quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Marqueteiro de Dilma vai admitir caixa 2 no exterior

João Santana vai admitir que recebeu ilegalmente no exterior

Mario Cesar Carvalho – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O publicitário João Santana, que se entregou à Polícia Federal na manhã desta terça-feira (23) em São Paulo, vai confessar que recebeu recursos irregulares no exterior, segundo a Folha apurou.

O marqueteiro vai ressaltar que nenhum centavo que entrou na sua conta na Suíça teve origem nos trabalhos que prestou para o PT.

Santana atuou em três campanhas presidenciais: na de Lula em 2006 e nas de Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Também trabalhou na eleição do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, em 2012.

Entre 2002 e 2014, a sua empresa, a Polis, recebeu R$ 229 milhões por trabalhos prestados ao partido.

A confissão de Santana é uma tentativa de se livrar das acusações mais graves que pesam contra ele e sua mulher, a publicitária Mônica Moura, também presa pela PF na manhã desta terça.

O marqueteiro deve prestar depoimento à PF de Curitiba nesta quarta (24).

A investigação suspeita que os recursos depositados para Santana foram desviados da Petrobras.

O casal estava na República Dominicana, onde atuavam na campanha de reeleição do presidente, Danilo Medina. Ao chegarem a São Paulo em voo de carreira, foram presos e levados para Curitiba, sob custódia da PF.

Mônica está em cela separada do marido. Há na carceragem outras duas mulheres: Nelma Kodama, doleira e operadora do esquema de desvio de recursos, e Iara Galdino, braço direito de Nelma. Além de Santana, estão presos no local o empreiteiro Marcelo Odebrecht, o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.

O casal foi preso sob acusação de ter recebido US$ 7,5 milhões ilegalmente no exterior, segundo o decreto de prisão do juiz Sergio Moro na 23ª fase daOperação Lava Jato, batizada de Acarajé porque este seria o código que funcionários da Odebrecht usavam para designar propina.

A Odebrecht, de acordo com a investigação da PF, foi responsável pelo pagamento de US$ 3 milhões, enquanto o lobista Zwi Skornicki, que também foi preso, cuidou da remessa de US$ 4,5 milhões.

Ao decretar a prisão do casal, Moro apontou "os pagamentos da Odebrecht a Santana seriam doações eleitorais sub-reptícias", ou seja, caixa dois de campanha.

Santana vai reconhecer o caixa dois, mas deslocará a suspeita para outros países nos quais fez campanha, como Argentina e El Salvador. Nestes locais, a Odebrecht tem diversos interesses.

Por causa do sucesso que obteve no Brasil, Santana fez nos últimos anos mais campanhas presidenciais fora do país do que aqui: foram seis em países da América Latina contra três no Brasil.

Segundo investigadores ouvidos pela Folha, as transferências de Skornicki são o indício mais forte de ligação com a campanha de Dilma.

Ex-representante do estaleiro asiático Kepel Fels no Brasil, o lobista não tinha atividade que justificasse os pagamentos ao marqueteiro, feitos entre setembro de 2013 e novembro de 2014, pouco depois do segundo turno da reeleição da presidente.

Crime menor
O total de US$ 7,5 milhões foi recebido por meio de uma empresa offshore que Santana abriu no Panamá, a Shellbill, a qual tinha conta num banco suíço, o Heritage. Tanto a empresa panamenha quanto a conta na Suíça não foram declaradas à Receita Federal. Ainda não está decidido se Santana apontará a origem dos recursos.

O recebimento fora do país, sem declaração à Receita, pode configurar crime de evasão de divisas, com pena de de dois a seis anos de prisão.

Três especialistas ouvidos pela Folha em condição de anonimato afirmam que o marqueteiro só poderá ser acusado de lavagem de dinheiro se ficar provado que sabia que os recursos tinham origem ilícita.

A pena de lavagem varia de três a dez anos de reclusão, mais multa. Na interpretação de advogados ouvidos pela Folha, seria melhor ser acusado de evasão do que de lavagem por causa da pena menor para o primeiro crime.

Procurada, a Odebrecht afirma que colabora com as investigações.

Colaboraram Graciliano Rocha, Bela Megale e Juliana Coissi

Ministério Público mantém promotor em inquérito sobre Lula, alvo de panelaços

Por Letícia Casado – Valor Econômico

BRASÍLIA - O promotor Cassio Conserino vai permanecer à frente da investigação que apura suposta ocultação de patrimônio por parte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que envolve um apartamento no Guarujá (SP). A decisão foi tomada ontem pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), cujos integrantes seguiram o voto do conselheiro-relator Valter Shuenquener. A investigação deve ser retomada a partir de hoje, e o promotor deve marcar nova data para tomar os depoimentos de Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia.

Ontem, o ex-presidente foi alvo de um panelaço ao aparecer no programa partidário do PT na televisão. O repúdio foi convocado por ativistas contra o partido em redes sociais. Novamente se registrou com força em bairros de maior poder aquisitivo. Houve manifestações em bairros de São Paulo (Bela Vista, Morumbi, Vila Andrade, Perdizes e Higienópolis), Recife (Boa Viagem e Rosarinho), Belo Horizonte (região Centro-Sul), Porto Alegre (Moinhos de Vento), Curitiba (Batel e Bigorrilho) e Rio de Janeiro (Copacabana). Em um bairro pobre de São Paulo, como Perus, não houve manifestação.

Em convocação anterior feita pelos ativistas, quando a presidente Dilma Rousseff discursou sobre a mobilização contra o mosquito Aedes aegypti, dez dias antes, os protestos foram muito menos intensos do que os realizados contra o ex-presidente na noite desta terça-feira. Além de panelas, puderam ser escutados até crianças aos gritos de "Fora Dilma". O bater de panelas durou durante todo o tempo da fala do ex-presidente.

Lula e Marisa Letícia prestariam depoimento na quarta-feira na condição de "investigados" em inquérito que apura irregularidades envolvendo a transferência de obras inacabadas da Bancoop para a OAS - incluindo o triplex no Guarujá, que o promotor Conserino diz ter indícios de que pertence a eles, mas está em nome da empreiteira.

Na véspera, o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) conseguiu junto ao Conselho uma liminar para suspender a investigação, incluindo aí os depoimentos já marcados. Teixeira alegou que o promotor Conserino "transgrediu deveres funcionais" ao antecipar juízo de valor sobre a investigação. Em janeiro, Conserino disse à revista "Veja" que há indícios para denunciar Lula por ocultação de patrimônio. Teixeira também argumentou que Conserino não tem legitimidade para investigar os fatos envolvendo o tríplex por não ser o "promotor natural" do caso, uma vez que o inquérito deveria ser distribuído para outra sessão da promotoria.

O relator Shuenquener suspendeu as audiências e o andamento do inquérito até que o Conselho analisasse o caso, o que foi feito ontem. Em seu voto, suspendeu a liminar e recomendou que a investigação siga com Conserino, mas disse que o princípio de distribuição natural não foi seguido, o que abre margem para o inquérito ser derrubado na esfera judicial. O CNMP é um órgão que trata de questões apenas administrativas. Shuenquener e recomendou ao Ministério Público de São Paulo que siga o princípio da distribuição natural a partir deste caso e que a corregedoria do órgão supervisione os procedimentos que apuram a conduta de Conserino junto à imprensa. Os outros conselheiros seguiram o voto.

Depois da sessão, Cristiano Zanin, advogado de Lula, disse que a discussão sobre eventual nulidade decorrente da condução do processo "ainda vai ocorrer".

Ao tentar esvaziar cofre, executivo é preso na Suíça

Investigado pela Operação Acarajé, o executivo Fernando Migliaccio da Silva, ligado à Odebrecht, foi preso na Suíça quando tentava fechar contas e esvaziar um cofre num banco em Genebra.

Executivo foi preso tentando limpar cofre

• Migliaccio, ligado à Odebrecht, estava fechando conta em Genebra; presidente da construtora também foi preso

Cleide Carvalho - O Globo

- SÃO PAULO - O executivo Fernando Migliaccio da Silva, ligado à empreiteira Odebrecht, foi preso na Suíça no momento em que tentava encerrar contas e esvaziar um cofre num banco em Genebra. A prisão ocorreu no último dia 17, por ordem do Ministério Público suíço, que investiga as movimentações financeiras da Odebrecht no país. Segundo o Ministério Público Federal, as investigações podem estar relacionadas aos mesmos fatos apurados na Lava- Jato, mas as autoridades suíças desconheciam o mandado de prisão preventiva contra ele que tinha sido expedido no Brasil em 11 de fevereiro, e que deveria ser cumprido na 23 ª fase da Lava- Jato, batizada de Acarajé. O juiz Sérgio Moro vai pedir a extradição do executivo.

No Brasil, Migliaccio é apontado como responsável por empresas offshore e contas que foram usadas pela Odebrecht para pagar propina no exterior. A quebra de sigilo de e- mails usados pelo executivo mostrou que ele tinha poder para administrar duas contas usadas para pagar propina a Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco, ex- dirigentes da Petrobras e delatores da LavaJato. Uma das contas é a da Constructora Internacional Del Sur, com sede no Panamá. A outra, da offshore Klienfeld. A Odebrecht nega ter usado contas no exterior para pagar propina.

Os documentos que comprovam a administração das contas por Migliaccio foram obtidos com a quebra de sigilo de dois e- mails usados pelo executivo, um deles da própria Odebrecht. Segundo a PF, os documentos foram digitalizados dentro da empresa. A Klienfeld foi usada para transferir dinheiro ao marqueteiro João Santana e à mulher dele, Mônica Moura.

O casal recebeu o dinheiro por meio da offshore ShellBill, através de um contrato fictício assinado por Marcelo Rodrigues, funcionário de uma corretora. Rodrigues teve prisão temporária decretada segunda-feira, mas ainda está solto. Os advogados dele pediram a revogação da medida, mas o MPF se manifestou contra. A decisão será tomada por Moro.

Migliaccio trabalhou na Odebrecht até o ano passado e, segundo o Ministério Público Federal, foi transferido para os Estados Unidos depois de iniciadas as investigações da Lava- Jato. A Odebrecht pagou todas as despesas e providenciou a obtenção dos vistos.
Apesar de Migliaccio ter se desligado da empresa, o MPF apreendeu documentos que mostram que ele continuou a receber salário. A mudança de Migliaccio teria sido uma das “manobras orquestradas por Marcelo Odebrecht e seus funcionários”, destinadas a dificultar ações de investigação das autoridades brasileiras.

Segundo os investigadores, Migliaccio é dono de uma gama de empresas offshore e tem contas em pelo menos três bancos estrangeiros — PKB, Audi e Barclays —, todos na Suíça. A casa onde Migliaccio mora, na Flórida, foi adquirida por uma das offshores abertas por ele.

Barbosa, interlocutor para políticos
Preso anteontem, o atual presidente da construtora Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, segundo a Polícia Federal, era a pessoa acionada pelo empresário Marcelo Odebrecht para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive apoio financeiro. Barbosa não era o substituto de Marcelo no comando do grupo.

Nas mensagens por celular apreendidas pela Lava- Jato, os investigadores verificaram pelo menos uma referência a um pagamento de R$ 100 mil a uma autoridade com foro privilegiado. Também há conversas em que os pagamentos de propina eram distribuídos por diversos setores da empresa. Segundo despacho de Moro, esse método era usado pelas empreiteiras e chegou a ser detalhado por executivos da Camargo Corrêa, que assinou acordo de leniência.

A troca de mensagem entre Barbosa e Marcelo faz menção a uma “conta pós Itália”, que, segundo despacho de Moro, pode ser uma referência a pagamentos posteriores aos que constam na planilha do “programa italiano”, onde eram anotadas as propinas. A PF afirma que Marcelo Odebrecht sabia dos repasses a João Santana por meio de offshores e teria chegado a orientar dois de seus executivos a fechar contas.

No celular de Marcelo, estava escrito “fechar as contas sob risco”. Segundo os investigadores, o alerta foi dado a Hilberto Silva e Luiz Eduardo da Rocha, funcionários da Odebrecht que tiveram seus nomes usados em contas no exterior. Como Migliaccio, Rocha se mudou para os EUA.

Partidos apoiam manifestação de 13 de março e divulgam nota

Presidentes e parlamentares de partidos de oposição reuniram-se, na tarde desta terça-feira (23), e divulgaram uma nota de apoio à manifestação marcada para acontecer no próximo dia 13, em favor do impeachment, em todo o país. O documento é assinado pelos representantes do PPS, PSDB, PV, Solidariedade e DEM.

O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), disse acreditar que a população sairá às ruas e lembrou que o slogan escolhido será um sucesso : “Ou você vai ou ela fica”.

Foi o segundo encontro da oposição após a deflagração da 23ª fase da Operação Lava Jato, que resultou na prisão do marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas eleitorais do PT, inclusive as da presidente Dilma Rousseff e as do ex-presidente Lula.

Freire disse que o PT “demonizou” duas atividades no país, a de marqueteiro e a de tesoureiro. “Duda Mendonça que o diga, lá atrás, no mensalão, e João Santana, agora, na Operação Lava Jato, e o também mensaleiro Delúbio Soares e, no petrolão, João Vaccari Neto”. Para o deputado, isso “é uma lástima”. “Eu nunca imaginei que o PT no governo iria se transformar nisso que estamos vendo e infelicitar tanto o país”.

A prisão do marqueteiro de Lula e Dilma, na avaliação de Freire, “é mais fato que se soma ao desmantelo do governo, mas se configura como algo muito grave”, por trazer para muito próximo da campanha presidencial que levou à eleição de Dilma a denúncia de corrupção, de envolvimento com o petrolão.

Roberto Freire lembrou que o país vem sendo surpreendido toda semana por fatos que demonstram “a total desestruturação, a total ausência de um mínimo de respeito à lei, com a prática de crimes por parte desse governo que aí está”.

Freire disse que a oposição agirá em duas frentes: no Supremo Tribunal Federal, para que a decisão da corte sobre o rito do impeachment seja revista, e no Tribunal Superior Eleitoral, na ação que propõe a cassação da chapa Dilma/Michel Temer por abuso do poder econômico.

“Entramos agora com um pedido de ampliação de oitiva de alguns delatores e de algumas testemunhas. Nossas ações pelo impeachment não excluem outras, em prol da cassação da chapa, no TSE”.

Da mesma forma, diz Freire, não se pode perder de vista “o sentimento de que esse governo precisa ser paralisado, de que precisamos de um novo governo, seja pelo impeachment, seja por cassação pelo TSE”.

Confira, abaixo, a nota divulgada por presidentes e líderes do PPS, PSDB, DEM, PV e Solidariedade, na qual os partidos apoiam as manifestações do dia 13 de março contra a corrupção e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

“Convocação para as manifestações de 13 de março

Os partidos de oposição representados no Congresso Nacional, constatando o contínuo agravamento da crise política, econômica, social e moral que vem devastando o país, manifestam seu integral apoio às manifestações organizadas e lideradas por movimentos da sociedade civil programadas para o próximo dia 13.

Convocamos os nossos militantes e simpatizantes e conclamamos brasileiros e brasileiras em todos os estados e municípios para estarem na rua defendendo o Brasil e a democracia.
Ou você vai ou ela fica!

Aécio Neves
Presidente do PSDB

Agripino Maia
Presidente do DEM

Roberto Freire
Presidente do PPS

Paulo Pereira da Silva
Presidente do Solidariedade”

Rosângela Bittar: PT esgotado

• Dilma está entre dois Lava-Jato para líder no Senado

- Valor Econômico

O PT terá que promover uma grande renovação do seu quadro político, especialmente nos postos de comando, se quiser pleitear sobrevida ao eleitorado sem recorrer a truques que não têm dado certo, como mudar de nome, por exemplo. Embora essa ideia de alteração da sigla às vezes seja mencionada, mais provável é haver uma luta por dentro para tentar uma mudança de posições de grupos de comando.

Uma renovação ampla, geral e irrestrita, ainda que para ela se busque de volta às disputas os que se afastaram para outros afazeres porque não tiveram espaço no PT, tomado pelas corporações, pelos sindicalistas, pelos que sempre fizeram política de cúpula e especialmente pelos que se especializaram nos métodos petistas de governar o dinheiro público.

O PT ocupou de tal forma a máquina pública que grupos caem aos magotes e ainda há grupos a cair nas próximas denúncias, numa contaminação infinita. Descobriu-se, na última fase da Operação Lava-Jato, que ainda havia coordenador no propinoduto da Petrobras em atividade. É uma continuidade, como descobriu-se que, mesmo preso no mensalão, o ex-ministro José Dirceu tinha protagonismo no petrolão. Um método, um jeito, uma opção política ininterrupta. Neste momento, por exemplo, pode estar alguém fazendo o mesmo que se fez nos dois grandes escândalos até agora investigados.

Esse jeito de agir dispensa o partido de governar. O maior produto dos governos petistas, o Bolsa Família, foi criado logo no início e depois não se sentiu necessidade de fazer mais nada para justificar a perpetuação no poder. Em governos com essa consistência, sem plano ou gestão, o marketing político conduz, é fundamental, está na essência.

Diante de tanta propaganda, o governo se imagina governando, e agride quem não pensa o mesmo sobre suas jogadas de marketing. O recente movimento na área da saúde ilustra o critério estapafúrdio. O governo não ligou para os sucessivos alertas, até do eleitorado mesmo, sobre o péssimo desempenho do PT, sempre, na gestão da saúde. Diante do clamor internacional no caso do Aedes aegypti, a presidente Dilma promoveu um "tour" de ministros pelo país para chamar a atenção da população sobre o combate ao mosquito. Ela própria foi e continua indo aos estados, como o fez com o PAC, o Minha Casa Minha Vida, e outros "slogans pops", antes que fossem medidos resultados disso em recuperação da sua popularidade. Mas entre assessores houve irritação com quem chamou esse périplo de busca de uma agenda positiva, nem o governo entendeu assim.

Não é a epidemia que é agenda positiva, ainda não. É a agenda da presidente que finalmente correu a propagar que ela governa.

O Palácio não se entende, e a tensão aumenta com a aproximação da Operação Lava-Jato dos tronos coroados pelo PT. A presidente não tem quem buscar, no partido, que esteja vacinado, inalcançável pela investigação. Ao contrário, talvez até para impermeabilizar, levou para perto de si o tesoureiro da campanha de 2014 (Lava-Jato Edinho), perdeu seu líder no Senado (Lava-Jato Delcídio) e agora está entre dois nomes para substituí-lo, Lava-Jato Humberto Costa e Lava-Jato Gleisi Hoffmann.

Seu principal conselheiro político, coordenador, estrategista, guru, além de marqueteiro do governo e ex-do PT, aportou agora, com tudo, na operação: Lava-Jato Santana.

A aliança governista do Senado vive tensão que extrapola o PT: Edison Lobão, Fernando Collor, Ciro Nogueira, Renan Calheiros, são nomes cativos da lama em que os jogaram diferentes delatores, não são PT, mas é com eles que a presidente tem convivido sem alternativa.

Petistas da Câmara surgidos na Lava-Jato 1 estão caindo no esquecimento, embora ainda presos. E petistas-tesoureiros também detidos precisam ser substituídos, mas não há candidatos aos postos.

Urge a troca de guarda, de postos, de grupos e comando para que suba quem ainda tem condições de apresentar um projeto e pedir o voto.
____________________________________________________________

Os fetichistas da CPMF poderiam olhar à sua volta e descobrir uma fonte de receita também generosa, também abusiva e também envolta em nebulosidade: o trânsito. As regras, sucessivamente alteradas sem que se conheçam os critérios, com punições às faltas sempre majoradas, têm feito a festa do governo do Distrito Federal e de alguns Estados que já descobriram o caminho das pedras: o poder de financiamento de planos de governo representado pelas multas de trânsito.

Em Brasília é uma indústria bem sucedida, com altos resultados e toda a desfaçatez que se torna necessária às autoridades para explorar um alto contingente de pessoas que, por serem infratoras da lei, precisam conter sua reação.

Quando vir, em Brasília, um agente de roupa amarela sentadinho em uma tampa de bueiro, na grama das proximidades de um semáforo ou de um controle eletrônico de velocidade, saiba que ele está ali de tocaia, à procura dos que aproveitam para falar ao celular.

Há pistas e até estradas em que a velocidade cai repentinamente, para combinar com a íngreme descida que dificulta a redução de 90 para 40 km/h. Multa alta e garantida.

Há aparelhos que medem velocidade abaixo da constante da placa e nem o tombamento da cidade, patrimônio da humanidade, é respeitado. Além dos pardais laterais (apelido dos sensores em Brasília), o governo cruzou as avenidas por cima, com postes que fazem um guarda-chuva sobre o amplo horizonte, marca da capital.

A educação de trânsito é de um realismo chocante. Mais de um professor do curso de reciclagem do Detran admite que a multa já virou instrumento para financiar execução de planos de governo e fazer outros pagamentos.

Em salas de aula, os conselhos das autoridades são de deixar o infrator boquiaberto. Numa aula ensinaram que se um condutor estiver num acidente com um ônibus, mesmo que tenha sido o motorista do coletivo o culpado, saia do local o mais rápido possível para fazer fluir o trânsito. "Não adianta esperar a perícia, as empresas de ônibus e os carros oficiais não pagam o prejuízo. Vá embora, desobstrua a via".

Outra aula é uma das pérolas de cinismo do curso e diz respeito a uma norma que, muita atenção, vai "cair na prova". E caiu: Os sinais gestuais do agente de trânsito prevalecem sobre os do semáforo. 

Assim, se em um semáforo há um guarda fazendo sinal de siga com os braços, obedeça a ele, mesmo que o semáforo esteja vermelho. "E se levarmos multa por ultrapassar um sinal vermelho?" Responde o professor: "Entre na Justiça. Vai recorrer e provavelmente ganhar".

Merval Pereira: Vida difícil

- O Globo

Panelaços mostram que população voltou a se movimentar contra o PT. A vida de Lula não está fácil, e nada indica que melhorará nos próximos meses. O panelaço em nível nacional, alguns julgam o maior dos últimos tempos, indica que a movimentação contra o PT voltou a mobilizar a população, cujo estado de espírito já havia se revelado na pesquisa Ibope que deu a Lula uma mega-taxa de rejeição.

Investigado em várias frentes, ele corre o sério risco de vir a ser indiciado por diversos crimes que começam a ser explicitados. A unanimidade do plenário do Conselho Nacional do Ministério Público que derrubou a liminar do deputado petista Paulo Teixeira, que suspendera os depoimentos de Lula e Marisa na semana passada, tem um sentido político inegável.

Lula vai perdendo as blindagens que o protegiam, e várias forças- tarefas vasculham sua atividade nos últimos anos. O Ministério Público de Brasília aumentou o foco sobre a investigação da atuação do ex- presidente como lobista de empreiteiras aqui e no exterior, e já há indícios de que ele praticou tráfico de influência em favor da Odebrecht no país e no exterior.

Por sua vez, a força- tarefa do Ministério Público de São Paulo, formada pelos promotores Cássio Conserino, Carlos Blat ( natural), Fernando Henrique de Morais e José Guimarães Carneiro, teve confirmada a sua legalidade na investigação do tríplex do Guarujá, e deverá convocar novamente o ex- presidente e dona Marisa para depor.

A anotação encontrada com Marcelo Odebrecht que se refere a R$ 12 milhões para o IL (Instituto Lula) parece ter procedência, pois começam a vir a público antigas reportagens que falam sobre a ideia de Lula de construir um prédio novo para o Instituto Lula, e cita o amigo do peito José Carlos Bumlai como o arrecadador de dinheiro entre os empresários.

Tudo vai se encaixando como peças de um quebra-cabeça pacientemente montado pelos procuradores da Lava- Jato, em Curitiba, com o auxílio da Polícia Federal. Não há histórico de irresponsabilidades nas centenas de prisões já feitas, e é improvável que tenham cometido um erro gigantesco como o de acusar o marqueteiro João Santana sem condições de provar as irregularidades.

O coordenador dos procuradores, Deltan Dallagnol, me disse certa vez que quando uma prisão é decretada, há quase 100% de certeza de que o acusado será condenado, pois as provas são muito robustas. Nesse caso do marqueteiro, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima disse que nunca haviam conseguido um conjunto de provas tão contundentes quanto nesta 23 ª fase da Operação Lava-Jato.

Mais uma vez as investigações vão encaixando as peças do quebra-cabeça, tornando difícil a contestação. Nos documentos de Marcelo Odebrecht foram encontradas há meses anotações que colocam sentido nos fatos posteriormente descobertos. Como, por exemplo, avisar (a Edinho Silva, hoje ministro, ontem coordenador da campanha presidencial) que a conta na Suíça pode chegar a ela, numa clara referência à presidente Dilma.

Uma conta naquele país, de João Santana, já foi confiscada pelas autoridades financeiras suíças. E há também uma anotação que fala em liberar (dinheiro) para o Feira (codinome de João Santana). Difícil imaginar que a Odebrecht pagasse a João Santana por fora pelas campanhas presidenciais que ele andou fazendo para políticos ligados a Lula e ao PT na América Latina.

Seria um crime de qualquer maneira, pois as contas offshores não foram declaradas, mas não faz sentido que tenha sido usado para tal tarefa o engenheiro Zwi Skornicki, representante oficial no Brasil do estaleiro Keppel Fels, considerado um dos principais operadores de propinas ligado à Petrobras.

As acusações da força-tarefa da Lava- Jato vão sendo provadas uma a uma. Eles acusaram a Odebrecht de ter mandado para o exterior, desde o início da operação, vários executivos, para protegê-los e dificultar as investigações. Ontem, soube- se que um deles, o executivo Fernando Migliaccio, que tinha sua prisão pedida nessa 23 ª fase, foi preso em Genebra tentando encerrar contas bancárias.

Ele seria o encarregado de controlar as contas offshore, como as que encaminharam o dinheiro para João Santana no exterior, e fazer os pagamentos de propinas para diversas autoridades em países em que a empreiteira brasileira atua. Tudo indica que estamos chegando à reta final desse quebra-cabeça, que já tem praticamente todas as suas peças encaixadas.

Dora Kramer: A feira do Santana

- O Estado de S. Paulo

O governo sabia, pelo menos desde meados de outubro do ano passado, que o marqueteiro para toda obra - tratado como “40.º ministro” - havia caído na malha da Lava Jato. Os investigadores encontraram referências a pagamentos feitos no exterior, nas anotações registradas no telefone celular de Marcelo Odebrecht.

A citação estava em código. “Feira” era o destinatário do dinheiro, identificado como João Santana numa espécie de trocadilho com a cidade baiana que une o apelido ao sobrenome do marqueteiro. A informação chegara aos ouvidos do senador Delcídio Amaral e fora repassada à presidente Dilma Rousseff e ao antecessor, Lula, nas várias e constantes conversas que mantinha com ambos.

Inverossímil, portanto, o espanto com que alegadamente governo e PT receberam a notícia da ordem de prisão temporária de Santana. Difícil dar fé, pelo mesmo motivo, à incredulidade aludida pelo publicitário diante da decisão do juiz Sérgio Moro. A ideia contida aí nessa simulação é a de fingir surpresa diante da ocorrência de ilícitos. Como assim, pagamentos feitos de maneira irregular? Que história é essa de que o dinheiro das campanhas eleitorais petistas pode ter origem nas propinas das empreiteiras?

Uma história que começou a ser contada há mais de dez anos na CPI dos Correios pelo marqueteiro Duda Mendonça quando confessou ter recebido “por fora” para fazer a campanha de Lula em 2002. Até aí tivemos uma narrativa incompleta que esbarrou na complacência (mal) estudada da oposição e na versão amenizada do caixa dois. Duda pagou o devido à Receita, livrou-se das acusações, mas o aviso estava dado: havia algo mais que contabilidade paralela nas contas petistas.

Não obstante o alerta que levou os conselheiros do então presidente da República a cogitar da hipótese de Lula não concorrer à reeleição, a via do ilícito continuou a ser adotada pelo partido como forma de financiamento. Isso enquanto o PT “lavava” a imagem defendendo com ardor a reforma política, tendo como ponto crucial a instituição do financiamento público de campanhas sob a alegação de que nas doações empresariais é que residia a origem da corrupção no País.

Nos bastidores desse teatro, o modo de operação dos desvios era aperfeiçoado ao ponto da urdidura de um crime supostamente perfeito: contratos superfaturados, cuja “sobra” era encaminhada ao partido que, por sua vez, declarava ao Tribunal Superior Eleitoral as doações na forma da lei. E assim, à sua revelia, o TSE passou a fazer parte do esquema no papel de lavanderia de propinas.

A conclusão não é minha nem decorre de juízo precipitado. Está baseada no conteúdo dos depoimentos de vários delatores que dependem da veracidade de suas informações para obter benefícios da Justiça, nas afirmações contundentes do procurador-geral da República, nas palavras do juiz Sérgio Moro decorrentes do exame das provas já coletadas, no produto das ações de busca e apreensão feitas pela Polícia Federal e na sustentação que os tribunais superiores têm dado aos procedimentos da Operação Lava Jato.

Substituto de Duda Mendonça na arquitetura das vitórias do PT, João Santana não foi atingido agora por uma coincidência. Foi, isto sim, alcançado pelos efeitos da reincidência de um grupo político que invoca constantemente o preceito constitucional da presunção de inocência, mas que preferiu apostar na presunção da impunidade.

João Santana, o gênio conhecedor dos meandros do poder, certamente não embarcou de gaiato no navio. Como de resto estiveram cientes do conteúdo os porões, todos os demais navegantes, dos comandantes aos tripulantes. Ninguém governa por quatro períodos consecutivos sendo o último a saber.

Hélio Schwartsman: Era do marketing

- Folha de S. Paulo

Há alguma justiça poética na prisão de João Santana, o marqueteiro que fez a campanha de Dilma Rousseff. Não sei se Santana é culpado das acusações que lhe imputam, mas não há dúvida de que é um dos principais responsáveis pelo estelionato eleitoral que levou à reeleição da presidente e acabou contribuindo para nos lançar nesta tóxica combinação de crises política e econômica.

A Justiça, entretanto, não pode basear-se em poesia. Ela deve estar calcada em fatos e leis. E, se as evidências que levaram à decretação da prisão do mago eleitoral são tão sólidas quanto a Polícia Federal diz que são, a situação de Dilma pode ficar algo mais complicada, já que haveria provas de graves irregularidades no financiamento de sua campanha. É combustível tanto para reavivar o impeachment como para alimentar um processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE.

É sempre ruim quando um governante não chega ao fim de seu mandato. A retirada antecipada passa o sinal de que algo na democracia saiu errado. Não faz sentido, porém, descrever o impeachment ou a cassação pela Justiça Eleitoral como golpe, a exemplo do que fazem os petistas. São caminhos previstos na Constituição e só se materializarão se todos os requisitos jurídicos forem cumpridos –o que é o avesso de um golpe.

Das duas alternativas, a do TSE me parece a menos ruim. Não porque seja essencialmente mais legítima, mas sim pelos resultados. Um impeachment entregaria o poder ao PMDB de Michel Temer, enquanto a cassação levaria à convocação de um novo pleito presidencial.

A escolha de um novo presidente teria maior chance de debelar o impasse político que hoje praticamente bloqueia uma retomada na economia. Só resta saber se os investigadores têm um caso sólido o suficiente para levar à destituição de um presidente da República ou se tudo não passa de marketing policial.

Luiz Carlos Azedo: O último cartucho

• Lula tangenciou a crise ética protagonizada por seu partido: “É verdade que erramos, mas acertamos muito mais e podemos melhorar muito mais ainda”

- Correio Braziliense

Estrela do programa do PT que foi ao ar ontem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva gastou ontem seu último cartucho para preservar a própria imagem, que vem sendo corroída pela Operação Lava-Jato, que apura o envolvimento do PT no escândalo da Petrobras, e pelo fracasso do governo Dilma Rousseff. Dirigido pelo publicitário Edinho Barbosa, que substituiu o marqueteiro João Santana, o programa defendeu a “união do país” ao falar da crise econômica e criticou o que chamou de “ódio e intolerância” ao PT. Mesmo assim, provocou intenso “panelaço” contra a legenda nas principais cidades do país.

Mais uma vez, o PT culpou a crise mundial pelo fracasso do governo Dilma na economia. O vídeo cita a crise de 1929 nos Estados Unidos, a crise mundial de 2008 e os empréstimos pedidos pelo Brasil ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para defender a nova matriz econômica de Dilma Rousseff, que resultou num desastre: “No passado, não era assim. Ao sinal de qualquer problema na economia, quem pagava a conta era o povo. Nenhuma medida econômica pode ser boa se deixar para trás as pessoas. País mais forte é pais mais justo”, sustenta o presidente da legenda, Rui Falcão.

As investigações relacionadas ao ex-presidente foram tratadas no programa como ataques que “caluniam” e “desrespeitam” Lula. E a oposição foi acusada de tentar ganhar no tapetão, numa alusão ao pedido de impeachment de Dilma Rousseff e a ação do PSDB que pede a cassação de seu mandato no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O ex-presidente da República tangenciou a crise ética protagonizada por seu partido: “É verdade que erramos, mas acertamos muito mais e podemos melhorar muito mais ainda. Temos tudo para voltar a crescer e seguir no caminho do desenvolvimento para ser cada vez mais o Brasil de todos os brasileiros”.

Lula buscou proteção no velho ufanismo nacional: “Parece que virou moda falar mal do Brasil. Hoje tenho muito mais confiança no Brasil do que eu tinha quando tomei posse em 2003. Pessoas que falam em crise repetem isso todo santo dia, ficam minando a confiança no Brasil, mas nós continuamos sendo gigantes no agronegócio mundial, somos o terceiro maior exportador de aviões do mundo e, entre as 10 maiores economias, o Brasil é a que tem a matriz energética mais limpa. Continuamos sendo o sétimo maior mercado consumidor do mundo. Nosso povo está muito mais forte”.

O programa do PT foi a última grande oportunidade para defender a imagem do ex-presidente em cadeia de rádio e televisão neste ano; agora, só restam os programas eleitorais dos candidatos a prefeito do PT, mesmo assim, se os candidatos petistas avaliarem que sua presença pode favorecer a vitória. O melhor exemplo de que tentam se desvincular do PT é o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, um “poste” cuja eleição é atribuída ao prestígio de Lula, mas que agora faz tudo que pode para se descolar da rejeição eleitoral ao PT.

A vida do ex-presidente da República não anda mesmo nada fácil. Ontem, o conselheiro Valter Shuenquener, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que havia sustado seu depoimento no Ministério Público de São Paulo sobre o tríplex do Guarujá, votou pela manutenção da investigação a cargo do promotor Cássio Conserino, que anunciara que já tinha elementos para denunciar o petista por suposta ocultação de patrimônio. A proposta foi aprovada por unanimidade.

Mais preocupante, porém, foi a prisão na Suíça do funcionário da Odebrecht Fernando Migliaccio da Silva, que teve prisão decretada na 23ª fase da Lava-Jato. A prisão foi executada com base em ordem do Ministério Público Federal daquele país, que notificou as autoridades brasileiras por ofício, nesta terça. A prisão aconteceu na semana passada e não tem relação com o mandado expedido no Brasil, que era desconhecido pelas autoridades estrangeiras. Documentos que revelam que ele gerenciava contas usadas pela Odebrecht no exterior para pagar propinas para autoridades do Brasil e de outros países.

Segundo a Polícia Federal, Migliaccio mudou-se para o exterior logo após as buscas e apreensões feitas na empresa, em junho de 2015. A Lava-Jato investiga possíveis transferências de recursos desviados da Petrobras pela Odebrecht para contas de João Santana, marqueteiro do PT nas últimas três campanhas presidenciais, e sua mulher e sócia, Monica Moura, que chegaram ontem da República Dominicana e foram presos. Voltaram da viagem sem celulares e laptops, que a Polícia Federal pretendia apreender. A prisão de Santana deslocou o foco das investigações da Operação Lava-Jato para as campanhas eleitorais de Lula, em 2006, e de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Na cúpula petista, a maior preocupação é com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não tem foro privilegiado e é investigado pelo juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba.

Eliane Cantanhêde: A pimenta do acarajé

- O Estado de S. Paulo

O mundo político, que já estava totalmente desequilibrado, virou de pernas para o ar com a prisão do marqueteiro João Santana. Se o processo de impeachment de Dilma Rousseff vinha esfriando sensivelmente no Congresso, o processo de cassação de mandato da presidente está fervendo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Há uma diferença fundamental entre um e outro. Pelo impeachment, a presidente cai e o vice Michel Temer assume plenamente, como ocorreu com Itamar Franco no afastamento de Fernando Collor. Pela cassação, a chapa Dilma-Temer cai e é convocada nova eleição num prazo de três meses.

A oposição se dividia entre as duas alternativas ao desastre na economia e ao impasse na política, mas a tese do impeachment perdeu força por três fatores: 1) governos, mesmo cambaleantes, ainda têm a arma da caneta e a munição dos cargos; 2) a presença de Eduardo Cunha na presidência da Câmara (e, portanto, do julgamento) inviabilizou o debate sobre o afastamento de Dilma; 3) Temer se expôs desnecessariamente e se desqualificou como o Itamar Franco da nova transição.

Sobrou a solução TSE, que tem uma vantagem e uma desvantagem sob o ponto de vista da oposição. Se é mais direta, objetiva e pode até ser mais rápida do que a interminável batalha política do impeachment no Congresso, a saída via TSE tem de ser decidida por apenas sete ministros, o que sempre pode gerar mais reação e questionamento entre os militantes e aliados do PT – o que, de resto, aconteceria, ou acontecerá, de qualquer forma.

Em comum, há um mesmo bode na sala tanto do impeachment quanto do processo de cassação, e esse bode tem cara, nome e contas milionárias no exterior: Eduardo Cunha. Como presidente da Câmara, ele comanda o processo de impeachment, mas no caso da cassação de mandato é bem pior: seria ele a assumir a Presidência da República até a posse do novo eleito.

Se ninguém gosta de pensar em Eduardo Cunha sendo a estrela do impeachment de Dilma ou de qualquer presidente que fosse, quem suportaria vê-lo presidindo o País por um único dia sequer, refestelado na cadeira mais importante de um País já tão traumatizado pela confluência maligna de crises? Seria o fim da picada.

Chegamos aí a uma conclusão nada fácil de ser digerida: caso as labaredas da prisão de João Santana façam mesmo ferver o processo de cassação contra Dilma-Temer, o TSE e o Supremo Tribunal Federal teriam de se acertar para traçar um cronograma de governabilidade e do menor trauma possível. Primeiro, o STF teria de tirar o bode Cunha da sala e da presidência da Câmara. Só depois o TSE poderia julgar qualquer coisa em relação à chapa Dilma-Temer.

Uma combinação assim não é nada fácil – e se vier a público é um escândalo em si, mas o fato concreto é que o entrosamento entre Supremo e TSE é direto, sem intermediários. Três ministros de um compõem o colegiado do outro: o presidente do TSE é Dias Toffoli, o vice é Gilmar Mendes e o terceiro é Luiz Fux.

A oposição venceu a primeira batalha quando o vice-procurador-geral eleitoral, Eugênio Aragão, fez parecer favorável à inclusão da provas da Lava Jato no processo contra a campanha do PT de 2014. A suspeita contra João Santana, por exemplo, é de que ele recebeu no exterior US$ 7 milhões provenientes de desvios da Petrobrás. (Ele nega)

E assim vamos, aos trancos e barrancos, com as empresas endividadas, as lojas fechando, as famílias apavoradas e o PT vivendo cada dia sua agonia. Enquanto o partido concentra energias para resgatar Lula, Dilma precisa desesperadamente salvar seu pescoço. Mas, se tentam correr cada um para o seu lado, há mais um entre tantos elos entre criador e criatura: João Santana, o “Patinhas”, o álcool no fogo do TSE, a pimenta do acarajé.

Com João Santana preso, o processo de cassação de Dilma ferve no TSE.

A alma do negócio – Editorial / Folha de S. Paulo

Entre os mais de cem presos nos dois anos da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, o publicitário João Santana é, certamente, o mais próximo à presidente Dilma Rousseff (PT).

Conselheiro informal e frequente da petista, esteve à frente das três últimas campanhas do partido ao Planalto. Na mais recente delas, imprimiu sua marca mais memorável e controversa –a propaganda de pronunciado tom ideológico com que Dilma demonizou, e associou a seus adversários, o ajuste econômico que hoje leva a cabo.

Conforme a PF, Santana recebeu no exterior, irregularmente, US$ 7,5 milhões (cerca de R$ 30 milhões, pela cotação atual), entre 2012 e 2014, de firmas ligadas à construtora Odebrecht e a um lobista de nome Zwi Skornicki, alvos das investigações sobre o pagamento de propinas com verba surrupiada dos cofres da Petrobras.

Para a polícia, há "forte probabilidade" de que os pagamentos guardem relação com serviços prestados ao PT; para o juiz Sergio Moro, há "fundada suspeita" de que o dinheiro tenha sido extraído dos contratos superfaturados da gigante estatal.

Os termos aspeados assinalam que resta distância considerável entre os fatos conhecidos e uma prova suficiente para, como pretende a oposição tucana, definir o processo que pede a cassação de Dilma na Justiça Eleitoral.

Quatro ações movidas pelo PSDB acusam a chapa dilmista de ter se valido de poder político e econômico abusivo, captação e gasto ilícito de recursos. Por óbvio, tais teses ganhariam reforço decisivo com a eventual descoberta de que o petrolão auxiliou a candidatura.

Santana, ao que se indica, negará vínculo entre o dinheiro recebido –desde bem antes da reeleição da presidente– e sua atividade doméstica. Ele amealhou, dentro da lei, espantosos R$ 88,9 milhões do PT pela empreitada de 2014 e comandou campanhas presidenciais em outros cinco países.

Haverá explicações mais difíceis, como para os pagamentos feitos por um lobista radicado no Rio; será recordado o precedente de seu antecessor, Duda Mendonça, que admitiu caixa dois na eleição de Lula em 2002; sobre Dilma paira ainda o conteúdo ora desconhecido de delações premiadas colhidas pela Lava Jato.

Vai além de formalismos jurídicos, ademais, a corrosão que ameaça o mandato da presidente. Os humores da política e da rua são afetados pelo acúmulo de crises e suspeitas que compõem o quadro de um governo prisioneiro das escolhas erradas do passado.

Se é de imagem que se trata, a do marqueteiro do engodo eleitoral atrás das grades é poderosa.

O conselheiro da presidente – Editorial / O Estado de S. Paulo

A prisão do marqueteiro João Santana em nova fase da Operação Lava Jato atinge em cheio o centro do poder em Brasília, uma vez que fica exposta a forte ligação de confiança entre a presidente Dilma Rousseff e o homem que, mais do que principal estrategista de suas duas campanhas eleitorais, tem sido um de seus principais conselheiros, frequentemente consultado sobre questões políticas, além de assídua participação na elaboração de estratégias de comunicação e marketing do governo.

O grau de confiança depositado por Dilma Rousseff em João Santana deixa a presidente da República em situação difícil e constrangedora diante das graves suspeitas sobre ilicitudes praticadas pelo marqueteiro em suas relações profissionais com o governo e o PT.

Em resumo, Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura, foram presos porque são suspeitos de receber, em contas no exterior, como pagamento por serviços prestados ao PT na campanha presidencial de 2014, US$ 7,5 milhões provavelmente desviados da Petrobrás.

Enquanto o PT e seu principal líder, Lula, afundam-se no mar de lama que criaram, Dilma Rousseff tem conseguido permanecer distante de suspeitas de envolvimento nas ilicitudes que se tornaram prática habitual na gestão da coisa pública, escudando-se por detrás da imagem de lutadora idealista que não tem sequer “conta no exterior”. Nessa linha, optou claramente por antepor-se à imagem do desmoralizado presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, envolvido dos pés à cabeça em denúncias de corrupção. Manteve-se distante dos companheiros de partido e aliados que se lambuzaram, tentando transmitir para o público a imagem da idealista que não suja as mãos na corrupção, que combate “a ferro e fogo”.

Se é até possível acreditar que, por convicção pessoal, Dilma não procure se beneficiar materialmente das facilidades que o poder proporciona, mais difícil de crer e explicar é que não perceba o que acontece em seu entorno. E essa é a questão que inevitavelmente assalta a consciência de qualquer pessoa minimamente informada num momento como este, em que o guru em marketing eleitoral e conselheiro político da presidente da República é preso no curso de investigações sobre o escândalo da Petrobrás e suas implicações com a eleição presidencial.

Depois de quase dois anos de exaustiva investigação da Lava Jato e da condenação de dezenas de réus, muitos deles confessos, pelos mais variados crimes relacionados ao bilionário propinoduto montado na Petrobrás, é impossível de imaginar, a não ser de má-fé, que esse monumental esquema de corrupção tenha, durante quase uma década, desviado recursos da estatal e nem um mísero centavo tenha caído nos cofres do PT. Dilma parece não ver isso.

A expertise de João Santana – que tem em seu currículo meia dúzia de eleições presidenciais vitoriosas na América Latina – custa caro. Mas isso nunca foi problema para o PT, que aprendeu que pode contar com bons amigos para armar habilidosas engrenagens capazes de fazer o dinheiro que está aqui logo em seguida aparecer ali, geralmente bem longe do Brasil. Essa prática, aliás, já fora utilizada pelo PT para pagar seu marqueteiro da campanha eleitoral de 2002, Duda Mendonça, que a confessou, lacrimoso, em depoimento a uma CPI em Brasília. Mas os tempos eram outros e o País vivia ainda o clima mítico em que a obra de redenção social em pleno curso não poderia ser maculada por detalhes insignificantes. Demorou um pouco para pelo menos parte da consciência nacional se dar conta de que populismo e malandragem são velhos parceiros.

É claro que esse novo e espetaculoso episódio do processo de saneamento a que a Operação Lava Jato e congêneres estão submetendo a administração pública será como lenha na fogueira do impeachment de Dilma Rousseff, seja por crime de responsabilidade, seja por violação das regras eleitorais. E se isso vier a acontecer será no mínimo irônico verificar que o combustível terá sido fornecido por quem contribuiu decisivamente para as duas eleições de Dilma.

A conta do aparelhamento de fundos de pensão – Editorial / O Globo

• Lideranças petistas começaram a avançar sobre entidades no início da década de 90, para usá- las no que viria a ser o projeto lulopetista de poder. Não tem dado certo

Grandes investidores institucionais no mercado financeiro e também com participação direta em empresas, os fundos de pensão de empresas estatais têm uma história antiga. O maior e mais tradicional, o Previ, surgiu em 1904 como Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil. Outros, menos longevos, como Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica), são da década de 70, mas têm, mesmo isoladamente, elevado calibre financeiro. Somados, constituem uma forte musculatura no mundo dos altos negócios.

Reportagens do GLOBO, publicadas domingo e segunda, relatam como o PT teve esta percepção e, por meio do seu braço sindical, a CUT, idealizou e executou, a partir do início da década de 90, um plano de ocupar fundos de estatais, para usá- los como instrumento de governo. A iniciativa partiu do então presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Luiz Gushiken, já falecido, à época futuro ministro da Secretaria de Comunicações de Lula. Nenhuma novidade nisso, porque o tucano Fernando Henrique Cardoso mobilizaria fundos de pensão no programa de privatizações do seu governo. Mas, sob Lula, aconteceu algo bem mais amplo: um enraizado e abrangente aparelhamento dos principais fundos, em que, de resto, a CUT já dava as cartas.

Resultado disso é que se somam aos prejuízos derivados da conjuntura de crise aqueles causados por operações temerárias influenciadas por interesses políticos e ideológicos do PT e aliados, além de perdas provocadas por malfeitos.

Um negócio emblemático, símbolo de gestão temerária, inspirado em atos de vontade sem pé na vida real, é a Sete Brasil, criada em 2011 pela Petrobras, bancos privados ( Bradesco, BTG, Santander), além do fundo de investimentos de FGTS, Previ, Petros e Funcef. Estimularia estaleiros a montar plataformas no Brasil, e as compraria para alugá- las à Petrobras. Um programa típico do “Brasil Grande” da ditadura. Não deu certo. Ainda não se sabe quanto do prejuízo caberá aos fundos. Esta é uma operação que só se viabilizaria com o aparelhamento dos fundos, sem falar no BNDES.

Há pelo menos uma grande intercessão entre fundos e esquemas do caixa dois petista, ainda a ser conhecida à medida que avancem as investigações da Lava- Jato. Eles também aparecem na famigerada cooperativa habitacional Bancoop, dos bancários de São Paulo, fundada quando o agora ministro Ricardo Berzoini presidia o sindicato, e também por João Vaccari Neto, ex- tesoureiro do PT, preso em Curitiba.

Em agosto do ano passado, o conjunto de Petros, Funcef e Postalis (Correios) acumulava um déficit de R$ 29,6 bilhões. Parte terá de ser coberta por aumento da contribuição dos associados. Outra parcela será empurrada para empresas “mantenedoras”, um rombo que no final baterá no Tesouro. E assim os contribuintes em alguma medida pagarão pela aventura, iniciada na década de 90, de tomada de assalto de fundos pelo PT.

Cristiano Romero: Nelson Barbosa 2.0

• Ministro da Fazenda lida com problemas que ajudou a criar

- Valor Econômico

Ocupando o desafiador cargo de ministro da Fazenda no momento mais difícil dessa função em 22 anos de Plano Real e no terceiro pior desempenho da economia brasileira na história da República, Nelson Barbosa lida com problemas que ajudou a criar. Ele foi, desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o principal ideólogo das mudanças da política econômica que prevalecia no país desde 1999, quando se adotou o regime de metas para a inflação.

Barbosa é o mais longevo dos economistas a serviço de governos do PT. Começou, já em 2003, primeiro ano de Lula no poder, como assessor de Guido Mantega no Ministério do Planejamento. No ano seguinte, foi com o ministro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Voltou para Brasília, desta vez para a Fazenda, em março de 2006, levado novamente por Guido Mantega.

No fim daquele ano, começou a se aproximar de Lula ao se licenciar do cargo para participar da campanha presidencial. Foi ali, como porta-voz de temas econômicos da campanha, que começou a ganhar projeção. Ao contrário de seu então chefe, Barbosa sempre exibiu um discurso lógico, claro, inteligível à maioria dos interlocutores, típico de economistas políticos.

O que talvez muitos não tenham percebido é que Barbosa não estava ali a passeio. Ele tinha uma missão: ajudar Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil, a mudar a política econômica que, sob o comando de Antonio Palocci, prevaleceu nos três primeiros anos do governo Lula.

Dilma quis mudar essa política já em 2003, quando ainda era ministra das Minas e Energia. Não teve força para isso porque esbarrou no pragmatismo de Lula. De tanto ouvi-la criticar a política de Palocci, o então presidente chegou a lhe encomendar um plano alternativo, que, por sorte, Dilma jamais formulou - se o tivesse feito, muito provavelmente Lula não a teria nomeado para a Casa Civil no auge do mensalão.

Na Casa Civil, Dilma, que na ocasião já se comunicava com Nelson Barbosa, impediu que Palocci aprofundasse, no fim de 2005, o ajuste fiscal iniciado em 2003. Depois do episódio em que a então ministra qualificou de "rudimentar" o plano de Palocci, este perdeu força e foi tragado pouco depois pelo escândalo da quebra do sigilo bancário de um caseiro - denunciado, foi inocentado três anos depois.

Iniciado o segundo mandato de Lula em 2007, Barbosa foi nomeado secretário de Acompanhamento Econômico. Já influente, foi um dos mentores do Programa de Aceleração Econômica (PAC), plano idealizado para projetar Dilma politicamente. No momento em que a economia brasileira começava a crescer de forma mais rápida, com controle da inflação e disciplina fiscal, a ideia era voltar ao passado: forçar o aumento do investimento em infraestrutura com a participação das estatais e do crédito público subsidiado.

Em 2008, Barbosa assumiu a secretaria de Política Econômica, onde intensificou a interlocução com Dilma, já escolhida por Lula para disputar a sucessão. Dessa proximidade, surgiram políticas públicas como o Minha Casa, Minha Vida.

Naquele ano, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, defendeu que se criasse uma nova fonte de recursos para o banco, uma vez que o funding do banco estava minguando. Barbosa disse "não": Coutinho teria que, anualmente, ir a Brasília bater na porta da Fazenda para solicitar dinheiro. Foi assim que, entre 2008 e 2014, o Tesouro captou R$ 504 bilhões (cerca de 10% do PIB!) a juros de mercado e os emprestou, a juros subsidiados, ao BNDES.

Iniciado o reinado de Dilma Rousseff em 2011, Barbosa ascendeu ao cargo de número 2 da Fazenda e defendeu, desde o início, a redução da meta de superávit primário como condição para a economia crescer de forma mais rápida. Palocci voltou ao governo, mas ficou isolado: ele era voz forte, mas isolada na defesa da disciplina monetária e fiscal. Deixou a Casa Civil antes do término dos primeiros seis meses da nova gestão, em meio a denúncias de enriquecimento ilícito - o caso foi arquivado dois anos depois.

Com a saída de Palocci, não havia mais em Brasília obstáculos à guinada definitiva da política econômica que Barbosa sempre defendeu. Os juros administrados pelo Banco Central foram reduzidos na marra, o câmbio foi desvalorizado e depois administrado e a disciplina fiscal foi abandonada. Na Nova Matriz Econômica, nada deu certo e o país entrou numa das mais graves crises de sua história. A inflação voltou a dois dígitos, a economia está em recessão desde o segundo trimestre de 2014, o PIB pode fechar o biênio 2015-2016 com encolhimento de 8% e a taxa de desemprego pode chegar ao fim deste ano acima de 10%.

Em meados de 2013, Barbosa deixou o governo graças a uma disputa de poder com aquele que, dez anos antes, o levou para o Planalto Central - Guido Mantega tem inúmeros defeitos, menos o da deslealdade; tendo permanecido no cargo de ministro até 31 de dezembro de 2014, levou sozinho a culpa pela tragédia da Nova Matriz.
Dilma ganhou a eleição em 2014 dizendo que, se o BC tivesse independência, faltaria comida na mesa dos brasileiros - o marqueteiro que bolou essa mistificação está, neste momento, preso na superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR) -, mas sabendo que, em 2015, seria obrigada a dar uma guinada nas próprias ideias. Desde o início, quis nomear Barbosa para comandar a Fazenda, mas teve que engolir Joaquim Levy.

Levy cometeu seus próprios erros, mas não caiu por causa deles. Sua queda começou em maio, quando, ao pedido de um contingenciamento de R$ 70-80 bilhões, deram-lhe o simbólico 69,9. Dois meses depois, impuseram-lhe a redução da meta de superávit e, em agosto, empurraram-lhe uma proposta de orçamento com déficit primário embutido. Por trás de todas as derrotas de Levy, estava ele, Nelson Barbosa.

Em conversas com a presidente, disse que a diminuição da meta aceleraria o crescimento e que apenas com crescimento haveria equilíbrio fiscal. Com a inevitável perda do grau de investimento, passou a defender a adoção de medidas para estimular a atividade e a admitir o crescimento da dívida.

Em entrevista a Ribamar Oliveira e Leandra Peres, Barbosa reconheceu que, com o atual nível de gastos do governo, não se consegue estabilizar a dívida pública, que apenas em 2015 cresceu nove pontos percentuais, para 66,2% do PIB. Ele disse que o nível de receitas também não permite a acomodação da dívida e que a solução do problema fiscal passa pelas duas variáveis

Nelson Barbosa tem hoje um discurso que corrige, em alguma medida, o Nelson Barbosa que ajudou a jogar o Brasil na crise em que se encontra hoje.

Miriam Leitão: Pagar a conta

- O Globo

Desde 2005, o custo dos juros pulou de 4,6% para 10% da renda dos brasileiros. Esse é um dos indicadores que mostram o resultado de uma década de estímulo às dívidas. O problema é que após o aumento do endividamento e do gasto com os juros, o cenário se deteriorou, com a alta da inflação, do desemprego, e a mais profunda recessão de que se tem notícia. Esse é o pior ambiente para estar endividado.

A consequência disso é o aumento da inadimplência. Os economistas acreditam que é baixo o risco de uma crise financeira como aconteceu nos EUA, mas dizem que isso vai atrasar a recuperação do PIB. O processo de desalavancagem, ou seja, de redução do endividamento, é sempre difícil, e no caso brasileiro tem sido agravado pelos juros exorbitantes.

A economista- chefe do SPC Brasil ( Serviço de Proteção ao Crédito), Marcela Kawauti, explica que o spread bancário está muito elevado porque os bancos já estão incorporando em seus cenários o aumento do calote. A contradição é que, por temer o crescimento dos casos de não pagamento, os bancos elevam a taxa para se proteger, mas acabam agravando o quadro.

Os indicadores do BC mostram que os atrasos com mais de 90 dias saltaram de 5,17% em março do ano passado para 6,1% em dezembro, do total de crédito livre concedido a pessoas físicas. Essa taxa já foi maior, em 2012, quando chegou a 7,2%, e acendeu a luz vermelha no mercado financeiro. Kawauti explica que, embora o número agora seja menor, é preciso cautela, porque os bancos estão mais seletivos na concessão de empréstimos, e ainda assim o indicador está em alta:

— Os bancos estão há um bom tempo escolhendo melhor os tomadores de crédito, pedindo mais garantias, encurtando prazos e limites. Então, o normal seria o indicador cair. A piora da economia se sobrepõe à melhora das carteiras por parte dos bancos.

A economista lembra que os números do SPC indicam que os atrasos estão aumentando não só nas dívidas financeiras, mas também em vários serviços, como de telecomunicações, água, luz e outros tipos de taxas:

— Na Região Norte, a quantidade de contratos inadimplentes no setor de telecomunicações subiu 9,89% em janeiro, em relação ao mesmo mês de 2015. No Nordeste, houve alta de 12,3%. Já nas regiões Centro- Oeste e Sul, os maiores atrasos foram nas contas de água e luz, com altas de 13,3% e 17%. No Sudeste, estamos sem estatísticas, por causa de uma lei de São Paulo que dificultou a negativação dos inadimplentes.

Kawauti não acredita em risco de uma crise sistêmica, ou seja, que uma avalanche de inadimplência possa desestabilizar o sistema financeiro, como aconteceu nos EUA. Mas explica que o impacto é retardar ainda mais a recuperação do PIB brasileiro.

— Os bancos são muito conservadores no Brasil, o Banco Central tem regras rígidas, e a relação crédito/ PIB ainda é baixa, apesar de ter dobrado. O principal efeito será retardar a volta do crescimento, porque o spread ficará elevado, e isso vai dificultar consumo, produção e investimentos — afirmou.

O endividamento total das famílias passou todo o ano de 2015 na casa de 46% da renda acumulada em 12 meses. Permaneceu estável. Mas esse percentual é quase o dobro dos 25% de 10 anos atrás. Quando sai da conta o crédito imobiliário, houve redução de 31%, em 2012, para 27% no final do ano passado.

Muita dívida foi estimulada para alavancar o crescimento dos governos Lula e Dilma. A conta chegou no momento mais difícil, de forte recessão. Será preciso dose extra de esforço para reorganizar os orçamentos e evitar as armadilhas dos juros.


Vinicius Torres Freire: Acarajé e o pão velho da crise

- Folha de S. Paulo

A Operação Acarajé repôs Dilma na fritura quando o risco de deposição da presidente parecia diminuir, se diz por aí. Já se ouviu essa conversa umas três ou quatro vezes desde 2015. O óleo voltou a queimar.

Não parece razoável, portanto, pensar a crise como um ioiô em que as chances de sobrevida da presidente subam a cada aparente resfriamento dos escândalos ou a cada vez que Dilma "vença" uma disputa no Congresso como cabo eleitoral de alguma facção rastaquera.

Não importa se a gordura seja dendê, banha ou petróleo. O governo de Dilma Rousseff é torrado por incêndios sem controle.

Lava-Jato. A operação não terá fim, afora um golpe ou acordão políticos ou erro, dada a extensão da pirataria contra o Estado. Deve queimar até que tudo se consuma:

1) Puxa-se uma pena, vem uma galinha. A Lava Jato se ramifica sem limite;

2) A Lava Jato tem ramos antigos que ainda vão dar brotos. Estão para começar as delações da Andrade Gutierrez. Há brasas dormidas no setor elétrico. Há a Zelotes (compra de decisões tributárias e de medidas provisórias). Etc.;

3) Há o processo contra quatro dezenas de parlamentares, que podem dar em muitas flores do pântano;
4) O processo pode ser dosado politicamente. Está morno? Puxe-se aquela pena. Vem um peru gordo e sujo.

Oposição, ruas, PMDB. Dado o vexame do ano passado, nas férias o PSDB levou um pito "das bases" (grandes financiadores) por ter ajudado a explodir o resto das contas públicas. Voltou dizendo, de modo confuso, que não vai apelar ao "quanto pior, melhor". Porém:

1) O PSDB vai tentar tocar fogo "nas ruas" pelo impeachment;

2) Os tucanos já fazem lobby para que o Supremo desembarace os procedimentos do impeachment. Acabam de colocar um acarajé na bandeja do processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE;

3) Apesar da "vitória" do governo na semana passada, o PMDB-Câmara está tão dividido quanto no final do ano passado. Uns 40% dos deputados são de "oposição".

Crise. Pioras e incertezas:

1) O ritmo de aumento do desemprego e queda dos salários se acelera. A inflação tornou-se persistente: vai demorar mais a cair, se tanto, grande fator de desânimo do consumidor, o cidadão comum;

2) O plano de obras que poderia ajudar a tirar o país do atoleiro, o de 2015, não sai do lugar. O de 2012 vai atolando. O efeito positivo maior das contas externas aparece só em 2017;

3) As reformas que o governo promete são ainda vagas e poucas. São dinamitadas pelo PT. Outros partidos teriam má vontade de votar medida impopular em qualquer situação, menos ainda em ano eleitoral, com os petistas dando o fora;

4) Fala-se que o governo vai cortar tantos bilhões do Orçamento. É tudo conversa meio mole. A gente não sabe nem qual vai ser a receita (se vai ser mais derrubada pela recessão). Dilma está pedindo aos "partidos da base", pelo amor de deus, pessoalmente, que votem aumento de imposto. Tem ouvido nãos;

5) Não há, à vista, ação coordenada do establishment econômico por um "pacto" pela mudança econômica, se isso ainda é possível em um país complexo como o Brasil.

Todas as bocas do fogão da crise estão acesas.

Sobre “tudo que está aí”: Maria Alice Rezende de Carvalho*

- Boletim Cedes – Centro de Estudos Direito e Sociedade agosto-dezembro 2015

Alguém já disse que o ensaísta Otávio Paz se sentia à vontade “no todo”, no trato de questões que lhe permitiam viajar por largos períodos de tempo, transitando, quase sempre, do domínio da política para o da cultura, do conjuntural para um aspecto constitutivo do modo de existência dos mexicanos. Mas talvez se pudesse dizer que, independente do ensaísta, esse é o propósito do gênero ensaio: um esforço de entendimento de algo que é pressentido no seu contorno, e não no detalhe. Ensaios falam de coisas já sabidas por todos, que, contudo, tomam de assalto a consciência quando arrumadas de um jeito novo. Por isso, quando o contexto expõe fraturas políticas aparentemente profundas, quando a divisão é o elemento dominante no cenário intelectual, o ensaio é um convite à reunião de todos nesse lugar comum, uma convocação a esse recuo de onde é possível avistar mais facilmente o “todo”.

Vive-se hoje uma crise cujo escopo abrange a política, a economia, a legalidade republicana e um modo de existir socialmente, a que se dá o nome – ou, pelo menos, se dava – de Brasil. Se as três primeiras dimensões são constantemente referidas, revezando-se na preferência dos analistas, as menções à nossa maneira de viver, isto é, à ética social brasileira e aos deslocamentos que se verificam nesse âmbito têm sido menos frequentes. E talvez seja aí onde se nutre o nosso mal estar.

No Brasil, guardadas as devidas proporções, as três últimas décadas conheceram uma revolução social comparável à dos anos compreendidos entre 1940 e 1980. Naquela época, a chegada de milhões de brasileiros às cidades era o aspecto que mais se destacava e o que melhor traduzia os rumos que a modernidade assumia entre nós. O êxodo rural experimentou um momento de grande aceleração, e, por volta de 1970, chegou a transferir para as cidades o equivalente a 30% da população rural – cerca de 12 milhões de pessoas. Assim, se o Brasil dos anos 1940 apresentava uma taxa de urbanização de 26,35%, ao final do período mencionado, essa taxa já havia atingido 68,86%. Em seu livro A urbanização brasileira, onde se encontram tais informações, Milton Santos afirma que, ao longo desses quarenta anos, a população total do Brasil triplicou, enquanto a população urbana brasileira se multiplicou por sete vezes e meia.

Os migrantes vinham atrás de melhores condições de vida – o que significava não apenas casa e trabalho dignos, mas também o acesso à educação e, sobretudo, a uma vida livre, que as relações de trabalho nos latifúndios não favoreciam. Movido pelas políticas de substituição de importações, o mercado industrial de trabalho foi uma poderosa miragem para aquele contingente, estimulando, nesse sentido, a urbanização dos Estados de São Paulo e da Guanabara, destinos preferenciais de homens pobres do campo, sem adequação imediata ao modo de vida urbano. Muita gente se desprendeu de toda parte do Brasil em busca de melhor destino; e a penosa entrada em um mundo desconhecido não parecia tão ruim, comparada à permanência no campo.

O fato, porém, é que essa revolução demográfica conhecerá assentamento durante a ditadura militar, conformando, nas cidades, um tipo de experiência social inseparável daquela circunstância. Se a experiência política da ditadura vem sendo revolvida – como se observa com a construção de uma memória pública relativa àqueles anos –, o mesmo não se dá com a experiência social da ditadura, ainda que seus efeitos sejam bastante severos e duradouros. É claro que um número significativo de estudos se debruçou sobre a organização da sociedade civil naquele período, apontando, justamente, a destruição – ou, pelo menos, o abrandamento – do que havia sido conquistado desde o segundo pós-guerra. Mas as organizações sociais, como se sabe, além de habitarem a fronteira da política, supõem a participação de cidadãos empenhados. Portanto, a experiência social da ditadura como algo que afeta a todos, indistintamente, e não apenas àqueles que participam do mundo público-político, deve ser buscada em uma específica configuração histórico-espacial que resultou do encontro entre aquela gigantesca onda migratória e o autoritarismo político. A esse resultado se pode dar o nome de “cidade da ditadura”, isto é, o ambiente urbano que, tendo sido fruto de uma determinada conjuntura, se tornou perene.

A súbita movimentação de migrantes em escala superior ao que as cidades brasileiras poderiam comportar gerou uma pressão social latente que terá sido afrouxada com a informalização do trabalho e da habitação, o que não apenas liberou variadas estratégias de subsistência, incluído o improviso habitacional das favelas e cortiços, como também desmarcou algumas instituições da cidade – sobretudo ruas e espaços públicos, que foram sendo devoradas pela informalidade reinante. Deliberada ou não, foi essa a “política urbana” praticada pelos militares: deixar que as cidades fossem conformadas pela acomodação espontânea entre velhos e novos habitantes, velhos e novos interesses, cabendo os custos materiais e sociais daquela acomodação aos próprios citadinos. Ao fim de algum tempo, a desregulação encontrou operadores que mercantilizaram alguns arranjos e passaram a viver do absenteísmo governamental. Mandões, valentões, toda a florada de patronos dos ajuntamentos populares contiveram a pressão embaixo – alinhados, evidentemente, pela repressão estatal – enquanto, em cima, mandava a indústria da construção civil, incorporando novos terrenos e dando emprego à mão de obra despreparada e analfabeta que adentrara o mundo urbano. Viadutos, túneis, pontes, conjuntos habitacionais construídos em áreas de fronteira da cidade, foram amarrando as gerações futuras a uma era de autoritarismo político que se inscreveu na própria morfologia das cidades

É, portanto, nessas “cidades da ditadura” que continuamos a viver – cidades marcadas por arranjos urbanísticos de péssima qualidade e pior inspiração, pela escassez de saneamento, pela proliferação de guetos sociais, pela violência do Estado, pela ausência de participação efetiva da sociedade em experiências de auto-organização, e, como se não bastasse, pelo desrespeito à vida (e mesmo à morte), que se percebe em eventos como o da recente passagem do trem da SuperVia sobre o corpo do jovem que jazia em seus trilhos. Pesquisa realizada posteriormente pelo jornal O Dia constatou que a maioria dos entrevistados apoiou a decisão dos administradores. Quem há de estranhar? A brutalização dos passageiros da SuperVia é nutrida, cotidianamente, pela ausência de dignidade que a empresa lhes concede: não há limpeza, conforto, segurança, banheiros públicos, plataformas cobertas nas estações, acessos facilitados aos mais velhos, às crianças e aos deficientes, e, aliás, qualquer certeza quanto aos serviços anunciados. Enfim, esse é o miserável cenário que nos contém, em nada parecido com o de uma cidade livre – vivemos tristes em ruas tristes, aprisionados em cidades da ditadura.

As três últimas décadas no Brasil, de modo similar ao que ocorreu nos anos compreendidos entre 1950-1980, representaram uma mudança estrutural no país, expressa na chegada de milhões de brasileiros ao mundo dos direitos. Não se trata mais da migração campo-cidade, mas da vitória da agenda da igualdade, que conhece enorme desenvoltura em todo o mundo – e, no Brasil, não tem sido diferente. Entre nós, as políticas de transferência de renda somadas a um ambiente político democrático pareciam poder impulsionar a participação e, com ela, o aprofundamento das conquistas consagradas pela Carta de 1988. O tema da “inclusão” e a denúncia da desigualdade seguem sendo, desde o início dos anos 2000, os ângulos hegemônicos das análises voltadas aos impasses da democracia brasileira.

Portanto, é impossível não mencionar avanços auferidos nesse âmbito – das políticas focais a estratégias de valorização dos setores mais vulneráveis da população. Mas também seria irresponsável desconhecer o fato de que tais avanços apenas roçam a superfície do problema. E por dois motivos. O primeiro deles é mais óbvio: não basta apenas ter acesso aos direitos; é preciso que eles se tornem efetivos, cumulativos e cotidianos. Crianças e jovens vão às escolas, mas não necessariamente se alfabetizam ou têm a chance de fazer do conhecimento uma via de ascensão e de reconhecimento social; moradores de favelas têm acesso à eletricidade, mas, se houver um problema no fornecimento, por quantos dias, semanas, em alguns casos, meses, permanecerão sem o serviço? De fato, a democratização dos “bens de cidade” ainda é limitada, pois a simples garantia dos direitos não corresponde automaticamente ao seu usufruto.

O segundo motivo, talvez mais importante, é que a cidade, tal como se encontra estruturada, não permite que mesmo as mais bem intencionadas políticas de transferência de renda alterem o círculo vicioso da pobreza urbana, que, como se sabe, supõe uma forte relação entre territórios e oportunidades sociais e ocupacionais. Assim, transferir renda, mantendo, porém, grandes áreas da cidade destituídas de equipamentos e serviços públicos, não promoverá a democratização da sociedade. Afinal, parodiando Luiz Cesar Queiroz Ribeiro, “o que a economia produz como promessa de bem-estar individual, a metrópole transforma em mal-estar coletivo”.

Em suma, a novidade dessa segunda revolução demográfica não é mais a chegada das grandes massas à cidade e sequer sua adequação à pauta de consumo que a cultura urbana impõe, mas, antes, a chegada das grandes massas ao mercado de crédito – fenômeno que cancelou a barreira da “heterogeneidade estrutural” que, na América Latina, impedia o avanço da sociedade de mercado. O argumento é da economista Lena Lavinas, que, no caso brasileiro, observa que o sistema de saúde – mas, se poderia dizer o mesmo sobre o sistema educacional – foi financeirizado, como se atesta pela rápida expansão dos planos de saúde. No caso do sistema educacional, vide a multiplicação de escolas e faculdades privadas.

Ora, esse deslocamento da provisão pública dos “bens de cidade” para a esfera privada não reflete a melhoria das condições de vida das famílias brasileiras. Trata-se, ao contrário, de uma dinâmica de fortalecimento do capital financeiro e de mercantilização da cesta básica de direitos (nela incluídos, habitação e transporte), cujo efeito tem sido a ampliação da vulnerabilidade dos segmentos mais pobres da população. Em outras palavras, a política social que acompanha esse segundo grande ciclo de expansão da urbanização brasileira não concorre para a democratização da cidade. Sendo o acesso ao mercado financeiro a grande novidade desse segundo desenvolvimentismo, todas as exigências de uma cidade igualitária vêm sendo progressivamente descuidadas, para não dizer canceladas: não há saneamento básico para uma grande parte da população metropolitana, não se construíram moradias dignas na proporção requerida, o sistema de transportes humilha e avilta seus usuários, a saúde e a educação públicas são deficientes e... se utiliza o crédito para assegurar necessidades básicas. Nesse sentido, à “cidade da ditadura”, excludente e autoritária, se superpõe a “cidade da inclusão financeira”, que não afeta a morfologia urbana herdada do regime militar e tampouco a desigualdade nela inscrita.

Daí que, paralelamente aos diagnósticos que tomam as jornadas de julho de 2013 como expressão periférica de um movimento global de contestação política, como algo derivado de energias destampadas pela interação de jovens que, “não sabendo o que querem”, sabem que não desejam ver obstruídos seus esforços de participação, é importante destacar o quanto o modo de vida nas cidades brasileiras contribuiu para a deflagração daquele e de futuros levantes.

É claro que há algo de descontentamento político no movimento das ruas, sobretudo se considerarmos o quanto os representantes se distanciaram da sociedade e de seus anseios. Mas isso talvez seja mais verdadeiro entre os jovens argentinos, que têm proclamado um contundente “que se vayam todos”. O levante das ruas brasileiras, diferentemente, foi e será movido por uma constatação da falência das instituições urbanas, uma sensação de desatendimento das expectativas quanto ao viver em cidade, uma amarga experiência social – além da política – deixada pela ditadura. A (des)organização do espaço, a sofrível oferta de serviços públicos, a individualização do acesso a bens de cidadania, a mercantilização, a exclusão, a desregulação, enfim, “tudo isso que está aí” são vestígios do fracasso da democracia brasileira em prover uma cidade livre e justa.
----------------------
* Professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio e Pesquisadora do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES-PUC-Rio)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Opinião do dia – Aécio Neves

Houve muita picaretagem na campanha, mas para mim essa Operação Acarajé é o que de mais grave ocorreu até aqui em níveis de contaminação da presidente Dilma e sua campanha. A operação é a comprovação de que houve dinheiro desviado da Petrobras através do operador Zwi Skornicki.
---------------
Aécio Neves é senador e presidente nacional do PSDB