Folha de S. Paulo
Interferência externa é possibilidade
considerada e divide a opinião pública
Metade dos eleitores vê chance de países
estrangeiros se intrometerem na disputa
Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na
horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento
da candidatura de Flávio
Bolsonaro, no ensolarado domingo (16), na praia de Copacabana.
Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa.
Nas atuais circunstâncias, não deixa de parecer um gesto de júbilo pelas manifestações explícitas de apoio do governo Trump ao candidato da extrema direita —e, talvez, do desejo de que elas prossigam sob outras formas, mais diretas e continuadas.
A interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais brasileiras é uma possibilidade real. O uso político das tarifas, a tentativa de enviar funcionários para verificar a integridade do sistema eletrônico de votação e a crescente crispação nas relações diplomáticas parecem anunciar a intenção de influir no resultado das urnas e de criar um clima favorável à sua contestação, caso o PT leve a melhor.
O que se viu até agora não tem paralelo na história
recente das relações EUA-Brasil, baseadas no pragmatismo e na negociação das
diferenças. Guarda semelhança com a atuação americana nas nossas eleições
parlamentares de 1962, em plena Guerra Fria.
Foi quando jorraram dólares para que organizações de direita financiassem
candidatos ao Congresso.
A interferência externa é uma possibilidade
também considerada pela opinião pública —e a divide. Segundo pesquisa do Datafolha publicada
no domingo (23), metade dos eleitores acredita que há chance de países
estrangeiros se intrometerem na disputa brasileira. E quase 1/5 (18%) não vê
problema nisso.
A aceitação da ingerência externa varia muito
conforme a opção política do entrevistado. Entre os que dizem preferir o filho
de Jair
Bolsonaro, essa porcentagem é 3,5 vezes a dos tendentes a votar
em Lula.
Da mesma forma, a porcentagem de bolsonaristas declarados que não se incomodam
com que outros países tentem influir no pleito é o triplo da dos petistas e
pouco menos do que a dos declarados independentes.
Por outro ângulo, os dados confirmam que a
radicalização de posições, impulsionada pela ascensão da extrema direita,
colocou a política internacional na agenda eleitoral.
Até a segunda década deste século, questões
de política externa não faziam parte do rol de temas que diferenciavam os
candidatos majoritários e vertebravam a competição por votos. Foi o populismo
de direita que as transformou em divisores de opinião e em indicadores de
identidade política —mesmo quando não eram questões centrais na política
exterior brasileira. Assim, o relacionamento com a Venezuela ou
com Cuba ganhou,
nas críticas aos governos petistas, dimensão —e espaço— que nunca teve na
agenda do Itamaraty.
A retórica perante os Estados
Unidos variou conforme o ocupante da Casa Branca. Foi de alegre
subserviência com Trump-1, desapareceu do discurso durante o governo Biden e
agora volta a ocupar lugar central na agenda bolsonarista.
Mais uma vez, não se trata de desenhar uma
política bilateral que contemple o respeito e os ganhos mútuos. O que se busca,
como sempre, é o interesse da família Bolsonaro acima de tudo e a qualquer
preço.

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