O Estado de S. Paulo
Às vezes, as coisas muito próximas são
universais. Hesito em escrever sobre o que vejo no cotidiano no Rio de Janeiro,
mas não deveria: é algo importante para o País e com grande possibilidade de
espalhar-se por todos os cantos.
Encontrei na rua uma amiga e perguntei se estava tudo bem: “Perto de minha casa, apareceu uma cova com 20 mortos. Sempre procuro sair às cinco da manhã para evitar tiroteios, mas, às vezes, precaução não adianta”. Ela vive numa favela chamada Rio das Pedras, dominada por uma milícia acossada pelo tráfico de drogas que quer o domínio do território.
No mesmo dia, encontrei, acidentalmente, um
homem que empurrava sua bicicleta na feira. Ele vinha da Muzema, uma comunidade
que fica no início da Barra da Tijuca. Lá em casa, disse ele, o tiroteio é
quase toda noite: a área é dominada pelo Comando Vermelho.
Assim vivem milhões de pessoas no Rio. No
território dominado, quem manda é o crime organizado, que vende gás, controla o
transporte alternativo e inclusive escolhe algumas meninas para serem suas
amantes. O preço da recusa é a morte ou então a mudança precipitada do lugar.
O crime organizado tem uma grande influência
política. Ele define quais candidatos podem entrar em sua área. Considerando
que controla metade da cidade, ajuda a definir a bancada de eleitos.
A penetração no tecido político é evidente:
os últimos governadores foram presos, assim como deputados e um presidente da
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
O que é mais doloroso é examinar o conjunto
de políticas que visam a solucionar o problema e constatar que nenhuma delas
consegue trazer uma esperança real.
O que não significa que essas políticas não
sejam desejáveis. A PEC da Segurança que está parada no Senado parte de um
princípio fundamental: a unificação das forças federais e estaduais no combate
ao crime organizado. Isso pode aumentar a eficácia da segurança pública, mas
não responde à questão básica: a reconquista permanente do território ocupado,
hoje um fenômeno que se exportou para o Nordeste.
Da mesma forma, a iniciativa americana de
definir dois grupos como terroristas e partir para uma guerra de destruição é
bastante limitada. Nas condições existentes, a eliminação de um grupo dará
lugar a outro e eles vão se suceder enquanto as condições político-sociais prevalecerem.
O combate e a morte de alguns criminosos
servem apenas para atenuar, na opinião pública, essa sensação de ineficácia. O
verdadeiro projeto nunca aparece e ele, certamente, passa pela presença do
Estado nessas áreas com os seus serviços essenciais funcionando.
A resposta para a inexistência de um projeto
de liberação permanente das áreas ocupadas é falta de dinheiro e pessoal. Se
não há dinheiro em orçamentos tão generosos como o brasileiro, então não há
solução.
Se somos incapazes de definir a soberania
nacional sobre nossos territórios, ficaremos reduzidos a uma guerra
assimétrica. E elas nunca são favoráveis ao lado mais forte. Graças às
condições favoráveis de que desfrutam no território, esses grupos vão
sobreviver mesmo com as campanhas repressivas. No Rio, obtêm armamentos
modernos, se empossam da tecnologia e já estão em plena guerra de drones.
Muitos especialistas falam em ir atrás do
dinheiro do crime organizado e enfraquecê-lo a partir da drenagem de seus
recursos. É uma ótima tática.
Na vida cotidiana, entretanto, o crime
organizado produz seu rendimento pela simples exploração do território: venda
de gás, transporte alternativo, taxas de segurança. Tudo isso tem muita
importância e, às vezes, rende mais do que o próprio tráfico de drogas.
Os Estados Unidos optaram pela guerra para
evitar que a droga entre em seu território. Nessa nova versão da muitas vezes
fracassada guerra às drogas, bombardeiam barcos no Pacífico e no Caribe. O
tráfico de drogas é um grande problema nas suas relações com o México.
Com um sério trabalho de inteligência é
possível reduzir o trânsito da droga pelo território brasileiro. Mas ver barcos
bombardeados e supor que estamos atacando o verdadeiro problema no Brasil é
fugir da realidade.
Por isso, com todo o respeito que tenho por
especialistas, não acredito muito em soluções que ignorem o clamor de milhões
de pessoas, que querem andar livres, escolher livremente o que compram,
proteger suas filhas dos predadores do crime, conversar com candidatos que não
precisem de licença para entrar na favela.
Sei que esse futuro ainda está distante. Não
deveríamos esquecer esses milhões de brasileiros nos territórios ocupados
quando falamos orgulhosamente de soberania nacional. Alguma coisa está errada e
muitos só vão perceber quando ouvirem o barulho dos tiros ou o domínio
territorial do crime chegar às suas cidades. O alarme soa alto, mas ainda é
muito pouco ouvido.
Candidatos à Presidência e aos governos dos
Estados deveriam ser questionados seriamente sobre a liberação territorial no
Brasil. No mínimo, por solidariedade aos milhões de oprimidos. •

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