Folha de S. Paulo
Dívida alta das famílias é problema pelo
menos desde 2021; juros pioraram situação
Número de pedidos de recuperação judicial já
era problema visível desde 2023
A recuperação extrajudicial de Casas Bahia e
Habib’s, marcas "pop", acabou por dar rosto para uma situação que
anda ruim faz tempo, não apenas por causa de juros e
dívidas. O enrosco, porém, não é bem compreendido ou é manipulado a depender do
gosto político do freguês.
Parece ficar mais forte a sensação de "crise no ar", de que o "Brasil vai mal". Até pessoas que deveriam estar mais informadas do problema não se deram conta de que o novo rolo começou faz meia década, tanto em empresas avariadas como na situação do crédito de firmas e famílias.
A política econômica ruim de Lula 3 agravou
essa situação, em particular a partir de 2024. Além do mais, lapso ou descaso
regulatório facilitou a distribuição em massa dos letais
cartões de crédito a uma população recém-bancarizada e que teve
aumentos de renda nos últimos cinco anos menores do que se imagina.
Juros altos
de fato deram a rasteira em empresas que estavam mal das pernas
por vários motivos. Mas a impressão de onda de
destruição geral do varejo é equivocada. Mesmo os pedidos de
recuperação extrajudicial precisam de contexto.
Sim, em números, os pedidos são
"recorde", mas a maior
novidade é o agro. De uns 3% de participação no total de pedidos de
2013 a 2017 passou a 30% no ano passado —e subindo. Descontado o agro, o número
desses pedidos cresce bem mais devagar, embora esteja nos níveis da recessão
medonha de 2015 e 2016. O salto das recuperações extrajudiciais para um patamar
próximo do atual ocorrera JÁ EM 2023.
Não temos bons dados para comparar o tamanho
econômico (valores) da encrenca. Por outro lado, muita recuperação é discutida
com bancos, sem alarde. Por fim, mudança na lei (2021) facilitou o recurso à
extrajudicial. Quanto ao
agro, o assunto não cabe nestas colunas, hoje.
Há outros indicadores a matizar essa história
ruim. Bancos são obrigados a separar um dinheiro para cobrir perdas com
possíveis calotes, as ditas provisões. Sobem desde janeiro de 2025, de 7% do
crédito para 7,8% agora (também a média deste ano). Os dados, porém, não são
imediatamente comparáveis com os do período anterior, por mudança legal no modo
de registrar perdas potenciais. Para dificultar a análise, empresas maiores
passaram a tomar mais crédito fora de banco, via mercado de capitais.
A inadimplência
de pessoas físicas e empresas com os bancos aumenta desde
janeiro de 2025 (de novo, difícil comparar com anos anteriores). Entre
empresas, problema grave mesmo é com firmas pequenas e médias, das quais pouco
se fala por não terem marcas conhecidas.
Juros nos bancos sobem desde o trimestre
final de 2024. Sem conserto macroeconômico, que não veio, daria besteira. A dívida
das famílias, como proporção de sua renda anual, recomeçou a
aumentar em meados de 2024. O grande salto, porém, acontecera em 2021 (de 41%
para 49%). O tamanho relativo da dívida é agora similar ao de 2022 (quase 49%)
e foi em média de 48% em 2023 e 2024, embora o serviço da dívida seja um pouco
maior. "Endividamento" (mais crédito) não é ruim se a economia é
estável. Não é nosso caso.
Dívida privada alta e a do governo em alta
forte eram sinais de que o padrão de crescimento botaria a língua para fora,
seja por economia aquecida além da conta, descrédito do governo ou por um
choque externo. Vai ser difícil digerir esses excessos. Assunto para amanhã.
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