O Globo
Ronaldo Caiado, candidato do PSD a presidente
da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre
lulistas e bolsonaristas.
A escolha do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para candidato do PSD a presidente da República é uma tentativa de abrir espaço alternativo à polarização entre lulistas e bolsonaristas. A ideia é que o eleitorado está cansado dessa disputa, existente desde a eleição de 2018, e anseia por uma novidade que o mobilize. Caiado não é exatamente uma novidade na política, mas é um fator novo na disputa, com a vantagem de ter experiência em cargos públicos que o credencia. Novidade seria o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, mas não há indícios de que ele teria condições de enfrentar o presidente Lula ou o clã Bolsonaro.
Dois políticos com alavancagem própria — os
governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do Paraná, Ratinho Junior —
foram abandonados justamente por falta de condições de disputar com os
favoritos. Caiado tem a vantagem de ser um representante histórico da direita,
que já foi radical na época da União Democrática Ruralista (UDR) e hoje faz
mais o gênero direita moderada. Não vejo como tirará votos da esquerda, mas é
um bom nome para disputar os eleitores pendulares de centro, que podem votar ou
em Lula ou em Bolsonaro, dependendo da situação eleitoral e das circunstâncias.
Os analistas de pesquisas entendem que esse
grupo definirá a eleição no segundo turno. Isso dá uma vantagem ao Caiado
moderado, que disputará com o Bolsonaro moderado. O primeiro já provou sua
mudança, enquanto o outro terá de fazer um esforço redobrado para convencer os
eleitores de que representa esse espécime raro do bolsonarismo. O passado
radical do governador de Goiás está mais longe que o do senador Flávio
Bolsonaro, portanto ele terá vantagem ao tentar convencer o eleitorado de que
reapresenta uma direita não radicalizada.
Não é à toa que o presidente Lula prefere que
seu adversário principal seja um Bolsonaro, dando sequência à disputa de
extremos que lhe dá vantagem. Em 2018, Jair Bolsonaro uniu a vontade do
eleitorado de mudar de rumo ao fato de Lula estar na cadeia e não disputar a
eleição. Além do mais, o então ex-presidente deixou para a undécima hora a
indicação de Fernando Haddad como seu substituto, facilitando a vida de
Bolsonaro.
Desta vez, não foi possível a Jair esticar a
indicação até o final do prazo, pois havia em seu encalço o governador de São
Paulo, preferido de setores da direita, enquanto Bolsonaro pai e seu grupo
temiam sua “independência” do bolsonarismo. Mostrou-se acertada a escolha de
Flávio para sucessor do movimento, embora não haja certeza de que, quando
começar a ser atacado, seu telhado de vidro seja resistente o suficiente para
garantir a competitividade. Se não for, abre-se um novo caminho na direita.
Em um ponto importante, Caiado tem vantagem,
o programa de governo. Lula foi eleito em 2022 sem apresentar projeto,
apoiou-se em sua imagem pública e nas realizações dos dois governos anteriores.
Bolsonaro tentou a reeleição prometendo aprofundar o que havia feito no
primeiro governo, e talvez isso tenha sido fundamental para perder, embora por
pequena margem. O eleitorado de centro estava sob o impacto do governo belicoso
anterior e temia que uma vitória nas urnas avalizasse a radicalização. Viu-se,
depois, que o perigo era muito maior do que se supunha, pois estava em
construção um golpe de Estado, não apenas a radicalização retórica.
Caiado, embora mais conhecido que os demais
candidatos à Presidência, precisará expandir suas ideias nacionalmente e, para
tal, terá de usar não apenas os sucessos que vem tendo no governo de Goiás, mas
convencer o eleitorado de que soluções locais para problemas nacionais, como a
segurança pública, são viáveis. Se não aparecerem novidades, terá outra
vantagem, que também teriam o gaúcho Eduardo Leite e outros candidatos: não
pesam sobre ele acusações de corrupção, que ajudam tanto o presidente Lula
quanto o senador Flávio Bolsonaro a ter taxa de rejeição altíssima. Caiado
começou sua campanha ressaltando a inexperiência do candidato do bolsonarismo.
Terá de fazer mais.

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