sexta-feira, 3 de julho de 2026

Revés para a luta das mulheres, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Muitas entram na vida pública, sofrem violência de gênero e se afastam quando não têm mais serventia

Na conversa que tiveram com Michelle Bolsonaro, a senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão custaram a demover a ex-primeira-dama da decisão de deixar completamente a política.

Michelle havia acabado de comunicar a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que renunciaria não só à presidência do PL Mulher, como também não concorreria ao Senado pelo DF e se desfiliaria do partido.

Ela estava afastada do núcleo decisório da campanha à Presidência do enteado Flávio Bolsonaro, encontrava dificuldades para emplacar aliadas como candidatas e vinha sendo atacada nas redes por pessoas próximas do também enteado Eduardo Bolsonaro.

O clima estava ruim desde quando Michelle expôs a divergência sobre o apoio a Ciro Gomes (PSDB-CE), mas piorou. O vídeo em que acusa Flávio de “humilhá-la” e “maltratá-la” ficou pronto por dias, enquanto ela orava por um sinal se deveria publicá-lo. A resolução veio quando aumentou a pressão para que a vice-presidente do PL Mulher, Priscila Costa, desistisse do Senado no Ceará.

Damares e Celina só conseguiriam convencer Michelle a se manter na vida pública quando apelaram para a responsabilidade com suas seguidoras. As duas argumentaram que a saída do PL seria contraditória. Ela havia se dedicado a pregar que partido político, mesmo conservador, também era um espaço da mulher, mas agora se distanciaria dele.

Michelle foi uma primeira-dama discreta, mas entrou na política na reta final da derrotada campanha de Jair Bolsonaro à Presidência em 2022. Tomou gosto.

Na presidência do PL Mulher, percorreu o País angariando mulheres para se tornarem vereadoras e prefeitas. Dava palestras, produzia cartilhas e material ensinando a gravar vídeos. Conhecia as diretoras estaduais e rastreava candidatas com maior potencial de voto.

Junto com Damares, que fazia o mesmo no Republicanos, incentivava mulheres ditas “comuns” a trazerem causas que defendiam em ONGs e igrejas para dentro da estrutura partidária. Tudo com uma pitada religiosa, já que diziam que essas mulheres eram “alicerçadas” por Cristo.

O futuro político de Michelle é incerto. Seus aliados acham que vão convencê-la a se candidatar ao Senado e que o PL não abrirá mão de uma eleição certa. Mas, por enquanto, ela está de novo restrita ao lar e ao marido enfermo.

Se deixar a política, repetirá o roteiro de muitas. Entram na vida pública graças a um familiar, sofrem violência de gênero e se afastam quando não têm mais serventia aos homens. É possível concordar ou discordar dela, mas seu enfraquecimento político é um revés para a luta das mulheres.

 

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