Folha de S. Paulo
Com prisão de ex-presidente da Alerj e de
bicheiro, surgem mais provas de domínio do crime
Governo e Legislativo eram comandados por PL
e parte do centrão, mas corrupção é mais extensa
Tráfico de drogas e de armas, lavagem de
dinheiro, Comando
Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigo dos Amigos
(ADA), policiais corruptos, bicheiros, padrinhos bandidos do Carnaval, roubança
de dinheiro público e seus agregados políticos de direita arruínam o poder
estadual do Rio de
Janeiro —note-se, porém, que políticos de vários partidos podem
estar na lista da mesada do crime.
Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.
Qual a novidade? A nova prisão
de Rodrigo Bacellar, nesta quinta. Esse sujeito foi secretário
de Governo do ex-governador Cláudio Castro (PL) e presidente da Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) de 2023 a 2025. Foi preso quando era
deputado estadual pelo União Brasil, embora tivesse sido reeleito pelo PL. Até
julho de 2025, era o pré-candidato de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro ao
governo do estado do Rio. Castro é inelegível, condenado por abuso de poder.
Bacellar foi apenas formalmente preso de
novo. Já estava em Bangu 8 desde março, acusado de tentar ajudar o deputado
estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (então MDB) a fugir
da polícia e de atrapalhar uma operação contra o CV. Esse deputado, vulgo TH
Joias, era joalheiro, vendendo adereços para celebridades populares, como
jogadores de futebol e gente da música. Quando deixou a suplência para assumir
cadeira na Alerj, em 2024, já havia sido preso preventivamente e condenado a 14
anos por lavagem de dinheiro e de operar com CV, TCP e ADA etc.
Segundo a polícia, foi avisado por Bacellar
de que seria alvo de operação da PF, em setembro de 2025. Em dezembro, Bacellar
foi por isso preso, para ser liberado por um tempo por votação da Alerj (42
votos a 21). TH Joias nomeou gente das facções para cargos na Alerj. Ainda
lavaria dinheiro e faria câmbio de milhões para chefões do tráfico.
Aproximou-se da política por meio de Marcos Falcon, presidente da Portela e
candidato a vereador no Rio pelo PP quando foi
assassinado em seu escritório de campanha, em 2016.
Além de Bacellar, foram presos nesta quinta
Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho
("represo"), e o pastor Márcio Poncio (Igreja da Nuvem),
fabricante de cigarros e integrante de uma família de
influencers novelescos. Adilsinho é patrono do Salgueiro, bicheiro,
dono de caça-níqueis, traficante de cigarros e acusado de chefiar gangue de
homicídios. Segundo a polícia, lava dinheiro para o tráfico e tinha planilhas
de pagamento de subornos e doações eleitorais para políticos. Em sessão do
Supremo de abril deste ano, o ministro Gilmar Mendes disse ter ouvido da PF que
32 ou 34 deputados estaduais do Rio (de um total de 70) receberiam
"mesada" de bicheiros, atualmente chefes de gangues com negócios
variados. Outros secretários de Cláudio Castro caíram, acusados de corrupção ou
também de envolvimento com o crime
organizado; um desembargador foi preso.
Há mais. Não cabe aqui. O resumo da ópera é
que o comando político do Rio foi tomado pelo crime e o país todo corre esse
risco.
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