O Globo
O regime que ele inaugurou ainda resiste,
agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump
Fidel Castro (1926-2016) completaria 100 anos na última quinta-feira, 13 de agosto. Líder da Revolução Cubana (1959), ícone da resistência ao boicote econômico dos Estados Unidos, que se estende desde então, foi inequívoca personalidade histórica do século XX. Jovem jornalista, fui a Havana, encontrei Fidel. O enredo começou em meados de 1999, quando o então presidente cubano veio ao Brasil para a Cimeira do Rio de Janeiro, reunião de chefes de Estado de América Latina, Caribe e União Europeia. De olho em potenciais investidores brasileiros, Fidel desafiou o então presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, a levar à ilha uma delegação de empresários. Desafio aceito, partimos, eu pelo GLOBO, quatro meses depois.
O grupo incluía representantes da Brascuba,
joint venture entre a Souza Cruz e a estatal cubana de cigarros, e da
Petrobras. Eram, à época, as únicas empresas nacionais com negócios em Cuba. No
grupo, outros empresários, jornalistas — entre os quais os saudosos Sérgio
Leitão (1945-2015) e Arnaldo César (1950-2022) — e o embaixador Afonso Arinos
de Mello Franco (1930-2020), já eleito para a Cadeira 17 da Academia Brasileira
de Letras (ABL).
A delegação brasileira foi convidada a jantar
com Fidel. Punto Cero era o nome dado pelo serviço de inteligência ao complexo
residencial onde o presidente viveu, por décadas, até morrer, em novembro de
2016. Era tido como uma espécie de bunker, em área remota de Havana, protegida
por fortíssimo aparato de segurança. Não foi permitida entrada com bolsa,
mochila ou pasta. Gravador e câmera, nem pensar. Ao apertar minha mão,
perguntou se eu era cubana — tal como uma negra cubana poderia ser brasileira,
pensei eu.
Eduardo Eugenio se lembra de um Fidel
bem-humorado, que fez troça com as duas centenas de ameaças ou tentativas de
assassinato que sofrera pelos Estados Unidos; e com a falta de imaginação dos
vizinhos. Para o líder, segundo o ex-Firjan, Coca-Cola e Pepsi, Chevrolet e
Ford eram a mesma coisa. Lembro de o presidente ter debochado do bipartidarismo
americano, em que o povo era obrigado a escolher invariavelmente entre um
democrata e um republicano. Ditador havia 40 anos, defendia as eleições diretas
em que os cubanos escolhiam os delegados de bairros, espécie de vereadores.
O jantar, à moda Fidel, foi longo. Não durou
menos de quatro, cinco horas. O comandante tratou de um tudo. Repórter de
economia, guardei a preocupação explícita, algo ameaçadora, com os riscos da
exploração de petróleo no mar azul-turquesa da ilha. Na ocasião, Cuba
experimentava uma onda de investimentos espanhóis no setor hoteleiro, via
crescer a atividade turística.
— Fiz muitas recomendações ao nosso ministro
de Energia. Vamos deixar a torre por uns cinco ou oito meses e avaliar se os
turistas não terão medo de vê-la a 3,5 quilômetros da praia — disparou o líder,
sobre a perfuração que a Petrobras faria na província de Ciego de Ávila, no ano
seguinte.
A resistência de Fidel foi o assunto
principal da reportagem que escrevi na volta. Demarco Epifanio, gerente-geral
do projeto cubano da Braspetro, subsidiária da Petrobras, contou que o governo
local nunca deixou de demonstrar cautela com o meio ambiente.
— Cuba não tem lei de petróleo, mas de meio
ambiente. Temos o desafio de conciliar nossa boa técnica a uma operação segura,
que não cause danos — afirmava, 27 anos atrás.
A Petrobras não encontrou petróleo em Cuba na
primeira rodada de pesquisa e prospecção, no ano 2000, durante o governo de
Fernando Henrique Cardoso. Oito anos depois, segundo mandato de Luiz Inácio
Lula da Silva, voltou a assinar com a Cupet para explorar blocos em águas
profundas no Golfo do México. Em 2011, sem resultados positivos, deixou
novamente o país.
Fidel morreu há uma década, o regime que
inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump. A
crise energética é aguda; a humanitária, gravíssima. Em plena emergência
climática, Super El Niño batendo à porta, o debate acerca de preservação
ambiental e combustíveis fósseis, que Fidel apontava há quase 30 anos, é
atualíssimo. Ainda ontem, a Petrobras anunciou descoberta de petróleo na Foz do
Amazonas, a 175 quilômetros da costa do Amapá.
Ao fim do jantar, ele posou para fotos com os
convidados. Os registros do fotógrafo oficial chegaram ao Rio quase um ano
depois. Do palácio, saímos, cada um, com uma caixa de charutos Cohiba Lanceros
autografada pelo presidente. Nunca deixei ninguém fumar os “puros”, mofados há
tempos. Protegido numa embalagem de acrílico, guardo intacto o presente, ainda
embrulhado no papel cinza, em que se lê: “Para Flabia, Fidel Castro”.

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