quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Tarcísio enrola Flávio em ‘relação tóxica’, por Julia Duailibi

O Globo

A campanha do governador de São Paulo empurra com a barriga as agendas públicas com o presidenciável

Flávio Bolsonaro está num “relacionamento tóxico” com Tarcísio de Freitas. O candidato a presidente pelo PL depende do governador de São Paulo para ampliar sua margem de votos no maior colégio eleitoral do país e compensar, pelo menos em parte, a liderança de Lula no Nordeste. Tarcísio, no entanto, faz ghosting nas tentativas de encontros públicos com Flávio. E faz de caso pensado.

As chances de Flávio na eleição presidencial passam por uma margem de votos favorável no Sudeste. Em 2022, Jair Bolsonaro levou quase 4 milhões de votos a mais que Lula em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dois estados, no entanto, Bolsonaro filho está hoje empatado com Lula. Precisa de uma mãozinha local e, para isso, aposta no conservadorismo do interior paulista e na máquina que está nas mãos do governador. Os caminhos levam a Tarcísio. Mas, como se diz por aí, o governador faz a egípcia.

Na Quaest divulgada nesta terça-feira, Tarcísio lidera a disputa em São Paulo, com 40% das intenções de voto ante 27% de Fernando Haddad, que corre o risco de não ir para o segundo turno. Flávio tem 30% das intenções de voto para presidente no estado, menos que os 40% de Tarcísio para governador.

O mergulho nas pesquisas mostra que Tarcísio furou, ainda que de maneira tímida, a polarização. Segundo a Quaest, 22% dos eleitores que se consideram lulistas ou de esquerda dizem que votarão nele (Haddad tem apenas 6% dos que se consideram bolsonaristas ou de direita). É o voto “Tarula”, em Tarcísio para governador e em Lula para presidente — espécie de dobradinha improvável que ocorreu noutros momentos, como o “Lulécio” (Lula e Aécio) em 2006.

Portanto, Tarcísio avança mais que Flávio num terreno que não é dominado pelos dois e que, a depender do movimento, pode custar votos. Além de parte da esquerda, Tarcísio tem maior intenção de votos que Flávio entre os independentes. Em São Paulo, 27% deles o apoiam no primeiro turno, percentual que chega a 35% no segundo. No caso de Flávio, apenas um em cada dez independentes em São Paulo está com ele.

Hoje, Tarcísio tem mais a perder que a ganhar ao apoiar Flávio no primeiro turno. Por isso, a campanha do governador empurra com a barriga as agendas públicas com o presidenciável, dizendo que o relacionamento com Flávio será para valer apenas no segundo turno, se Tarcísio liquidar a fatura já no primeiro. Mas há quem duvide até disso.

Tarcísio já vê Flávio como adversário no campo da direita na disputa presidencial de 2030. A derrota do presidenciável em 2026 o tiraria do caminho daqui a quatro anos. Segundo essa lógica, a mãozinha em São Paulo nunca virá. Ignorar Flávio no segundo turno, no entanto, é uma ação arriscada para o próprio governador. Tarcísio pode até ter votos que Flávio não tem na esquerda e entre os independentes — mas sua base eleitoral ainda é a direita e o bolsonarismo. A marca de traidor pode fragilizá-lo justamente onde ele fincou seu pilar eleitoral. Para obter a bênção do clã em 2030, terá de entregar algum serviço agora, torcendo para que não dê certo e para que Flávio fique mesmo pelo caminho.

Assim, Tarcísio seguirá enrolando Flávio, e Flávio seguirá fingindo que não vê.

 

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