atitude de ex-governador peemedebista, hoje cooptado, diante dos partidos políticos em Pernambuco, quando derrotou o avô do atual governador. A história se repete. O vencedor desagrega os partidos aliados e coopta os de oposição. Fica o eleitor com a impressão que o seu poder de decisão e o da instancia interna dos partidos não vale nada. Ele se limita a convalidar uma escolha já feita por outros, em outras instâncias, e inspirada por outros interesses.
Certamente, podemos arguir que se se deve à fragilidade dos partidos e ao alto grau de mandonismo pessoal que ainda caracterizam as nossas instituições políticas. E que isso tudo poderia ser consertado com uma inadiável e necessária reforma política. Infelizmente, estamos diante de um caso em que a mera reengenharia institucional não resolve. Aqui, o peso das tradições oligárquicas, patrimonialistas ou neo-´coronelistas, ainda que travestida de modernas ou gerenciais, é muito grande. A falta de densidade institucional dos partidos, sua precária democracia interna, a inexistência de coerência doutrinária ou programática se casam à perfeição com a personalização dos partidos, a falta de princípios nas alianças e coligações e as negociatas de todo tipo entre as agremiações. Do Poder Judiciário, poderiam vir normas estabilizadoras das regras do jogo eleitoral. Mesmo assim, esse poder tem limites para fixar regras e deliniamentos legais. O Poder Legislativo tem reclamado através de ações de inconstitucionalidade junto aos Tribunais Superiores.

De todo forma, é preocupante a falta de segurança e nitidez do quadro político-partidário, na proximidade das eleições. Essa falta de visibilidade e critério permitem um "vale-tudo" na política, inclusive que petistas e malufistas se dêem as mãos, sob a benção dos socialistas do PSB. Imagine o que não vai ainda acontecer no cenário eleitoral de 2014?

Michel Zaidan Filho, sociólogo, professor da UFPE.

Chico Buarque - Construção

Petrobras nas mãos de Lula :: Roberto Freire

"É uma história a ser aprendida, a ser escrita e lida pela companhia, de tal forma que ela não seja repetida", a presidente da Petrobras, Graça Foster, se referia à construção da refinaria Abreu e Lima em parceria com a PDVSA da Venezuela de Chave, mas serve também como síntese perfeita de toda a gestão da Petrobras no governo Lula e no primeiro ano de Dilma.

Graça Foster apresentou na segunda-feira o plano de negócios da companhia para o período de 2012 a 2016. Como resultado, as ações da Petrobras caíram 8% num só dia de pregão. Foram revisadas as metas de produção, baixando 700 mil barris por dia na produção estimada para 2020.

Para ela, as metas eram descumpridas sistematicamente desde 2003 por serem irrealistas.

A verdade é que, desde então, a Petrobras foi gerida de forma irresponsável, já que serviu a diversos interesses, menos ao interesse da própria companhia e do Brasil.

A Petrobras foi impedida de subir os preços dos combustíveis para não gerar inflação, arcando com a diferença dos preços internacionais para os domésticos, num claro subsídio. Tanto é que Graça fez questão de anunciar que este plano de negócios está condicionado à paridade dos preços internacionais aos domésticos, com o fim dos subsídios. Ou seja, haverá aumento dos preços dos combustíveis.

Com estardalhaço, o presidente Lula -pura bazófia- anunciou em abril de 2006 que havíamos conquistado a autossuficiência em petróleo. No entanto, a Petrobras não conseguiu fazer os devidos investimentos para manter aquela situação mesmo após as descobertas do pré-sal. A realidade é que em maio importamos 800 mil barris por dia e por essa razão é necessário acompanhar os preços internacionais para o equilíbrio financeiro da empresa.

A Petrobras foi usada como palco de campanha para Lula anunciar obras faraônicas que foram inauguradas e reinauguradas como navios que não navegam, e como a refinaria Abreu e Lima, que deveria estar pronta em 2011 e entrará em operação, segundo a nova estimativa, somente em novembro de 2014, com um custo nove vezes acima do previsto inicialmente.

Outras duas refinarias anunciadas por Lula, uma no Maranhão e outra no Ceará, voltaram ao rol de projetos em avaliação, sem data para entrada em operação.

As diretorias da Petrobras e de suas subsidiárias foram usadas no governo Lula como moeda de troca política, tendo sido inteiramente aparelhada pelos partidos da base aliada. Não houve gestão profissional e técnica.

O resultado: a Petrobras, patrimônio de todos os brasileiros, vai perdendo seu valor.

Esse é sempre o resultado do aparelhamento do Estado por partidos políticos: má gestão, desperdício de recursos, péssimos serviços públicos e corrupção. No entanto, o valor da educação, da saúde e da segurança não está na Bovespa para ser facilmente medido, mas é sentido pelo povo em perdas humanas irreparáveis.

Passou da hora de termos gestão profissional não só das empresas estatais, mas de todo a máquina pública brasileira.

A reforma democrática do Estado precisa voltar imediatamente para a agenda, com a diminuição de cargos de livre provimento e critérios claros e técnicos para seu preenchimento.

Deputado federal (SP) e presidente do PPS

FONTE: BRASIL ECONÔMICO

Retrocessos:: Merval Pereira

A "judicialização" da política produziu ontem duas decisões que terão influência importante na nossa vida partidária, e não necessariamente para o seu aperfeiçoamento. Por quatro votos a três, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) liberou o registro de candidaturas para os políticos com as contas sujas, num recuo provocado pela pressão dos partidos.

Em março último, o TSE decidira que não poderiam ser candidatos políticos que tivessem contas de campanhas reprovadas .

Por sua vez, decisão de ontem do Supremo Tribunal Federal (STF), que na prática concedeu ao PSD o tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV proporcional à sua bancada na Câmara, tem um efeito perverso que vai além do fortalecimento imediato da nova sigla criada pelo prefeito paulistano, Gilberto Kassab.

O novo PSD ganhará um reforço nas negociações políticas para alianças ainda nesta eleição municipal, sem dúvida, e o partido mais diretamente afetado será o DEM, de onde veio a grande maioria de seus fundadores e atuais membros.

O tempo de propaganda migrará do DEM para o PSD, enfraquecendo um e fortalecendo o outro. Mas, além do resultado imediato, a interpretação do STF traz com ela um efeito deletério para a já desgastada organização partidária do país.

Não foi à toa que o ministro Joaquim Barbosa propôs que a ação não fosse nem julgada, já que o tema deveria ser tratado "em abstrato", mas na realidade o centro da discussão era o PSD, mesmo que a sigla não fosse citada diretamente, o que, para ele, gerará uma consequência que "não será boa" para o quadro partidário.

Já os ministros Cezar Peluso e Marco Aurélio Mello, antevendo os perigos para a democracia que a decisão pode gerar, foram além e votaram pelo fim da regra de divisão do tempo de rádio e televisão com base no número de deputados federais filiados.

Como a Constituição garante aos partidos o direito de igualdade na disputa eleitoral, o tempo da propaganda deveria ser dividido igualmente entre todos os partidos com candidatos.

Os votos do ministro Marco Aurélio Mello são exemplares da confusão que está sendo instalada no quadro partidário.

Ele votou no Tribunal Superior Eleitoral contra a formação do PSD, pois considerou que a legislação não foi observada integralmente, mas, diante da aprovação da sigla, viu-se na obrigação de votar a favor do direito do novo partido de receber sua parcela proporcional do Fundo Partidário.

Para não se comprometer com o erro, o ministro Marco Aurélio Mello votou ontem no Supremo pelo fim da distribuição do tempo de acordo com as bancadas da Câmara, pois considera que esse sistema de divisão provoca a formação de partidos de aluguel que vivem de seus tempos de propaganda eleitoral.

A questão incomodava tanto aos partidos que a ação no TSE foi feita pelo DEM e por mais 20 outros partidos políticos, que foram todos derrotados pela maioria do Supremo, para onde a ação acabou sendo encaminhada antes do final do julgamento no TSE, para que a questão fosse decidida "em abstrato", a fim de valer para qualquer partido que tenha sido ou venha a ser criado depois da eleição de 2010, até que a próxima eleição, em 2014, possa definir a bancada partidária das novas legendas.

Os ministros que concordaram com a tese de que os partidos formados dentro da legislação da fidelidade partidária, que permite a mudança de legenda para a formação de um novo partido, têm o direito ao tempo de seus membros basearam-se na realidade criada pela legislação.

Mesmo que jamais tenha disputado uma eleição, esse partido teria que ter meios de subsistir até a próxima eleição e tempo de propaganda eleitoral correspondente à bancada que formou - no caso do PSD, uma das maiores da Câmara, com 52 deputados.

Na verdade, a decisão do Supremo, além de estar em contradição com uma decisão anterior do Tribunal Superior Eleitoral que definiu que a votação recebida por um parlamentar pertence ao partido, e não ao candidato, pode significar a institucionalização da venda do tempo de televisão.

A mais recente realização nesse campo foi a aliança entre Lula e Maluf para dar mais um minuto e 30 segundos para a campanha eleitoral do candidato petista Fernando Haddad em São Paulo.

Esse mercado eleitoral, que já é fartamente conhecido de todos, ganhará agora novas variantes de chantagem. Se de repente um grupo de deputados está em dificuldades políticas em um partido, pode ameaçar sair para criar outro, levando consigo o tempo de televisão.

Ou um grupo pode derrubar o tempo de um candidato às vésperas da eleição. Alguns políticos consideraram que o Supremo está mudando a regra das eleições depois de os partidos já terem escolhido seus candidatos, provocando uma insegurança jurídica brutal às vésperas da eleição.

É improvável, no entanto, que a decisão de ontem mude radicalmente as alianças políticas já firmadas, mas, do ponto de vista dos partidos, é um fato gravíssimo, que pode ameaçar a oposição em pleitos futuros.

Pontualmente, terá influência em algumas alianças. O DEM, por exemplo, perdeu o único argumento político forte que tinha contra o PSD, e, embora o presidente do partido, senador Agripino Maia, tenha garantido ontem que todas as alianças feitas pelo partido estão mantidas, é evidente que pode haver repercussões nos próximos dias, até a formalização oficial dos acordos e da escolha dos candidatos, prazo que termina no início de julho.

O duro golpe que o PSD recebera quando o procurador-geral eleitoral, Roberto Gurgel, votara contra suas pretensões em relação ao tempo de televisão, agora foi sentido pelo DEM, que contava com o revés do adversário para se fortalecer e até mesmo receber de volta muitos dos que haviam abandonado a legenda para criar o PSD. Agora, é possível que novas defecções aconteçam.

FONTE: O GLOBO

Braços dados com o poder:: Eliane Cantanhêde

O PSD do prefeito Gilberto Kassab passa, desde ontem, a ter direitos e prerrogativas e a pesar no tabuleiro partidário e eleitoral.

O Supremo decidiu que os deputados federais de novos partidos valem para a contagem do tempo de TV e para o rateio do Fundo Partidário. Evita, assim, um estouro da boiada no PSD antes da eleição municipal e abre uma promissora janela para a formação de novas siglas -em tese, até para um novo quadro partidário.

O PSD é a quarta maior bancada da Câmara, com 48 deputados. Em vez de 54 segundos, passa a ter (ou a ceder aos candidatos aliados) dois minutos e dois segundos no rádio e na TV. E, em vez de R$ 43 mil, terá R$ 1,6 milhão mensais do Fundo Partidário. Tudo à custa das sete legendas que perderam quadros para ele, principalmente o DEM.

Em São Paulo, não há mudança objetiva para José Serra (PSDB), pois ele ganha do PSD, basicamente, o tempo de TV que perde do DEM. Mas há efeitos políticos: Kassab e o PSD têm agora armas para guerrear contra a chapa puro-sangue (tucano-tucano) e disputar a vice.

A aliança Serra-Kassab parece uma soma de rejeições, mas é também de interesses. Nos 45 dias de TV, o PT será algoz de Kassab, e Serra, o seu grande advogado. Kassab espera sair da eleição com mais popularidade do que entrou, dê no que dê. A ver.

Mas os efeitos mais diretos do PSD continuam sendo sobre o minguado DEM, e quem mais perde são os candidatos Rodrigo Maia e ACM Neto. O PSD apoia o PMDB de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, no Rio, e o PT de Jaques Wagner e Nelson Pellegrino, em Salvador. Qual o critério? A ideologia do poder: o bebê PSD vem ao mundo de olho vivo, só se alia com quem tem mais chances de ganhar.

Aliás, Jorge Bornhausen se encontrou ontem com Eduardo Paes, e a senadora Kátia Abreu (TO) desceu a rampa no Planalto de braços dados com Dilma. Bornhausen é mentor e Kátia é a cara do PSD.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

O pacto de 2014:: Maria Cristina Fernandes

No calendário da política nacional, a campanha presidencial se inicia depois de contado o último voto das disputas municipais. Pelo açodamento com que os partidos se posicionam para a contenda de outubro, porém, parece não haver dúvidas de que é uma dupla campanha que se inicia oficialmente neste sábado com o fim das convenções.

Concorrem para isso a candidatura em São Paulo de um eterno postulante à Presidência, a atuação desmedida de um ex-ocupante do cargo e o avanço estratégico de um partido aliado ao governo que se posiciona decididamente a partir para alcançar o Planalto.

É dos êxitos e tropeços destes e de muitos outros que se pintam para a guerra em 5.565 municípios que se traçará o mapa sucessório de 2014. Uma boa parte do combustível que tem esquentado antecipadamente os motores da sucessão presidencial, no entanto, vem do gabinete instalado no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Os mandatos presidenciais custam a definir sua cara de tantos recuos que protagonizam. O governo Dilma Rousseff ainda não chegou à primeira metade de seu mandato, mas já se mostrou. A face que, para público interno e externo, vem à tona é de um governo de embates.

Compra briga com os bancos pelos juros, enfrenta seu partido e aliados na recomposição do comando de algumas estatais, como a Petrobras, feudo de interesses longamente encastelados, e dá a partida para a busca da verdade nas entranhas da história e das planilhas da administração pública.

Das leis que a reeleição lavrou nos costumes, uma que parece ser cumprida à risca é que ninguém compra tanta briga assim se pretende se reeleger. Some-se a isso o cerco aos gastos desde os escândalos de corrupção que teria travado o governo e aumentado a insatisfação. Vai mais uma pitada de dificuldade em se fermentar o PIB e tem-se pronta a receita de tanto apetite pelo poder.

A estratégia para conter as ambições que se avolumam está traçada. A reeleição, inexistente no léxico presidencial, vai dar suas caras. A quem interessar possa, Dilma vai deixar claro que disputará 2014.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua sendo seu principal conselheiro na política. Mas, ainda que as intenções de Lula não tenham ficado claras, o entorno mais próximo da presidente sabe que seu antecessor não truca ao dizer que pretende se apresentar, se a titular se retirar do jogo.

As pesquisas internas do Planalto respondem com os seguintes percentuais à pergunta "se as eleições fossem hoje, em quem você votaria para presidente?": 70% em Lula e 60% em Dilma.

Foram as brigas que a indispuseram com seus aliados, que, em parte, puseram Dilma na condição de poder roçar os calcanhares de seu mítico antecessor. Não convém, portanto, abandoná-las. Os percentuais exibem a tropa da comandante e ajudam a entabular a negociação.

Aos aliados mais afoitos de sua coligação, o recado é: vamos juntos em 2014, que dali a quatro anos o espaço lhes será franqueado. Em português para petista entender, o mote é "para ter a hegemonia não é preciso ocupar a cabeça de chapa". Tem outro ainda, também capaz de desnortear a quem se guia pela estrela vermelha: "Não temos um projeto de partido, mas de país". E esse projeto, numa cantiga feita para embalar potenciais adversários, "pode estar num aliado de nosso campo".

A mais bem-sucedida experiência do PT com essa alternância de poder no mesmo campo se dá em Belo Horizonte, onde um prefeito do PSB sucedeu a um do PT e partirá para a reeleição em aliança sem divisar adversários à frente.

Essa aliança pode prosseguir em 2014 com a candidatura do prefeito Márcio Lacerda ao governo, mas ainda não há acordo que elimine a postulação do ministro Fernando Pimentel. Esse e outros acordos são parte da construção da aliança pela reeleição presidencial.

Para além das alterosas, o casamento nem sempre dá certo. Na terra do presidente do PSB, por exemplo, o caldo entornou. O presidente do PT, Rui Falcão, e o ex-ministro José Dirceu resolveram confidenciar aos microfones e ao papel aquilo que só vinham dizendo em privado.

Falcão usou todas as letras: "Eles [o PSB] querem se firmar em cima do PT. Sobre a dinâmica do PT decidimos nós, não o governador Eduardo Campos" (Valor, 26/06). No seu blog, Dirceu foi além: "O PSB e a oposição em geral elegeram a região como ponta de lança de sua estratégia para barrar o fortalecimento político-eleitoral do PT. Quem não entendeu o processo esquece que em 2002 o deputado Anthony Garotinho foi candidato a presidente pelo PSB" (www.zedirceu.com.br).

Não é uma dupla que jogue unida em todas, mas fazem uma indissolúvel dobradinha quando se trata de manter o PT no poder até o apocalipse.

Por isso, a estratégia que está sendo cultivada ao pé do ouvido presidencial passa pela tomada do poder nas eleições internas do PT em 2013.

A aposta na renovação petista começou a ser feita no início do mandato, com a escolha de Marco Maia para a Presidência da Câmara, e ganhou corpo com a definição de lideranças do governo e de partido mantidos à borda na era lulista.


Dilma precisa deles para ter um PT alinhado com seu jogo na reeleição, e eles precisam da presidente para ganhar espaço no partido e no governo. As bravatas da semana com votações que desagradaram ao Planalto são parte do ajuste dessa aliança tácita que demandará concessões de parte a parte.

Preocupa o Planalto o açodamento desse grupo em relação à disputa pela Presidência da Câmara. Desalojar Henrique Eduardo Alves na disputa pelo cargo não está entre as brigas que a presidente pretende encampar.

Também não vê por que o PMDB tenha que cair fora da vice em 2014. A relação da presidente com o governador de Pernambuco não é e nem será jamais tão estreita quanto a de Lula, mas Dilma admira a gestão e lhe reconhece o tino. Por isso não acredita que Eduardo Campos queimaria caravelas pela vice. Ganharia mais fazendo um acordo com o PMDB para 2018. A conversa de Lula com Campos ontem em São Paulo, que precedeu a do ex e de sua sucessora, visitou este roteiro.

Como último, mas não menos importante capítulo da estratégia presidencial, o país tem que crescer o suficiente para abrigar os eleitores que entrarão no mercado até 2014. Como não dá para combinar com o resto do mundo, a questão é definir o preço de bilheteria capaz de manter a plateia do circo e o emprego do adestrador.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Entrevista com o prof. Jairo Nicolau: Nacionalizadas, mas locais

Jairo Nicolau
Diego Viana

SÃO PAULO - Os movimentos mais importantes a serem observados nas eleições municipais deste ano são o surgimento de lideranças jovens, o crescimento de partidos como o PSB e a flutuação nos pesos dos partidos em câmaras municipais. Esses elementos são apontados pelo cientista político Jairo Nicolau, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de "História do Voto no Brasil" (Zahar).

Para Nicolau, o vínculo entre o ciclo eleitoral dos municípios e a disputa eleitoral não é tão forte como aparenta, mas a "nacionalização" do pleito paulistano - termo empregado pelo ex-presidente Lula - expressa a necessidade que os principais partidos têm de produzir novos quadros políticos.

As campanhas nos municípios começam oficialmente no mês que vem, com o encerramento da fase de convenções partidárias, em 30 de junho. Mas o período pré-eleitoral já rendeu momentos de polêmica intensa, como a fotografia em que Lula e Paulo Maluf (PP) aparecem fechando uma aliança na capital paulista. A simbologia da imagem levou a deputada Luiza Erundina (PSB), ex-prefeita da cidade, a abrir mão de sua candidatura como vice na chapa de Fernando Haddad.

Outro elemento que pode influenciar o desenrolar dos pleitos é o julgamento do mensalão, previsto para o início de agosto. Para Nicolau, porém, eleições locais são definidas por fatores locais: o mensalão já fez seu estrago.

A seguir, a entrevista.

"Para o PSDB, mais importante do que ter Serra como prefeito em 2012 é não enfrentar o PT com uma prefeitura tão importante em 2014"

Valor: A fotografia em que Lula cumprimenta Maluf foi reproduzida à exaustão na imprensa e nas redes sociais. Que peso a imagem terá no processo eleitoral?

Jairo Nicolau: Fotos como essa se tornam clássicas porque são autoevidentes. O caso lembra a imagem de 1985 em que Fernando Henrique Cardoso, líder da disputa paulistana, aparecia sentado na cadeira de prefeito antes do fim da disputa. Não sei qual foi o cálculo de Lula, mas a equação eleitoral é clássica: somar o que se ganha ao incorporar Maluf à campanha e subtrair o que se perde com a rejeição dos eleitores. Todos os políticos têm de fazer esse cálculo. Aconteceu quando FHC se aliou ao PFL (Partido da Frente Liberal, hoje DEM) e com o PT quando se aliou ao PL (Partido Liberal) em 2002. Foi a primeira aliança do PT fora da esquerda e gerou muitas críticas.

Valor: E quanto ao caráter simbólico da imagem? Erundina mencionou a simbologia ao anunciar sua desistência.

Nicolau: Certamente os adversários vão usar muito essa imagem, mostrando cenas passadas em que Maluf e os petistas se atacavam com muita virulência, desde o fim da ditadura. É evidente que o eleitor da esquerda fica decepcionado. O impacto dessa foto é político. O que as pessoas estão manifestando agora é: veja onde foi parar o pragmatismo da política brasileira e do PT. Talvez tudo tivesse sido diferente se Lula não tivesse ido à casa de Maluf. Para quem, como eu, acompanhou Maluf no Colégio Eleitoral, o que significou aquela transição, os embates com o PT na década de 90, a imagem foi uma grande surpresa. O diretório nacional petista evita alianças com o PSDB e o DEM, mas não com o PP e outros pequenos. O PP é bastante fiel ao governo nas votações do Congresso.

Valor: O impacto deve perdurar até outubro?

Nicolau: Não creio. Na campanha, os adversários vão se aproveitar, sobretudo à esquerda, para mostrar a incongruência do PT. Assim funciona o marketing político. Mas é difícil medir o efeito desse evento sobre a campanha até o fim. É certo que o episódio vai ser explorado, quanto a isso não restam dúvidas.

Valor: José Serra lidera as pesquisas, mas seu índice de rejeição é alto. O que representa esta disputa para sua carreira?

Nicolau: Deram a carreira de Serra por encerrada após a eleição de 2010. Muita gente já o via como uma figura que não contaria mais para o futuro do PSDB. Ou sairia da política, ou se tornaria um político marginal. Se ele conquistar São Paulo, terminar a carreira como prefeito não seria ruim. Uma nova candidatura a presidente seria improvável: tudo caminha para a candidatura de Aécio Neves.

Valor: E do ponto-de-vista do partido?

Nicolau: Para o PSDB, mais importante do que ter Serra como prefeito em 2012 é não enfrentar o PT com uma prefeitura tão importante em 2014. Creio que as eleições locais têm pouca relação com as nacionais; afinal, quando Lula era presidente, perdeu duas eleições em São Paulo. Mas no xadrez político é bom ter a musculatura oferecida por uma capital desse porte. A vitória em São Paulo ajudaria a fortalecer o PSDB no cenário nacional, mas não é nada diretamente vinculado às eleições de 2014. O partido busca a renovação e Serra já foi testado duas vezes. Em 2010, Aécio ficou para trás, talvez por cálculo político. Mas, na lógica interna do PSDB, não tem por que não ser Aécio em 2014.

Valor: E quanto à renovação das lideranças?

Nicolau: Para Haddad, governar São Paulo promoveria a emergência de um nome novo. O PT precisa descobrir líderes jovens, porque o partido envelheceu. Poucas lideranças apareceram, na faixa dos 40 ou 50 anos. Tem Lindbergh Farias [senador fluminense] no Rio de Janeiro e Fernando Haddad em São Paulo. Por isso, esta candidatura é uma forma de consolidar seu nome como liderança no PT. Beto Richa saiu como um nome forte na última eleição curitibana, porque era uma liderança nova do PSDB. Eduardo Paes, no Rio, também, pelo PMDB. Se ganhar, Haddad pode ser um desses. Já o PSDB tem Beto Richa no Paraná e Aécio Neves em Minas. O movimento natural do partido, nesta eleição, seria buscar um político emergente para tentar conquistar São Paulo. Mas, sem um nome óbvio, o partido preferiu apostar na possibilidade da vitória com Serra. Se alguém perguntasse às lideranças, em 2010, o que seria melhor, se Serra ou um jovem, todos diriam "o jovem". Mas esse jovem nunca apareceu. Esta disputa é importante para o PSDB, como um pênalti no fim do jogo. Não querem um novato para batê-lo: buscam alguém experiente para a cobrança. Ao decidir participar das prévias, Serra praticamente encerrou o assunto, mas isso só adia um processo pelo qual o PSDB tem de passar, a renovação. E o PT também, porque suas lideranças jovens ainda não mostraram força.

Valor: Lula afirmou que a disputa paulistana é nacionalizada, ou seja, faz parte do projeto de poder dos partidos, a começar pelo PT. Mas o pênalti petista vai ser batido por um jogador novo.

Nicolau: Não creio que o impacto nacional da eleição em São Paulo seja grande, com Haddad ganhando ou perdendo. É claro que, se ele ganhar, é uma vantagem importante. O peso das eleições municipais acontece de outra maneira. Por exemplo, em 2008, o PT conseguiu algo que nunca tinha conseguido: interiorizar-se, ganhar em cidades com 10 mil habitantes. Ao fim de outubro, todos os jornais vão mostrar balanços de "quem subiu" e "quem desceu". Isso é importante porque mostra quem vai estar forte para o processo seguinte, mas não significa que conseguir eleger Haddad ou deixar de conseguir vai ser determinante para o projeto de poder do PT em 2014.

Valor: Lula está colocando todo o peso de seu nome e todo seu prestígio nessa disputa específica.

Nicolau: Em 2008, o então presidente Lula esteve em muitos palanques e é difícil determinar quanto ele influenciou as eleições. Ele e qualquer outro nome. Lula teve várias derrotas em 2008 em municípios importantes. Porto Alegre, Salvador, São Paulo, Santo André. Será que os fatores locais não foram mais determinantes? Lula subiu no palanque com Marta, ela perdeu; sem ele, ela teria ganho ou teria ido pior? É uma especulação. O que tem de diferente agora é que Lula, pela primeira vez desde 2000, atua como alguém que está fora do governo. Ele está em outro patamar de sua biografia. Essa é a novidade, não a intervenção do diretório nacional em Recife, ou operações em Fortaleza e São Paulo. Tenho observado que, neste ano, os diretórios nacionais dos partidos têm agido com mais força na escolha dos candidatos.

Valor: Se é tão baixa a correlação entre a eleição para prefeito e as nacionais e estaduais, por que a intervenção?

Nicolau: O melhor termômetro para o PT não é Haddad, mas a ampliação de sua presença nas câmaras municipais. É isso que fortalece seu enraizamento pelas cidades e sua posição para a campanha de 2014, na hora de conseguir apoio nos Estados. Ponto. Toda a exploração de dados de eleições que já fiz, usando resultados de eleições para prefeito e as presidenciais de dois anos depois, mostram uma correlação baixa. Os temas predominantes nas eleições locais também são locais. Cada cidade tem sua especificidade e sua agenda, tanto os problemas concretos de cada cidade como a configuração da política naquele local. As eleições municipais são mais importantes para os deputados estaduais e federais. Eles financiam e apoiam candidatos às câmaras porque precisam cultivar as bases locais. Depois de dois anos vem a retribuição. Controlar prefeituras ajuda, sem dúvida, mas não temos nenhuma comprovação estatística de que o sucesso de um partido nas eleições municipais de um ano se reflita em sucesso nas eleições estaduais de dois anos mais tarde.

Valor: Um fator relevante é o crescimento do PSB, que se consolida no Nordeste e pode bater de frente com o PT, seu tradicional aliado.

Nicolau: O crescimento paulatino do PSB é um fato inequívoco do quadro partidário brasileiro. É o único partido que cresce consistentemente desde sua fundação, há menos de 30 anos. É uma força que passa a ser cada vez mais um rival do PT. No Nordeste, é uma força considerável, tomando a posição do PMDB. É um partido a ser observado. Seu desafio, neste momento, é o mesmo que o PDT já teve em outras épocas. Precisa entrar em São Paulo, Rio, Minas, embora tenha alguma relevância nesses lugares, a começar pela Prefeitura de Belo Horizonte. Ainda assim, por enquanto é um partido muito circunscrito ao Nordeste.

Valor: O julgamento do mensalão deve mesmo influir decisivamente nestas eleições?

Nicolau: Não creio. Vai ser um julgamento histórico, com enorme impacto sobre a política brasileira, também um impacto retrospectivo de avaliação do governo Lula e sobre o comportamento da elite política brasileira. Mas eleições locais são movidas por temas locais, alianças montadas em função dos conflitos e da história da política local. A não ser, claro, para João Paulo Cunha, que é candidato a prefeito em Osasco, porque ele está diretamente envolvido e o resultado do julgamento pode acabar com sua candidatura. O estrago da imagem do PT já foi feito, o impacto maior aconteceu nas próprias eleições de 2006. Independe do resultado do julgamento e envolve outros elementos, como o pragmatismo que mudou a rota daquele partido doutrinário dos anos 80 e 90. O eleitor brasileiro não é tão partidário, no âmbito local, a ponto de punir o PT. O efeito não deverá ser mais que marginal.

Valor: No Rio de Janeiro, o atual prefeito conta com uma ampla coalizão e a expectativa é de reeleição ainda no primeiro turno. O senhor compartilha dessa expectativa?

Nicolau: Compartilho, salvo se os adversários conseguirem tirar fotos comprometedoras de Paes, como as do governador Sergio Cabral em Paris. São muitos candidatos com perfil de classe média para cima, mas ninguém que se conecte com os pobres. Em 2008, havia Marcelo Crivella. A não ser, também, que algum dos outros candidatos, do PV, do DEM, do PSDB, do PSOL, acabe descobrindo uma vocação para isso. Nenhum deles nunca foi testado em eleições municipais e pode descobrir algo inesperado. Paes, por exemplo, quando surgiu, era um candidato da zona sul, mas acabou ganhando graças à zona oeste, onde está o grosso do eleitorado.

Valor: Marcelo Freixo tem sido a novidade no Rio. Ele pode se tornar um fenômeno durável ou é só uma onda passageira, como foi Gabeira?

Nicolau: O eleitor do Rio não vê um candidato da esquerda realmente competitivo desde 1992, quando Benedita da Silva disputou o segundo turno contra Cesar Maia. Freixo vai desenvolver alguns temas, como a segurança pública, que é eminentemente estadual, e o carisma pessoal, a renovação. Mas qual é a agenda da esquerda para a cidade? Nem sabemos mais. Há 20 anos a agenda administrativa, a gestão, domina a pauta.

Valor: Em Belo Horizonte, Márcio Lacerda, do PSB, disputa a reeleição com uma coligação que vai desde o PT, partido de seu vice, até Aécio Neves. Tudo isso depois das disputas virulentas entre PT e PSDB em Minas Gerais.

Nicolau: O que determina essa aproximação em Belo Horizonte é uma questão local, como sempre. Aécio precisa obter sua tranquilidade estadual com uma aliança que possa governar a capital. PT e PSDB fizeram campanhas ríspidas um contra o outro na última eleição estadual, mas na capital do Estado estão juntos. No nosso sistema partidário, o alinhamento do nacional com o local é pequeno, embora esteja aumentando. A relação entre o nacional e o estadual, com alianças replicadas nesses dois níveis, como houve em 2010, foi uma novidade em relação ao que acontecia nos anos 90, e certamente ainda não é generalizada.

Valor: Em Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto lidera as pesquisas. O carlismo continua sendo dominante na Bahia?

Nicolau: O carlismo tinha sido dado como morto pelos analistas, inclusive os baianos, na última eleição. Vejo em ACM Neto um carlismo renovado. Não quero negar o alinhamento familiar e a agenda tradicional, conservadora, de seu grupo político. Mas ele é de uma outra geração, tem um outro discurso, tenta se descolar do avô. Ele quer ser aquilo que o DEM não conseguiu ser, o partido de classe média, liberal, que o PFL não era. E, mesmo naquela época, o PFL ganhou algumas e perdeu outras. A gestão do carlismo era tensa em Salvador, tinha até brigas internas. O domínio na capital nunca foi óbvio. Salvador é uma das poucas cidades onde Lula sempre venceu. O carlismo não tinha tanta força lá quanto no interior.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

PIB minguante:: Celso Ming

Nesta quinta-feira, o Banco Central anunciou no seu Relatório de Inflação que refez suas projeções de crescimento do PIB para este ano. Não será mais de 3,5%, como avaliara no início do ano, mas de 2,5%.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deve estar aborrecido com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, porque esses números há meses não se afinam com os do Ministério da Fazenda.

Quando, em março, o Banco Central avisou que esperava um avanço do PIB neste ano de somente 3,5%, Mantega apostava todas as suas fichas em alguma coisa entre 4,5% e 5,0%. A título de explicação para essas diferenças, afirmou que sabia projetar esses números bem melhor do que o Banco Central.

Na semana passada, o Credit Suisse avisou seus clientes que seus cálculos não apontavam um crescimento em 2012 superior a 1,5%. Mantega declarou que esse número não passava de "uma piada".

Há dez dias, o mercado indicava pela Pesquisa Focus, do Banco Central, que já trabalhava com um crescimento do PIB de 2,30%. Provavelmente, a edição desse boletim na próxima segunda-feira acusará projeção ainda mais baixa. Nesta quinta-feira, a Fiesp divulgou suas novas projeções, entre as quais a de um aumento do PIB de apenas 1,8%. Ou seja, estão todos bem mais próximos da piada do Credit Suisse do que dos números mágicos do ministro.

Mas a questão mais importante não são as eventuais diferenças nas projeções. É examinar por que o setor produtivo avança devagar-quase-parando enquanto o consumo cresce entre 5,0% e 6,0%.

Como esta Coluna já apontou na edição de quarta-feira, o governo agora tende a descarregar o resultado insatisfatório do PIB sobre a crise externa: o empresário está com medo e vai desacelerando, argumenta o governo. Não dá para negar esse efeito. A perda de confiança é trava a levar em conta. Outro fator, também já apontado aqui, é a política excessivamente intervencionista do governo: o empresário não aciona seu espírito animal porque fica esperando mais favores do governo.

Mas há um terceiro fator, mais profundo e de ação mais duradoura. Esta crise mostrou ao industrial que, por mais brilhante que seja, a empresa dele não é competitiva. Se pisar no acelerador e aumentar os investimentos, corre sério risco de perder dinheiro.

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, vem explicando que até mesmo a indústria mais moderna do mundo instalada no Brasil não tem mais como competir com o setor produtivo de outras partes do mundo, porque enfrenta custos insuportáveis do portão da fábrica para fora.

Nesta quinta-feira, em palestra no Congresso Brasileiro do Aço, realizado em São Paulo, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca argumentava que o investimento siderúrgico no Brasil não sai por menos de US$ 1,8 mil por tonelada de capacidade. Enquanto isso, na Índia sai por US$ 1 mil e na China, por US$ 550. Nessas condições, quem é o maluco que vai pôr dinheiro na produção de aço no Brasil?

O governo Dilma entendia que bastaria derrubar os juros, puxar as cotações do dólar e espremer os bancos para que baixassem os juros para que o PIB disparasse. Não é o que está acontecendo. A maior parte dos estímulos foi concedida ao consumo: os salários foram esticados e o crédito foi encorajado. No entanto, o setor produtivo vai afundando nos custos – no custo Brasil. O pessoal da Fiesp chama a isso de desindustrialização.

Confira

Na tabela, as últimas projeções do Banco Central para o PIB 2012, de acordo com o Relatório Trimestral de Inflação publicado nesta quinta-feira.

Mesma meta. Nesta quinta-feira, o Conselho Monetário Nacional fixou em 4,5% a meta de inflação de 2014. A meta não muda desde 2006. E, no entanto, esta poderia ser excelente oportunidade para uma redução em pelo menos meio ponto porcentual. Quando aparecerá uma conjuntura melhor para esse objetivo do que esta?

Mão de obra cara. O Relatório voltou a reconhecer que o mercado de trabalho está aquecido e que, nessas condições, é fator que trabalha contra o controle da inflação

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Água e óleo:: Míriam Leitão

Agora é oficial, o crescimento do PIB este ano está por volta de 2,5%, o que é menos do que no ano passado e encerra biênio de PIB muito fraco. Para sair do marasmo, o governo precisaria fazer o que não tem feito. Os sucessivos pacotes repetem a mesma fórmula de distribuir vantagens a alguns, mas não melhoram a eficiência de todos. A lógica do governo está expressa na decisão de tirar imposto da gasolina e aumentar o imposto da água mineral.

A água mineral está, como dissemos aqui ontem, entre os produtos que terão mais impostos nos próximos anos. A indústria de bebidas - água, refrigerantes e cervejas - é que pagará parte da conta dos benefícios concedidos a outros setores, como automóveis, em pacotes recentes.

Desde segunda-feira, gasolina e diesel deixaram de recolher a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que até a semana passada recolhia R$ 420 milhões por mês, e que em 2002 chegou a arrecadar R$ 1 bilhão por mês.

Esta é uma das curiosidades da política econômica atual: não se sabe nada sobre qual a sua direção. A presidente Dilma Rousseff disse que não daria novas vantagens tributárias porque não é hora de "brincar à beira do abismo". Isso dias depois de abrir mão de quase R$ 6 bilhões por ano, só para não aborrecer os donos de carros na hora de abastecer seus tanques. E fez esse incentivo ao uso do combustível fóssil apesar do custo que isso tem para a indústria do etanol.

Na quarta-feira ficou decidido também aumentar o subsídio aos empréstimos do BNDES. Eles agora pagarão TJLP de 5,5%, retroativo a quem já contratou empréstimo. Quase todas as grandes empresas brasileiras têm empréstimos no BNDES e receberam esse bônus.

Ao mesmo tempo, o governo coleciona frustração de receita. Tem recolhido menos impostos do que tinha previsto. A entrada menor de recursos é uma prova de que a atividade econômica está ficando cada vez mais fraca. Somando tudo: o governo abre mão de receita de uma forma equivocada num momento de frustração de receita.

No Relatório de Inflação, divulgado ontem, o Banco Central fez uma lista das mazelas externas que nos atingem: na Europa a crise está maior, mais longa e mais funda do que o previsto; a retomada do crescimento americano está mais incerta do que o imaginado; a China está reduzindo o ritmo de crescimento em percentual surpreendente.

Tudo isso é verdade. O problema não é apenas o mundo. É a qualidade da nossa resposta. Ela tem sido fraca e sem nexo. O governo tem reagido aos pedidos dos lobbies por redução de tributos ou custos de financiamento do BNDES, mas não fez ainda uma lista de ações para avançar de fato na modernização do país, que sustentem o crescimento.

As vantagens concedidas não têm contrapartida. Nenhuma empresa ou setor que recebe o mimo de um imposto mais baixo e um empréstimo mais barato se compromete com qualquer coisa, seja aumento da eficiência energética, vigilância sobre práticas das suas cadeias produtivas, redução do impacto ambiental, investimento em inovação. O governo, no pacote desta semana, avisou que vai comprar antecipadamente e pagar até 25% mais caro de empresa que produzir no Brasil. É um incentivo à acomodação e à elevação de preços através das compras governamentais.

Na apresentação feita ontem do Relatório de Inflação, o Banco Central disse que a inflação está convergindo para a meta de 4,5% este ano e terá pequena alta no ano que vem. Nada que assuste. Isso porque está importando "desinflação" do mundo. O crescimento menor dos países está provocando uma redução do preço de matérias-primas, o que diminui o ritmo inflacionário no Brasil. Mas é claro também que os preços estão em queda pela elevação dos juros no começo de 2011, que ajudou a reverter um quadro de forte aquecimento da atividade.

Segundo a avaliação do Banco Central está havendo um "crescimento moderado do crédito, em torno de 15%". Primeiro, esse ritmo não é moderado para um crescimento anual; segundo, o crédito vem crescendo a taxas acima dessa há vários anos, como mostramos em gráfico esta semana; terceiro, a inadimplência está aumentando muito. Incentivar o endividamento desordenado das famílias é sim brincar à beira do abismo. São muitos os países que tiveram problemas recentes por excesso de dívida privada.

O Banco Central também avalia que "a atividade econômica está em aceleração". Isso não está amparado nos fatos. O ritmo de atividade pode aumentar ao longo dos próximos meses, mas ainda não há sinais de que isso já esteja acontecendo.

O BC foi surpreendido pela queda maior do nível de atividade. A redução do ritmo foi mais forte do que o imaginado. Para reverter o quadro, aceitou até fazer uma apressada liberação de compulsório apenas para os bancos aumentarem a oferta de empréstimos para a compra de carro.

O Relatório de Inflação sempre traz um amplo diagnóstico da economia brasileira. Os pacotes sucessivos revelam a forma como o governo está pensando em reverter os problemas na conjuntura econômica. Os pacotes e o relatório juntos contam o quanto o governo tem errado na avaliação desta crise.

FONTE: O GLOBO

O exagero do crédito pessoa:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

O maior endividamento de muitos brasileiros levou a inadimplência mais grave do que previam os analistas

Tenho chamado a atenção do leitor da Folha sobre as mudanças estruturais que vêm ocorrendo no Brasil nos últimos seis anos. São alterações importantes no metabolismo de nossa economia de mercado, criadas por um longo período de estabilidade e de crescimento.

Reportei também os efeitos positivos que ocorrem em países emergentes quando a gestão macroeconômica correta por vários anos acaba afetando as expectativas dos consumidores e de empresas produtoras de bens e de serviços.

Em outras palavras, quando o futuro passa a ser previsível e confiável, o chamado "espírito animal" do homem é liberado e entra-se em um período econômico virtuoso. Vivemos no Brasil esse cenário, principalmente no segundo mandato de Lula.

Mas, como o grande Keynes nos ensinou há muito tempo, o "espírito animal" leva também a exageros e a desequilíbrios negativos que passam a ocorrer devido aos riscos excessivos assumidos pelos agentes econômicos. Vivemos nestes dois primeiros anos do mandato da presidenta Dilma Rousseff, no caso do consumidor, um exemplo clássico dessa situação.

O crescimento vertiginoso do crédito ao consumo fez com que, em curto período de tempo, o endividamento do brasileiro com o sistema bancário passasse de 6% do PIB para mais de 16%. Esse aumento do endividamento de parcela importante dos brasileiros, tanto na chamada nova classe média como nos segmentos de renda mais baixa, criou uma situação de inadimplência mais grave do que previram os analistas mais atentos às questões microeconômicas.

Os pagamentos de dívidas chegaram a superar 40% da renda de muitos brasileiros, levando a uma parada súbita no ritmo do consumo, principalmente de bens de consumo.

O impacto sobre o crescimento foi imediato. Neste primeiro semestre, o PIB praticamente não cresceu, o que provocou revisão generalizada das previsões para o ano. Antes dessa freada do consumidor -agravada pelo recuo dos bancos na oferta de crédito-, as previsões apontavam para crescimento entre 3% e 3,5%. Hoje, os números mais realistas estão no intervalo entre 1,5% e 2% para o ano inteiro.

Mas é preciso olhar para a frente com cuidado. A massa total de salários está crescendo no Brasil há alguns meses a taxas reais próximas de 12% ao ano, o que vai facilitar os ajustes dos devedores mais ousados.

No segundo semestre, a inadimplência do consumidor vai se reduzir e, na virada para 2013, os gastos vão voltar a crescer. Apenas uma situação de colapso na Europa -cenário no qual não acredito- pode mudar esse curso das coisas. Os economistas da Quest projetam crescimento do PIB da ordem de 4,5% a 5% entre o quarto trimestre deste ano e o primeiro de 2013, o que deve acalmar os mercados e fazer com que os empresários normalizem seus planos de investimento.

Na volta do consumidor às compras, a queda dos juros, que vem ocorrendo há alguns meses, vai servir como estímulo adicional, reforçando esse cenário de recuperação. Por outro lado, os juros reais, da ordem de 3% ao ano nas aplicações financeiras, devem alterar o equilíbrio entre poupança e consumo nas classes de renda mais elevada. Mas só o tempo pode nos levar a essa situação mais favorável.

Nessas condições, aconselho a equipe econômica a ter paciência e a evitar sinais de desespero que aparecem com os chamados "pacotes de estímulos" em cascata. A economia brasileira é hoje muito maior do que o valor desses estímulos, e apenas setores específicos podem reagir a eles. Mas, no agregado e com capacidade de mudar o crescimento do PIB, apenas mudanças estruturais no gasto e no investimento podem ter alguma influência.

Redução do risco sistêmico com a Europa, normalização do crescimento chinês depois de um longo período de ajustes e estabilização da vida financeira dos consumidores são eventos que não dependem do ativismo do governo brasileiro. E sem eles as ações do governo serão sempre de pouco efeito sobre a economia.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 69, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Nacionalismo e desenvolvimento (I):: José Luís Fiori

"A dificuldade da "economia política clássica" foi reconhecer o significado econômico das nações, não apenas na prática mas também na teoria". Eric Hobsbawm, "Nações e Nacionalismo desde 1780", Paz e Terra, 1990, p: 37

Desde a Revolução Francesa, a palavra "nacionalismo" teve várias definições e conotações políticas e emocionais, variando segundo o tempo e o lugar, e aparecendo ora como uma ideologia ou sentimento, ora como um movimento social ou estratégia política. Na sua origem histórica, sobretudo na França e nos Estados Unidos, foi um movimento revolucionário, democrático e cidadão, depois passou a ter uma conotação predominantemente cultural e etnolinguística, sobretudo na Europa Central, para se transformar, finalmente, num projeto político de construção e/ou fortalecimento dos Estados nacionais que nasceram - dentro e fora do continente europeu - a partir das independências americanas. Mas foi só na segunda metade do século XIX que o nacionalismo adquiriu uma face e uma formulação explicitamente econômica e se transformou num instrumento de luta dos países "atrasados" contra a supremacia inglesa.

É bem verdade que depois do século XVI o desenvolvimento econômico capitalista se deu sempre com base em Estados territoriais que praticaram políticas mercantilistas de defesa de suas economias nacionais, e nesse sentido se pode dizer que sempre existiu algum tipo de nacionalismo econômico "primitivo", desde a origem do sistema estatal europeu. Mas foi só na Alemanha, no século XIX, que se formulou uma teoria e uma estratégia nacionalista consistente de desenvolvimento econômico, a partir de objetivos geopolíticos explícitos. Na sua obra mais importante, publicada em 1841, o economista alemão Friedrich List criticava a "economia política clássica" por condenar as nações menos desenvolvidas a "rolar eternamente a pedra de Sísifo" do atraso, exatamente porque havia "excluído completamente a política da ciência econômica, ignorado a existência da nacionalidade, e desconhecido completamente os efeitos da guerra sobre o comércio entre as nações" (1986, p:128). Depois da morte de List e da primeira unificação alemã, em 1871, estas ideias contribuíram decisivamente para o desenho de uma estratégia consciente de desenvolvimento e industrialização, combinada com uma visão ufanista da cultura germânica e com um projeto geopolítico de unificação e expansão do poder alemão, em direta competição com o poder comercial e naval da Grã-Bretanha.

Por que os sucessos econômicos do passado foram interrompidos por retumbantes fracassos políticos?

Desde então, o sucesso econômico da Alemanha se transformou no paradigma de referência do nacionalismo econômico, em todo mundo, e teve uma importância particular na história da Rússia e do Japão, países que têm várias semelhanças geopolíticas com a Alemanha. Entre o fim da "Guerra dos 30 Anos", em 1648, e a unificação de 1871, o território atual da Alemanha foi dividido e "balcanizado", de forma ativa e conivente, pelas grandes potências europeias, e só conseguiu se unificar depois de três guerras sucessivas e vitoriosas, da Prússia contra a Dinamarca, a Áustria e a França, na década de 1860.

Mas mesmo depois da unificação, a Alemanha sempre se sentiu um país cercado e pressionado, carregando um enorme atraso político e econômico e um profundo ressentimento com relação às "grande potências" responsáveis pela criação do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu, e pela liderança da conquista europeia do "resto do mundo". É neste contexto de atraso, cerco e ressentimento nacional, que se deve situar a permanente preocupação defensivo-expansionista da Alemanha, dentro de um "espaço vital" supra-nacional a ser conquistado e preservado. É neste contexto também que se deve situar o "intense commitment" de suas elites civis, militares e intelectuais, que teve um papel decisivo no desempenho econômico do nacionalismo alemão. Em maior ou menor medida, se pode reencontrar muitas destas características na história da Rússia/URSS e do Japão, e nos seus grandes ciclos de intenso crescimento econômico, desde o século XIX, e mesmo entre 1950 e 1991, apesar de que neste período o Japão e a Alemanha fossem transformados em "protetorados militares" a serviço da estratégia militar global dos EUA.

Agora de novo, neste início do século XXI, Alemanha, Rússia e Japão estão seguindo estratégias econômicas nacionalistas, orientadas por seus grandes objetivos estratégicos nacionais permanentes, de defesa e luta pelas suas hegemonias regionais. Para pensar o futuro ou tirar lições, entretanto, seria importante primeiro entender porque os seus grandes sucessos econômicos e tecnológicos do passado acabaram sendo interrompidos por retumbantes fracassos políticos e/ou geopolíticos.

José Luís Fiori é professor titular do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Questão de pontuação:: João Cabral de Melo Neto

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.