O Globo
A campanha do governador de São Paulo empurra
com a barriga as agendas públicas com o presidenciável
Flávio Bolsonaro está num “relacionamento
tóxico” com Tarcísio de Freitas. O candidato a presidente pelo PL depende do
governador de São Paulo para ampliar sua margem de votos no maior colégio
eleitoral do país e compensar, pelo menos em parte, a liderança de Lula no
Nordeste. Tarcísio, no entanto, faz ghosting nas tentativas de encontros
públicos com Flávio. E faz de caso pensado.
As chances de Flávio na eleição presidencial passam por uma margem de votos favorável no Sudeste. Em 2022, Jair Bolsonaro levou quase 4 milhões de votos a mais que Lula em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dois estados, no entanto, Bolsonaro filho está hoje empatado com Lula. Precisa de uma mãozinha local e, para isso, aposta no conservadorismo do interior paulista e na máquina que está nas mãos do governador. Os caminhos levam a Tarcísio. Mas, como se diz por aí, o governador faz a egípcia.
Na Quaest divulgada nesta terça-feira,
Tarcísio lidera a disputa em São Paulo, com 40% das intenções de voto ante 27%
de Fernando Haddad, que corre o risco de não ir para o segundo turno. Flávio
tem 30% das intenções de voto para presidente no estado, menos que os 40% de
Tarcísio para governador.
O mergulho nas pesquisas mostra que Tarcísio
furou, ainda que de maneira tímida, a polarização. Segundo a Quaest, 22% dos
eleitores que se consideram lulistas ou de esquerda dizem que votarão nele
(Haddad tem apenas 6% dos que se consideram bolsonaristas ou de direita). É o
voto “Tarula”, em Tarcísio para governador e em Lula para presidente — espécie
de dobradinha improvável que ocorreu noutros momentos, como o “Lulécio” (Lula e
Aécio) em 2006.
Portanto, Tarcísio avança mais que Flávio num
terreno que não é dominado pelos dois e que, a depender do movimento, pode
custar votos. Além de parte da esquerda, Tarcísio tem maior intenção de votos
que Flávio entre os independentes. Em São Paulo, 27% deles o apoiam no primeiro
turno, percentual que chega a 35% no segundo. No caso de Flávio, apenas um em
cada dez independentes em São Paulo está com ele.
Hoje, Tarcísio tem mais a perder que a ganhar
ao apoiar Flávio no primeiro turno. Por isso, a campanha do governador empurra
com a barriga as agendas públicas com o presidenciável, dizendo que o
relacionamento com Flávio será para valer apenas no segundo turno, se Tarcísio
liquidar a fatura já no primeiro. Mas há quem duvide até disso.
Tarcísio já vê Flávio como adversário no
campo da direita na disputa presidencial de 2030. A derrota do presidenciável
em 2026 o tiraria do caminho daqui a quatro anos. Segundo essa lógica, a
mãozinha em São Paulo nunca virá. Ignorar Flávio no segundo turno, no entanto,
é uma ação arriscada para o próprio governador. Tarcísio pode até ter votos que
Flávio não tem na esquerda e entre os independentes — mas sua base eleitoral
ainda é a direita e o bolsonarismo. A marca de traidor pode fragilizá-lo
justamente onde ele fincou seu pilar eleitoral. Para obter a bênção do clã em
2030, terá de entregar algum serviço agora, torcendo para que não dê certo e
para que Flávio fique mesmo pelo caminho.
Assim, Tarcísio seguirá enrolando Flávio, e
Flávio seguirá fingindo que não vê.

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