terça-feira, 31 de março de 2026

Diretas Já no Rio vira laboratório da eleição presidencial, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Pleito popular por mandato-tampão repete disputa entre lulistas e bolsonaristas

Vácuo no poder está ligado à infiltração de organizações criminosas

Eduardo Paes pegou o túnel do tempo, deu um rolé (carioca não dá rolê) em 1984 e voltou sonhando com multidões. Postou nas redes fotos da campanha das Diretas Já, um dos maiores movimentos políticos da história brasileira, que acabou frustrado no Congresso, mas enfraqueceu a ditadura militar. Com o voto popular, o ex-prefeito e candidato a governador do Rio de Janeiro espera conter a infiltração de organizações criminosas nas instituições, sobretudo na Assembleia Legislativa.

Respondendo a um pedido do PSD, partido de Paes, o ministro Cristiano Zanin, do STF, suspendeu a realização de eleições indiretas para escolha do substituto do ex-governador Cláudio Castro, que renunciou para evitar sua cassação. Zanin manteve no exercício do cargo o presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto de Castro. Este teria a responsabilidade de organizar, em maio, junto com o TRE, o pleito para eleger o nome de quem concluirá o mandato até dezembro de 2026. O entendimento tem o respaldo de Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino.

A situação de inconsistência jurídica ficou escancarada depois da eleição-relâmpago, com características de golpe parlamentar, que levou o deputado Douglas Ruas –candidato do PL ao governo do estado– a presidir a Alerj por poucas horas. A desembargadora Suely Lopes Magalhães, presidente em exercício do TJ, anulou a votação, classificando-a como "manobra", "desvio de finalidade" e "interferência" nos ritos previstos em lei.

Nunca um mandato-tampão teve tanta relevância. Se ocorrer, o comparecimento às urnas do terceiro maior colégio eleitoral do país será um termômetro da campanha presidencial. De um lado, o experiente Eduardo Paes, com apoio de Lula; do outro, o novato Douglas Ruas, ex-policial que representa o bolsonarismo.

Nos últimos 30 anos, o Palácio Guanabara foi ocupado por nulidades envolvidas em escândalos de corrupção, prisões e impeachment. Com as diretas, a população, mais uma vez, poderá avaliar o custo de escolhas descuidadas.

 

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