Folha de S. Paulo
Emergência brutal do crime organizado assume
proporções de mudança social disruptiva
Falta ao pensamento progressista atual
capacidade de perceber tamanho da ameaça ao equilíbrio social
Transparece no noticiário um crescimento da violência urbana em estados governados pelo PT. Mas inferências generalizantes por números de ocorrências ainda fornecem uma imagem desfocada da criminalidade vivida em todo o país. É sem dúvida insuportável a proliferação dos assaltos armados, balas perdidas, até drones explosivos nas metrópoles brasileiras. Entretanto, apenas estatísticas de mortes violentas não caracterizam insegurança maior numa região. Organizado, o crime altera o paradigma de abordagem do fenômeno.
O foco tradicional incide sobre o modelo de
confronto entre Estado e facções criminosas, adequado a países da centralidade
capitalista, com forte sociedade civil e corrupção controlada. Para nações
periféricas, porém, vale evocar o conceito de Estado ampliado, em que Gramsci
faz a crítica da identificação do Estado apenas com seus aparelhos coercitivos
(governo, Forças Armadas, polícia e tribunais). E amplia com sociedade civil,
que engloba as instituições (escolas, igrejas, mídia etc.) responsáveis pelo consenso
de ideias, valores e crenças.
Acontece que esse modelo de Estado ampliado,
sustentado pela hegemonia do bloco dirigente, pode se fragilizar devido a
crises de confiança no pacto consensual entre povo e poder estatal. A descrença
nas políticas públicas e o aumento desmesurado dos índices criminais são
alarmantes. O anseio de paz e proteção desperta pulsões vingativas de segurança
por repressão ilimitada ou matanças. Vale então ponderar o conceito de reversão
(Jean Baudrillard, em "A Troca Simbólica e a Morte"), segundo o qual
todo sistema que se expande sem limites tende a produzir um movimento
contrário, que o desestabiliza. O excesso de segurança produziria maior
insegurança.
É o caso da hipersegurança armada. Jamais
funcionou nas potências, muito menos na periferia do grande capital, em que o
povo sempre foi matéria-prima (com escasso valor agregado) de exploração do
Estado e, agora, refém do crime. A visão extremista para o problema, em chavões
como "bandido bom é bandido morto", só comprova a inanidade
institucional da sociedade civil. Hoje, afim ao pretexto trumpista para construção do
"escudo das Américas", versão armada da internacional direitista.
Na época de Gramsci, o Estado não enfrentava
a crise de uma sociedade civil drogada pelo consumo de química e mídia nem
atravessada pelo acidente histórico de uma criminalidade cuja intensidade
corruptiva faz colapsar o equilíbrio institucional da ampliação
Estado/sociedade civil. Uma crise incrementada pelo custo adicional da economia
criminosa para o mercado formal.
O pensamento progressista atual não apreende
o risco representado pela ruptura do equilíbrio social. Ao afetar qualitativamente
o sistema, o acidente da emergência brutal do crime
organizado assume proporções de mudança social disruptiva,
despercebida pelos anacrônicos quadros cognitivos das militâncias, aquém da era
digital.
Entre nós, essa emergência permeia
instituições, empresas e altos poderes, em tal escala que Estado coercitivo e
sociedade civil se tornam, eles próprios, criminogênicos. Ou seja, chegou-se à
metástase social do crime. Daí o embaraço da classe política, parte do
problema, com a questão. Daí a urgência de um magno pacto nacional de reajuste
da ação social.

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