Delações seletivas têm mesmo de ser rejeitadas
Por O Globo
PF e PGR acertam ao recusar propostas que
nada de novo trazem à investigação do caso Master
Fizeram bem a Polícia
Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR)
em rejeitar as propostas de delação premiada de Daniel
Vorcaro, ex-dono do Banco Master,
e de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Pelo que
veio a público das negociações, elas não acrescentariam nada de relevante ao
que já se sabe sobre a maior fraude bancária da História do país. É preciso
fechar a porta à tentativa dos acusados de aproveitar os benefícios da lei sem
oferecer informações que contribuam para as investigações, já bastante
avançadas a partir do material apreendido nas operações policiais.
Apesar da mudança de advogados e das promessas de colaboração, sete meses depois de preso pela primeira vez, Vorcaro ainda não conseguiu convencer os investigadores de que está realmente disposto a falar o que sabe sobre os desmandos do Master e sua atuação nos bastidores da República. Ao contrário. A cada novo episódio que as autoridades trazem a público, sua situação se torna mais constrangedora.
A proposta de delação de Vorcaro nem citava
os afagos ao senador Ciro Nogueira, com viagens internacionais, hospedagens em
hotéis de luxo e outras regalias, na tentativa de aprovar no Congresso o
aumento do limite do Fundo Garantidor de Créditos para favorecer os papéis
podres do Master. Tampouco o pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL),
pré-candidato à Presidência, para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o pai,
Jair Bolsonaro. Nem as relações nada republicanas de seu ex-sócio Augusto Lima
com o senador Jaques Wagner, forçado a deixar a liderança do governo no Senado
depois da operação da PF que revelou suspeitas de ter recebido vantagens
indevidas. Vorcaro não achava tudo isso relevante? Não queria comprometer
amigos? Que mais omitiu?
Há também dúvidas pertinentes sobre o destino
do robusto patrimônio de Vorcaro. Ao reforçar o pedido para manutenção da
prisão dele, a PF revelou ao Supremo Tribunal Federal ter identificado indícios
de movimentações “compatíveis com estratégias de ocultação, blindagem ou
deslocamento patrimonial”. Seria o cúmulo formalizar qualquer acordo de delação
enquanto o banqueiro tenta esconder o dinheiro obtido ilegalmente.
Da mesma forma, Paulo Henrique Costa precisa
sair da retranca e falar o que sabe. Ele é peça fundamental no escândalo, uma
vez que a tentativa de compra do Master pelo BRB só não foi adiante por ter
sido barrada pelo Banco Central. Certamente teria contribuição relevante às
investigações. Na avalição da PGR, no entanto, sua proposta de delação tem
“reduzida utilidade e débil eficácia potencial”. Não ajudaria na recuperação de
ativos nem no ressarcimento aos cofres públicos.
A colaboração premiada é um instrumento
legítimo, que pode contribuir de forma notável para investigações — não como
prova em si, mas como ponto de partida para desvendar crimes complexos. Mas não
pode ser usada apenas para beneficiar o réu. Se quiser obter benefícios como
redução de pena ou mudança de regime, o delator precisa apontar caminhos, fatos
ignorados ou não suficientemente esclarecidos. Falar o que polícia e MP já
sabem é ridículo. Omitir o que também já sabem é mais ridículo ainda. A
hesitação de Vorcaro e Costa parece significar a aposta em que o estardalhaço
em torno da fraude bilionária acabará em nada. Se isso acontecer, será uma
lástima.
Política nacional para superdotados carece de
estatísticas fidedignas
Por O Globo
Lei que estipula atenção especial na rede
pública é bem-vinda, mas ainda deixa lacunas a preencher
É bem-vinda a sanção pelo presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva da lei que institui a Política Nacional para Estudantes com Altas
Habilidades ou Superdotação (AH/SD). A lei ainda deixa lacunas em aberto, mas
ao menos toma uma iniciativa em relação a um grupo de estudantes que, da mesma
forma como aqueles com deficiência física ou cognitiva, precisam ser acolhidos
pela rede pública escolar, onde frequentemente acabam segregados, sem desafios
à altura de suas capacidades.
Durante muito tempo, subsistiu a ideia de que
deveria haver “escolas especiais” para crianças fora do padrão. Com o tempo,
porém, prevaleceu o conceito de educação inclusiva
para todos, pois a convivência com gente de diferentes perfis contribui para
uma formação mais plena. Teve especial importância um decreto de 2011
estabelecendo que a educação especial será oferecida “preferencialmente na rede
regular de ensino” para “pessoas com deficiência, com transtornos globais do
desenvolvimento e com altas habilidades ou superdotação”.
Apenas um decreto, porém, não tem a
capacidade de tornar a escola pública um ambiente inclusivo, capaz de oferecer
a cada aluno um ensino correspondente a suas habilidades. Para começar, é
necessário identificar com precisão as necessidade de cada um entre 47,1
milhões de matriculados nas 179,3 mil escolas no ensino básico. De acordo com
dados do Censo Escolar de 2012, citados em artigo do pesquisador Lívio Luiz Soares
de Oliveira na Revista Brasileira de Educação Especial, havia naquele ano
11.025 alunos com AH/SD na educação básica, num universo de 2,5 milhões, ou
apenas 0,004% do total. Pelo último levantamento, 43.950 estudantes são
formalmente considerados de altas habilidades ou com superdotação. São números
muito distantes dos 3,5% a 5% da população estimados pela Organização Mundial
da Saúde.
O Conselho Brasileiro para Superdotação
afirma haver vários indícios de subestimativa no cálculo da parcela de alunos
superdotados que não são devidamente atendidos. Como argumento, usa a
estimativa de cerca de 15% da população com QI igual ou superior a 115.
Aplicada essa proporção ao total de matriculados, haveria mais de 7 milhões de
alunos nessas condições. O dado sugere haver grande contingente de crianças e
jovens desassistidos.
As dificuldades para a rede escolar receber bem esses alunos se estendem aos documentos oficiais do governo federal. Nem sempre eles incluem os alunos de altas habilidades entre os que precisam de atendimento educacional especial. De acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, do Todos Pela Educação, somente 41% desses alunos tinham em 2024 acesso ao atendimento estipulado por lei. A execução da política nacional para superdotados passa, antes de tudo, pelo levantamento de estatísticas fidedignas.
Projeções anunciam decisões difíceis no
próximo governo
Por Folha de S. Paulo
IFI aponta que a dívida pública seguirá em
alta mesmo com hipóteses otimistas para PIB e juros
Limite de despesas é inconsistente com regras
para Previdência, saúde e educação; Gastança de Lula deixará herança inglória
As novas projeções da Instituição Fiscal
Independente (IFI), vinculada ao Senado,
prenunciam anos difíceis para o governo a ser eleito em outubro. Longe de
qualquer sinal de reversão, a escalada da dívida pública permanece em todos os
cenários considerados.
No tido como mais provável, um pouco menos
ruim que o apresentado no semestre anterior, as receitas federais atingem 18,9%
do PIB em
2026 e recuam gradualmente para 18,3% no médio prazo. Já as despesas não
financeiras sobem de 19,2% do PIB neste ano para 19,9% em 2032, antes de uma
estabilização parcial em torno de 19,4%.
Estima-se melhora do saldo em 2026 e 2027,
devido à maior arrecadação resultante de preços de petróleo elevados —que
geraram revisões positivas de cerca de R$ 18 bilhões anuais. Com isso, será
mais fácil cumprir formalmente as metas oficiais.
Entretanto o relatório da IFI trabalhou com a
hipótese do barril Brent a US$ 85 em 2026. Com o aparente arrefecimento de
tensões geopolíticas, as cotações já recuaram
para patamares inferiores a US$ 75, o que pode anular boa parte do
ganho previsto.
Os parâmetros do cenário-base podem ser
considerados otimistas. O crescimento do PIB é projetado em 2% em 2026 e 1,8%
em 2027, convergindo para uma média de 2,3% ao ano a partir de 2028 —ritmo
superior ao potencial da economia brasileira.
A taxa real de juros esperada
cairia de 7,5% em 2026 para 5% no médio prazo, reduzindo o custo de
financiamento da dívida. Tal evolução, porém, provavelmente só ocorrerá num
contexto de maior confiança com ajuste orçamentário duradouro, algo que o
governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
nem mesmo se esforçou por conseguir até aqui.
No cenário pessimista, com crescimento médio
do PIB de apenas 1,3% ao ano de 2028 em diante e juros reais em torno de 7,5%,
a dívida bruta salta de 82,8% do PIB em 2026 para 158,3% em 2036, um patamar
insustentável.
Nas hipóteses mais positivas da IFI, a
estabilização da dívida em torno de 80% a 85% do PIB depende de crescimento
médio de 3,4% ao ano a partir de 2028 e redução dos juros reais para 4%.
A regra legal que limita a expansão dos
gastos primários (com pessoal, programas sociais, custeio administrativo e
investimentos) a 2,5% acima da inflação ao ano é inconsistente, pois se choca
com a dinâmica real de pagamentos obrigatórios, que crescem em ritmo superior.
As razões essenciais são os reajustes reais do salário
mínimo, que oneram uma Previdência
Social já pressionada pelo envelhecimento populacional, e os
pisos constitucionais da saúde e
da educação indexados
à receita.
A
irresponsabilidade de Lula deixará herança inglória, que
demandará ajustes difíceis. Infelizmente, até candidaturas de oposição evitam
esse debate, com medo de afugentar eleitores. Decepções após o resultado das
urnas são cada vez mais prováveis.
Judicialização em alta eleva custos na saúde
Por Folha de S. Paulo
Número de novos casos sobre o tema no STJ
sobe de 13,8 mil em 2021 para 19,4 mil no ano passado
Processos se concentram no setor privado; é
preciso fortalecer a solução de controvérsias nas instâncias internas e
administrativas
A judicialização da saúde segue
em alta no Brasil. Apenas em 2025, 19,4 mil novos casos sobre o tema chegaram
ao Superior Tribunal de Justiça, segundo o anuário publicado pelo Conselho
Nacional de Justiça (CNJ)
—foram 13,8 mil em 2021, com aumento contínuo no período.
O litígio excessivo eleva custos para
pacientes, o SUS e planos de saúde, além de sobrecarregar o sistema judicial.
Apesar de tentativas por parte de órgãos reguladores, operadoras, gestores
públicos e tribunais, há muito a fazer na busca por racionalidade.
Em geral ancorado no artigo 196 da Constituição,
segundo o qual "a saúde é direito de todos e dever do Estado", o
litígio, concentrado no setor privado, pode promover iniquidades ao direcionar
recursos a demandas individuais, por vezes sem evidência, e não a soluções
estruturais.
A maior parte dos casos —quase 16 mil em
2025— refere-se à saúde complementar. A maioria desses processos diz respeito a
tratamento médico-hospitalar (8.225). Em seguida vêm planos de saúde (5.131),
fornecimento de medicamento (2.202) e reajuste contratual (793), entre outros.
Cabe ao STJ reforçar
as decisões já tomadas pela corte, e aos tribunais inferiores, aplicá-las de
maneira consistente. Exceções devem ser tratadas como tais. Segundo
especialistas, inovações em tratamentos e tecnologia, bem como disputas
contratuais, têm levado a mais litígios, apesar de parte dos temas já estar
pacificada na jurisprudência.
Há melhoras a serem feitas na regulação. Foi
bem-vinda a regra da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) pela qual as
operadoras de planos de saúde precisam esclarecer por escrito o porquê da
negativa de uma cobertura, o que adiciona racionalidade ao sistema.
Tentativas de dar previsibilidade ao setor
têm encontrado obstáculos no Brasil. A ANS buscou estabelecer um rol taxativo
de procedimentos, mas uma lei tornou essa regra somente indicativa —depois de o
STJ ter decidido em sentido oposto.
Em 2025, o Supremo Tribunal Federal permitiu
que procedimentos fora do rol sejam
concedidos por ordem judicial, sob certas condições: prescrição
médica, eficácia e segurança comprovadas e autorização pela Anvisa.
É cedo para avaliar o efeito dessa decisão do STF. A escalada do litígio, no entanto, revela que pacientes e planos não têm conseguido superar controvérsias nas instâncias internas e administrativas. Cumpre fortalecer esses canais, para que o Judiciário deixe de ser a porta primordial de solução de demandas individuais.
A ganância pode custar caro
Por O Estado de S. Paulo
Seduzidos por rendimentos acima do mercado,
cinco Tribunais de Justiça depositaram bilhões no BRB. Agora, arriscam perder
um dinheiro que não é deles, mas de partes em processos judiciais
O corregedor do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ), ministro Mauro Campbell Marques, quer que cinco tribunais enviem
informações atualizadas sobre os depósitos judiciais que mantêm no Banco de
Brasília (BRB). A instituição está envolvida até o pescoço no escândalo do
Banco Master, mas está com cerca de R$ 30 bilhões em depósitos judiciais, um
dinheiro que não pertence aos órgãos, mas a pessoas físicas ou empresas com
processos em andamento nos Tribunais de Justiça (TJs) do Distrito Federal, da
Bahia, de Alagoas, do Maranhão e da Paraíba. A preocupação do ministro, com
toda razão, é que os valores sejam perdidos caso o BRB venha a ser liquidado, o
que não parece mais algo tão improvável.
Dada a situação cada vez mais difícil do BRB,
o leitor talvez se pergunte por que razão os Tribunais de Justiça de Bahia,
Alagoas, Maranhão e Paraíba, tendo a possibilidade de manter os depósitos
judiciais sob sua custódia em instituições federais como Banco do Brasil (BB) e
Caixa Econômica Federal, escolheram o banco do Distrito Federal para fazê-lo. E
o motivo, segundo eles mesmos, foi o rendimento que o BRB estava disposto a
pagar sobre esses depósitos, em alguns casos mais que o dobro do oferecido por
BB e Caixa.
Qualquer investidor sabe que remunerações
mais altas implicam riscos mais elevados. A questão é que a taxa de retorno
sobre esses depósitos não iria para a parte vencedora das causas, mas para os
próprios tribunais. Foi assim que o ex-presidente do TJ-MA, José Ribamar Froz
Sobrinho, admitiu ter conseguido recursos para honrar seu “compromisso” de
pagar indenizações – ou seja, penduricalhos – para magistrados e servidores.
Mais por sorte do que por juízo, o contrato
do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios com o banco se
encerrou em maio passado, o que permitiu que os novos depósitos fossem
direcionados à Caixa. Os antigos, no entanto, permanecerão no BRB.
Enquanto isso, o BRB sofre uma previsível
corrida de liquidez. Quem podia já sacou o dinheiro que tinha depositado no
banco, o que só aumenta o seu desequilíbrio. O Tribunal de Justiça da Bahia
(TJ-BA) até tentou retirar os depósitos judiciais e enviá-los do BRB para o
Banco do Brasil, mas o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF),
derrubou na semana passada uma liminar que autorizava o órgão a fazer a
transferência.
Fux, afinal, intermediou e homologou um
acordo que obrigou o Executivo federal a ampliar o limite de crédito do
deficitário Distrito Federal para tomar um empréstimo e salvar o BRB. O acordo
saiu no final do mês passado, mas o empréstimo que o governo do DF pleiteia, de
até R$ 6,6 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), bancado por bancos
públicos e privados, até agora não se concretizou.
Os bancos privados estão reticentes em
participar do socorro e, corretamente, têm questionado a viabilidade das
contragarantias oferecidas pelo governo distrital na operação – recursos
futuros oriundos dos Fundos de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios
(FPM), bem como proibição de realização de concursos públicos e de aumentos
salariais para servidores enquanto o empréstimo não for quitado.
O BRB, de sua parte, ainda não divulgou o
balanço do ano passado, e ninguém sabe se o valor será suficiente para cobrir o
rombo. E a governadora Celina Leão tampouco se ajuda. Embora tenha conseguido
apoio na Câmara Legislativa para aprovar a lei que viabiliza o empréstimo, ela
vetou trechos da lei que obrigavam o banco a ressarcir o Distrito Federal pelos
valores aportados por meio de dividendos e juros sobre capital próprio.
Rejeitou, também, dispositivos que determinavam que o governo desse
transparência à operação de crédito e enviasse relatórios semestrais para fins
de fiscalização dos deputados.
Há cada vez mais motivos para temer o futuro
do BRB. Daí se entende a preocupação do ministro Mauro Campbell com a situação
dos depósitos judiciais e a cobrança que tem feito sobre os Tribunais de
Justiça. Foi a ganância, e não a prudência, que guiou as decisões dos
tribunais, e o mínimo que se espera é que eles sejam responsabilizados.
Mais pressão sobre o FGC
Por O Estado de S. Paulo
Após rombo bilionário do Master, PF indica
que o Digimais, de Edir Macedo, seguiu o mesmo modelo predatório. E quem paga a
conta, mais uma vez, são os bancos sérios e o cliente comum
A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia
Federal (PF) há poucos dias, apresentou fortes indícios de que o Banco
Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de
Deus, seguiu o nefasto modelo de negócios do Banco Master: usar o limite do
Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como chamariz para investimentos em produtos
de rendimentos acima do mercado – e, portanto, de maior risco –, o que na
prática configura uma degeneração da natureza do FGC.
Criado em 1995, o FGC tem três objetivos
principais: contribuir com a manutenção da estabilidade do sistema financeiro,
prevenir crises bancárias sistêmicas e proteger depositantes e investidores,
sobretudo os pequenos.
O Master – e, agora, ao que tudo indica,
também o Digimais – não foi vítima de uma súbita crise global que levou seus
correntistas a sacarem seus recursos nem de um problema pontual de liquidez. O
patrimônio do banco de Daniel Vorcaro era uma peça de ficção, seja porque era
composto por ativos avaliados muito acima de seu valor real, seja por obra de
fraude pura e simples, ainda que disfarçada por mecanismos sofisticados.
Ciente disso, o Master deliberadamente emitiu
um grande volume de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com a promessa de
retornos de 130% a 140% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), bem
mais do que o praticado pelos grandes bancos de varejo, que também são os
principais financiadores do FGC.
Para fisgar os investidores, plataformas de
investimentos divulgavam os CDBs anabolizados do Banco Master dando especial
ênfase à garantia do FGC, graças ao qual, em caso de quebra ou liquidação de um
banco, pessoas físicas ou jurídicas que tenham investido em produtos como os
CDBs podem ser restituídas em até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. Deu no que deu.
Liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central (BC) no final do ano passado, o
Master causou um rombo de mais de R$ 50 bilhões para o FGC, que em pleno processo
de recomposição de caixa agora vê o desenrolar do escândalo do Digimais
pressionar ainda mais suas reservas.
De acordo com a Polícia Federal, o banco de
Edir Macedo “replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de
títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado,
efetuando manipulações nos balanços com o objetivo de ocultar dos órgãos de
controle a deterioração da sua carteira de crédito”. Eis a replicação do modus operandi do Master.
Um dos possíveis desdobramentos da Operação
Miragem é que o Digimais também venha a ser liquidado pelo BC. Sob escrutínio
da PF e do próprio BC, o Digimais deixou de ser interessante, ao menos
momentaneamente, para o BTG, que negociava a compra da instituição do sr.
Macedo.
Caso venha a ser liquidado, o Digimais deve
ampliar ainda mais o consumo bilionário do caixa do FGC, já desfalcado pelo
conglomerado de Daniel Vorcaro.
Com suas promessas de ganhos estratosféricos,
Master e Digimais não apenas zombaram dos rendimentos mais modestos pagos pelos
CDBs das grandes instituições financeiras, como deixaram para esses mesmos
bancos a pesada conta de suas supostas maquinações fraudulentas. Ademais, ainda
prejudicaram os bancos pequenos e médios que, em sua maioria, são instituições
sérias.
Embora não se saiba exatamente como o FGC se
reabilitará de um potencial baque com o Digimais, não é difícil imaginar que o
cliente bancário comum, mesmo aquele que jamais investiu no Master ou no
Digimais, venha a pagar a conta. É bem provável que o já elevado spread
bancário brasileiro aumente ainda mais em razão de os bancos se verem obrigados
a aportar mais recursos no FGC.
Paralelamente, com a eclosão do caso
Digimais, o Banco de Brasília (BRB), que já vinha enfrentando complicações para
levantar recursos com o FGC mesmo com a insólita chancela do Supremo Tribunal
Federal (STF), deve encontrar ainda mais dificuldades para convencer o fundo a
lhe dar um empréstimo bilionário, um compromisso que a própria
Procuradoria-Geral do Distrito Federal afirma que o BRB não tem condições de
honrar.
O Japão e a escolha do Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Mais do que mercado, um acordo entre Mercosul
e Japão oferece uma agenda de modernização
A perspectiva da oficialização de negociações
para um acordo entre Mercosul e Japão na cúpula do bloco latino-americano em
Assunção, amanhã, merece atenção por razões que vão além da agenda comercial.
Brasil e Japão mantêm relações diplomáticas há 130 anos, mas o fluxo comercial
é modesto para economias desse porte e com tamanha complementaridade. A redução
de barreiras pode ampliar as exportações de alimentos, facilitar o acesso da
carne bovina ao exigente mercado japonês e estimular novos investimentos. Mas
limitar a discussão a tarifas ou à balança comercial seria perder de vista o
que realmente está em jogo.
O Japão procura diversificar fornecedores de
alimentos, energia e minerais críticos, reduzir vulnerabilidades em suas
cadeias produtivas e consolidar novas parcerias no Indo-Pacífico e além dele. O
Brasil busca ampliar mercados, atrair capital, incorporar tecnologia e reduzir
sua dependência de poucos destinos para suas exportações. A convergência entre
essas estratégias explica por que a negociação ganha relevância justamente
agora.
Ao lado da abertura de mercados aparecem
bioenergia, hidrogênio de baixo carbono, minerais estratégicos, inteligência
artificial, digitalização e cadeias industriais de maior valor agregado. Nessas
áreas, Brasil e Japão oferecem ativos complementares. Um dispõe de abundância
de recursos naturais, matriz energética limpa e escala produtiva. O outro reúne
capital, tecnologia, sofisticação industrial e experiência em inovação.
Os efeitos mais duradouros de uma parceria
dessa natureza tendem a surgir gradualmente. Empresas não investem apenas
porque tarifas caíram, mas quando encontram regras previsíveis, ambiente de
negócios confiável e perspectivas de longo prazo. A partir daí, as cadeias
produtivas se aproximam, a tecnologia circula com mais intensidade,
fornecedores locais se qualificam e a produtividade cresce.
O uso crescente do comércio como instrumento
de pressão política e a fragmentação das cadeias globais levam muitos países a
diversificar relações econômicas para reduzir riscos. Para economias de porte
médio, ampliar o número de parceiros confiáveis tornou-se também uma forma de
preservar margem de manobra. A aproximação com o Japão insere o Brasil nessa
lógica sem exigir alinhamentos automáticos nem escolhas excludentes.
Longe de dispensar o Brasil de suas lições de
casa, isso exige mais empenho. Um acordo pode criar oportunidades, mas não
elimina o custo Brasil, a insegurança regulatória, a burocracia, as
deficiências logísticas ou a baixa competitividade de diversos setores. Nem
substitui reformas capazes de tornar o ambiente econômico mais aberto e
previsível. Sem elas, parte do potencial dessa aproximação permanecerá
congelado no papel.
As eventuais negociações entre Mercosul e Japão devem, portanto, ser recebidas com entusiasmo sereno. Tratados como este, se vierem, não transformarão a economia brasileira por si sós. Ainda assim, apontam uma direção valiosa: a de um país que busca prosperar por meio da integração, da inovação e da produtividade, aproximando-se das economias mais sofisticadas do mundo em vez de se resignar ao conforto estéril do isolamento.
Governo se beneficia da alta do petróleo, mas
ela não deve durar
Por Valor Econômico
Acordo entre EUA e Irã e projeções de excesso de oferta global em 2027 pressionam os preços da commodity
A paz ainda está longe de reinar no Estreito
de Ormuz, mas os preços do petróleo recuaram muito desde que Irã e Estados
Unidos assinaram um memorando de entendimento para pôr fim ao conflito. Na
quinta-feira, o barril Brent foi cotado a US$ 72,48, o mesmo valor de pouco
antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. A descompressão da oferta e dos
preços atingiu todos os combustíveis e também os fertilizantes. Pode levar
meses até que produção e oferta sejam normalizados e os preços voltem para
perto da média de US$ 65 o barril. Mas, da mesma forma que o fechamento de
Ormuz trouxe pânico e medo nos mercados mundiais, sua abertura, mesmo gradual,
terá um efeito calmante sobre a inflação e os preços dos ativos. A normalização
do mercado reduzirá um pouco o extraordinário aumento de receitas com o
petróleo do governo brasileiro, que quase quadruplicaram de janeiro a maio.
As cotações do óleo refletirão o jogo de
forças opostas. A favor da manutenção dos preços altos, ou de uma queda bem
lenta deles, pesam em primeiro lugar a destruição de instalações de petróleo
nos países produtores, a redução estimada do fluxo de 1 bilhão de barris
durante o período do conflito e a queda significativa dos estoques, que nos
países da OCDE chegaram ao menor nível desde 1990. Levará meses, ou até anos,
para que as instalações destruídas voltem a operar, e a recomposição dos
estoques acrescentará demanda adicional a uma oferta ainda não recomposta.
Mas há outros fatores relevantes que apontam
na direção oposta. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que haverá um
excesso de petróleo no mercado já em 2027. Em suas previsões, a produção
acrescentará 8 milhões de barris por dia, elevando o total extraído a 110
milhões de barris/dia, enquanto a demanda aumentará em 2 milhões de barris/dia.
Corroboram estes cálculos o esperado aumento
de produção dos Emirados Árabes Unidos, que deixou a Opep, o cartel dos
produtores, justamente porque estava descontente com sua cota de produção, e
poderá acrescentar mais 1 milhão de barris/dia em futuro próximo. A produção
iraniana, que surpreendentemente recebeu passe livre no memorando feito com os
Estados Unidos, poderá se expandir e abastecer mais países do que apenas seus
aliados contra o cerco financeiro imposto pela Casa Branca anteriormente, como
a China. A consultoria Wood Mackenzie estima que os planos em andamento no
Brasil, nos EUA e na Guiana adicionarão mais 2,8 milhões de barris/dia no ano
que vem. Ela prevê que a produção total atingirá 108-109 milhões de barris/dia
(FT, 17 de junho).
A guerra de EUA e Israel contra o Irã e o
fechamento de Ormuz soaram o alarme da urgência da substituição de combustíveis
fósseis, que possivelmente se acelerará. O transporte rodoviário de cargas e
passageiros consome cerca de metade da produção mundial e está mudando de
perfil. A Agência Internacional de Energia aponta que um quarto do total de
carros novos vendidos no mundo hoje é elétrico. Na China, 63% dos carros zero
quilômetro vendidos são elétricos, em um movimento que se espalhou também pelo
restante da região Ásia-Pacífico (onde sua venda avançou 80%) e na América
Latina (expansão de 75%).
A maior crise da oferta de petróleo da
história, segundo a AIE, culminou em uma “taxa”, ou gasto adicional de consumo,
da ordem de US$ 1,3 trilhão, calcula o economista Edward Yardeni. Ele comparou
a oferta de 105 milhões de barris/dia a um preço médio de US$ 65 o barril -
total de US$ 2,5 trilhões por ano - com os preços médios durante a guerra.
Grosso modo, pode-se então estimar que a interrupção do fluxo de petróleo por
quatro meses, como agora, tenha resultado em um acréscimo de preços da ordem de
US$ 430 bilhões. Esse sobrepreço será zerado nos próximos meses, eliminando o
temor que tomou os investidores de que a inflação, com o choque do petróleo,
não seria temporária e acabaria levando a um aperto monetário global que faria
enormes estragos no crescimento. Isso não aconteceu na proporção que se previa.
O estresse nas cadeias de produção está se
reduzindo rapidamente, desde que não haja novas interrupções na oferta, o que
não é certo. Parece improvável, mas não impossível, que, às vésperas de
eleições legislativas, Trump, que produziu um improvisado acordo temendo
estragos no desempenho dos republicanos, volte a seu estado belicoso antes de
que as urnas sejam apuradas em novembro.
O governo brasileiro se beneficia do aumento dos preços do petróleo enquanto durar. A arrecadação relacionada ao petróleo em maio subiu R$ 10 bilhões, o quíntuplo da de maio de 2025. Nos cinco primeiros meses do ano, o petróleo propiciou arrecadação de R$ 50,6 bilhões, ante R$ 13,1 bi no mesmo período do ano passado. Os subsídios ao diesel e gasolina custariam R$ 30 bilhões até o fim do ano, mas poderão ser extintos em breve, se as cotações do petróleo não voltarem a disparar. Houve algum estrago inflacionário e, nesse front, a dúvida é como ficará o reajuste dos combustíveis com o fim dos subsídios, já que os preços externos, por vários meses, poderão continuar acima da média do pré-guerra.
Igualdade na educação é dever a ser cumprido
Por Correio Braziliense
O direito à educação, garantido pela
Constituição de 1988, não pode ser uma loteria baseada no endereço, na raça, na
idade e na renda.
O Brasil guarda nas escolas um dos retratos
mais cruéis de sua desigualdade histórica. O ensino, único caminho seguro para
a transformação, ainda carrega barreiras que impedem o desenvolvimento, e o que
está presente nas salas de aulas aparece, também, de norte a sul do país.
Segundo dados da Pnad Contínua Educação,
divulgados pelo IBGE no último dia 15, a taxa de analfabetismo ficou abaixo de
5% pela primeira vez desde o início da série, em 2016. Apesar do avanço, a
pesquisa aponta questões a serem resolvidas e traz um alerta preocupante: um em
cada quatro jovens entre 14 e 19 anos afirma que não tem nenhum interesse em
estudar — são 8,1 milhões deles que não se qualificam.
De acordo com o relatório, 8,4 milhões de
pessoas com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever em 2025 — o que
corresponde a 4,9% da população. Em 2024, a taxa era de 5,3%, número que
representa uma redução de cerca de 592 mil analfabetos em um ano. O problema é
que o quadro segue apresentando fortes diferenças regionais, raciais e etárias,
além do descaso da juventude com o ensino.
O levantamento do IBGE confirma que é preciso
encarar um impasse social vergonhoso, perigoso e que tem perfil definido. Mais
da metade dos analfabetos do país está no Nordeste: 4,8 milhões de pessoas, o
equivalente a 57,4% do total nacional. Já as desigualdades raciais também
permanecem expressivas. Entre os brasileiros de 15 anos ou mais, 2,8% dos
brancos eram analfabetos em 2025, contra 6,5% dos pretos ou pardos.
Na população de 60 anos para a frente, a
distância ficou ainda maior: a taxa foi de 7,3% entre brancos e de 20,6% entre
pretos ou pardos. Entre os idosos, um dos desafios é promover a busca de todos
os que não tiveram a oportunidade de frequentar um colégio e, ao mesmo tempo,
mostrar que ainda há tempo. Em 2025, essas pessoas representavam 58% dos
analfabetos — 4,8 milhões que não sabiam ler e escrever um bilhete simples.
Esse retrato do Brasil precisa ser colocado
sobre a mesa e debatido. Os erros cometidos no passado têm de ser eliminados do
processo, e formas eficientes devem começar a fazer parte do conteúdo voltado
para a igualdade do ensino. Para garantir o projeto de futuro com
desenvolvimento e competitividade global, o primeiro passo é não aceitar que o
jovem deixe de acreditar no poder da educação como ferramenta para melhorar de
vida e ajudar a construir uma sociedade justa.
O direito à educação, garantido pela
Constituição de 1988, não pode ser uma loteria baseada no endereço, na raça, na
idade e na renda. Acabar com os abismos não é apenas um imperativo moral: é a
única saída para o país escapar da armadilha de seguir amarrado a uma condição
muito aquém de sua capacidade.
Para transformar essa realidade, o ponto de
partida tem de ser uma mudança na lógica de investimentos e de políticas
públicas. Redistribuir os recursos, enfrentar a desvalorização sistemática dos
professores, expandir as escolas em tempo integral em locais de alta vulnerabilidade
social e fortalecer o ensino técnico integrado ao nível médio são medidas
fundamentais.
A educação é um dos investimentos mais estratégicos, e garantir isso é um dever que o país ainda precisa cumprir. As desigualdades históricas, que seguem custando caro para os brasileiros, não podem se somar à desmotivação que a pesquisa do IBGE escancara. A experiência já mostrou que não se alcança uma sociedade saudável e produtiva sem colocar a educação como prioridade. Nesse quesito, o Brasil precisa se esforçar se quiser atingir o conceito máximo.
Futebol: cobrar é justo, mas desonesto o
ataque pessoal
Por O Povo (CE)
s cobranças alusivas ao futebol, sejam
direcionadas aos jogadores, sejam relacionadas aos dirigentes, precisam se
restringir ao nível profissional, não ensejando efeitos pessoais a quem quer
que seja
É inadmissível, sob todos os pontos de vista,
que qualquer ataque referente a desempenhos de futebol extrapole as linhas que
delimitam o campo a ele pertinente. Praticar ou estimular ações que agridam
diretamente os responsáveis no âmbito pessoal e seus familiares é, além de
desumano, incoerente e desonesto. As cobranças alusivas ao futebol, sejam
direcionadas aos jogadores, sejam relacionadas aos dirigentes, precisam se
restringir ao nível profissional, não ensejando efeitos pessoais a quem quer
que seja.
Assim, considera-se condenável o ataque que
sofreu a filha do presidente do Ceará Sporting Club, João Paulo Silva, na
semana que passou. A menina recebeu uma caixa de chocolate e um buquê de flores
com um artefato explosivo, acompanhados de um bilhete ofensivo ao pai. É sabido
que o Ceará vive um mau momento no futebol neste ano. Foi eliminado de quase
todas as competições das quais participou e está na Série B do Campeonato
Brasileiro.
Por causa disso, a gestão do presidente João
Paulo vive sob críticas constantes dos torcedores que cobram um melhor
desempenho em campo, mais contratações e o desejado acesso para a Série A em
2027.
É justa a cobrança, visto que qualquer
torcedor que apoie o time quer vê-lo bem posicionado nas competições e com um
desempenho satisfatório. Não é justo, porém, que atos de intimidação, ameaças e
desrespeito em geral se estendam aos familiares dos profissionais nem a eles
mesmos em âmbito pessoal. A promoção da paz e do respeito também precisa ser
defendida no futebol.
Ressalte-se que muitos clubes, inclusive
Fortaleza Esporte Clube e Ferroviário Atlético Clube, além de Flamengo,
Palmeiras e Fluminense, manifestaram solidariedade ao dirigente alvinegro. A
boa convivência e a cultura da não violência devem prevalecer independentemente
da rivalidade no futebol. A Federação Cearense de Futebol (FCF) e a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também divulgaram notas oficiais de
solidariedade a João Paulo e de repúdio ao caso.
"Esse é só mais um ataque que se soma
aos vários que já fizeram a mim e à minha família. Eu sou presidente do Ceará.
Aguento as porradas, o meu cargo exige isso. Mas mexeram com inocentes. E isso
tudo somente pelo poder. Essa covardia não pode ser considerada normal",
escreveu João Paulo, em seu perfil nas redes sociais, quando anunciou o ato
criminoso.
Quando atitudes como essa ultrapassam os limites da disputa esportiva - que deveria ser saudável por si só -, falha-se como sociedade. Espera-se que os responsáveis sejam identificados e punidos na forma da lei. A imprensa estará vigilante para acompanhar e defender os valores sociais inerentes ao bom futebol - dentro e fora de campo.

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