domingo, 2 de agosto de 2026

A violência como projeto, por Míriam Leitão

O Globo

É importante entender que cada ato de violência política contra mulheres faz parte de um projeto perigoso de retrocesso

A violência contra as mulheres na arena política, os insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exasperam quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas, de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato isolado. É o ronco de um projeto.

Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na reação cometem crimes.

O cientista político Mark Lilla tem uma expressão tão eloquente que é inescapável para explicar o fenômeno do extremismo do pensamento reacionário: “mentes naufragadas”. Elas querem impor a volta do passado que idealizam e que era nefasto por excluir grande parte da sociedade: as mulheres, os negros, os indígenas, os que eles avaliam como “diferentes”. Mas os diferentes chegaram e se impõem.

A reação contra o novo é comum na História e faz com que antigos imigrantes reajam contra novos imigrantes. Um fenômeno já conhecido pelos estudos sociais. A questão agora é de outra natureza. Há riscos concretos de retrocesso. Eles, os seres do passado, se organizaram, se alavancam nas redes sociais, sem limites e regulação, criam núcleos, agem de forma coordenada, cometem crimes seriais. Quem vê um insulto isolado, como coisa de um indivíduo abjeto, não vê a cena política inteira em que o avanço civilizatório está em perigo.

O impensável aparece a cada dia. Recentemente comentei aqui os movimentos pelo fim do voto da mulher. Pareceria só uma esquisitice tempos atrás, hoje é ameaça real. A ideia em si de um voto por família, com o homem da casa escolhendo por todos, é uma proposta que atinge o coração da democracia e da autonomia das pessoas. Os jovens então teriam seus votos suprimidos já que pertencem ao núcleo familiar? A estratégia é ir comendo os direitos pelas bordas. Há uma versão mitigada desse absurdo tendo adeptos, a de propor voto facultativo para as mulheres. E há quem até, em nome da liberdade, diga que isso é bom. O voto permaneceria sendo obrigatório para os homens. Não é uma proposta inocente. É o começo da revogação das vitórias que as sufragistas colheram há um século.

A virulência dos ataques que já caíram sobre tantas colegas da imprensa tem um propósito. Não há sofisticação alguma na estratégia. É o uso da força bruta para calar as mulheres. O recurso às imagens sexuais como parte da infâmia também não é ocasional. Integra a estratégia dos ataques.

Elas são sempre as vítimas da violência sexual nas guerras de submissão. Foi essa também uma das formas de tortura durante a ditadura militar no Brasil. Os estupros digitais se normalizam na sociedade hiperconectada de agora. E não vai adiantar, para os mais sensíveis e cansados, saírem das redes. Seria deixá-los vencer nesta arena.

Este é momento de extremo perigo para quem tem um outro sonho feliz de sociedade. Para quem acredita que vitórias se acumulam levando a novas vitórias. É inevitável render-se às evidências. Há um movimento sinistro que avança, disposto a revogar o conquistado, anular progressos e usar todas as armas espúrias e deletérias para alcançar seus propósitos.

A minha geração é sonhadora. Sonhamos com o fim da ditadura e vimos o amanhecer. Marchamos com as mulheres e avançamos. Invadimos espaços fechados e abrimos as janelas para renovar o ar. Decidimos quebrar barreiras entre grupos sociais e muitas vezes foi difícil nos entendermos, mas o diálogo foi curativo. Encaramos fraturas cristalizadas na História do país e pensamos em políticas para superá-las. Admiramos alguns frutos brotando nas árvores que plantamos. Mas nunca foi fácil. Pagamos um preço alto para sobreviver ao tempo mais sombrio. Por isso, não podemos deixar de avisar aos mais jovens que o inimigo está ativo, avança, tem planos e métodos.

 

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